Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 15 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XV Já começa!...

CAPITULO XV

Já começa!...

 

No dia seguinte ao dos acontecimentos referidos no capitulo anterior, os tranzeuntes da Rua dos Embaixadores, ao passarem por certa casa, poderam ler—J , V , C , C —e colocado sobre a porta um papelinho escrito pelo

porteiro da casa, em pessima ortografia, com os seguintes dizeres: «Aluga-se esta loja; o porteiro tem as chaves e dirá as condições».

Sim, Julião tinha deixado a loja por não poder pagar o aluguer, e agora vive na agua-furtada n.º 12, da mesma casa.

Como é costume entre amigos mostrar a casa em que vivem, Julião o faz a todos os que se interessam na sua historia.

Depois de se subirem cento e quinze degraus, chega-se a uma galeria, ou, melhor, a um corredor, em que fica a morada de Julião.

Consta de tres compartimentos—sala, cosinha e alcova.

Agora que estamos dentro da casa, ouçamos o que dizem o nosso amigo e sua mulher.

—Crê-me—dizia Julião,—o Senhor tirou-nos a loja, fazendo-nos vir viver para aqui. Por alguma coisa foi que o Senhor fez isto.

—E para que o fez Ele?

—Olha, Dôres, não crês que neste corredor se pode anunciar o Evangelho a mais de duzentas pessoas?

—Creio, Julião, que não terás necessidade de chamar o ministro para isso.

—Não, realmente. Porque hei de ceder a outro as bençãos que eu posso receber? Por certo que seria uma loucura.

—E que tencionas fazer?

—Uma coisa muito simples. Hoje mesmo convidas as visinhas para uma reunião religiosa. Dizes que todo aquele que deseje ouvir as novas do Evangelho pode vir aqui esta noite, ás oito horas em ponto.

—Bem, farei o que tu desejas, e que o Senhor nos abençôe.

Julião saiu de casa, e em poucos momentos Dôres estendia no corredor algumas peças de roupa que tinha lavado.

—Bons dias, visinha—disse-lhe uma mulher do corredor em frente.

—Bons dias, senhora—lhe respondeu Dôres.

Dentro de si sentia uma coisa que lhe dizia: «Começa a trabalhar para Jesus.»

—Está hoje um bonito dia!—disse a visinha.

—Realmente está um dia muito bonito. Veja que formoso está o céu! Quem seria capaz de fazer um céu similhante a este? E ainda dizem que não ha Deus!

—E quem se atreve a sustentar similhante disparate?

—Não faltam, infelizmente, pessoas que o façam; pessoas que não teem religião nem consciencia.

—A proposito, Dôres, permite-me que entre em sua casa para lhe perguntar umas coisas?

—Com muito gosto.

—Vou ver se fervem as panelas que deixei ao lume, e depois irei ter comsigo.

Quando Dôres se viu sósinha, exclamou:

—Senhor, dá-me forças e aumenta a minha fé, se queres que faça alguma coisa por Ti. Por amor de Jesus, concede-me o Teu santo Espirito. Amen.

—Posso entrar?—disse uma voz do lado de fóra.

—Entre—respondeu Dôres.

No mesmo momento entrou a mulher que tinha falado com Dôres.

Esta ofereceu-lhe uma cadeira, e ela, depois de tomar assento, disse-lhe:

—Então porque deixou a loja?

—Que quer a visinha—respondeu Dôres.—Caprichos da sorte, ou, melhor, azares da vida.

—A mim disseram-me que foi por vocemecês serem protestantes que os despediram da casa.

—Pois não é verdade: fomos nós que nos despedimos, porque o meu esposo perdeu de repente o dinheiro que tinha, e bem assim a freguezia, por causa das suas idéas religiosas.

—Porém, Dôres, perdôe-me que lhe diga. Eu não entendo uma palavra ácerca das suas crenças religiosas. A mim disseram-me que os protestantes não crêem em Deus, nem na Virgem, nem nos santos. Quando morreu sua mãe, ouvi tudo o que o padre disse, e pareceu-me que no que dizia tinha razão; assisti ao enterro, e fiquei impressionada: mas porque é que todos são contra vocemecês?

—Por que razão foram todos contra Jesus? Eis aqui a causa: os que crêem em Jesus são perseguidos porque o seu Divino Mestre o foi.

—Porém vocemecês crêem em Deus e na Santissima Trindade?

—Sim, senhora; nós cremos em tudo isso, e mais ainda cremos em tudo o que está escrito na Biblia.

—Muito desejaria tornar a ouvir falar algum dos que pensam como vocemecês.

—Pois olhe, se tem esse desejo, Julião vae fazer algumas reuniões neste mesmo quarto, e pode assistir a elas.

—Não sabe quanto me alegro em saber isso. Não faltarei; porém diga-me: Quando é que seu marido principia?

—Esta mesma noite ás 8 horas, e, visto que a senhora é a primeira moradora da casa que o sabe, peço-lhe que...

—Não diga nada? Descance que...

—Pelo contrario, peço-lhe que o diga a todas as pessoas que muito bem lhe parecer. Seria um grande prazer para nós que todos os moradores e a visinhança ouvissem o Evangelho.

—Pois então eu lhe asseguro que toda a visinhança o saberá.

Em poucos momentos, todos os moradores da casa sabiam que Julião ia dar reuniões protestantes, e todos se dispozeram a ir ouvil-o, uns por curiosidade e outros por zombaria.

Quando o padre Francisco soube isto, exclamou:

—Já começa! e eu que julgava que esse homem cederia á fome e á miseria! Na minha vida não tenho visto pessoa mais teimosa! Que fazer? Ah! se se promovesse um escandalo, podia suceder que o senhorio os despedisse da casa; e o escandalo, sim, ha de dar-se. Parece mentira que os homens se obcequem a este ponto... No emtanto, isto faz-me supôr que Julião recebe alguma paga.

Assim continuou o padre, falando comsigo.

Por fim veiu a noite, e, ainda que alguma coisa fria por ser outono, a gente apinha-se nos corredores, por não caberem todos os que haviam concorrido dentro do quarto.

Ás oito horas em ponto da noite, Julião entrou no quarto, saudando todas as pessoas.

Depois dirigiu-lhes a palavra da seguinte maneira:

—Amigos, bastante embaraçosa é para mim a situação em que me encontro ao dirigir-vos a palavra. Falo-vos por duas razões: a primeira porque a isso Deus me envia, para que vos anuncie as novas de salvação que se encontra em Jesus Cristo; a segunda, a menos importante, para me justificar do que dizem, pois que, na opinião de muitos, duvida-se do meu caracter e da minha honra. Parece que muitos dos que estão presentes estranharão que um protestante vá falar do cristianismo, quando, segundo dizem por ahi, nós os protestantes somos uns herejes, uns incredulos, que duvidam de tudo. Se isto é ou não verdade, ides vós julgal-o ouvindo dos meus labios a minha profissão de fé, na qual eu, bem como todos os cristãos evangelicos, a quem vós chamaes protestantes, cremos. Para que bem o compreendaes, escutae com atenção.

«Creio em Deus Pae Todo Poderoso, Creador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo seu Unico Filho, Nosso Senhor; O qual foi concebido por obra do Espirito Santo; Nasceu de Maria Virgem; Padeceu sob o poder de Poncio Pilatos; Foi crucificado, morto e sepultado; Desceu aos infernos; Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos; Subiu ao céu; Está sentado á mão direita de Deus Pae Todo Poderoso; Donde ha de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espirito Santo; Na Santa Egreja Catolica; Na comunhão dos santos; Na ressureição da carne; Na vida eterna. Amen.»

Um murmurio de vozes de aprovação e surpreza rompeu de todos os labios. As vozes que mais se distinguiram foram:

—Esse Credo é egual ao nosso!

—Crêem em Deus!

—E na Virgem!!!

—E em que Cristo foi concebido pelo Espirito Santo!!!

—Sim, meus amigos—continuou Julião,—nós, isto é, os cristãos do Evangelho, cremos em tudo o que está escrito na palavra de Deus. Quanto dizem de nós é uma completa calunia. Jámais duvidámos da virtude de Maria, mãe, não de Deus, porque Deus não teve pae nem mãe, porém sim mãe de Jesus, emquanto homem como nós. Nós não confiamos em ninguem senão em Cristo, porque sabemos que em nenhum outro ha salvação; porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual os homens devem ser salvos (A 4:12). Não confiamos nas obras

que possamos fazer, pois que, por melhores que elas sejam, não são mais do que «trapos de imundicie». Não nos submetemos ao jugo de Roma, porque na palavra de Deus não se ordena que o cristão esteja sujeito a tal ou qual egreja, mas sim a Cristo, e porque esta egreja tiranisa as consciencias, obrigando a crer em dogmas taes como a infalibilidade, que nos faz ver a figura do papa retratado na segunda Epistola de S. Paulo aos Tessalonicenses, cap. 2.º, ver, 3 e 4, onde se diz, falando da segunda vinda do Senhor: «Ninguem de modo algum vos engane; porque não será sem que antes venha a apostasia, e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe, e se eleva sobre tudo o que se chama Deus, ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, ostentando-se como se fosse Deus». Nós, os protestantes, não fazemos caso dos dias de jejum, porque S. Paulo diz: «Ninguem vos julgue pelo comer nem pelo beber» (Col. 2: 16). Tambem sabemos, para que nos acautelemos deles, que «alguns prohibirão casar-se, e mandarão abster-se das coisas que Deus creou para que com acção de graças participassem delas os fieis e os que teem conhecido a verdade» (1.ª a Tim. 4: 3). Não fazemos caso algum dos mandamentos romanos, no que diz respeito a dar dinheiro ou velas, ou coisas similhantes para o culto, pois que na Palavra de Deus achamos escrito: «Ninguem vos desencaminhe, afectando parecer humilde, e dar culto aos anjos, que nunca viu no estado de viador, inchado vãmente no sentido da sua carne» (Col. 2: 18).

Algumas vozes de aprovação sairam dentre os ouvintes.

—Sim, meus amigos—prosseguiu Julião,—dos protestantes dizem-se muitas coisas que assim não são.

«Nós, os protestantes, cremos na Virgem dos Evangelhos, mas não na Virgem da egreja romana, porque a Virgem desta egreja em nada se parece com aquela. Não lhe rezamos por duas razões: a primeira porque não sabemos rezar; sabemos sim orar a Deus; e a segunda porque nem os apostolos, nem as tres Marias, nem nenhuma das personagens do seu tempo o fizeram. E que diremos ácerca das bulas? As bulas! Famosa chave romana que abre e

fecha as portas do céu, desde o minimo preço de dois reales[3] até somas um tanto consideraveis. Roma tem bulas para todos, já vêdes—acrescentou em tom ironico.—Roma tem bulas até para defuntos. Emfim, Roma não perde ocasião de tirar dinheiro. Desde que uma pessoa nasce até que morre, paga dinheiro e mais dinheiro para os cofres da egreja. Dinheiro para baptizar, dinheiro para casar, dinheiro para enterrar, dinheiro para missas, dinheiro para tudo. Ah! os sacerdotes desta egreja não teem em conta que S. Paulo vivia á custa do trabalho de suas mãos, e que nem S. Pedro nem os demais apostolos foram subvencionados pelo Estado: não tiveram pé de altar, nem direitos paroquiaes, nem casulas batidas a oiro, nem calices de prata, nem baculos do mesmo metal, nem tiara, nem mitra, nem chapéu cardinalicio, nem foram abades, nem conegos... Porém, se não tinham nada disto, em troca recebiam, para administral-o, o dinheiro dos ricos, e com isso a egreja vivia com algum desafogo. Este era o costume apostolico, e por ser este costume que nós defendemos acusam-nos de herejes e nos excomungam, e não fazem mais porque Deus não lhes permite. Meus amigos, já vos são conhecidas em parte as doutrinas dos cristãos evangelicos; agora julgae por vós mesmos. Ámanhã á mesma hora de hoje, se vos dignardes vós escutar-me, falaremos dalgum ponto do Evangelho; porém, antes de vos retirardes, sabei duas coisas: primeira, que «de tal maneira Deus amou o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigenito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (S. João 3: 16). A segunda é que «nenhuma condenação ha para os que estão em Cristo Jesus» (Rom. 8: 1). Que o Senhor nos abençôe. Amen.

Julião retirou-se para a alcova, e a gente tambem saiu, discutindo entre si; alguns foram felicital-o.

O padre Francisco, que havia estado observando tudo, dizia a sós comsigo:

—E não houve escandalo! E esse homem que vae convencel-os! Como evitar isso?

O bom do padre trazia a cabeça numa braza viva, pensando como havia de inutilizar o seu inimigo, sem se lembrar de que era melhor tomar o parecer que o fariseu Gamaliel deu no conselho de Jerusalem, celebrado contra os apostolos, em que disse: «Não vos metaes com estes homens, e deixae-os; porque, se este conselho, ou esta obra, vem dos homens, ela se desvanecerá; porém, se vem de Deus, não a podereis desfazer, para que não pareça que até a Deus resistis» (Atos 5: 38-40).