Iracema

José de Alencar · Capítulo 11 de 37

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Iracema

Capítulo IX

O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha.

Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do ancião, e abalou o corpo decrepito.

—Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo.

O velho ficou immovel:

—O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu para o Pagé, fale; seu ouvido escuta.

—O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte.

—O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus.

Vieram Cauby e Iracema:

—Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da sua caça.

—O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os olhos de seu pae gostam de vêl-o.

O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo:

—Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e prepara o moquem da viagem. Se o extrangeiro precisa de guia, o guerreiro Cauby, senhor do caminho, o acompanhará.

O somno voltou aos olhos do Pagé.

Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro do urú de palha trançada.

Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle:

—Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede tambem. Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema.

—A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.

Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza.

O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o irmão de Iracema tornou da grande taba.

—O dia vae ficar triste, disse Cauby. A sombra já caminha para a noite. É tempo de partir.

A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken.

—Elle vae! murmuraram os labios tremulos.

O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle e o mancebo trocaram a fumaça da despedida:

—Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken.

O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou:

—Jurupary se esconda para deixar passar o hospede do Pagé.

Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a partir.

Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz d'elle Iracema.

Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão, mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava já os preludios da suave endeixa.

A virgem suspirou:

—A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite.

O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos.

Cauby avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem.

O seio da filha de Araken arfou, como o ésto da vaga que se franja de espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um pállido reflexo para illuminar a sêcca flôr das faces. Assim em noite escura vem um fogo fatuo luzir as brancas areias do taboleiro.

—Extrangeiro, toma o ultimo sorriso de Iracema... e foge!

A bôcca do guerreiro pousou na bôcca mimosa da virgem. Ficaram ambas assim unidas como dois fructos gemeos do araçá, que sahiram do seio da mesma flôr.

A voz de Cauby chamou o extrangeiro. Iracema abraçou para não cahir o tronco de uma palmeira.