Iracema

José de Alencar · Capítulo 12 de 37

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Iracema

Capítulo X

Na cabana silenciosa medita o velho Pagé.

Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes olhos negros, fitos nos recortes da floresta e rasos de pranto, parece estão n'aquelles olhares longos e tremulos enfiando e desfiando os aljofares das lagrimas, que rorejam as faces.

A ará, pousada no girau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos Tabajaras, Iracema a esqueceu.

Os roseos labios da virgem não se abriram mais para que ella colhesse entre elles a polpa da fructa ou a papa do milho verde; nem a dôce mão a affagára uma só vez, alisando a penugem dourada da cabeça.

Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se voltava para ella, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e amiga, que d'antes tão suave era ao seu coração.

Triste d'ella! A gente tupy a chamava jandaia, porque sempre alegre estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, triste e muda, desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, e sim o feio urutão que sómente sabe gemer.

O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso das eminencias.

A surdina merencoria da tarde, que precede o silencio da noite, começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave nocturna, talvez illudida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estridulo.

O velho ergueu a fronte calva:

—Foi o canto da inhuma que accordou o ouvido de Araken? disse elle admirado.

A virgem estremecêra; já fóra da cabana voltou-se para responder á pergunta do Pagé:

—É o grito de guerra do guerreiro Cauby!

Quando o segundo pio da inhuma resoou, Iracema corria na matta, como a corça perseguida pelo caçador. Só respirou chegando á campina, que recortava o bosque, como um grande lago.

Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquillamente sentado em uma sapopema, olhando o que passava alli. Contra, cem guerreiros tabajaras com Irapuam á frente, formavam arco. O bravo Cauby os affrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes empunhadas na mão robusta:

O chefe exigira a entrega do extrangeiro, e o guia respondera simplesmente:

—Matae Cauby, antes.

A filha do Pagé passara como uma flecha: eil-a deante de Martim oppondo tambem seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuam soltou o bramido da onça atacada na furna.

—Filha do Pagé, disse Cauby em voz baixa. Conduz o extrangeiro á cabana: só Araken pode salval-o.

Iracema voltou-se para o guerreiro branco:

—Vem!

Elle ficou immovel.

—Se tu não vens, disse a virgem, Iracema morrerá comtigo.

Martim ergueu-se; mas longe de seguir á virgem, caminhou direito a Irapuam. A sua espada flammejou no ar.

—Os guerreiros do meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquelle que tu vês não foi o primeiro a provocal-o, é porque seus paes lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira.

O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandio o tacape. Mas os dois campeões mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando fendiam o primeiro golpe, já Cauby e Iracema estavam entre elles.

A filha de Araken debalde rogava ao christão, debalde o cingia em seus braços buscando arrancal-o ao combate. De seu lado Cauby em vão provocava Irapuam para attrahir a si a raiva do chefe.

A um gesto de Irapuam, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o combate proseguiu.

De repente o rouco som da inubia reboou pela matta; os filhos da serra estremeceram reconhecendo o estridulo do buzio guerreiro dos Pytiguaras, senhores das praias, encombradas de coqueiros. O ecco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava já.

Os guerreiros precipitaram-se, levando por deante o chefe. Com o extrangeiro só ficou a filha de Araken.