Iracema

José de Alencar · Capítulo 3 de 37

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Iracema

Capítulo I



Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba:

Verdes mares que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros:

Serenae verdes mares, e alisae docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvalle á flôr das aguas.

Onde vae a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?

Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidÕes do oceano?

Tres entes respiram sobre o fragil lenho que vae singrando veloce, mar em fora:

Um joven guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano: uma creança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermittente traz da praia um écho vibrante, que resôa entre o marulho das vagas:

—Iracema!...

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos prêsos na sombra fugitiva da terra: a espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe sobre o giráu, onde folgam as duas innocentes creaturas, companheiras de seu infortunio.

N'esse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso.

Que deixára elle na terra do exilio?

Uma historia que me contaram nas lindas varzeas onde nasci, á calada da noite, quando a lua passeava no céo argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.

Refresca o vento.

O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desapparece no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga, como o condor, as foscas azas sobre o abysmo.

Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras: e para ti jaspeie a bonança mares de leite.

Em quanto vogas assim á discripção do vento, airoso barco, volva ás brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.