Julião e a Bíblia
CAPITULO VII A visita
CAPITULO VII
A visita
Retrocedamos e voltemos a encontrar Dôres no momento de entrar em sua casa, depois da visita que fez á sua amiga.
Julião e sua mãe, apenas a viram, perguntaram-lhe como estava Antonia, e, ao saberem que ia melhor, Julião exclamou:
—«A oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará.»
—Deus é fiel—acrescentou a sr.ª Josefa.
Dôres contou a seu marido a conversa que tivera com Antonia, e o encargo que ela lhe fez dos brincos.
Á hora do costume Julião fechou a porta da loja, e, munindo-se da sua Biblia, saiu, acompanhado de sua mãe e Dôres, em direcção da casa de mestre João. Bateram de mansinho á porta, que João veiu abrir.
—Entrem para a oficina. Antonia está dormindo, e o medico, bastante surpreendido, disse que isto era um bom sinal.
Na carpinteria estavam a senhora Brigida, a tia de Antonia e mais tres mulheres.
—Boas noites—disseram ao entrar.
—Boas noites—responderam com certa reserva as pessoas que ali estavam.
—Então Antonia está dormindo? Oh! isso é um bom sinal.
—E diga-me, sr.ª Brigida, se sua filha chegar a ter saude, a quem atribue essa graça?
—Eu atribuo-a ao bemaventurado Santo Antonio, que jámais me negou o que eu lhe tenho pedido.
—Permite-me, querida Brigida—interrompeu mestre João—que te diga que o tal Santo Antonio não te ouviu na ocasião presente. Eu já dantes estava certo, porém agora estou certissimo, de que Santo Antonio não te ouviu, nem te ouve, nem jámais te ouvirá, ainda que o chames com uma buzina.
—Certamente que, tendo um marido tão pouco devoto como tu, ainda que chame por todos os santos da côrte celestial, nenhum me ouvirá.
—Com que então eu sou um impio! E como o sabes tu? O que me pésa no coração não é o ter-me oposto a que Antonia se confessasse, mas sim ter sido tão fraco que permitisse que o padre Francisco a tenha confessado. Tendel-o entendido? Demais, agora creio-me menos impio do que antes, porque, em logar de não pensar nada em Deus, agora penso alguma coisa.
—Senhores—interrompeu Julião,—se me permitem, direi algumas palavras, as quaes, com o auxilio de Deus, nos serão muito uteis para esclarecer esta questão.
—Senhor Julião—disse Brigida,—todos sabemos as doutrinas que professa; eu sei o que creio, e nada me desviará dessa crença.
—Muito bem, senhora Brigida—respondeu Julião,—porém permita-me uma pergunta? Em que crê?
—Eu creio no que diz a Egreja.
—E que diz a Egreja?
—A Egreja diz... diz... diz o que diz; eu bem sei o que diz.
—Mulher—interrompeu o carpinteiro,—com essas razões ficamos inteirados.
—Diga-me, sr.ª Brigida—esclamou Julião,—que conseguiu Antonia com a confissão que fez ao P.ᵉ Francisco?
—Muito—respondeu a mulher do carpinteiro,—pois se daquela ocasião tivesse morrido certamente que se salvava.
—Isso não é certo, pois que a confissão não salva ninguem, porém, apezar de tudo, diga-me: quantas coisas são necessarias para fazer uma boa confissão?
—Sim, senhor, são cinco; Catecismo do Padre Ripalda sobre a penitencia, (pag. 54) exame de consciencia, dôr do coração...
—Ouve—interrompeu o marido,—eis ahi o que não tinha nossa filha; o que ela tinha era uma forte dôr de cabeça.
—Cala-te e não digas loucuras... dôr de coração, proposito de emenda, dizer os pecados ao confessor e cumprir a penitencia.
—Muito bem, e crê que sua filha, hontem de tarde, atormentada pelas dôres da doença, estava nas disposições de ter esses requisitos, sem os quaes, segundo a Egreja romana, não se pode fazer uma confissão capaz de obter o perdão dos pecados? Vejamos: Antonia, em consequencia do ataque cerebral, sofrendo da cabeça horrivelmente, vae confessar-se; preparam-na de antemão para isso! dizem-lhe que o confessor irá dali a uma hora, e que é preciso fazer exame de consciencia; nada menos do que passar em revista tudo o que disse e fez desde a ultima vez que se confessou. Dali a uma hora vem o confessor, e a joven, que não pode sequer abrir os olhos, e a quem o menor ruido incomoda, tem que ouvir e responder ás perguntas que ele lhe faz; isto se ela pode falar, pois que do contrario o confessor pega-lhe na mão e começa a confessal-a pelos dedos. Depois disto, que não é pouco, vem a penitencia, que geralmente consiste em rezar tantos Padre Nossos, tantas Avé Marias, tantas Salvé-Rainhas, tantos Credos, etc. Suponhamos agora que o penitente tem dôr do coração e muito proposito de emenda; porém terá forças para cumprir a penitencia e fazer exame de consciencia? Mas isto ainda não é tudo; dali a uma hora vem o Santissimo, que muitas vezes é administrado ao enfermo no periodo agudo da doença, e estão tão convencidos de que é dificil ao doente o tomar a particula que a todo o doente que a recebe pergunta o sacerdote: Já passou? Por consequencia, sr.ª Brigida, são estas as boas disposições para a gente se salvar?
A mãe de Antonia calou-se, e algumas mulheres, e com elas o sr. João, disseram maquinalmente:
—Tem razão.
Julião conheceu que estava senhor da situação, e, levado dum grande zelo em anunciar o Evangelho, continuou desta maneira:
—A um enfermo não se deve falar senão de Jesus; na Palavra de Deus encontram-se frases tão consoladoras como estas: «O sangue de Jesus-Cristo nos purifica de todo o pecado». «Ainda que ande nos vales da sombra da morte, não temerei mal algum». «Na verdade, na verdade, vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna». «Eu, diz Jesus, sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá». Estas palavras necessariamente comoverão o enfermo e o farão exclamar:—E quem és tu?—E então o Filho de Deus responde ao enfermo: «Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas». «Eu sou Jesus». E «todo aquele que vem a mim, não o lançarei fóra»...
Quando Julião acabou de falar, fez-se um silencio profundo. Por fim, uma das mulheres disse:
—Sabe que gostei muito do que acaba de dizer, e que nunca ouvi falar assim?
—Parece que o que dizes tem visos de verdade—acrescentou a irmã de mestre João.
—Senhora—disse Julião,—as palavras do Evangelho são verdadeiras; porém, tornando á nossa questão, repito: Crêem que a confissão, feita da maneira por que a Egreja a preceitúa, salva?
—Se não salva—respondeu Brigida,—temos feito tudo o que podemos para que assim seja.
—Porém, amiga, é um deploravel erro crêr que a confissão feita ao ouvido dum sacerdote pode abrir as portas do céu. Na Biblia Sagrada não ha uma só palavra ácerca da confissão secreta; nem tão pouco os apostolos a praticaram. Mas, apezar de tudo, a sua filha ficou mais tranquila, depois que se confessou?
—Não, senhor—apressou-se a dizer mestre João.
—Desejou ver outra vez o seu confessor?
—Não, senhor; opõe-se tenazmente a isso—respondeu ainda o carpinteiro.
—Opõe-se a isso—disse Brigida—porque não falta quem lhe meta na cabeça idéas corrompidas.
—Senhora Brigida—exclamou Julião—se diz isso referindo-se a minha esposa, eu lhe asseguro que Dôres não disse a Antonia palavra alguma má. Estou certo de que não lhe falou senão de Jesus, seu Salvador.
—Pois eu não sei outra coisa mais senão que minha filha não quer ver o P.ᵉ Francisco, e ela terá as suas razões.
Neste momento a mulher que velava por Antonia entrou na oficina para dizer que Antonia tinha acordado e que chamava. Suspendeu-se, pois, a conversação, e todos se dirigiram para a sala, entrando Brigida tão sómente na alcova.
Brigida aproximou-se do leito de sua filha e perguntou-lhe:
—Como estás, minha filha?
—Bastante melhor—respondeu a enferma, que acrescentou:— Dôres não veiu?
—Sim, está ali.
—Pois então que venha.
A mulher do carpinteiro saiu da alcova, e pouco depois todos entraram nela. Trocadas algumas palavras referentes ao estado de Antonia, Julião disse-lhe:
—Antonia, disseram-me que desejava ver-me. Diga-me: em que lhe posso ser util?
—Ah! Julião, desejava vêl-o anciosamente, e agora essa anciedade aumentou.
A enferma calou-se por alguns instantes. Depois, fitando os olhos em Julião, com uma expressão indescritivel, perguntou-lhe:
—Qual é o caminho que conduz ao céu?
Julião vacilou por alguns momentos, comovido pela anciedade daquela pergunta, e por fim disse:
—Vou dizer-lho, querida amiga. Jesus é quem lhe responde: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguem vem ao Pae senão por mim.» Jesus, pois, é o caminho que conduz ao céu?
—Bem... porém que tenho a fazer para seguir esse caminho e entrar no céu?
—O mesmo Jesus o diz: «Não temas; crê sómente, e serás salva».
—Porém crêr, em quê ou em quem?
—«Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus e crêres do teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos serás salva.» «Crê no Senhor Jesus e serás salvo». Isto é o que diz a Santa Palavra.
Julião ficou silencioso, observando o efeito que aqueles textos faziam na enferma. Por fim, Antonia disse:
—Porém não tenho que fazer nada para salvar-me?
—A Palavra do Senhor diz-lhe: «Crê sómente e serás salva», e acrescenta: «Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.»
—Porém, Julião, isso parece-me uma coisa impossivel, porque sou muito pecadora...
—Sim? Pois precisamente por isso póde apropriar a si as palavras de Jesus, que diz: «Não vim a chamar os justos, mas sim os pecadores». Pode por isso considerar que Deus perdoa gratuitamente, mas, se ainda lhe resta alguma duvida, atenda que é o proprio Jesus que vae falar: «O Filho do Homem veiu buscar e salvar o que havia perecido; e todo aquele que vem a mim, não o lançarei fóra».
—Ah! Julião, que doce consolação para a minha alma! Porém parece-me impossivel que Deus me ame dessa maneira.
—Ouça o que diz a Sua Palavra: «De tal maneira Deus amou ao mundo, que lhe deu Seu Filho unigenito, para que todo o que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.»
—Oh! como Deus é bom! Porém, como nenhum dos meus confessores me disse nada dessas coisas, senão que, ao contrario, o P.ᵉ Francisco, apezar da fraqueza em que eu estava, me sobrecarregou com uma penitencia que...
—Os confessores sabem a razão por que calam essas coisas, e a menina tambem algum dia o saberá. Agora o importante é que creia no bom Jesus, e que o aceite como seu Salvador.
Houve outro momento de silencio; ninguem se atreveu a interrompel-o. Por fim, mestre João disse:
—Parece incrivel que os padres não nos ensinem coisas tão boas como as que Julião acaba de dizer-nos.
—Meu pae—disse Antonia,—desejo possuir um livro como o de Julião.
—Sim, minha filha, ámanhã mesmo o terás, se Julião me disser onde se vendem.
—E que lhe parece tudo isto?—perguntou a sr.ª Josefa a Brigida.
—Oh! parece-me que é muito bom—respondeu esta,—porém a mim não ha nada que me arranque ás minhas opiniões.
—Senhores—interrompeu Julião,—creio que incomodamos a enferma, e que devemos retirar-nos.
—Não—replicou vivamente Antonia,—a mim não me incomoda; pelo contrario, não sabe o bem que as suas palavras causaram á minha alma, e a paz que sinto; porém de que modo pedirei perdão ao Senhor para o obter? Sou uma pobre pecadora, que se encontra ás portas da morte.
—Visto que deseja falar, falemos. «Um homem teve dois filhos, e disse o mais moço deles a seu pae: Dá-me a parte da herança que me toca. E passados não muitos dias, depois de ter recebido a herança, partiu para uma terra muito distante, num paiz estranho.» Um pecado nunca vae só; sempre arrasta outro comsigo.
«O joven, ao ver-se em perfeita liberdade, e possuidor de grandes bens, gastou tudo o que seu pae havia ganho. Porém gastou-o em coisas santas? Em esmolas? Não; «dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente.» Bem depressa o joven se viu reduzido á pobreza. Que fazer? Deus enviou áquele paiz uma grande fome, e o joven, só e pobre, teve que sofrer aquela praga até ao ponto de desejar as landes que comiam os porcos que ele guardava. Neste estado, entrando em si, veiu-lhe á imaginação a sua casa e o seu pae. «Quantos jornaleiros—disse ele—ha em casa de meu pae que teem pão em abundancia, e eu aqui pereço á fome!» Desta reflexão nasceu outra em sua alma. Quanto tenho pecado! Que fazer? «Levantar-me-hei, e irei buscar a meu pae, e dir-lhe-hei: Pae, pequei contra o céu e deante de ti: já não sou digno de que me chames teu filho; faze de mim como dum dos teus jornaleiros». Concedeu-lhe o pae o que ele pediu? Não, mil vezes não. O pae vê vir lá ao longe um homem, esfarrapado, coberto de pó. Alguns homens do povo passam junto dele, olham-no de alto a baixo, porém não o conhecem. Ah! os olhos dum pae vêem a uma grande distancia. O ancião reconhece naquele, que parecia um mendigo, seu filho, e corre ao seu encontro, abraça-o, e, quando lhe ouve a confissão que ele faz, reconhece o seu arrependimento, e não diz! «Trazei-lhe uma enxada ou uma pá», mas sim: «Tirae depressa o seu primeiro vestido e vesti-lho, metei-lhe um anel no dedo e uns sapatos nos seus pés; trazei tambem um vitelo bem gordo, e matae-o para comermos e para nos regalarmos.»
—Agora, meus amigos—continuou Julião—apliquemos esta parabola a nós mesmos. Todos temos pecado. Cada um de nós é um filho prodigo, nosso pae é Deus, e perdoar-nos-ha Ele? Sim, certamente, porque «se o estipendio do pecado é a morte, a graça de Deus é a vida perduravel em Cristo Jesus» (Rom. 6: 23). Deste modo se explicam as palavras de Jesus: «Assim vos digo que haverá maior jubilo no céu sobre um pecador que se arrepender do que sobre noventa e nove justos que não hão mister de arrependimento» (Luc. 15: 7). Não crê, querida Antonia, que Deus quer e pode perdoar-lhe desta maneira?
—Oh! dificil é explicar o que sinto; sómente posso dizer que creio de todo o coração que Jesus é meu Salvador e que estou salva.
—Que o Senhor abençoe a sua fé.
Todos se levantaram para se despedirem; Julião e sua familia dirigiram-se para casa.
João e as mulheres ficaram falando, com louvor, de Julião. Brigida sómente repetia:
—Não, não, a mim não ha nada que me arranque das minhas opiniões. Parece verdade, parece...
Pouco tempo depois toda a gente, menos a tia de Antonia, que ficava aquela noite a cuidar dela, se retirou para descançar.