Iracema

José de Alencar · Capítulo 26 de 37

Páginas do PDF

Iracema

Capítulo XXIV

Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o corpo, á semelhança do pello do coaty de onde procedeu o nome d'essa arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores; e muitos e muitos guerreiros costumaram escrever os emblemas de seus feitos.

O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios.

Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse:

—Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n'alma dos povos.

No braço um gavião:

—Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro sobre o inimigo.

No pé esquerdo a raiz do coqueiro.

—Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme do guerreiro sustenta seu corpo.

No pé direito pintou uma aza:

—Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não tem igual na corrida.

Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre: sua voz resoou entre sorrisos:

—Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do mais valente guerreiro.

Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa,

—Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa de um nome na lingua de sua nação.

—O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão.

—Coatiyabo! exclamou Iracema.

—Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do amigo.

Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos dos chefes illustres.

A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria, resoavam as canções.

Poty cantava:

—Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade de Coatyabo e Poty.

Acudiu Iracema.

—Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é Iracema junto a seu esposo.

Os guerreiros disseram:

—Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua sombra protege a relva humilde.

Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o festim dos guerreiros.