Julião e a Bíblia
CAPITULO XVI Um sermão, um desafio, e uma hora de fé
CAPITULO XVI
Um sermão, um desafio, e uma hora de fé
Os visinhos da casa de Julião estavam alvoroçados. Entre eles tinha-se despertado um movimento religioso como poucas vezes se tem visto.
Merecia a pena ás oito horas da noite o ir ver o interior da casa; pateo, corredor, janelas, tudo estava atulhado de pessoas, que levantavam a cabeça para olhar para um corredor do quarto andar, donde um homem lhes falava.
Tinham decorrido cinco noites desde que Julião pela primeira vez falára no corredor, e coisas maravilhosas tinham acontecido.
Na sexta noite do culto, achava-se Julião prégando, e tinha tomado para texto as palavras de Jesus: «Porque onde estão dois ou tres reunidos em Meu nome, ahi estou Eu no meio deles» (S. Mat. 18: 20).
O nosso amigo estava quasi no fim da sua prégação, depois de ter exposto aos seus ouvintes quão grande era o amor do Salvador, que, depois de ter dado a vida pelos pecadores, estava disposto a recebel-os, pois que, só com invocal-O, Ele Se aproximava dos corações. Depois de tudo isto, disse:
«Temos, pois, que onde se reunem dois ou tres em nome do Senhor, ali está a egreja. Portanto, meus amigos, não é necessario ir a tal ou tal egreja, nem escutar esta ou aquela pratica, não; se dois ou tres cristãos se unem em um caminho ou num deserto, e ali elevam os seus corações para orar, ou antes para falar de Jesus, ali está a Egreja com o seu divino Esposo no meio.
«Mais facil é que o Senhor habite em uma pobre agua-furtada, onde uma familia faz a sua oração matutina, do que num templo onde os sentidos se deleitam e o espirito se distrae com o som do orgão, o espectaculo do luxo e os perfumes do incenso. Sabei que o Senhor «não habita em templos feitos por mãos de homens», como diz o profeta: «O céu é o Meu trono, e a terra o estrado dos Meus pés. Que casa Me edificareis vós, diz o Senhor, ou qual é o logar do Meu repouso? Não fez, porventura, a Minha mão todas estas coisas?» (Atos 7: 49—50). Assim fala o Senhor. Não são, pois, as afilagranadas cupulas duma catedral, ou os sumptuosos tetos dum templo, nem os canticos latinos, nem o incenso, nem as luzes, nem o luxo, os objetos que fazem com que o espirito de Deus desça das mansões celestes onde habita; antes pelo contrario, essas coisas afugentam o Espirito de Deus.
—As suas malditas idéas, sim, que o conduzirão a si e áqueles que o escutam aos infernos—disse uma voz do fim do corredor.
Todos os olhares se dirigiram para o sitio donde havia saido a voz, e deram com o padre Francisco, que, aceso em ira, apostrofava o vidraceiro.
Taes insultos lhe dirigiu que os assistentes começaram a gritar:
—Fóra, corvos! Fóra, corvos! Não queremos latinorios.
—O Evangelho é claro, e os padres não querem que a gente o leia, para que se não venham a descobrir os seus embustes.
—Fóra, fóra o padre!
—Silencio, meus amigos—gritou Julião.
A vozeria cessou, e então o vidraceiro, dirigindo-se ao padre Francisco, disse-lhe:
—Podia não interromper a nossa reunião por um modo tão pouco delicado. Não sei porque seja tratado assim aquele que diz a verdade.
—Você nem diz nem conhece a verdade—exclamou o padre Francisco.
E acrescentou com concentrado odio:
—Você é um miseravel que recebe dinheiro dessas malditas sociedades inglezas para perder a Hespanha, para subjugal-a...
—Sr. padre Francisco—disse Julião num tom veemente—O senhor é um caluniador. Certamente que a si é que eu devo o prégar o Evangelho; pois saibam todos que, por causa desse senhor, perdi a minha loja e a minha posição. Tão caritativo, fez quanto pôde para a minha miseria e para a miseria da minha familia.
—Fóra, fóra o padre!—gritaram de novo as pessoas presentes.
—Silencio!—tornou a exclamar Julião—O sr. padre Francisco é um dos padres de mais talento da freguezia; tem estudos, e diz que estou no erro; eu, pelo contrario, não sou mais do que um pobre artista sem estudos, e, mais ainda, com um futuro bem triste. Pois apezar disso, eu desafio-o a discutir comigo na vossa presença.
—Bem, bem—exclamaram os circunstantes.
—Senhores—disse o padre Francisco, um tanto embaraçado,— eu não posso discutir com este homem sem licença dos meus superiores; portanto não lhe aceito o repto, antes o desprézo.
—Parece-me—disse Julião—que isso é uma evasiva; o senhor, se é, como diz, ministro do Evangelho, não pode deixar de combater o erro onde quer que se encontre; a sentinela que vê como o inimigo se aproxima da brecha que ela guarda não espera que os seus chefes lhe mandem fazer fogo: assim o senhor deve colocar-se em frente do erro sem aguardar licença de ninguem.
—Este—exclamou furioso o padre Francisco—não é logar proprio para discutir. A casa é propriedade do senhorio, e não para que você venha com o seu palavriado escandalizar os visinhos com suas corrompidas doutrinas.
—Fóra! fóra o padre!—disse uma voz.
—Fóra?—repetiu o padre.—Ámanhã vou dar parte ao senhorio de tudo quanto aqui se está passando, e veremos se se lhes prohibe ou não amontoarem-se nas escadas e no corredor, interrompendo a passagem.
—Pois senhores—gritou um dos moradores—em minha casa, de ámanhã em deante, ha logar para nos reunirmos. Se o sr. Julião quizer, podem todos juntarem-se ali sem escrupulo, e assim deixaremos as escadas livres, para que o sr. padre Francisco possa descer e subir, sem que a sua sotaina se amarrote.
Todos os moradores aplaudiram, emquanto que o padre Francisco entrou em sua casa aceso em colera.
Julião concluiu o sermão, e, depois de ficar convencido de que na noite proxima se celebraria culto em casa do visinho, que a tinha oferecido, cada qual foi para sua casa, e meia hora depois o socego e silencio reinavam em todas as habitações.
Julião e sua esposa estavam sentados em casa, conversando.
—E que vaes fazer?—disse-lhe a esposa.
—Não sei—respondeu Julião,—não sei; todas as portas se fecham; hontem esperava trabalho, porém o mestre não ficou com a obra e não me pôde admitir. Bem sabe Deus, querida esposa, que sómente sinto isto por ti e por nosso filho. Os recursos esgotaram-se, e não vejo de pronto como poderemos obter remedio. Eu sei que «Deus providenciará», sim, indubitavelmente tem que o fazer. Fui vender a ferramenta, porém querem valer-se da ocasião, e por aquilo que me custou duas libras sómente me dão uma.
—Julião, já te disse que não vendas a ferramenta; se ámanhã nos estabelecermos de novo, far-te-ha falta.
—Certamente, e não sei que estranho pressentimento me diz que tornaremos para a loja que deixámos.
—Muito me alegraria com isso—disse Dôres,—porque foi naquela casa que morreram os nossos paes. Sabes—acrescentou—que ámanhã tenho de ir ao Monte dos socorros empenhar alguns objetos.
—Ah! Dôres!—exclamou Julião—se tu tivesses fé! Dize: crês com todo o coração o que está escrito na palavra de Deus?
—Sim, Julião.
O vidraceiro pegou na Biblia, que estava em cima da meza, e disse:
—Dôres, não temos dinheiro para comprar pão ámanhã, e, se não vaes empenhar alguns objetos, nem mesmo umas tristes sopas podes dar ao nosso filho, não é verdade?
Estas palavras arrancaram silenciosas lagrimas dos olhos de Dôres, que apertou ao peito o filhinho, que ela beijou sofregamente, entretanto que a creancinha se sorria, indiferente aos pezares daquela que a estreitava em seu seio.
—Não chores—continuou Julião,—o Senhor mesmo nos ensinou a dizer: «Dá-nos o pão nosso de cada dia»; pois bem, vamos orar, pedindo-Lhe esse pão.
Julião abriu a Biblia no Evangelho de S. João, cap. 16, e leu os versiculos 23 e 25, dizendo:
—Escuta esta preciosa promessa feita por Jesus; «Na verdade, na verdade, vos digo: se vós pedirdes a Meu Pae alguma coisa em Meu nome, Ele vol-a ha de dar. Vós até agora nada pedistes em Meu nome; pedi e recebereis, para que o vosso gozo seja completo». «Tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis». Agora, com tão ricas promessas, e tão bom Intercessor, prostremo-nos deante de Deus.