Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 19 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XIX Evangelicos e romanos

CAPITULO XIX

Evangelicos e romanos

 

Ao aceitar o dinheiro que tão generosamente lhe mandou o seu visinho João, Julião aceitou tambem as condições das obras que ele lhe ofereceu para tomar de empreitada. Por este motivo foi forçado a sair de Madrid, mas, como não queria que se suspendessem as reuniões, encarregou delas um joven evangelista, o qual continuou prégando durante o tempo em que Julião esteve ausente.

O joven a quem Julião deu o encargo de continuar a obra por ele principiada fêl-o apezar de quantos obstaculos lhe pozeram para o dissuadir disso o padre Francisco e os seus.

Entretanto, os costumes duma grande parte dos visinhos iam-se reformando notavelmente, graças á poderosa influencia do Evangelho.

—Bons dias, senhora Dôres—diziam á esposa do nosso amigo.

—Bons dias—respondeu ela—; então como vamos?

—Muito bem. Diga: haverá esta noite culto?

—Sim, senhora; esta noite, como todas as outras.

—Alegro-me muito com isso, porque não quero que meu marido perca um. Não sabe que desde que ouviu o Evangelho está mudado? Não sabe que já no domingo não foi jogar á bola?... Nem se embebedou. Saiu pela manhã, ás dez e meia; e eu desde logo voltei-me para Deus para pedir-Lhe: «Senhor, permiti que o meu José não se embebede hoje». Á meia hora depois do meio-dia disse-me: «Francisca, prepara-te e prepara o pequeno, que vamos dar um passeio». Acredite-me, Dôres, que julguei que estivesse sonhando. Quando fui para a alcova para vestir-me, pulava de alegria.—Imagine, ha doze anos que estamos casados e ha onze que não sahia com ele. Vesti-me, arranjei o pequeno, e quando chegámos á porta da rua, sabendo o seu costume de, logo que sahia, se dirigir para o jogo da bola, encaminhei-me para esse lado, mas ele disse-me: «Vamos por este lado, pois que odeio o sitio onde se joga a bola: quantas bofetadas te dei por ir ali!». Interroguei-o ácerca do caso, e disse-me que desde uma noite em que o seu marido leu e falou sobre um texto que diz, «Não vos enganeis, porque nem os que se dão a bebedices entrarão no reino de Deus», essas palavras gravaram-se-lhe de tal modo no coração, produzindo-lhe tal impressão, que desde então até agora não tornou a embebedar-se.

—Muito me alegro pelo que me diz ácerca da mudança de seu marido—disse Dôres—; pelo que deve dar graças a Deus, não a meu marido; pois só Deus é o que pode mudar os corações, e Ele é quem mudou o coração de seu marido.

—Diga-me, senhora Dôres: sendo tão bom aquilo que o seu marido diz, porque é que os padres lhe fazem tanta guerra?

—Pois a razão é clara: emquanto eles, por exemplo, dizem que ha um purgatorio, meu marido e todos os que crêem na Biblia, que é a Palavra de Deus, negam a existencia de tal logar; porque na Palavra nada se diz a tal respeito. Emquanto os padres, dizendo que são os sucessores dos apostolos, asseguram que praticam o que aqueles praticaram, nós, os cristãos evangelicos, lhes perguntamos com a Biblia na mão em que logar disse missa algum dos apostolos, ou lhes pedimos que nos mostrem as indulgencias concedidas por S. Pedro ou S. Paulo.

—Tem toda a razão. Até depois.

Entretanto, os visinhos partidarios do catolicismo, ou, antes, aqueles que, sendo indiferentes a toda a denominação religiosa, eram cegas maquinas do padre Francisco, faziam os maiores esforços, já que não podiam impedir as reuniões, ao menos para estorvar a tranquilidade que deve reinar nelas.

Para que os nossos leitores possam formar uma idéa do que costumam fazer os inimigos do Evangelho, referiremos o que se passou um domingo á noite em casa do sr. Hipolito, emquanto se celebrava o culto.

Como dissemos, era domingo.

Ás oito horas da noite, a habitação do sr. Hipolito estava cheia de gente. Num dos extremos da sala ha uma mesa, e por detraz dela está um joven de vinte a vinte e cinco anos de edade, vestido modestamente: fala sobre o que está escrito no Evangelho de S. Mateus, cap. 7:16. «Pelos seus frutos os conhecereis».

Emquanto ele se esforçava por demonstrar aos seus ouvintes como cada um mesmo podia conhecer-se e dar a conhecer aos outros se era cristão, o teto da sala parecia vir abaixo.

Pancadas no soalho, gargalhadas, cantigas em altas vozes, ruido de objetos que rodavam em direcções opostas, um barulho similhante ao duma habitação de loucos, e não dum aposento onde vivessem creaturas racionaes.

Além do incomodo que isto causava, distraindo aqueles que escutavam, não pode dizer-se o mal que isto causava ao prégador, distraindo-o tambem e obrigando-o a levantar a voz e a não descançar um momento afim de manter a atenção do auditorio.

—Sim—dizia ele,—pelos frutos bons ou maus de cada um, isto é, por meio das nossas obras na vida diaria, é que conhecemos e damos a conhecer se somos cristãos...

Neste momento uns fragmentos de gesso cairam do teto, emquanto que se sentia um ruido infernal.

Alguns dos que estavam escutando sairam e dirigiram-se á habitação do visinho de cima para pedir-lhes que fizessem menos barulho.

Penetremos nós ali para ver em que se ocupam aqueles servos de Roma.

Em uma pequena habitação acham-se umas vinte pessoas de ambos os sexos, que ao som duma guitarra desafinada saltam, pateiam, correm, vão e veem.

Sobre uma mesa suja e imunda está um grande jarro com vinho.

A desordem que reinava era medonha. Ao principiar a festa, a dona da casa havia-lhes dito que o objeto da reunião era impedir, por meio do barulho, os cultos protestantes que se celebravam no quarto que ficava pelo lado de baixo. Para melhor os animar, disse-lhes um sem numero de desatinos que devemos calar, e por fim declarou-lhes que o padre Francisco lhes pagava aquele jarro de vinho, pão e queijo, para passarem agradavelmente aqueles momentos.

Quando souberam que o fim com que ali se reuniam era para dar escandalo, fizeram-no com a maior alegria.

Cantavam as mais grosseiras canções, misturadas com freneticos morras dados aos protestantes; e não é de estranhar que fizessem tudo aquilo em nome da religião, visto que era um sacerdote quem pagava a despeza, e tudo era feito por inspiração sua.

As pessoas que se dirigiam a este foco de infamia chegaram por fim. Ao aparecerem, cessou o barulho, e um deles, que vivia na casa, disse á senhora Joana:

—Vimos pedir-lhes que façam menos barulho, pois aquilo que estão fazendo é indicio de má creação, que não podemos tolerar.

—Nós—replicou a senhora Joana—estamos em nossa casa, onde ninguem manda, e onde podemos fazer o que muito bem nos der na vontade.

—Sim, menos incomodar os visinhos; é esta uma casa em que vivem muitos moradores, e portanto não ha que atender á comodidade particular, mas sim á geral.

—Sabe o que lhe digo?—respondeu, desagravando-se, a senhora Joana—pois se nós os incomodamos com o barulho do baile, bailem vocês tambem: e incomodar-nos-hemos dessa maneira mutuamente e... Além disso, se vocês não estivessem fazendo bruxarias, não teriam dado logar a isto. Sobretudo, estou em minha casa... e o que disse está dito.

—Olá!—acrescentou, dirigindo-se aos seus amigos,—toca a bailar. Viva a religião! Morram os protestantes!

Era quasi certo que romanos e protestantes viriam ás mãos, se não se apresentasse a autoridade do logar, acompanhado do dono da casa em que se celebrava o culto evangelico.

A dita autoridade foi presenciar a reunião evangelica, e foi testemunha ocular de tudo o que se passou; pelo que, chegando á porta do quarto, no momento mesmo em que Joana pronunciava as palavras que já conhecemos, disse:

—Boas noites, senhores.

Aquelas «boas noites» fizeram com que o socego se restabelecesse.

—Parece-me que é demasiado o barulho que vocês fazem, e venho dizer-lhes que isso incomoda os visinhos.

Um dos homens, que estava tocando a guitarra, levantou-se e, dirigindo-se ao recemchegado, sem saber quem era, disse-lhe:

—Quem é você para falar assim? Creia que já me aborrece tanto palavriado, e, se me chega a mostarda ao nariz, nem você nem nenhum dos protestantes que estão lá em baixo fica com um cabelo na cabeça.

—Parece-me que o vinho faz com que fale desse modo, aliás...

—Se não se cala—interrompeu o homem,—arremesso-lhe daqui mesmo onde estou com... Já lhe disse, quem é você? É porventura algum protestante?

—Sou quem agora mesmo o leva para a casa de detenção; sou o regedor da freguezia.

E ao ouvir isto todos ficaram como estatuas.

—Senhor regedor—disse, passados alguns momentos, a dona da casa, com uma entoação tão servil agora como antes tinha sido insultante—senhor regedor; eu lhe confessarei por que razão estamos fazendo o que vê, se nenhum mal nos fizer.

—O escandalo sempre é escandalo, e o meu dever é castigal-o; porém queira dizer.

—O padre Francisco, que vive no andar superior, dá-nos algumas pesetas para fazermos barulho e interrompermos as reuniões protestantes que se celebram lá em baixo, e nós sem saber... pois... o faziamos.

—Bom; vamos ter com o padre; porém venha a senhora comigo.

Todos desceram, e, ao passarem pela porta, aberta de par em par, da casa do sr. Hipolito, ouviam a voz do prégador, que, terminando o culto, orava, dizendo naquele proprio instante:

—«Senhor, perdôa aos nossos visinhos lá de cima, que em sua cegueira profanam o Teu santo dia, dando escandalo. Senhor, eles crêem que desse modo abafarão a Tua palavra; já vês o seu erro. Entretanto faze que nós demos frutos que manifestem a diferença que ha entre os que Te conhecem e os que Te não conhecem.