Iracema

José de Alencar · Capítulo 31 de 37

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Iracema

Capítulo XXIX

Poty voltou do banho.

Segue na areia o rastro de Coatyabo, e sobe ao alto da Jacarécanga. Ahi encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte com os olhos alongados e os braços estendidos para os largos mares.

Volve o Pytiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem sulcando os verdes mares, impedida pelo vento:

—É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscal-o!

O christão suspirou:

—São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as praias da valente nação pytiguara, para a guerra da vingança: elles foram derrotados com os Tabajaras nas margens do Camocim; agora vem com os seus amigos os Tupinambás pelo caminho do mar.

—Meu irmão é um grande chefe. Que pensa elle que deve fazer seu irmão Poty.

—Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trahiry. Nós iremos ao seu encontro.

Poty accordou a voz da inubia: e os dois guerreiros partiram ambos para o Mocoribe. Pouco alem viram os guerreiros da Jaguarassú e Camoropim que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda do inimigo.

O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata até ás margens do Parnahyba. A lua começava a crescer quando elle deixou as aguas do Mearim; ventos contrarios o tinham arrastado para os altos mares, muito alem do seu destino.

Os guerreiros pytiguaras, para não espantar o inimigo se occultam entre os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar, como vaga lumes perdidos na mata.

Muitos sóes caminharam assim. Passam alem do Camocim, e afinal pisam as lindas ribeiras da enseada dos papagaios.

Poty manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem recolher no seio da terra; e avisa seu irmão.

O sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás seus amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a correnteza do rio.

No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas azas os guerreiros do Mearim que brandem o tacape.

Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro, como a grande nação pytiguara; e Poty é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a inubia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como elle, e sabedor das manhas da raça branca dos cabellos do sol.

Durante a noite os Pytiguaras fincam na praia a forte caiçara de espinho: e levantam contra ella um muro de areia, onde o raio esfria e se apaga. Ahi esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros subam á copa dos mais altos coqueiros; alli defendidos pelas largas palmas, esperam o momento do combate.

A setta de Poty foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o primeiro heroe que mordeu o pó da terra extrangeira. Rugem os trovões na dextra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se na areia, ou se perdem nos ares.

As settas dos pytiguaras, já cahem do céo, já voam da terra, e se embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas flechas, como a presa que as piranhas disputam nas aguas do lago.

Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só, nem dois, podem manejar.

Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas aguas do mar como o veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. Ainda a espuma não se apagára, e já a piroga inimiga se afundou, parecendo que a tragára uma baleia.

Veiu a noite, que trouxe o repouso.

Ao romper d'alva, o maracatim fugia no horisonte para as margens do Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da victoria.

N'essa hora em que o canto guerreiro dos pytiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara n'essa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba.