Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 5 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO V Tlim... tlim... tlim... tlim...

CAPITULO V

Tlim... tlim... tlim... tlim...

 

No dia seguinte ao dos acontecimentos narrados no capitulo antecedente, estava tudo preparado para se levar o Viatico a Antonia.

A opinião do padre Francisco prevaleceu, e ele mesmo confessou a filha do carpinteiro. Ao anoitecer já estavam todos os amigos de mestre João e grande numero de visinhos esperando que soasse a hora marcada para irem á egreja.

Entre os visinhos faltava um, era mestre Julião.

Deixemol-os no caminho da egreja, e ouçamos o seguinte dialogo entre duas visinhas:

—É estranho que a mulher de mestre Julião não esteja neste momento em casa de Antonia, visitando-a tanto a miudo como a visitava.

—Olhe, sr.ª Tomazia, segundo o que tenho ouvido dizer, ela e o marido são protestantes, e por isso... como vão á...

—Protestantes! Vocemecê está louca, sr.ª Joana! Pois então não conheço eu Dôres desde pequenina, e não foi baptizada em S. Caetano?

—Pois filha, o que lhe digo e repito é que mestre Julião é protestante.

—Pois está muito enganada. Os protestantes não são hespanhoes nem estão baptizados.

—Então que são eles?

—São uns estrangeiros que vieram de longe, da mourama, mandados de lá para conquistarem a Hespanha.

—Pois a mim disseram-me em segredo que Julião era protestante.

—Não, esse está baptizado e é hespanhol; e ha pouco entrou em sua casa o padre Francisco; já vê que, se ele fosse protestante, não entraria ali aquele sacerdote.

—Pois é exactamente por isso que eu o sei. O padre Francisco soube que mestre Julião estava aconselhando o pae de Antonia a que não deixasse confessar a filha, e foi lá a casa para o trazer comsigo.

—É verdade! Isso é um misterio.

—Misterio não; ha quem diga...

Neste momento ouviu-se o tlim... tlim... tlim... tlim... da campainha anunciando a chegada do Viatico.

Imediatamente em casa da enferma e nas casas visinhas se estabeleceu uma grande confusão. Os moradores dos andares superiores desceram á porta da rua, uns trazendo luzes e outros com brazas nas pás, em que queimavam alfazema e incenso. O som da campainha ouvia-se cada vez mais distintamente, e os que vinham na frente com tochas acesas entraram no portal. Toda a gente se poz de joelhos. O sacerdote passou pelo meio, murmurando palavras que não se entendiam, e entrou pela porta que dava para as trazeiras da carpinteria. A porta de Julião, de que já falámos, e que ficava em frente da de mestre João, permaneceu fechada, causando este facto grande surpreza.

Emquanto o sacerdote estava lá dentro, alguns dos que tinham vindo acompanhar processionalmente o Viatico ficaram no portal, porque não cabiam no quarto da enferma, e, para não perderem o tempo, começaram a fumar e a conversar muito tranquilamente.

—Ouça lá, visinha—disse um individuo a uma mulher que estava com um candieiro na mão.—Quem mora nessa casa cuja porta está fechada e que não teve uma triste vela para alumiar o Senhor quando passou?

—Ali—respondeu a mulher, apontando para a porta que estava fechada—é a oficina de mestre Julião. Não são muito amigos destas coisas, nem ele nem sua familia; são...

—Protestantes?

—Exactamente.

—Oh! com mil bombas! Ouve tu—dirigindo-se a outro—; naquela casa mora um protestante: deveriamos chamal-o e obrigal-o á força a abrir a porta e trazer uma luz.

—Não, deixae-vos de loucuras, cada um é livre de pensar como quizer—respondeu ele.

—Bom, bom—disse um homem já de edade,—por essa tolerancia da mocidade em admitir estrangeiros é que a Hespanha está assim.

—Não—respondeu uma visinha,—ámanhã mesmo o comunicaremos ao sr. padre Francisco, pedindo-lhe que diga ao senhorio que despeça aquelas aves de mau agouro.

Neste ponto terminou a conversa, pois que tinha tambem terminado a cerimonia da administração do Viatico á enferma. Pôz-se tudo na mesma ordem; tornou a soar a campainha, e o Deus inventado pela Egreja romana saiu de casa, e lá foi novamente nas mãos dum simples mortal.

Vejamos entretanto o que estava fazendo aquela familia que conservou a porta sempre fechada, e que nem uma triste vela acendeu á passagem do viático.

Dôres, Josefa e Julião estavam sentados na sala, tendo este ultimo deante de si um livro aberto.

—Que tristeza—disse Julião—me causa tudo o que se está passando na casa de João! Que diferente é o que estão fazendo com Antonia daquilo que o Senhor ordena na Sua Palavra! Leiamol-a e vejamos o que se deve fazer com os enfermos. Na Epistola de S. Tiago, cap. V, vv. 14 e 15, lê-se o seguinte: «Está entre vós algum enfermo? chame os presbiteros da egreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o em nome do Senhor; e a salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará; e, se estiver em alguns pecados, ser-lhe-hão perdoados.» Taes são as instruções que temos na Palavra de Deus, e portanto não devemos afastar-nos delas, desprezando-as.

Façamos «a oração da fé que salvará o enfermo», pedindo a Deus por nossa visinha a quem tanto estimamos; não que a nossa oração a salve, mas sim porque é uma recomendação de Deus, e por meio da qual liberalisa a Sua graça e concede os Seus dons. Porém é preciso fazer essa oração com fé. Minha mãe e tu, Dôres, sentem-se com verdadeira fé, para pedir ao Senhor por Antonia, crendo firmemente que o Senhor a aliviará?

—Sim, responderam elas resolutamente.

—Pois então oremos ao Senhor.—Pozeram-se todos de joelhos, e, depois duns momentos de meditação profunda, ergueu-se a voz de Julião, pausada e solene, dizendo:

—Oh! Senhor e nosso Pae! Ajoelhamo-nos deante de Ti, em nome de Jesus Cristo, para Te suplicarmos que nos concedas uma benção especial. Senhor, lemos na Tua Palavra que nos mandas que oremos pelos enfermos, prometendo que «a oração da fé salvará o enfermo, e que Tu, Senhor, o aliviarás». Dá-nos a fé necessaria para Te pedirmos por Antonia, nossa visinha. Tu, oh! Deus, sabes todas as coisas, e conheces todos os corações. Sabes, pois, a situação em que se encontra a nossa amiga e o estado do seu coração. Ah! Senhor! Não permitas que, enganada por praticas vãs, que lhe ensinaram, sua consciencia continue a estar adormecida, pois que nesse caso qual será o seu despertar? Oh! bom Deus; aqui Te apresentamos a promessa; agora, Senhor, atende ao que Te pedimos: Que levantes Antonia do seu leito, e que a convertas a Ti, sarando-lhe deste modo o seu corpo e a sua alma. Senhor, concede-nos isto, faze-nos ver o Teu poder, dá consolação a seus paes, e restitue-lhes sua filha; mas, se fôr do Teu agrado leval-a para Ti, salva a sua alma. Ouve-nos, Senhor; assim To pedimos em nome, por amor e pelos merecimentos de Jesus Cristo, Teu Filho. Amen.

—Amen, repetiram as duas mulheres.

Quando se levantaram, Julião disse:

—Agora aguardemos a resposta do Senhor.

—Olha, Julião—disse Dôres,—vou ver como está Antonia, e volto já.

—Se te deixarem entrar..., observou Josefa.

—E porque não me hão de deixar entrar?

—Porque como nenhum de nós foi á porta quando passou o Viatico...

—Nesse caso—interrompeu Julião,—se te disserem alguma coisa que não te agrade, volta imediatamente para casa.

Dôres saiu, e dentro em breves instantes eil-a em casa de mestre João. Estranho contraste se apresentou então aos seus olhos! O altar de Santo Antonio estava iluminado como na vespera do seu dia, e adornado de flores; porém ás gargalhadas e ao ruido das guitarras havia sucedido o pranto; ao forte sapatear da dança, o andar de mansinho nas pontas dos pés; á atmosfera viciada pelo fumo dos cigarros a não menos viciada atmosfera do fumo do incenso e da alfazema. Na presença do Santo tinha sido a orgia, na presença do Santo as lagrimas e os soluços. E este, impassivel deante das palavras grosseiras de então, continuava impassivel agora á dôr e ao pranto de toda uma familia. Então ofereceram-lhe canções, agora oferecem-lhe orações, e, se áquelas foi completamente surdo e cego, a mesma surdez e cegueira manifesta em presença destas. O mal principiou no dia do Santo, ou antes na vespera, e quando e como acabará?

Estas ideias perpassam pelo espirito de Dôres, que pôde observar tambem como, á sua entrada, algumas mulheres que estavam na sala cessaram de falar e a encaravam com certa reserva.

—Boas noites—disse ela.

—Boas noites—responderam as pessoas que estavam.

—Posso ir ver Antonia?

As mulheres hesitaram; por fim uma disse:

—Pode ir.

Dôres entrou na alcova, e aproximou-se silenciosamente da cabeceira da enferma, inclinando-se para a ver. Antonia abriu os olhos, e logo que reconheceu que era Dôres disse-lhe com voz debil:

—És tu, Dôres?

—Sim, sou eu—respondeu ela,—como estás?

—Mal, muito mal; não sinto a cabeça.

—Pois nesse caso não fales.

—Não, não falarei; o cheiro da cera e do incenso entonteceram-me... Porque não vieste antes?

—Deves saber, Antonia, que, ainda que não esteja a teu lado, lembro-me de ti e oro a Deus por ti. Vou deixar-te. Pensa em Deus, minha amiga, e lembra-te de que só Jesus Cristo é que pode salvar-nos.

—Eu já recebi a comunhão.

—Muito bem; porém não fies a tua salvação de mais ninguem senão de Jesus Cristo. Por Ele serás salva.

—Assim o farei... porém não vás ainda, senta-te aqui junto de mim.

Dôres calou-se e sentou-se, orando em silencio por sua amiga. Passados alguns momentos, saiu para a sala, e, dirigindo-se ás mulheres que ali estavam, disse-lhes:

—Onde estão os paes de Antonia?

—Não sabemos—respondeu uma, muito secamente.

Dôres, apezar de notar que a sua pergunta não tinha sido bem recebida, continuou:

—Parece-me que as senhoras deviam apagar algumas luzes do altar. Antonia queixa-se do calor e do cheiro da cera.

—Bem sabemos—respondeu a tia de Antonia—aquilo que temos de fazer. E a proposito; a senhora far-nos-hia um grande favor não tornando aqui até que Antonia esteja livre de perigo. O confessor prohibiu que fale com certa classe de gente... e...

—Sim—interrompeu Dôres—e entre essa classe de gente estão Julião, sua mãe e sua mulher, não é verdade? Pois bem, retiro-me, porém graças a Deus que em minha casa orarei pela minha amiga, e sei que Deus me ouvirá.

—Já lhe dissemos que pode retirar-se—exclamaram todas.

—Sim, retiro-me—disse Dôres com as lagrimas nos olhos—retiro-me, e que Deus vos perdôe o mal que me fazeis.

As mulheres continuaram por alguns momentos falando, e Dôres saiu, chorando, em direcção de sua casa. Ao verem-na entrar assim, sufocada pelas lagrimas, Julião e Josefa levantaram-se apressados, interrogando-a:

—Morreu?

—Não—respondeu Dôres.

—Então que foi?

—Ai!... por ordem do confessor não podemos entrar mais naquela casa.

—E então isso é motivo para que te aflijas assim dessa maneira? —exclamou Julião.

—Sim, porque quero muito a Antonia, e desprezam-nos sem saber porquê!

—Sem saber porquê?—disse Josefa—Não digas isso; eles de mais o sabem; é porque nós somos cristãos e eles não; eis ahi o motivo.

—Porém podiamos ter feito tanto bem a Antonia... que...

—O mesmo lhe podemos fazer agora—disse Julião.—Oremos sem cessar por Antonia, e Deus nos ouvirá. Quanto ao mais, preparemo-nos para sofrer toda a classe de desprezos e insultos, porém pensemos no que disse Jesus Cristo: «Lançar-vos-hão fóra das sinagogas; e virá tempo em que, quando qualquer vos matar, julgará que com isso faz um serviço a Deus». Confiança, pois, e oremos ao Senhor pelos nossos inimigos.