Iracema

José de Alencar · Capítulo 14 de 37

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Iracema

Capítulo XII

O dia ennegreceu; era noite já.

O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em busca do inimigo Pytiguara.

No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava seu labio.

O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios tremulos.

Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, que prepara o mysterio do sagrado rito.

Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo.

Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella:

—Escutou Iracema, cantar a gaivota?

—Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece.

—É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas.

—As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras.

Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de camarão.

Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles haviam tomado para si.

O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, emquanto reflectia:

—O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu hospede!

A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em seu camocim.

Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que replicou:

—O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque ella não falará.

—Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o tigre esfaimado.

Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.

—Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me querem.

Martim ergueu-se e marchou para a porta.

—Onde vae o guerreiro branco?

—Adeante de Poty.

—O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os guerreiros de Irapuam o matarão.

—Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece que o defendam os velhos e as mulheres.

—Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas d'elles voam alto e direitos como o anajê.

—Todo o guerreiro tem seu dia.

—Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer!

Martim ficou perplexo:

—Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as falas do guerreiro amigo.

O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento.

Chamou elle a filha de parte:

—Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde o extrangeiro no seio da terra.

—O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não cantou a inhuma.

Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana.