Iracema

José de Alencar · Capítulo 37 de 37

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Iracema

Carta ao Dr. Jaguaribe

Eis-me de novo, conforme o promettido.

Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois.

Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que convida á doce pratica.

Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das salas.

Sem mais.

Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava iniciativa generosa para melhor situação.

Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você, politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas litterarias, não por menos preço, sim por vocação.

A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema.

É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga que se possa impingir ao pio leitor.

Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a Confederação dos Tamoyos dizer: "as tradições dos indigenas dão materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias."

Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle. Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego ao quarto canto.

Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe confessar o motivo.

Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias antigas.

Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos indigenas, não se encontrava ali.

Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu poema não concluido dos Timbiras, propoz-se a descrever a epopea brazileira.

Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que não é verosimil tivessem no estado da natureza.

Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem.

O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo, como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.

Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu.

Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio.

Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil inspiração?

E sobre esse, logo outro receio.

A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura moderna?

Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas, senhor do caminho, pyguara. A belleza da expressão selvagem em sua traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, coaub, porque essa phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.

Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional?

Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez, embora não corresponda ao pensamento do selvagem.

Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer? Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo escolhido, que emittisse juizo illustrado?

Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e dar-lhe novos rumos.

Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja; ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão cerca de dois mil versos heroicos.

Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para cabocolos."

Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da experiencia in anima prosaico. O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa.

O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848 revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a belleza da mulher.

Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro; precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi Iracema. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as auras cearenses?

Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer tirados da composição das palavras, são de cunho original.

Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos entendidos.

Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos, reliquias autobiographicas.

Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos.

Agosto de 1995.

J. DE ALENCAR.




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