Iracema

José de Alencar · Capítulo 19 de 37

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Iracema

Capítulo XVII

Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:

—A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode falar.

—Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?

Ella pôz os olhos cheios no christão:

—Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro.

—Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae, que te espera.

—Araken já não tem filha.

Martim tornou com gesto rudo e severo:

—Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o extrangeiro ingrato.

A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr, cerra em botão o seio perfumado.

—Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue dorme em seu seio.

Martim estremeceu.

—Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema.

—O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, porque ella trahio o segredo da jurema.

O christão escondeu as faces á luz.

—Deus!... clamou seu labio tremulo.

Permaneceram ambos mudos e quedos.

Afinal disse Poty:

—Os guerreiros tabajaras despertam.

O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que seu irmão quizesse partir.

Foi Iracema quem primeiro falou:

—Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre perigo.

Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a selvagem acoty. A tristeza lhe roia o coração; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe offegava.

Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um abaeté. O chefe pytiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e esperava o momento de morrer defendendo o amigo.

Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos ramos de arvore.

—Esposo de Iracema, tua rêde te espera.

A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem.

Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um murmurio:

—Iracema!

Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.

A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos; os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a festa do amor e o canto do hymeneo.

Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty repercutio no susurro da mata:

—O povo tabajara caminha na floresta!

Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas do esposo, e levou-o atravez da mata.

De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca.

—O que escuta o ouvido do guerreiro Poty?

—Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, rompendo a floresta.

—O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o seguiremos, como suas azas; disse Iracema.

O chefe sacudio de novo a fronte:

—Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram já avançam além como as pontas do arco.

A vergonha mordeu o coração de Martim.

—Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo, que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa.

Martim arripiou o passo.

—A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão só tem uma vida.

O labio de Iracema não fallou: sorrio.