Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 20 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XX O Cristo das Completas e um lignum crucis

CAPITULO XX

 

O Cristo das Completas e um lignum crucis

 

Como acabamos de ver, o regedor, acompanhado da senhora Joana, entrou na casa do padre Francisco. Não nos dizem os nossos apontamentos o que se passou entre eles, porém o que sabemos é que as reuniões evangelicas continuaram com toda a regularidade.

O mesmo padre Francisco parecia ter perdido o seu antigo ardor, e agora nada fazia contra aqueles a que ele chamava seus inimigos, se bem que não cessasse de pensar e tornar a pensar comsigo sobre o caso.

Depois de pensamentos desencontrados, acabou por desejar ter uma conferencia com o joven que dirigia os cultos.

Esta solução pareceu-lhe a melhor de todas.

—Sim—disse ele comsigo,—esse joven é muito creança ainda, e com habilidade poderei informar-me por ele do que realmente ha nessas sociedades. Ao mesmo tempo poderei convencel-o dos seus erros, e não me será impossivel conseguir dele que uma noite, em vez de celebrar o culto, como eles dizem, faça uma retractação das suas doutrinas; nesse caso eu triunfava, e acabava com essa maldita obra, e depois...

O padre esfregou as mãos de contente, e depois tratou de indagar onde e como poderia dirigir-se ao joven evangelista.

Cheio de alegria, pegou na pena e escreveu a seguinte carta:

 

«Madrid... Embaixadores n.º...

Sr. Mateus N.

Se bem que não tenha a honra de o conhecer, senão por

tel-o visto algumas vezes, peço-lhe me conceda o especialissimo favor de aceitar um talher á minha meza, ás tres horas da tarde do dia de ámanhã, ou do dia que designe.

Espero que não verá nisto qualquer traição: estou disposto

a dar-lhe quantas provas de segurança julgue convenientes, pois tenho sómente por objectivo falar-lhe sobre religião.

Seu afectuosissimo

Francisco Maria dos Anjos.»

 

Ao anoitecer daquele mesmo dia, o padre Francisco recebeu uma carta nos seguintes termos:

 

«Madrid...

Sr. P.ᵉ Francisco Maria dos Anjos

Aceito a honra que me concede, e ámanhã ás tres horas

da tarde estou á sua disposição. Nada receio, porque Deus irá na minha companhia; sómente peço a V. que, se vamos tratar de assuntos da religião, seja com a Biblia na mão.

Seu afectuosissimo servo, que deseja ser seu irmão em

Jesus,

Mateus N.»

 

No dia seguinte, poucos minutos antes das tres, o joven evangelista batia á porta do padre Francisco, que veiu logo receber o seu hospede, estendendo-lhe a mão com a expressão mais afectuosa, e dizendo-lhe:

—Seja bemvindo, senhor Mateus; entre, entre na minha habitação, onde descançará e jantará comigo.

Entraram juntos na sala, e, passados alguns momentos de silencio, disse o padre Francisco:

—Queira desculpar que, sem o conhecer, lhe oferecesse um talher á minha meza.

—É para mim subida honra—respondeu o joven—o receber uma tal prova da sua bondade para comigo.

Seguiram-se alguns momentos de silencio, durante os quaes o joven não desviava os olhos dum precioso armario de pau preto, que o padre tinha em frente da meza de jantar.

—Bonito movel!—exclamou Mateus.

—Realmente—exclamou o padre Francisco—é uma bonita peça, porém o que é mais bonito e tem mais valor é o que está dentro.

O padre Francisco levantou-se, dirigindo-se ao armario, e poz o dedo num botão amarelo, o que deu logar a que as portas se abrissem, deixando ver uma especie de capela com o seu altar, imagens e uma lampada de prata, cuja luz ardia continuamente. Ao abrir-se o armario, o padre Francisco tirou o solideo, fez uma reverencia ao altar e, voltando-se para Mateus, disse-lhe:

—Venha ver, que ha aqui coisas esplendidas.

O joven aproximou-se do altar, sem se inclinar nem fazer o menor sinal de reverencia.

—Veja—prosseguiu o padre Francisco—o meu pequeno tesouro. Essa Virgem do Pilar, que é de prata, tem um merito artistico extraordinario. Aquele crucifixo de marfim é tambem muito bom, e custou-me, quando estive em Roma, trinta e cinco libras. Vê aquele S. Pedro? Foi presente da minha madrinha de baptismo, que mo deu quando cantei missa, e então meu padrinho, para que eu tivesse o par completo, mandou-me fazer aquele S. Paulo. São ambos de oiro. Meu tio mandou-me do Brazil, quando era mordomo do arcebispo daquele paiz, esta reliquia: é um pedacinho dum dos degraus da casa de Anás. Porém ainda não lhe mostrei o melhor, que é aquele Cristo.

O padre Francisco apontava para uma téla, onde estava pintado um Nazareno com a cruz ás costas: representava-O de meio corpo e quasi do tamanho natural.

—É o Cristo das Completas, imagem muito milagrosa. Saiba que já falou.

—Já falou, esse pedaço de linho!—exclamou Mateus.

—Sim, senhor; queira ouvir a historia. Essa imagem achava-se exposta á veneração dos fieis num convento; nesse convento havia uma freira tão enamorada dela que cada vez que se ajoelhava para adorar passava ali horas esquecidas. Sucedia com isto que, ainda que o sino tocasse para as rezas, aquela esposa do Senhor não o ouvia e faltava sempre a elas.

«Uma tarde achava-se a freira em adoração á imagem e tocou o sino para as Completas, porém ela não ouviu o toque, e então a divina imagem, abrindo os seus divinos labios, avisou a sua amiga, dizendo-lhe: Olha que tocam para Completas.

—Pois sr. padre Francisco, não posso acreditar no que diz. Falar um pedaço de pano pintado!

—Como? Acaso não falou a burra de Balaão?

—Sim, senhor, porém aquele caso foi muito diferente, pois...

—Falaremos nisso depois do jantar. Veja outra preciosidade. Este Lignum crucis trouxeram-mo de Jerusalem. Cresceu tanto emquanto o trouxe ao pescoço que tive que o cortar tres vezes durante um ano.

O joven, sem poder conter-se, soltou uma ruidosa gargalhada, mas, reprimindo-se em seguida, disse ao padre Francisco:

—Espero que me desculpe este imprudente riso, que me veiu sem querer aos labios; e logo que fechar o armario lhe contarei o motivo por que me ri quando me contou a historia do Cristo das Completas.

O padre fechou o armario e sentou-se numa cadeira em frente do joven, que disse:

—Ha pouco tempo achava-me eu numa loja de ourives desta capital; o dono, que é meu amigo, deu a um aprendiz, para que o limpasse, um relicario que ali tinham levado para esse fim. O relicario era nada mais nada menos do que um Lignum crucis, e, ao dal-o o meu amigo ao aprendiz, disse-lhe que tivesse todo o cuidado; porém o rapaz, apenas lhe pegou, deixou-o cair. Oh dôr! pegaram no relicario, olharam para dentro, e a reliquia havia desaparecido. Em vão a procuram, mas como é uma coisa sumamente pequena não pôde ser encontrada. Em tal situação que fazer? Pois, senhor, um oficial da casa cortou um pedacinho da cadeira em que estava sentado e colocou-o no sitio em que devia estar a reliquia. Passado pouco tempo, disse-me o meu amigo que a dona do relicario o procurara para lhe arranjar uns brincos; então perguntaram-lhe pelo seu Lignum crucis, e toda alvoroçada exclamou: «Cresceu extraordinariamente desde que o mandei compôr, pois que já o cortaram duas vezes.»

—Pois bem—continuou Mateus,—o fenomeno compreende-se: a tal senhora levou o relicario ao peito, e, como a caixinha era de papelão forrado de seda, penetraram nela facilmente a humidade e o calor, o que fez com que o pedacinho de madeira aumentasse de volume, obrigando-o assim a sair do pequenissimo orificio destinado para a reliquia, pelo que foi necessario cortar duas vezes o tal fingido Lignum crucis, que já dava de si material para outros novos.

—Porém isso—exclamou o padre Francisco—foi uma acção má, um sacrilegio.

—Eu não quero nem pretendo agora julgar se a acção foi boa ou má; porém quem disse a V. que a sua reliquia não é egual ao pedacinho de madeira de que temos falado?

—Não, senhor; este foi trazido da Terra Santa.

—Bem, nesse caso será um pedacinho de madeira de Jerusalem, da Terra Santa, e sempre é alguma coisa. Note que uma das coisas que deram logar á Reforma foi o abuso das reliquias. Por todas as partes encontramos ossos deste ou daquele santo, e o peor é que não é raro encontrar o mesmo osso dum santo em quatro pontos distintos, e, se não, diga-o a celebre queixada de Santa Apolonia.

—Isso...

—Desengane-se, senhor padre Francisco, Jesus é tudo. O ensino da egreja romana consiste em não prégar. Se em vez de fanatizar com reliquias e outras coisas, se ensinasse ao povo a palavra de Deus, e o que disse Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguem vem ao Pae senão por mim», e estas outras: «Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo», o povo não estaria tão cego e não fiaria a sua salvação de reliquias ridiculas e falsas, e que só servem para nos apartar de Jesus e conduzir-nos ao inferno.

Umas pancadas dadas na porta vieram interromper a conversação.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada entrou na sala, anunciando que a comida estava na meza.

—Vamos, sr. Mateus, vamos para a meza, e emquanto comemos teremos ocasião de conversar.

E o padre Francisco, tomando o joven pelo braço, encaminhou-se para a sala de jantar.