Iracema

José de Alencar · Capítulo 24 de 37

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Iracema

Capítulo XXII

Poty saudou o amigo e faltou assim:

—Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação estava na dextra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle que veiu pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu logar; depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome.

Quando suas estrellas eram muitas, e tantas que em seu camocim já não cabiam as castanhas que marcavam o numero, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; seus olhos se escureceram.

Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:—Filho, toma o tacape da nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra, pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o guerreira Jatobá.

Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:—Ah! meus tempos passados!

A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.

Batuireté veiu pelo caminho das garças até áquella serra que tu vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias, conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam á voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.

O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra vontade?

—O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu neto.

Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o curso do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da Pirapora.

A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos coqueiros, nas horas da calma.

Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago.

—Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações.

O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram:

—Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narseja.

O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se moveu.

Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos do mel purissimo.

Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham deixado o Maranguab.

O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva.

Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos.

Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.

Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e tornou com seus companheiros á borda do mar.