Iracema

José de Alencar · Capítulo 27 de 37

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Iracema

Capítulo XXV

A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a amarellecer.

Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava cançada.

O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de somno e repouso.

A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu coração resonava.

Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se estenderem pela immensidade dos mares.

Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio.

Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no horisonte.

Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim saiu-lhe ao encontro:

—A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás, inimigos de tua e minha raça.

—Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu amigo o traidor Tupinambá.

—Quando for tempo teu irmão te dirá.

Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do hymeneo.

Poty, que a viu tão occupada, fallou:

—Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o ninho para sua prole; é o tempo do trabalho.

—Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle.

A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da rocha, sem echo nem rumores.

O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo era maior em sua fronte.

Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana.

Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do mensageiro.

—O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu maior guerreiro.

—Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande chefe:—"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não mentirás.

O mensageiro partiu.

Poty vestiu suas armas, e caminhou para a varzea, guiado pelo passo de Coatyabo. Elle o encontrou muito além, vagando entre os canaviaes que bordam as margens de Jacarehy.

—O branco tapuia, está na Ibyapaba para ajudar os Tabajaras a combater contra Jacaúna. Teu irmão corre a deffender a terra de seus filhos, e a taba onde dormem os camocins de seus paes. Elle saberá vencer depressa para voltar á tua presença.

—Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando troa a inubia da guerra.

—Tu és grande, como o mar e bom como o céo.

Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do nascente.