Julião e a Bíblia
CAPITULO XXVI O padre Francisco
CAPITULO XXVI
O padre Francisco
Já haviam decorrido oito dias desde que Julião tinha regressado a Madrid, e quatro desde que ele havia falado com o padre Francisco.
Julião tornou a encarregar-se do culto que se celebrava em casa. Uma noite, depois de prégar, anunciou aos concorrentes que na noite seguinte um novo prégador desejava dirigir-lhes a palavra, e taes coisas disse e por tal modo encareceu o assunto, chamando a concorrencia dos assistentes, e especialmente dos visinhos, que na noite de que vamos falar a sala do culto, corredor e mais dependencias, donde se podia ouvir, estavam atulhadas de gente.
No semblante de todos via-se desenhados os desejos mais veementes de conhecer o novo prégador.
Chegou, por fim, a hora de principiar o culto, e a curiosidade ia satisfazer-se.
Julião ocupou a cadeira que ficava pelo lado detraz da meza, invocou o auxilio do Senhor, cantou-se como de costume um hino, fez-se oração, e em seguida Julião leu o cap. 55 de Isaias.
Em logar de tomar o texto para prégar, Julião afastou-se para um dos lados da meza, quando acabou de ler. Neste momento abriu-se uma porta de vidraça, que ficava pelo lado de traz dele, e entrou um individuo, que veiu ocupar o logar do prégador.
Este individuo, vestido de preto, fez com que todos os concorrentes exclamassem, possuidos de profunda admiração:
—Oh! O padre Francisco!!!
Houve uns momentos de assombro geral, durante os quaes foram sentar-se a ambos os lados da meza Julião e o joven evangelista Mateus.
Passados aqueles momentos, o padre Francisco disse:
—«Sim, amigos meus, é o padre Francisco, que, tendo ouvido na palavra de Deus o convite a «todos os sedentos para virem ás aguas», cheio de sêde acode pressuroso a esse manancial de aguas divinas; o padre Francisco, que ouviu ainda a tempo o aviso de Deus: o padre Francisco, emfim, que, impelido hoje por uma força desconhecida, por uma voz que lhe grita: «para deante» vem para fazer aqui, e depois em outra parte, uma confissão dos seus erros, e uma profissão de fé. Todos sabeis quem eu sou, todos me conheceis: e por isso mesmo a vós outros, antes do que a ninguem, venho dizer-vos que creio no milagre portentoso do Santo, porque dos meus olhos tambem cairam as escamas do erro.
«Eu era cego, guia de cegos; e ai! sem o pensar, a quantos precipitei eu no barranco!
«Nescio de mim que, tendo o Evangelho em minhas mãos, jámais estudei as verdades nele contidas, fiando-me sómente na interpretação rotineira que me haviam ensinado nas cadeiras de teologia que cursei.
«Porém, graças a Deus, vim ao reconhecimento da verdade que ha em Cristo Jesus, e hoje abandono o erro que está na Egreja de Roma. De hoje em deante serei cristão de Cristo, porém não cristão do Papa; serei prégador do Evangelho, porém não serei sacerdote; perderei com isso a minha reputação, o meu credito, tudo; porém não me importa; ganhei a Cristo; é quanto basta; e a todos quantos julguem ver no meu procedimento um fim interesseiro, emprazo-os para deante do Tribunal Supremo, naquele dia em que «todo o oculto será manifesto.»
«Sim, separo-me dos erros de Roma, porque aprendi no Evangelho qual é o caminho onde se serve a Deus, e o meio que existe para entrar no céu. Se me separo da Egreja de Roma, é porque esta egreja dá ao homem um sem numero de intercessores, ao passo que a Palavra de Deus me ensina «que ha um Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.»
«Separo-me da Egreja de Roma, porque ela diz que o homem se salva por suas boas obras, fazendo deste modo que ele tome parte em sua salvação, e isto em menoscabo de Cristo, o unico Salvador, porque está escrito ácerca dele: «Em nenhum outro ha salvação, porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual possamos ser salvos», e em menoscabo da Palavra, que diz:
«Pela graça sois salvos pela fé, e isto não de vós, pois é dom de Deus.» Separo-me da Egreja Romana, porque nela tudo é material e nada espiritual, fazendo um vil negocio das coisas mais santas; pois que do mesmo modo vende tanto os sacramentos, como as bulas, como as missas, como as indulgencias, etc., etc., sem ter em conta que foi dito por Jesus: «De graça recebestes, de graça dae.»
«Não posso por mais tempo permanecer no seio da Egreja Romana, que conta entre os seus dogmas o da Transubstanciação. Meus amigos, estudei essa questão ha poucos dias, e estou intimamente convencido de que Jesus e Seus apostolos nada disseram ácerca da missa, nem tão pouco a instituiram, nem, e ainda muito menos, a disseram.
«Separo-me da Egreja Romana, porque vi que ela alterou as praticas estabelecidas por Jesus e os apostolos, aumentando, tirando ou modificando sacramentos, como vou passar a expôr: O baptismo que a egreja ministra não é o que ministraram nem João, nem Paulo, nem nenhum dos apostolos. Em primeiro logar, faz o seguinte: exorcismo do sal, que o sacerdote põe nos labios da creança; o exorcismo da creança, soprando-lhe sobre o rosto, por tres vezes; outro exorcismo de sal; o presbitero põe saliva no nariz e nos ouvidos do recem-nascido, e tambem o unge nos hombros e no peito, com o oleo dos catecumenos. Como já disse, procurei com todo o cuidado na Palavra de Deus, para ver se ela autorizava taes praticas, e não achei sequer a menor sombra destas superstições. Filipe, Paulo e Pedro, e todos quantos administraram o baptismo, sómente exigiam a fé em Cristo, sem usarem exorcismos, nem velas, nem unturas. Baptizavam em qualquer ponto onde havia agua, tendo presente o mandamento de Cristo: «Ide e ensinae, baptizando em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo.» Depois do baptismo cobram-se 24 reales, o que indica que por esta quantia Roma introduz na familia cristã um ser qualquer.
«Protesto contra a confissão romana, e aceito a Biblia. Pela primeira, o homem se confessa ao homem, a quem não ofendeu, e esquece o verdadeiro ofendido; o penitente envergonha-se dum homem e não se envergonha de Deus. Eu fui confessor, e conheço os segredos do confessionario, pelo que vos digo que fujaes dele. O homem deve confessar-se a Deus.
«Declaro que adiro ao Evangelho em toda a sua pureza; que o prohibir aos homens a leitura da Palavra de Deus é uma pratica que tem por fim levar os homens a que não vejam o erro em que vivem e o abandonem, com menoscabo da autoridade de Deus, que ordena em muitas passagens da sua Palavra que esta seja lida, sabida e estudada por todos os homens. Roma, porém, prohibe ao povo a leitura das Escrituras, e manhosamente procede do mesmo modo para com os sacerdotes, para que tanto uns como outros não vejam as adulterações e corruções que essa egreja tem feito, alterando umas coisas e introduzindo outras.
«Confesso tambem que a Egreja de Roma comete uma grande maldade, alterando o mais respeitavel de todos os sacramentos; falo da sagrada Eucaristia. A egreja romana, querendo corrigir o que Jesus fez, prohibe o calix aos fieis no ato da comunhão, ao passo que o Senhor diz: «Bebei todos dele» referindo-se, não sómente aos discipulos, mas a quantos depois deles haviam de comemorar «a morte do Senhor até que venha.»
«Finalmente, protesto contra tudo o que Roma faz, por duas razões: ou porque tudo está viciado, ou porque está em contradição manifesta com as práticas apostolicas e com a vontade de Deus.
«Confesso que, emquanto fui sacerdote (pois desde hoje deixo de o ser), procedi impelido pelo zelo e fanatismo, de que estava possuido, e porque cria fazer um serviço a Deus! Quanto me enganei! Deus me perdôe!
«Confesso que procurei fazer muito mal a este amigo—e apontava para Julião—em seus interesses; confesso que, a solicitações minhas, o capelão duma familia nobre influiu sobre certa dama, de quem era confessor, e Julião perdeu, não sómente o trabalho de certa casa, como tambem as economias que havia empregado em materiaes para aquele trabalho; d’ahi principiou a decadencia da casa de Julião, e por isso teve ele que fechar a sua loja, e aqui cometi outro pecado maior. Quando se achava na miseria, fui oferecer-lhe recursos em troca da sua consciencia. Confesso que por minha parte empreguei todos os esforços para impedir a celebração dos cultos aqui nesta casa, valendo-me de quantos meios bons ou maus estavam ao meu alcance; confesso que chamei este joven—disse ele, apontando para Mateus—com má intenção, e confesso, por fim, que fui tão grande pecador que sómente pela maravilhosa misericordia de Deus estou convencido de que Ele me perdoará, pois que lho peço em nome de Jesus Cristo, e vós todos a quem ofendi me perdoareis egualmente, porque sois cristãos e porque vol-o peço pelas entranhas misericordiosas de Cristo.»
Havia nas palavras do padre Francisco tal convicção e tal acento de verdade que, ao ouvil-as, algumas vozes se ouviram, dizendo:
—Sim, sim, está perdoado.
E a todas estas vozes sobressaiu uma, que disse:
—Bem, bem, senhor padre Francisco, V. é um bom sacerdote, liberal, honrado e honesto; perdôo-lhe tudo e estimo-o.
Foi mestre João quem disse isto.