Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 10 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO X De corpo presente

CAPITULO X

De corpo presente

 

Passados os primeiros momentos de confusão, que sempre sucedem num caso como o que acabamos de presenciar, Julião, com uma tranquilidade de espirito admiravel, principiou a dispôr tudo o que era preciso para as ultimas homenagens que devia tributar áquela que fôra sua mãe.

Ás oito horas da manhã, um grupo de mulheres estava conversando num dos corredores, e, antes de entrarmos no quarto mortuario, escutemos o que dizem.

—Sabem vocês o que sucedeu?—dizia uma das mulheres.

—Sim—respondeu uma delas;—morreu a mãe de mestre Julião.

—Sim, morreu! exclamaram todas, menos uma que disse:

—Pois não senti vir o Viatico.

—É claro—disse outra—que não veiu o Viatico; pois que a defunta não se confessou nem sequer recebeu a extrema unção.

—Jesus, Maria, José!—exclamaram todas em côro.

—Pois não sabem vocês que ela era protestante?—disse a primeira que falou.

—Ah!!...

—Os protestantes não comungam nem se confessam.

—Então morrem como cães?

—Sim, senhora.

—Sabe a visinha o que fazem?—disse uma;—eu presenciei-o quando Antonia esteve doente. Lêem um livro a que chamam a... a... Biblia. E na verdade que esse livro tem coisas muito bonitas: fala de Deus, de Jesus Cristo e...

—Por muito bom que isso seja—interrompeu outra,—não se confessar a gente e não comungar é mau. Pelo menos deviam fazel-o á hora da morte. Eu, pela minha parte, não sou daquelas que comem com os santos; desde que me casei, e já lá vão vinte anos, que não tornei a confessar-me; porém á hora da morte não passarei sem o fazer. Deve forçosamente ficar com cara de excomungada, essa gente, depois de morta!

—Sim, sim, ficam negros como o carvão.

—Porém ainda não sabe o melhor—acrescentou outra.

—O que é?—perguntaram as outras com interesse de o saberem.

—É que, se não comungam, não querem, em compensação, que os seus mortos morram á fome.

Uma ruidosa gargalhada soou no corredor.

—Porém, se estão mortos—disse uma,—como hão de morrer de fome?

—Pois ouça—disse um tanto irritada a outra;—eles crêem que depois de mortos comem, e por isso põem-lhes no caixão um pouco

de presunto, uma garrafa de vinho e dois pães.[1]

—Ah!—exclamou uma—isso não é verdade. Quando o padre protestante veiu ajudar a sr.ª Josefa a bem morrer, eu estava em sua casa, e ouvi-lhe dizer umas coisas muito bonitas... e... por tal modo o disse que nos fez chorar.

—Isso não é motivo para que eles não creiam que os mortos comem; olhe a visinha: no outro dia leu meu marido um livro intitulado O monstro das sete cabeças, que dizia que ha uma nação, lá muito longe, em que se crê que os mortos veem do outro mundo a este chupar o sangue dos vivos; chamam-lhe lam... lam... vampiros.

—Sim, sim, eu não os vi, porém sei que os protestantes metem no caixão do morto o que já disse.

—Porém—disse uma—para que mais questões sobre este assunto? Vamos ver a morta e dissiparemos estas duvidas.

—Sim, sim—exclamaram todas.

No mesmo instante dirigiram-se a casa de Julião.

Vamos nós tambem com elas.

Quando alguem se aproxima do logar onde ha um cadaver, parece que se respira uma certa atmosfera glacial. Ao mais indiferente e ao mais frivolo oprime-se-lhe o coração.

Quando as mulheres entraram na sala, havia nela varias pessoas, entre as quaes estavam Antonia, sua familia, Julião e Dôres.

Um profundo silencio reinava ali.

No meio da sala, e sobre uma mesa coberta com um pano de baeta negra, estava um caixão, e dentro dele o cadaver de Josefa vestido de preto, o que fazia ressaltar a brancura dum lençol que havia de servir de sudario, e que estava agora estendido ao lado do caixão.

O cadaver tinha na cabeça uma touca engomada e adornada com uma linda renda, o que lhe dava ao rosto um aspeto agradavel.

Nenhum sinal havia imprimido a morte naquele rosto, que estava branco como o arminho, sulcado de veneraveis rugas, com os olhos naturalmente fechados, os labios ligeiramente entreabertos, como se ainda respirasse, e, a não ser pela falta de movimento no peito, qualquer pessoa teria dito que Josefa estava dormindo um sono tranquilo.

Em suas mãos, estendidas naturalmente, tinha uma sempre-viva, e em seu peito seus filhos haviam colocado um amor-perfeito, como a ultima e eterna recordação que os acompanharia durante toda a sua vida.

Entretanto as mulheres que tinham ido ali com o proposito de ver o presunto, o pão e o vinho esforçavam-se inutilmente por descobrir aqueles objetos. Porém tudo foi em vão.

Mas, se não viam a comida nem a bebida, descobriram em troca outra coisa não menos importante. A sr.ª Josefa não tinha luzes!!!

Uma nova personagem entrou na sala, acompanhada duma mulher, um homem e uma creança—uma familia das relações intimas de Julião e sua mulher.

Quando apareceu na sala, passou-se uma scena de lagrimas que não tentaremos descrever.

Depois de darem desafogo ás lagrimas, aproximou-se do caixão essa pessoa que havia entrado, e que era o ministro. Depois de contemplar por alguns instantes o cadaver, disse:

—Ditosa tu, que estás agora gozando as delicias eternas na presença do Senhor.

—Não é verdade, sr. ministro—disse Julião—que o rosto de minha mãe não ficou desfigurado?

—Não; parece melhor do que quando estava doente. A que horas morreu?

—Ás cinco.

—Quaes foram as suas ultimas palavras?

—Jámais as esquecerei!... «Senhor Jesus, recebe o meu espirito.»

Houve uma pequena pausa. Por fim, o ministro disse:

—Vamos agora celebrar um pequeno culto, deixando os que já dormem no Senhor para nos ocuparmos de nós, que ainda peregrinamos pelo mundo. Meus amigos—acrescentou, dirigindo-se aos circunstantes—vamos celebrar o dia do Senhor.

Depois, tirando do bolso um livro de hinos, com não pouca surpreza da maior parte das pessoas presentes, cantaram tres estrofes do seguinte hino:

Olha a linda violeta!

Dá na sombra seu odor;

Não se queixa, não deseja

Ser notavel, nem maior.

Para a violeta humilde,

Para a mais soberba flôr,

Sopra a mesma brisa amena,

Vem do sol egual calor.

Deus a toda a creatura

Marca o proprio logar;

Dá riqueza, dá pobreza,

Tudo como apraza dar.

Jesus ama e convida

Todos para os mesmos céus:

Ricos, pobres, jovens, velhos,

Poderão reinar com Deus.

As vozes do cantico atrairam para a casa de Julião as atenções da visinhança, e por tal modo que se encheu a sala, e era grande o numero de pessoas que escutavam á porta e no passeio aquilo que para eles era uma grande novidade.

Como temos de falar do culto que se celebrou quando tiraram o cadaver de casa, passamos por alto este que ali se realisou, contentando-nos apenas com dizer que todos os que ouviram ficaram extremamente comovidos, e realmente aquela morte serviu para a vida de muitos que até então nada sabiam do nome de Jesus.

Terminado o culto, o ministro saiu, os visinhos foram-se retirando, fazendo comentarios, porém tão grande é a ignorancia que, todavia, não faltavam mulheres que dissessem:

—Não lhe pozeram no caixão nem o presunto, nem o vinho, nem os pães, mas certamente que o farão quando o cadaver sair de casa.