Iracema

José de Alencar · Capítulo 20 de 37

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Iracema

Capítulo XVIII

Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara.

O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre rompe de seu peito cavernoso. O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe.

Eis late o cão selvagem.

Poty solta o grito da alegria:

—O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu.

O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores guerreiros.

Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o coandú os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a pocema, estreita-se o espaço, e a luta se trava face a face.

Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro até ás entranhas.

O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor o inimigo.

Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e fallou assim:

—Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por esta mão, não pela tua.

Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror:

—Iracema matará seu irmão?

—Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua; porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não.

Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro contra os botes do inimigo.

Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre Irapuam.

—Jacaúna é um grande chefe; seu collar de guerra dá tres voltas ao peito. O tabajara pertence ao guerreiro branco.

—A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty.

O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o peito inerme do adversario.

Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço cahio desfallecido.

Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne.

Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha.

O pranto orvalhou seu lindo semblante.

Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou que sua dor núa se banhasse nas lagrimas.