Julião e a Bíblia
CAPITULO XII Intrigas do confessionario
CAPITULO XII
Intrigas do confessionario
Passado um mez depois da morte de Josefa, estava Julião uma manhã trabalhando á sua banca, quando uma joven se apresentou na loja, dizendo:
—Senhor mestre, meu amo manda dizer que venha comigo para pôr uns vidros que se quebraram.
Julião olhou com bastante surpreza para a rapariga, e por fim respondeu-lhe:
—Diga a seu amo que dentro dalguns minutos lá irei.
A rapariga saiu, e Julião dirigiu-se imediatamente á sala onde estava sua mulher, para lhe dizer:
—Não sabes, Dôres, quem me chamou para me dar trabalho?
—Se tu ainda mo não disseste...
—Pois acaba de estar na loja a creada do P.ᵉ Francisco, que me mandou chamar para lhe ir pôr uns vidros. Que julgas disto?
Dôres ficou um tanto pensativa, e depois disse:
—Penso que esse homem te chama para fazer-te mal.
—A mim?
—Sim, a ti, ou, antes, a nós.
—Confio em Deus, e isso me basta.
Julião saiu, e dentro de poucos momentos estava no gabinete do sacerdote.
Depois de se saudarem mutuamente, o P.ᵉ Francisco disse:
—Certamente que ha de estranhar que eu o mandasse chamar, não é verdade?
—Com franqueza—respondeu Julião,—nem estranho, nem deixo de estranhar.
—É que eu estou convencido de que o senhor é um homem de bem, mas um pouco exaltado em assuntos de religião; um dia virá, porém, em que caia em si e se arrependa; finalmente, eu rogarei á Virgem para que assim suceda. Agora cumpra a missão para que o mandei cá chamar.
—Sim, senhor, tomarei a medida e irei em seguida colocar os vidros.
Julião saiu; e o padre, passeando pela casa, dizia, falando comsigo mesmo:
—Já está lançada a rêde, e o peixe cairá nas suas malhas.
Julião entrou em seguida, e, emquanto punha os vidros, disse-lhe o P.ᵉ Francisco:
—Tome lá um cigarro, sr. Julião.
Julião aceitou o cigarro que o padre lhe ofereceu, e em seguida foi ocupar-se do seu serviço.
Passados alguns momentos, o P.ᵉ Francisco disse:
—Então, como vae o trabalho?
—Bem, graças a Deus.
O sacerdote não sabia como principiar a conversa que tinha por fim averiguar quem eram os que com Julião frequentavam a capela evangelica. Assim é que, com uma refinada sagacidade, disse:
—Eu não vejo um grande movimento de obras em Madrid. Não ha construções; quem tem dinheiro guarda-o, e isso não é bom sinal.
—Pois agora vae ter logar um grande numero de edificações, e eu espero tomar de arrematação tudo o que diz respeito á minha arte, num novo bairro que se vae abrir.
Os olhos do padre faiscaram raios de alegria, porém dissimulou quanto pôde, e, com ares de indiferença, disse ao vidraceiro:
—E quem é o capitalista que vae empreender essas construções?
—O conde de X...—respondeu Julião, emquanto colocava um vidro no caixilho da janela.
O padre saltou de alegria. Se Julião o tivesse visto, desde logo teria suspeitado de alguma coisa; porém, felizmente para o sacerdote, e infelizmente para ele, estava de costas, ocupado no seu trabalho, e não pôde notar coisa nenhuma.
—Isso é bom, mestre, isso é bom—disse o P.ᵉ Francisco—ter bons freguezes; agora o que é preciso é não os deixar fugir.
—É casa que paga muito bem aos operarios e artistas a quem dá trabalho.
—Diga-me agora: no caso de que seu filho viva, que modo de vida pretende dar-lhe?
—Ele é ainda muito pequenino para falarmos disso; porém, sem embargo, o que eu lhe afirmo é que não violentarei a vocação de meu filho; ofereci-o ao Senhor, e teria muito gosto em poder vêl-o um ministro d’Ele.
—Porém, homem, se me permite, dir-lhe-hei que não pode haver um fiel ministro do Senhor fóra da egreja romana.
—Perdõe, sr. P.ᵉ Francisco; porém, se um individuo prega o Evangelho com fidelidade, esse tal é um fiel ministro do Senhor.
—Bem, não nos metamos em discussão; porém creia-me, e é só isso o que lhe digo, que se não muda de idéas a mão de Deus retirar-se-ha de si.
—Pois eu creio exactamente o contrario, porque Deus me ama.
Nisto Julião terminou o trabalho da colocação dos vidros, e em seguida despediu-se do P.ᵉ Francisco, que lhe disse que lhe mandaria, dahi a momentos, a importancia da obra.
Quando Julião saiu, o P.ᵉ Francisco exclamou:
—Anda, imbecil; vendeste-te a ti mesmo. Então queres que essa creança cresça, para que ámanhã seja uma vibora para os catolicos?! Antes disso morrerás tu de fome! A guerra está declarada... Ou eu te reduzo á miseria, ou tu renegas o protestantismo. A senhora do conde de X... é confessada dum amigo meu, e já podes, miseravel vidraceiro, contar com a freguezia perdida. Agora mais do que nunca, vou ser seu amigo, e veremos.
Entretanto, Julião chegou ao portal onde se encontrou com mestre João, o qual disse ao vêl-o:
—Olá, sr. João, como vamos?
—Eu—respondeu o carpinteiro—vou bem, graças a Deus. Porém donde vem o visinho?
—Aposto que não atina.
—Eu não.
—Pois venho do andar de cima, de pôr uns vidros.
—De casa do P.ᵉ Francisco?—perguntou mestre João, surpreendido.
—Sim, senhor, de casa do P.ᵉ Francisco mesmo. Mandou-me chamar, subi e portou-se comigo muito bem.
—Pois sabe você o que vejo em tudo isso? É que o padre trama alguma coisa contra si.
—Isso mesmo me disse Dôres; porém não deixa de ser um mau pensamento, tanto da sua parte como da parte dela. Não abrigue em si maus pensamentos, sr. João, pois já sabe que Jesus disse: «Não julgueis para não serdes julgados, pois que com a medida com que medirdes vos medirão a vós tambem».
—É verdade isso, amigo; porém tambem deve saber que no mesmo capitulo Jesus disse: «Pelos frutos os conhecereis». Já vou aprendendo alguma coisa da Biblia.
—Alegro-me muito com isso, sr. João, alegro-me muito. Até logo.
Ambos os visinhos se separaram, indo cada qual para sua casa.
Estamos no interior da egreja de ..., em Madrid.
Á direita da porta da entrada ha um canto escuro, e nele uma especie de guarita, mais ou menos artistica, que é aquilo a que a egreja romana chama um confessionario.
Ali dentro senta-se uma personagem mais sombria ainda; junto á grade do confessionario está uma senhora elegantemente vestida. Não podemos saber se é nova ou velha, porque tem o rosto coberto com um véu negro.
Aproximemo-nos silenciosamente, e, ainda que nos alcunhem de indiscretos, escutemos a confissão desta senhora, a qual pode interessar-nos alguma coisa. Neste momento fala o padre.
—Quanto tempo tem V. Ex.ª deixado passar desde que se confessou pela ultima vez?
—Quinze dias, meu padre—respondeu a penitente;—mas não me dê esse tratamento, peço-lhe.
—Quinze dias! Porque esteve todo esse tempo sem vir ao tribunal da penitencia?
—Meu padre, não tenho podido, porque... nos foi necessario, umas vezes, receber em nossa casa, outras ir ao Paço, e ainda outras ocuparmo-nos de coisas similhantes.
—Isso não é desculpa, mas, emfim, sente-se arrependida de ter deixado decorrer todo esse tempo sem vir lavar a sua alma?
—Sinto-me, sim, senhor.
—Passemos a outro assunto. Cumpriu a ultima penitencia?
—Sim, padre, e acrescentei tres missas no altar de S. Sebastião.
—A Virgem lhe recompensará essa acção.
—Ah, meu padre, tenho tanto de que acusar-me! Sou uma tão grande pecadora!
—Animo, filha, animo! Entregue todos os seus cuidados ao confessor, que acha sempre disposto a perdoar, pois que lhe foi conferido esse poder por Jesus Cristo, quando Este disse: Et quodcumque ligaveris super terram erit ligatum est in coelis, et quodcumque solveris super terram, erit solutum est in coelis. Comecemos agora a confissão pelos mandamentos.
—Acuso-me de não amar a Deus, pois que, se O amasse, não O teria ofendido.
—Adeante.
—Posto que não tenha muito o costume de jurar, creio que o fiz.
—Quantas vezes por mez?
—Não me lembro, meu padre.
—Quantas vezes por dia?
—Não posso tambem dizer.
—Quantas vezes por hora, ao menos?
—Não sei, já disse.
—Em resumo, não sabe coisa alguma... É natural. Tanto tempo sem se confessar! E com respeito ao terceiro mandamento, o de
guardar os dias santificados?[2]
—Acuso-me de, na quarta-feira da semana passada, que era dia de festa, não ter ido á missa.
O padre fez um movimento brusco, e exclamou numa voz a custo reprimida:
—Isso é demais, senhora condessa. Não posso tolerar que caia em similhantes faltas, e se V. Ex.ª...
—Meu padre—murmurou, aterrada, a dama,—não me dê esse tratamento. Quando me trata por condessa, fico a tremer, porque é para mim um sinal de que está zangado.
—E estou-o, com efeito, minha senhora; não assistir á missa em dia de preceito é uma coisa horrivel. Não posso perdoar-lhe. Chore, chore, mas lembre-se de que o que é necessario são atos e não lagrimas.
—Imponha-me a penitencia que quizer; estou disposta a cumpril-a; por minha parte mandarei hoje dizer duas missas no altar das almas.
—Bem, bem, é preciso emendar-se, porque o diabo, oh! o diabo é muito sagaz, e, como sabe que a senhora condessa é tão boa, quer distrail-a do cumprimento dos seus deveres, e isso é obra de Satanaz. Vá, continue.
—O quarto, honrar pae e mãe; mando dizer muitas e muitas missas por alma de meus paes, e assim os honro; amo e respeito os ministros do altar.
—Tem rezado pelo nosso pae espiritual, o Sumo Pontifice?
—Sim, padre; tenho rogado a Deus para que aumente os seus dias e a sua infalibilidade, para bem da egreja.
—Isso é muito louvavel, minha filha, e a Virgem vê com agrado tudo o que fazemos.
Passemos ao quinto mandamento.
—Disso não tenho que acusar-me.
Não é estranho que a condessa de X... não sentisse remorsos na sua consciencia em face deste mandamento; pois ela, como a maior parte dos catolicos, ignorava que não mata o seu similhante só aquele que dá um tiro ou uma punhalada, cometendo peor acção aquele que mata a honra do individuo; pois que a calunia é peor do que um punhal.
Porém continuemos escutando a confissão, pois que, absorvidos nas nossas reflexões, deixámos de ouvir um mandamento. O padre diz:
—Tem alguma coisa de que acusar-se com respeito ao setimo mandamento?
—Não, padre; pelo menos que eu me lembre.
—E com respeito ao oitavo?
—Padre, algumas vezes tenho mentido.
—Quantas?
—Não me lembro, padre.
—Porém, mentiras graves ou leves?
—Não, senhor; não são graves.
—Nada diremos do nono; porém o que me diz ácerca do decimo mandamento?
—Digo, padre, que desejo servir a Deus e amal-O sobre todas as coisas.
—Deseja servir e amar a Deus?
—Sim, padre.
—Pois essa é a tarefa mais dificil e, portanto, a mais meritoria nestes tempos. A heresia tem invadido tudo; hoje diz-se mal de tudo; põe-se em duvida o poder da Virgem, e fazem-se esforços inauditos para destruir a religião que recebemos dos nossos paes.
A condessa deu um suspiro.
—Sim—continuou o padre,—é preciso desagravar a tão fortemente agravada Virgem Maria, e os maiores inimigos que tem a religião são os protestantes.
—E quem são essas pessoas?
—É uma canalha, senhora condessa, uma canalha; inimiga do clero e da nobreza... Porém são de uma sagacidade pasmosa, metem-se em toda a parte e, como pertencem ás mais infimas camadas da sociedade, necessitam de trabalhar para comer, e não se lhes importa comer o pão daqueles proprios a quem odeiam... Oh! aquelas pessoas que teem operarios devem ser muito cautelosas em saberem a gente que empregam no seu serviço!
—Hoje mesmo falarei ao administrador da minha casa, e, se houver lá algum operario nessas condições, será imediatamente despedido.
—Pois era ahi que eu queria chegar, sr.ª condessa. V. ex.ª tem muito perto de sua casa um protestante.
—Jesus! Maria Santissima!
—Sim, senhora, é o mestre vidraceiro a quem o sr. conde vae dar trabalho no novo bairro que projeta mandar edificar. Certamente que todo o dinheiro que ganha o empregará contra os padres, e em favor dos da sua seita.
—O vidraceiro é protestante!
—Sim, senhora; tão protestante como o foi sua mãe, a qual morreu sem se confessar, exatamente como se fosse um cão.
—Pois nas poucas vezes que o vi pareceu-me bom homem. O outro dia vi-o falar com os creados, e chamou-me a atenção o interesse com que o escutavam.
—Provavelmente estaria prégando as suas perversas doutrinas.
—E que devo fazer?
O confessor figurou uma grande surpreza e exclamou:
—Pergunta v. ex.ª o que deve fazer? E v. ex. diz que serve a Deus?
—Padre, padre—interrompeu a condessa, chorando copiosamente,—não me atormente; perdão, senhor, perdão... Aconselhe-me o que devo fazer...
—É de todo o ponto preciso que v. exª e o sr. conde chamem esse homem, e, se ele não abandonar o seu erro, devem despedil-o e retirarem-lhe toda a protecção.
—Porém, padre, ele pode dizer que não é protestante ou que deixa de o ser; e nesse caso que fazer?
O padre ficou pensativo, e depois respondeu:
—Em qualquer dos casos, v. ex.ª não o despede até que eu a avise; porém, se teima em confessar as suas idéas e é pertinaz, então rua com ele no mesmo instante.
—Assim o farei, meu padre; porém permite-me uma pergunta?
—Sim, senhora.
—Como soube isso do vidraceiro?
—Senhora, nós, os ministros da religião, velamos pelas almas que nos estão confiadas. Vamos, porém, adeante. Tem mais alguns pecados de que acusar-se?
—Sim, mas não me lembro deles.
—Bom; eu perdôo-lhe todos os pecados, tanto os confessados como os esquecidos, sub conditione.
—Como?
—Com a condição de que ha de fazer o que lhe tenho dito.
—Sim, padre, sim.
—Pois agora vou dar-lhe a seguinte penitencia: jejuar durante sete dias, rezando em cada dia, á hora a que devia almoçar, um rosario, tres salvé-rainhas e tres crédos; além disto, deve ouvir sete missas, sendo quatro pagas por v. ex.ª, em desagravo de Maria Santissima e pelas bemditas almas do purgatorio; isto como justa expiação de ter ficado sem missa no dia preceituado pela egreja como dia de guarda.
—Agora, pergunto-lhe: sabe de alguma esmola que eu possa fazer?
—As freiras de A. precisam dum sino maior do que aquele que teem.
—Pois bem, eu me encarregarei disso. Far-lhes-hei presente dum sino cujo som seja claro e se ouça distintamente ao longe.
—Bem, filha, muito bem; isso é muito meritorio, pois que o sino é a voz de Deus. (Pobres visinhos dos arredores do convento!).
—Agora—continuou o padre,—prepare-se para eu a absolver.
A condessa curvou-se, dizendo o acto de contrição, emquanto que o sacerdote pronunciava algumas palavras em latim. Depois deu a mão a beijar á condessa, e saiu do confessionario, emquanto que ela se levantava pensando na penitencia que tinha de cumprir.
Agora tres perguntas e tres respostas:
Quem perdeu nessa confissão?
O nosso amigo Julião e os visinhos do convento de A.
Quem ganhou?
As freiras do convento de A. e outros.
É esta a confissão que Nosso Senhor Jesus Cristo e os apostolos ordenaram, em Seu nome?
Os leitores que respondam.