Iracema

José de Alencar · Capítulo 13 de 37

Páginas do PDF

Iracema

Capítulo XI

Os guerreiros tabajaras, acorridos á taba, esperavam o inimigo deante da caiçara.

Não vindo elles sahiram a buscal-o.

Bateram as matas em tôrno e percorreram os campos; nem vestigios encontraram da passagem dos Pytiguaras; mas o conhecido fremito do buzio das praias tinha resoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não havia duvidar.

Suspeitou Irapuam que fosse um ardil da filha de Araken para salvar o extrangeiro; e caminhou direito á cabana do Pagé. Como trota o guará pela orla da mata, quando vae seguindo o rastro da presa escápula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro.

Araken viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e não se moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava Iracema. A virgem referia os successos da tarde: avistando a figura sinistra de Irapuam saltou sobre o arco, e uniu-se ao flanco do joven guerreiro branco.

Martim a affastou docemente de si, e promoveu o passo.

A protecção, de que o cercava a elle guerreiro a virgem tabajara, o desgostava.

—Araken, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuam veiu buscal-o.

—O hospede é amigo de Tupan; quem offender o extrangeiro ouvirá o rugir do trovão.

—O extrangeiro foi quem offendeu a Tupan, roubando a sua virgem, que guarda os sonhos da jurema.

—Tua bôcca mente como o ronco da jiboia: exclamou Iracema.

Martim disse:

—Irapuam é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes!

O Pagé falou grave e lento:

—Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flôr de seu corpo, ella morrerá; mas o hospede de Tupan é sagrado; ninguem lhe tocará, todos o servirão.

Irapuam bramio; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o fremito da sucury na profundeza do rio.

—A raiva de Irapuam não pode mais ouvir-te, velho Pagé! Caia ella sobre ti, se ousas subtrahir o extrangeiro á vingança dos Tabajaras.

O velho Andira, irmão do Pagé, entrou na cabana; trazia no punho o terrivel tacape e nos olhos uma raiva ainda mais terrivel.

—O morcego vem te chupar o sangue, se é que tens sangue e não mel nas veias, tu que ameaças em sua cabana o velho Pagé.

Araken affastou o irmão:

—Paz e silencio, Andira.

O Pagé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, que se enrista sobre a cauda, para affrontar a victima em face. As rugas affundaram; e repuxando as pelles engelhadas esbugalharam os dentes alvos e afilados:

—Ousa um passo mais, e as iras de Tupan te esmagarão sob o peso d'esta mão sêcca e mirrada!

—N'este momento, Tupan não é comtigo! replicou o chefe.

O Pagé rio; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da ariranha.

—Ouve seu trovão, e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza.

Araken proferindo essa palavra terrivel, avançou até o meio da cabana; alli ergueu a grande pedra e calcou o pé com fôrça no chão: subito, abriu-se a terra. Do antro profundo sahiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.

Irapuam não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz nos olhos, e a voz nos labios.

—O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuam.

O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto mergulhou-se nas sombras do crepusculo.

O Pagé e seu irmão travaram a pratica na porta da cabana.

Martim ainda surprêso do que vira, não tirava os olhos da funda cava, que a planta do velho Pagé abrira no chão da cabana. Um surdo sumor, como o echo das ondas quebrando nas praias, ruidava alli.

O guerreiro christão scismava; elle não podia crêr que o Deus dos Tabajaras desse ao seu sacerdote tamanho poder.

Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o cachimbo e travou do maracá:

—É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão.

Disse e partiu da cabana.

Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos em jubilo:

—O coração de Iracema está como o abaty n'agua do rio. Ninguem fará mal ao guerreiro branco na cabana de Araken.

—Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro com asperesa de voz.

Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos e queixosos da virgem.

—Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos d'ella, como se fôra o verme da terra?

As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu raiva de si, e pena d'ella:

Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro fremente.

—É a voz do Tupan!

—Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!...

Iracema pendeu a fronte abatida:

—Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes terras, é o canto da virgem branca que te chama!

O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem.