Julião e a Bíblia
CAPITULO XI Um culto funebre
CAPITULO XI
Um culto funebre
Ao cair da tarde do domingo de que nos ocupámos no capitulo anterior, um grande numero de pessoas sahia da casa do nosso amigo Julião.
A maior parte das pessoas que foram ver o cadaver, depois que sahiam, ficavam á porta ou na rua, formando pequenos grupos.
Quasi todos os que ali estavam reunidos eram membros da egreja a que Julião e sua familia pertenciam.
O ministro, ao terminar o culto daquele dia na sua egreja, anunciou do pulpito que tinha falecido uma irmã em Cristo; disse onde morava, a hora a que devia realizar-se o enterro, e por isso se achavam ali tantas pessoas reunidas.
A aglomeração de gente chamava a atenção e atrahia um grande numero de pessoas.
Como era muito natural, entre a multidão não havia conformidade de idéas ou de crenças, e por isso não era raro ouvirem-se dialogos mais ou menos burlescos ou sérios, mas que denotavam a mais completa ignorancia ácerca das Escrituras, e o fanatismo por parte duns e o conhecimento mais ou menos profundo delas por parte doutros.
Ouçamos alguns desses dialogos.
—Que enorme quantidade de gente que vem ao enterro da protestante!—dizia uma mulher a outra.
—Sim—respondeu ela.—Vem muita gente. Serão todos amigos de Julião?
—Não; veem para fazer numero e para que se diga depois que ha muitos protestantes em Madrid.
—Ouçam lá—interrompeu outra mulher das que estavam no portal, e que ouvira a conversa,—nós que estamos aqui não viemos para fazer numero, mas sim porque nos amamos uns aos outros, como Cristo nos amou.
As duas visinhas ficaram por um momento silenciosas, fitando de alto a baixo a mulher que havia interrompido a conversa. Por fim uma delas disse:
—E diga-me, minha senhora: neste enterro dão velas?
—Não, senhora, porque não precisamos de velas.
—Como se meteu na nossa conversa julguei...
—Quê?
—Que davam velas.
—Pois já fica sabendo que não.
—Parece-me que a senhora é uma dessas agentes do protestantismo que andam a arranjar pessoas para a seita; porém advirto-lhe que aqui perde o seu tempo, porque, pelo que respeita a nós, nem a senhora nem ninguem nos engana. Vá, amigasinha, vá divertir-se no enterro, e passe muito bem.
Entretanto, um homem, já de edade avançada, discutia na rua com varios jovens que o rodeavam.
—Sim, senhores: entre nós, quando um irmão morre, somos nós mesmos que o conduzimos e o enterramos com as nossas proprias mãos, sempre na terra, porque nos cemiterios evangelicos não ha nichos, nem galerias, para os cadaveres, e que custam dinheiro; de modo que quem entra num cemiterio catolico pode muito bem figurar-se que está lendo os preços dos logares dum teatro, onde o rico se assenta num camarote, e o pobre vae para a geral.
—Isso é muito natural—disse um.
—Não o julgo assim; pois, ensinando-nos os padres que uma das obras de misericordia é enterrar os mortos, são eles proprios que levam dinheiro.
—Ouça lá—interrompeu outro,—tambem muitas vezes enterram de graça.
—Sim!—exclamou o velho—bonito enterro, não tem duvida! Comparemos. Morre qualquer pessoa que deixa, por exemplo, uns dois mil duros. Então a egreja, que é de todos, se converte no patrimonio dum. Ao longo das naves colocam bancos cobertos de pano preto; acendem-se todos os altares; as luzes, em volta da eça, não teem numero; no côro cantam-se os hinos proprios, acompanhados por uma orquestra, que á noite terá de servir no teatro; os sacerdotes trajam as suas mais ricas vestes e... que sei eu quantas coisas mais; os padres cantam com toda a força dos pulmões, os meninos do côro correm alegres dum lado para o outro: o sacristão anda numa roda viva: o defunto é gordo e... tanto basta... Porém morre um pobre. Pois então a coisa muda completamente de figura. Uma mulher miseravelmente vestida dirige-se a casa do pároco, e diz-lhe, entre lagrimas e soluços, que lhe morreu seu marido, seu pae ou seu irmão; o padre toma nota das indicações que a mulher lhe dá, porém quando vem a saber que é pobre e que tem de fazer o enterro por caridade, diz-lhe que se retire, e que á hora aprasada lá irão buscar o cadaver. Ora, porque o padre tem que fazer, não vae a casa do defunto; os doridos pedem aos visinhos que o acompanhem ao cemiterio; estes assim o fazem, e, quando lá chegam, aproxima-se o padre, que diz um tal latinorio qualquer, deita-lhe uma hissopada de agua, a que chamam benta, e retira-se. Ora diga-me: É isto uma obra de misericordia? Onde está aqui a caridade?
—Que divertido é o velho!—disse um daqueles jovens.
—Que divertido! que divertido!—gritavam outros bons catolicos.
Neste momento ouve-se dizer: «Ahi vem o ministro.»
Efectivamente no meio do grupo que discutia apresentou-se um cavalheiro vestido de preto, que disse.
—«Recebei o fraco na fé, e não para contendas de disputas.»
Em meio do silencio repentino que produziram as palavras desta personagem os jovens criticos desapareceram.
Entretanto o ministro disse-lhes como o haviam informado do sucedido e aconselhou prudencia, entrando depois na casa mortuaria, seguido dum grande numero de pessoas.
Um silencio profundo, sómente interrompido pelos soluços entrecortados dalgumas pessoas, reinava na sala onde estava depositado o cadaver de Josefa.
Junto á janela do pateo estava apinhado um grande numero de pessoas, tanto visinhas como estranhas, e diz-se que o proprio Padre Francisco, que morava no andar superior, estava entre o povo, vestido á secular, com o fim de perturbar a ordem. O corredor e o portal estavam atulhados de pessoas.
Depois que o ministro proferiu algumas palavras, disse:—Agora vamos celebrar um culto ao Senhor, e para isso vamos pedir-Lhe o Seu auxilio.
Todos os circunstantes se descobriram, e a voz do ministro se elevou em tom solene, dizendo:
«—Em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo. Amen.
—Cantemos o hino seguinte:
Tu és a minha esperança,
Achou minha alma em Ti
A paz e segurança
Que carecia aqui.
Desde que a Ti conheço,
Desde que Te abracei,
Receios mais não sinto
Nem tremo mais da lei.
A espada da justiça
Suspensa sobre mim,
Foi já descarregada,
Meu Salvador, em Ti.
O golpe que levaste
Foi só em meu logar,
Porquanto, assim quizeste
Por fiador ficar.
Ah! quanto amor sentias,
Meu Salvador, Jesus!
Quando por mim morreste
Na ensanguentada cruz.
E quanto não me cumpre
A vida consagrar
A Ti, que Te ofereceste
Minha alma resgatar.
Terminado o hino, que produziu opiniões desencontradas nas pessoas presentes, o ministro, abrindo a sua Biblia, disse:
Escutae, meus irmãos e amigos, o que está escrito na Palavra de Deus, na primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15.
Quando o ministro terminou a leitura, disse:
Meditemos agora sobre o versiculo 22 do capitulo que acabamos de ler.
Amados irmãos e amigos: Deus, por um ato da Sua infinita misericordia, reuniu-nos hoje aqui em redor dum cadaver para obrigar-nos a pensar no que somos e quando e como morreremos. Com relação ao primeiro ponto, o que é a vida do homem, as Escrituras nos dizem que é vaidade, e que os seus dias passam como a sombra. No livro do Eclesiastes lemos: «Quem sabe qual é o bem do homem na vida? Todos os seus dias são vaidade, os quaes passam como sombra.» Agora na presença deste cadaver, que é um dos muitos testemunhos sagrados que existem, o homem perguntará: «Nasci eu tão sómente para sofrer e morrer?» Não, certamente. O homem não foi creado para sofrer e morrer, o homem foi creado para gozar e ser feliz; porém o homem, por um ato do seu livre arbitrio, atraiu a morte sobre si e sobre toda a terra.
Pouco a pouco foram-se todos retirando, e muitos daqueles que ali tinham ido por curiosidade ou por espirito de critica sairam, dizendo o que disse a mulher que foi ver se descobria no caixão o presunto, o vinho e os pães:
—Não se pode dizer nada em presença disto. O que é certo é que isto é mais serio e ha nisto mais verdade do que em tudo o que vêmos na nossa egreja. Desde hoje, ainda que eu o não seja, defenderei os protestantes, e ámanhã... ámanhã, quem sabe?...
O enterro de Josefa, ou, antes, a sua morte, foi um acontecimento para os visinhos da casa que já conhecemos.
«Então como vae o trabalho?»
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Faziam-se os mais singulares comentarios; e na visinhança falava-se animadamente disto. Para podermos apreciar a sensação que aquele ato causou, ouçamos alguma coisa do que se diz.
Estamos no corredor do terceiro andar da mesma casa em que morava Julião.
—Diga-me cá, senhora Francisca. Esteve hontem no enterro protestante?
—Sim, senhora Amalia, estive, e creia que o que diziam do pão e do vinho é mentira.
—Como?
—É o que lhe digo, e, se não se fia em mim, pergunte-o á senhora Vitoria, que foi comigo.
—Filha—disse Vitoria,—o que lhe sei dizer é que aquilo é mais serio do que o que imaginei, e que nada se parece com os nossos enterros. No enterro dos protestantes ha mais caridade do que nos nossos.
—Pode muito bem ser—replicou Amalia—que os padres falem mal dessa religião porque não lhes convenha que ela se estabeleça entre nós.
—Senhoras—disse Vitoria,—proponho que vamos á egreja protestante para vermos o que aquilo é.
—Sim, sim, iremos.
—Porém, amigas—disse Francisca,—não teem observado que caracter tão bom é o da familia de Julião?
—Sim, sim—respondeu Vitoria,—não negam um favor a ninguem. Olhe, quando meu marido caiu enfermo, Dôres foi a primeira que veiu perguntar se era preciso alguma coisa, e ao sair deixou-me um duro, que eu lhe quiz restituir, e que ela nunca quiz receber. São muito caritativos.
Assim continuam falando; porém deixemol-as para irmos ouvir dois amigos nossos.
—Creio, querida Brigida, que já estarás convencida, e que se antes julgava mal era porque me haviam dito o contrario do que tenho visto.
—Minha mãe, não resista ás verdades do Evangelho. Viu como morreu a mãe de Dôres. Que fé não manifestou até ao seu ultimo suspiro! E, como vê, ela não se confessou nem comungou, e no emtanto recebeu a morte com a alegria que todos presenciámos.
—É verdade, é verdade!
—Creia-me, minha mãe, no que lhe digo. Venha comnosco á capela, e verá como ali se fala de Jesus. Tenha fé para ter vida em sua alma. Jesus é tudo, e sem Jesus não ha nada. Jesus é amor, como Seu Pae é amor; e se o amor do Pae se demonstra duma maneira tão manifesta, em dar Seu Filho para morrer por nós, não foi menor o amor de Jesus em dar-Se a Si por nós.
—Bom, bom; irei á capela, e verei. A verdade é que tenho visto coisas que me teem agradado.
Taes eram as disposições em que esta familia se achava. Em casa de Julião reinava a mais completa tranquilidade. A loja foi aberta no outro dia á hora do costume, e tudo voltou a seguir o seu curso ordinario. A fé daqueles dois esposos havia resistido áquela durissima prova.