Julião e a Bíblia
CAPITULO IX Novos acontecimentos
CAPITULO IX
Novos acontecimentos
Logo que chegaram a casa, João, dirigindo-se a sua filha, disse-lhe.
—Vês como não me enganei? Vês como a mão do padre andava metida neste negocio?
—O que se passou?—perguntou Antonia a seu pae, deixando o livro que estava lendo.
O carpinteiro contou a sua filha tudo o que tinha sucedido, e ao terminar disse:
—Se tua mãe não tomar emenda com isto, digo-te que não tem juizo. Com relação ao padre, vamos chamal-o á presença da autoridade.
—Meu pae—disse Antonia,—grande é o poder de Deus, e, como Ele disse, a mentira não pode permanecer. A respeito de fazer mal ao padre Francisco, creio que Julião não permitirá isso, pois Jesus perdoou na cruz e orou mesmo pelos Seus proprios algozes, e Ele mesmo disse: «Abençoae aqueles que vos amaldiçoam; e orae por aqueles que vos caluniam.
Dito isto, saiu mestre João.
Brigida permaneceu calada, e Antonia deu razão ao que seu pae acabára de dizer, exprimindo-se assim:
—Sim, minha mãe não seja insensata, procurando a salvação por um outro caminho, que certamente a conduzirá á perdição. Como pôde escutar, sem se exaltar, a voz que lhe disse: «Sua filha é uma ladra»?
—Ai! minha filha! Eu nunca cri nisso, porém já vês que me faltava o dinheiro, faltavam-me os brincos, e já podes calcular que desconfiava de que alguem nos tivesse roubado. Porém tu me perdoarás, não é verdade?
—Como!—exclamou Antonia—eu perdoar-lhe! Demos graças a Deus e peçamos-Lhe que, do que acaba de suceder, resulte um grande beneficio para a sua alma.
Entremos agora em casa de Julião.
Deve ter ali sucedido alguma coisa de extraordinario, e, para nos inteirarmos do que se está passando, escutemos o que mestre João diz ao seu visinho:
—Mas o que ha?—perguntava João ao seu visinho.
—Que minha mãe tem uma pneumonia.
—Porém que diz o medico?
—Diz que por emquanto não pode emitir opinião segura: porém disse-me que estivesse preparado para tudo.
—Não faça caso; os medicos dizem sempre isso.
—Cumpra-se a vontade de Deus.
Depois dalguns momentos de silencio, o carpinteiro disse:
—Não sabe o que sucedeu?
—O que foi?
João contou a Julião tudo o que havia sucedido, e tudo o que dele se havia dito.
Quando Julião ouviu que o visinho tratava de levar o assunto aos tribunaes, respondeu:
—De modo nenhum, sr. João. Jesus, meu Mestre, jámais fez tal coisa; ao contrario, em vez disso, manda que eu peça por aqueles que me caluniam e dizem mal de mim. O P. Francisco poderá lançar mão de tudo para fazer-me mal, mas se Deus está comigo quem será contra mim?
—Foi isso mesmo o que disse Antonia; porém isso não é para o meu caracter; pela minha parte, o meu desejo e a minha vontade eram castigar o P. Francisco.
—Diga-me, sr. João: sabe o Padre Nosso?
—Sim, senhor.
—E costuma rezal-o?
—Pelo menos todos os domingos na egreja.
—Pois no proximo domingo não o reze; pois que, quando chegar áquelas palavras, «Perdôa-nos as nossas dividas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores», pedirá a Deus, a quem vocemecê é devedor, que lhe perdoe como está disposto a fazer ao P. Francisco. Jesus disse: «Mas, se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tão pouco o vosso Pae vos perdoará as vossas».
—O visinho tem sempre maneira de me convencer.
—Não, meu amigo, a palavra de Deus é que o convence.
—Agora vou pedir-lhe um favor, e é que me permita que eu ponha á sua disposição tudo o que houver em minha casa e de que sua mãe precise.
—Muito obrigado, em breve nós o incomodaremos. Todavia ainda não chegou a ocasião de incomodar ninguem, a não ser o ministro da nossa egreja, a quem já mandámos chamar.
—Como! Tão perigosa está sua mãe!
—Não, senhor; porém não devo aguardar que ela esteja nos paroxismos da morte para que lhe falem de Jesus, seu Salvador.
João saiu, e Julião fechou a loja.
Assim que o carpinteiro contou em sua casa o que se estava passando em casa do visinho, Antonia, que se ia deitar, mostrou desejos de ir a casa de Dôres, e, como não houvesse ninguem que podesse dissuadil-a de tal, pois que ainda não era de todo bom o seu estado de saude, ela e seus paes, depois de fechada a loja, foram visitar Josefa.
Quando iam a entrar, chegava tambem um sujeito que batia á porta.
Julião foi abrir, e, ao ver esse sujeito, tirou o bonet, que costumava trazer em casa, e saudou-o respeitosamente, dizendo-lhe:
—Boas noites, sr. ministro.—E em seguida aos seus visinhos:— Boas noites, senhores.
Entraram todos, e chegados á sala, depois de trocados os primeiros cumprimentos, o ministro, dirigindo-se a Julião, disse-lhe:
—Então que ha, amigo Julião?
—Minha mãe tem uma pneumonia, e desde que caiu doente não cessa de chamar pelo senhor.
—E posso vêl-a?
—Sim, senhor; tenha a bondade de entrar na alcova.
Entraram todos.
O ministro, chegando-se junto do leito e inclinando-se um pouco para a doente, disse em voz baixa:
—«A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja comsigo, irmã.»
—Ah! é o sr. ministro?—exclamou a enferma, procurando erguer a cabeça.
—Sim, sou eu, porém esteja quietinha. Como está?
—Muito mal e muito bem.
—Vejamos; queira explicar-se.
—Senhor ministro; sinto-me bem, porque creio que muito em breve irei ver o meu Jesus, e sinto-me mal, porque sofro muitissimo no corpo.
Seguiram-se alguns momentos de silencio, findos os quaes disse o ministro:
—Diga-me, querida irmã, se o Senhor a chamasse á Sua presença neste momento, estaria preparada para se apresentar diante d’Ele?
—Oh! sim, senhor. Eu sou uma grande pecadora, porém sei que o sangue de Jesus purifica de todo o pecado. Uma coisa me aflige, sr. ministro, e é o saber que tenho sido ingrata desprezando o amor e a graça de Deus.
—Senhora, o perdão de Deus não tem limites, e Jesus morreu no Calvario, dando a Sua vida pelos proprios ingratos. Agora o que é preciso é que confie no que Ele disse: «Não temas; crê sómente, e serás salva».
—Assim o faço, senhor.
—Pois então esteja certa de que aquilo que agora sofre não é mais do que a preparação para uma coisa melhor.
—Assim o creio; morrer é viver, porque é passar para uma outra vida em que não haverá mais morte.
—Se é do seu agrado, vou ler-lhe alguns versiculos da Palavra de Deus.
—Sim, sim.
O ministro tirou do bolso uma Biblia, e, folheando-a, disse.
—Leiamos o cap. 11 do Evangelho segundo S. João, desde o versiculo 1 até ao 45.
Todos estavam suspensos dos labios do bom servo de Deus.
As cinco pessoas que estavam presentes pareciam nem sequer respirar. A enferma, essa parecia não sentir as dores que a torturavam; seguia até o movimento dos labios do ministro.
Era evidente que o Espirito Santo estava naquela alma.
O ministro, quando acabou de ler, disse:
—Meus amigos, e minha irmã enferma, pouco posso acrescentar áquilo que acabei de ler; sómente desejo que fixem a sua atenção, e especialmente a querida irmã Josefa, nos versiculos 4 e 25; em que Jesus diz: «Esta enfermidade não é para morte, mas para gloria de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.» «Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.» A estas palavras, o Senhor ressuscitou a Lazaro, precisamente porque Jesus é a ressurreição e a vida. Nós estavamos mortos em nossos delitos e pecados, porém veiu Jesus, que é a vida, e cada um que crê n’Ele é um Lazaro levantado do sepulcro. Por essa mesma razão S. Paulo exclama: «Onde está, ó morte, o teu aguilhão?... Graças sejam dadas a Deus, que nos deu a vitoria por Nosso Senhor Jesus Cristo.»
—Ah!—exclamou a senhora Josefa—quanto bem derramou o senhor, com essas palavras, na minha alma!
—Então demos graças a Deus.
Todos tomaram uma atitude reverente, e, ao cabo dalguns segundos, ouviu-se a voz do ministro, que dizia:
«Oh! Senhor, nosso Deus! Tu dás a saude, e Tu dás a enfermidade. Tu dás a morte, porém tambem depois da morte uma vida que nunca acabará. Senhor, acabamos de escutar as palavras consoladoras de Teu Filho Jesus; concede, Senhor, que elas dêem consolação á tua serva que está doente. Sara-a, Senhor, abençôa-a, aumenta a sua fé em Jesus, e o amor para comtigo, e, se fôr do Teu agrado chamal-a a Ti, prepara-a para isso. Ouve-nos, Senhor, pelo amor de Jesus Cristo, Amen.
Amen—repetiram todos.
A enferma começou a delirar, em virtude da intensidade da febre.
Neste momento, Julião, inclinando-se para sua mãe, perguntou-lhe:
—Como está, minha mãe?
—Dentro em pouco não haverá para mim nem dôr, nem aflição, nem morte... Tudo estará acabado... e eu com Jesus no céu, e Jesus comigo...
—Não falem com ela—disse o ministro;—está sob o dominio da febre.
Fez-se um profundo silencio, e depois ouviu-se a enferma, que com voz debil dizia:
—Vejo um logar magnifico... ali ha um Cordeiro... vêdel-o? vêdel-o? É o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
A enferma, depois duma breve pausa, exclamou:
—Tenho sêde.
Dôres embebeu uma pequena esponja num liquido que tinha num copo, e chegou-lha aos labios, chupando ela com avidez.
Seguiu-se outra pausa; o delirio aumentava, e tornou a ouvir-se a voz da enferma:
—«A Jehovah chamei, estando em angustia, e Ele me respondeu...» «Jehovah, ouve a minha oração e chegue o meu clamor á Tua presença...» «No dia da minha angustia Te chamarei, porque Tu me respondes...» «Porque a minha alma está cheia de males... e a minha existencia... proxima do sepulcro...» «Agora, pois... nenhuma condenação ha... para os que estão em Cristo Jesus.»
—Feliz delirio—exclamou Julião em voz baixa;—ele te faz gozar antecipadamente da presença de Jesus, teu bemdito Salvador!
Dôres e Antonia choravam em silencio.
—Senhor!—disse com voz debil a enferma, dirigindo-se ao ministro:—Sinto que morro.
—Bemaventurados—disse o ministro—os que morrem no Senhor.
—Eu sou uma grande pecadora.
—Pois precisamente porque todos somos grandes pecadores é que morremos... O estipendio do pecado é a morte... Porém o bom Deus, que não quer a morte do pecador, mas sim que ele se arrependa e viva, eis que á raiz do pecado promete um perdão, dizendo: «Se o Meu povo se humilhar, e orar e procurar o Meu rosto, e se converter dos seus maus caminhos, então Eu o ouvirei desde os céus e perdoarei os seus pecados.» «Se os vossos pecados fôrem da côr da escarlata, ficarão brancos como a neve; se fôrem roxos como o carmezim, ficarão como a branca lã.»
—Eu tenho sido muito pecadora—disse Josefa, profundamente comovida.
—Jesus Cristo—continuou o ministro—veiu salvar os pecadores. Ele mesmo disse: «Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
Vou ler o capitulo 5 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.
O ministro leu-o, e tal impressão produziu, tanto nos circunstantes como na enferma, que era profundissimo o silencio que reinava ali.
Evidentemente o Espirito do Senhor estava ali. Os textos que mais chamaram a atenção de Josefa foram: «Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por meio de Jesus Cristo, porque, sendo ainda pecadores, morreu Cristo por nós; logo muito mais agora, que somos justificados pelo Seu sangue, seremos salvos por Ele da ira; porque, se, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando reconciliados, seremos salvos por Sua vida.»
—Oh!—exclamou a enferma—confio em Ti, bom Jesus, confio em Ti. Tu me salvas, Tu me redimiste para Deus com o Teu sangue.
—Deseja que oremos?—perguntou o ministro.
—Sim, sim, senhor, oremos.
O ministro levantou-se da cadeira, no que foi imitado pelas pessoas presentes, ficando os visinhos bastante surpreendidos, por ser a primeira vez que presenciavam semelhante coisa.
—Oh Senhor!—exclamou o ministro com voz solene.—Perante um espirito prestes a abandonar a materia, perante um corpo que vae descançar, porém cuja alma vae viver, não podemos deixar de louvar e bemdizer o Teu nome. Senhor, ainda que Tu não tenhas necessidade disso, nós vamos recordar-Te as Tuas promessas, pois que nisso encontramos grande consolação. Tu enviaste Jesus Cristo ao mundo, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna. Oh bom Deus, cumpre esta promessa na pessoa enferma por quem Te suplicamos. Teu Filho Jesus disse: «Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá». Senhor, infunde a fé de Jesus Cristo na enferma por quem Te rogamos. Tu prometeste arremessar para as profundidades do mar os pecados daqueles que confiam em Jesus; que isto seja assim para comnosco, e em especial para com a nossa irmã enferma. Dá-lhe fé, para que ela tenha animo para o tranze por que está passando; saude, se lhe convem, e sobretudo uma abundante efusão do Teu Santo Espirito. Oh! Deus, pelos merecimentos de Jesus, concede-nos isto... Amen.
—Amen—repetiram todas as pessoas ali presentes, verdadeiramente impressionadas.
—Senhor—exclamou Josefa, em voz fraca,—tenho a certeza de que Jesus está á cabeceira do meu leito, com os braços abertos, aguardando a minha alma.
—Sim, minha irmã—disse o ministro.—Jesus está aguardando-a para a conduzir á presença de Seu Pae, para receber a corôa de justiça que Ele adquiriu para si por meio do Seu sangue. Não esqueça que Jesus disse: «Não vos hei de deixar orfãos; virei ter comvosco. Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.»
E, tendo dito isto, fez sinal de se retirar.
—Vá com Deus, senhor ministro—disse Josefa, procurando erguer a cabeça:—que o Senhor o abençôe, assim como a sua congregação; se quando voltar já tudo tiver acabado para mim..., recomendo-lhe meus filhos...
Josefa não poude continuar. Um ataque de tosse não lhe permitiu falar, e, quando socegou, o ministro, depois de dirigir algumas palavras de consolação á familia, saiu.
Depois dalguns momentos de silencio, Josefa chamou.
—Que deseja, minha mãe?—perguntou Julião.
—Traze-me cá o menino—respondeu ela com voz quasi ininteligivel;—quero dar-lhe o ultimo beijo.
—Minha mãe, socegue. Para que afligir-se se todavia...
—Não, meu filho, esta lampada vae apagar-se; não trateis de infundir-me esperanças. Para que quero viver, se Jesus me espera?... Trazei-me o meu neto.
Dôres entrou na alcova, levando nos braços o menino adormecido.
Ajudaram a levantar a enferma, que ficou por alguns momentos encostada a umas travesseiras, e tomou o menino nos braços.
Extraordinario contraste! A vida nos braços da morte!
—Está a dormir—disse Dôres.
—Não importa—respondeu Josefa;—traze-me... traze-me cá uma luz, quero vêl-o bem á vontade... a lamparina não dá bastante luz.
Uma das pessoas presentes foi buscar um candieiro.
A enferma ficou durante alguns momentos contemplando o menino.
—Oh!—exclamou—assim devia dormir Jesus quando era menino... Desejaria vêl-o acordado, e que se risse para mim. É tão doce o sorriso duma creança!
Naquele instante o menino abriu os olhinhos, cujas finissimas palpebras haviam sido feridas pela forte luz do candieiro.
O pequeno Paulo olhou para um lado e para outro e começou a sorrir-se.
—Oh!—exclamou Josefa.—Que bom é Deus, que me concede até as consolações dos pequeninos!
Em seguida beijou Paulo, dizendo:
—Senhor, abençôa este menino e prepara-o para o Teu serviço por meio de Jesus.
Tornou a beijal-o e entregou-o a Dôres.
Ás quatro horas da manhã a febre havia desaparecido.
A enferma, mais aliviada, chamou seus filhos, que entraram na alcôva.
—Chamo-vos—disse ela—porque vou para a minha morada.
Julião e Dôres choravam em silencio.
—Porque choraes?—perguntou ela.—Vou viver com Jesus, e ali vos espero. Podereis desejar-me coisa melhor do que esta?
—Minha mãe—disse Julião,—minha querida mãe, nós amamol-a tanto que não podemos deixar de sentir a sua falta.
—Não tendes nada que sentir... Escutae os meus ultimos conselhos.
A enferma tinha entre as suas mãos as mãos de seus dois filhos.
Depois duma curta pausa, Josefa falou assim:
—Meus queridos filhos, lembrae-vos de mim... Sêde fieis á fé do bom Jesus, para que vejaes vir a morte com a mais completa tranquilidade. Educae o vosso filho no amor de Deus... Ah!... todo o carinho que me tendes a mim transferi-o para ele... Amae-vos muito, muito, muito. Orae ao Senhor, e agora recebei a minha benção.
Julião e sua mulher ajoelharam-se, e a velha, voltando-se, ainda que com custo, para o lado em que eles estavam, estendeu a mão sobre a cabeça deles e disse:
—Senhor, por amor de Jesus, rogo-Te que abenções meus filhos. Que o amor de Deus, a graça de Jesus Cristo e a comunicação do Espirito Santo seja comvosco. Amen. A morte começa a vir... já a sinto. Sim, sim, minha amiga, vem, vem, aproxima-me de Jesus... Dizem que a morte é horrivel... Oh! não! Quão bela me parece!
Todos choravam.
A moribunda prosseguiu:
—Não choreis, mas alegrae-vos... Julião, meu filho, não te aflijas... Hoje é domingo: no domingo vou para o céu; oh! que domingo mais ditoso vou passar ao lado de Jesus!... Quando tinha saude, reunia-me com os irmãos na egreja... Hoje me reunirei com os anjos e santos no céu... Ouvi o meu ultimo desejo... Quando pela manhã vier o ministro, rodeae o meu corpo e fazei aqui um pequeno culto. Agora dae-me um beijo.
Julião e sua mulher beijaram a enferma.
Depois, com as mãos de seus filhos entre as suas, disse:
—Já está aqui; vejo a Jesus, que estende para mim os Seus braços... Vou para Ti, doce esposo da minha alma. Adeus, amigos... Adeus, Dôres... Adeus, meu filho... Jesus... rece...be... meu espiri...to...
A enferma, que havia erguido a cabeça, pousou-a de repente sobre a travesseira.
Um grito unanime ressoou na habitação.
—Adeus, minha mãe—exclamou Julião com o coração partido de dôr.—Adeus, minha querida mãe. Goza em paz o descanço eterno... O Senhor o deu, o Senhor o tirou... bemdito seja o nome do Senhor.