Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 14 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XIV Da loja á agua-furtada

CAPITULO XIV

 

Da loja á agua-furtada

 

A desgraça pairava sobre a casa de Julião.

Em pouco tempo aquela casa, antes tão feliz, veiu a ser a casa da dôr e da aflição. Já se não ouvia na loja o bater do martelo nem as alegres canções dos operarios.

Por todas as partes se havia espalhado a noticia de que o vidraceiro era protestante, e, por consequencia, o descredito foi geral.

Em vão Julião sofria tudo com paciencia; em vão visitava os seus antigos freguezes; em vão, na aparencia, clamava ao Senhor: parecia que o céu e a terra o haviam abandonado.

Para maior desgraça, sua esposa, torturada pelos sofrimentos, tinha decaido da fé, e isto era o que mais o atormentava.

Até o seu proprio amigo, o mestre João, que era o unico que poderia ajudal-o, estava fóra de Madrid, ocupado numas obras; tudo, pois, como já dissemos, se pronunciava contra ele.

Assim chegou o dia em que Julião teve de deixar a loja da casa que habitava, indo alugar a agua-furtada da mesma, para onde foi trabalhar como simples oficial.

Faltavam tres dias para fazer a mudança. Julião não estava em casa, e Dôres estava só, dando o peito a seu filho, quando sentiu abrir a porta da loja.

Levantou-se para ver quem entrava, e dirigindo-se á porta deu de rosto com o padre Francisco, que, depois de a cumprimentar, lhe disse:

—Julião está em casa?

Sabido é que Dôres olhava desde ha muito com certa desconfiança para o padre, pois que julgava que ele era o causador das suas desgraças, e assim é que com grande reserva e muito secamente lhe respondeu:

—Não, senhor; saiu.

O padre compreendeu o que se passava no espirito daquela mulher, e num momento concebeu o seu plano.

—Pois realmente sinto-o—disse o sacerdote,—pois que vinha falar com ele, afim de ver se queria encarregar-se duma obra.

—Pois não posso dizer-lho, porém parece-me que actualmente lhe será dificil, pois que não temos os meios necessarios para comprar os materiaes.

—Não importa isso; se seu marido quizer, os donos da obra lhe adeantarão tudo o que seja preciso. Porém, estranho vê-los nesse estado, sem terem nada que fazer, quando tinham tão boa freguezia!...

—Pois olhe—disse Dôres com intenção,—alguem tem a culpa disto.

—Não me parece que alguem possa ter culpa, ou se compraza com os males que sofrem. O unico culpado de tudo isso é o seu esposo, por causa dessas idéas que tem e que tão desprezadas são de todos. Se seu marido não tivesse a insensatez de se fazer protestante... Ora veja lá, protestante... uma coisa que não tem razão de ser... que acabará em breve e que... finalmente... consta lhes que muitos clerigos tenham passado para essa seita?

—Sim, senhor; sei dalguns.

—São aqueles que não quizeram sujeitar-se aos seus votos e para quem a religião era uma coisa pesada. Finalmente, Dôres, creia-me, o que lhe está sucedendo não é mais do que um aviso de Deus, um preludio de acontecimentos mais graves; não me admiraria se ámanhã lhes morresse o seu filho.

—Cale-se, senhor!

—E era um grande favor que a Virgem lhes fazia, pois que seria melhor para ele morrer do que ficar eternamente condenado.

—E porque ha de o meu filho ser condenado?

—Porque a educação religiosa que lhe derem não pode ser boa.

—Nós o educaremos na fé do Salvador e nas maximas do Evangelho.

—Sim, porém dum Evangelho corrompido, e mostrando-lhe um Salvador que o não poderá salvar, porque lhe falta a autorização de Sua bemdita Mãe.

—Padre Francisco, Jesus não necessita de autorização de ninguem, pois que «salva quem quer».

—Que lhe pedirá seu filho que a senhora não lhe faça? Pois tambem Jesus não pode fazer senão o que Sua bemdita Mãe manda. Emfim, noutra ocasião falaremos mais detidamente sobre este assunto. Queira dizer a seu esposo que esta tarde virei falar-lhe, e que a obra, de que o venho encarregar, lhe fará ganhar uma boa quantia. Passe bem, sr.ª Dôres; medite em tudo o que temos falado, e creia-me: sem Maria, nem o céu seria céu. Tome esta estampasinha e reze deante dela umas Avé-Marias, pois de cada vez que o fizer ganhará cem dias de indulgencia.

O padre Francisco saiu, mas ainda Dôres estava com a tal estampasinha na mão quando Julião, abrindo a porta, e observando que sua esposa tinha um papel na mão, aproximou-se, perguntando-lhe o que era.

—Uma imagem da Virgem Maria que me deu o padre Francisco— respondeu ela.

—E como ou com que fim te deu o padre Francisco esse papel?

Dôres contou a seu marido o sucedido, e depois disse:

—Que pensas fazer?

—O que penso fazer?—respondeu Julião.—Dizer ao padre Francisco que não torne a falar-te de religião, e, pelo que respeita á obra, far-lha-hei se podér, mas que não venha cá falar-me em condições, porque...

—Julião, chega-te á razão e pensa no nosso filho. Além disso, o padre Francisco apresentou-me umas razões de bastante peso, ácerca da Virgem.

—Para grandes provas me tem reservado o Senhor, e a mais dura é ver a tua falta de fé. Escuta-me, Dôres, e jámais duvides da palavra d’Aquele que disse: «Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão...»

—Julião, a minha fé vacilou alguma coisa, porém eu rogarei a Deus para que a aumente.

—Bem, oremos a Deus.

Ambos os esposos ajoelharam, e pouco depois ouviu-se a voz de Julião, que pronunciou esta singela oração:

«Senhor, aumenta a nossa fé; agora mais do que nunca, necessitamos de crêr para sermos fieis... Não sabemos até onde nos provarás, porém estamos seguros de que Tu nos ajudarás. Sim, Pae Eterno, se temos sido fieis no tempo da prosperidade, justo é que o sejamos no tempo da adversidade.

Agora dá-nos a Tua benção, pelo amor de Jesus. Amen.»

Chegou por fim o dia destinado para que o nosso amigo Julião desocupasse a loja.

A senhora Brigida e Antonia estão em casa de Dôres.

—O caso é—disse Brigida—que, se meu marido estivesse em Madrid, daria o dinheiro a teu esposo e não havia necessidade de fechar a loja.

—Julião—respondeu Dôres—certamente que não aceitaria dinheiro, não tendo probabilidade de o pagar.

—Que coisas tens, Dôres!—exclamou Antonia.—Se meu pae emprestasse dinheiro a Julião, não fecharias a loja, e pode ser que com o andar do tempo melhorasseis de situação. Eu sei que a Biblia prohibe ter dividas; porém é claro que, entre irmãos, e quando é por uma precisão, não é prohibido, pois que a palavra de Deus manda que os irmãos se socorram entre si.

—Dize-me, Dôres—perguntou a mulher do carpinteiro,—não poderia ser que Julião pedisse alguns dias de espera, e entretanto eu escrevia a meu marido? Oh! se nós chegassemos a saber isto a tempo, teriamos escrito a João sem vós o saberdes, e tudo se arranjaria...

—Direi isso mesmo a Julião—disse Dôres,—e logo lhes participarei a resolução dele.

Assim continuaram conversando, emquanto que Julião, que se achava na loja empacotando as ferramentas, falava com o padre Francisco.

—Porém que é isso?—dizia o padre.—Então muda de casa?

—Não, senhor—respondeu Julião,—deixo a loja.

—Deixa a loja?

—Que quer? Algumas pessoas não vêem outra coisa mais senão aquilo que os seus olhos alcançam, e querem que os outros façam o mesmo. Amigo, o sr. conde de X... e outros hão de algum dia experimentar o que está escrito: «Não oprimirás o teu proximo, nem o roubarás; não retenhas o trabalho do jornaleiro em tua casa—até ámanhã». Sim, aqueles que procedem como o conde de X..., que me fez comprar um material que depois para nada me serviu, não compreendem que o Senhor, um dia, lhes pedirá estreitas contas, pois que Ele disse: «Não negarás a paga a teu irmão indigente e pobre, ou ao peregrino, que mora comtigo na terra, e está de tuas portas para dentro; mas pagar-lhe-has no mesmo dia o preço do seu trabalho antes do sol posto, porque é pobre, e disso sustenta a sua vida; não suceda que ele clame contra ti ao Senhor, e isto se te impute a pecado» (Deut. 24: 14 e 15).

—Julião—disse o padre Francisco,—não deve admirar-se de que todos lhe voltem as costas; as suas idéas religiosas não são de molde a atrair-lhe as afeições do mundo.

—Sim, a mim não me admira que o mundo me aborreça, quando Jesus, o meu Salvador, disse: «Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a vós me aborreceu Ele a mim. Se vós fosseis do mundo, amaria o mundo o que era seu; mas porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece» (S. João 15: 18, 10). Aquilo que realmente me admira é que pessoas que aparentam um tal escrupulo não sintam remorsos em sua consciencia em roubar a um pobre, como eu, o fruto do seu trabalho, e não hesitem em lançal-o na miseria.

—Julião, deixemos de parte essa questão. O senhor pode adquirir do conde X... mais do que aquilo que perdeu. Renuncie por um momento a essas preocupações, abra os olhos á luz, e creia em si. Eu venho encomendar-lhe uma obra, que pode dar-lhe alguns lucros; quer fazel-a?

—Sr. padre Francisco, não posso empreender obra alguma, por pequena que seja, pois não tenho dinheiro para material nem para as ferias dos oficiaes.

—Não lhe importe isso—disse o padre;—eu ofereço-lhe aquilo de que necessite. A pessoa que encomenda a obra lhe adeantará o dinheiro preciso para os materiaes e para as ferias.

—E que obra é essa?—perguntou Julião.

—Tudo o que pertence á sua arte, na egreja de S. N., notando que tem muito que fazer; é obra que durará muitos mezes.

—Muito bem; não tenho nisso o menor inconveniente. E não me imporá condição alguma que me torne impossivel o aceitar a obra?

—Não, nenhuma; pois que a condição imposta para todos aqueles que ali trabalham é tão simples que ninguem até hoje deixou de a aceitar.

—Qual é?

—O paroco diz missa ás nove horas da manhã, á qual deseja que assistam todos os artistas que ali trabalhem.

—E assistem todos?

—É natural. Quem se recusará a isso?

—Suponhamos, sr. padre Francisco, que o paroco me impõe essa condição, e que me nego a assistir á missa, o que me sucederá nesse caso?

—Nesse caso não poderá continuar a trabalhar na egreja.

—Pois então é inutil que tornemos a falar mais nisso; pela minha parte não assisto á missa.

—Porquê?

—Creio inutil repetir-lhe aquilo que já por tantas vezes lhe tenho dito sobre o assunto. Não tendo a missa para mim o valor que vós lhe daes, não posso nem devo assistir a ela.

—Porém pense bem que está na maior miseria, e não sómente vocemecê, como sua mulher e seu filho.

—Pois o Senhor, que tem cuidado das avesinhas e dos lirios dos campos, cuidará de mim, de minha mulher e de meu filho.

—Vamos; quer encarregar-se?

—Sim, senhor.

—Nesse caso, espero que vá á missa.

—Não, senhor, eu não posso assistir a um acto que a minha consciencia reprova.

—Então não estranhe que a fome bata á sua porta: será um castigo de Deus, que o avisa por minha boca.

—Não, não é um aviso; diga antes uma tentação de Satanaz, permitida por Deus, para provar a minha fé.

—Julguei que podia valer-lhe em alguma coisa, porém enganei-me. É dificil deter em sua carreira o homem que marcha a passos agigantados para o precipicio. Que a Virgem tenha misericordia de si.

—Folgo imenso com que tenha falado da Virgem, pois que me esquecia de dizer-lhe duas coisas: a primeira é que me faça o favor de não falar a minha mulher ácerca de religião; a segunda é que não lhe torne a dar estampas de santos ou de virgens, pois que, como pode muito bem compreender, não deve meter-se onde não o chamam.

—Se eu dei a sua esposa alguns conselhos, foi porque a encontrei triste e aflita. Eu, na minha qualidade de sacerdote, tenho o dever de consolar os tristes.

—Muito bem: porém aquilo que disse a minha esposa, em vez de servir para a consolar, devia servir para acender em seu peito a duvida, e estabelecer em minha casa uma guerra religiosa; portanto, que não torne a suceder uma tal coisa.

—Quer isso dizer—respondeu o padre Francisco—que me prohibe de falar com sua esposa, não é verdade?

—Sim, senhor: sobre assuntos de religião prohibo-lhe terminantemente que lhe fale.

—Nesse caso é impossivel que Deus o ajude.

—Padre Francisco, parece-me que o culpado de que me tenham tirado o trabalho em casa dos condes X... foi vossa senhoria.

—Pois fui eu, é verdade, que influi para que fosse despedido da casa.

—Então teve valor para perder desse modo um pae de familia?

—Basta, basta, Julião; estou cançado de lutar; venho oferecer-lhe o bem, e o senhor rejeita-o; ha-de, por conseguinte, sofrer-lhe as consequencias.

—Padre Francisco: nem V., nem Roma, nem a fome, nem as ameaças são suficientes para apartar-me do amor que ha em Cristo Jesus.

—Nesse caso, guerra e guerra sem treguas.

O padre saiu furioso da loja, e Julião, elevando os olhos ao céu, exclamou:

—«Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem». (Sal. 34: 1).

Emquanto isto sucedia, dialogavam assim Antonia e sua mãe na carpinteria:

—Sim—dizia Brigida,—escreve a teu pae, contando-lhe os apuros do nosso amigo, e que imediatamente nos mande dinheiro.

—Quanto lhe peço?

—Não sei; porém explica-lhe o caso, e ele poderá calcular quanto é preciso.

Antonia começou a escrever, e, depois dalguns instantes, leu a sua mãe a seguinte carta:

 

«Madrid...

«Querido pae, muito me alegrarei que ao receber esta

esteja de saude; nós estamos boas.

«Escrevemos-lhe para referir-lhe uma coisa que muito o

entristecerá. Julião, o nosso amigo, deixa a loja, por manejos dos seus inimigos, que quasi o reduziram á miseria.

«Deixaremos o nosso amigo sem auxilio?

«Não. Espero que meu pae atenderá aos rogos de sua

esposa e filha.

«Esperamos que aproveitará a ocasião de fazer alguma

coisa por amor de Jesus, tendo em conta que «Deus ama aquele que dá com alegria».

«Sem mais, receba o carinho destas que o amam

Brigida e Antonia.

P. S.—Lembre-se daquilo que Dôres fez por mim quando

estive doente, e de que os desgostos que isso lhe ocasionou, e aquilo que agora está sofrendo, tudo isso é consequencia do que fez por mim. Os nossos amigos perdem-se se de pronto não os socorremos».

—Bem, bem, filha—exclamou Brigida ao ouvir a leitura da carta;— escreves melhor do que um ministro. Anda, vae deitar a carta no correio.