Julião e a Bíblia
CAPITULO XVII O dinheiro do diabo e o dinheiro de Deus
CAPITULO XVII
O dinheiro do diabo e o dinheiro de Deus
Ás onze horas do dia seguinte áquela noite de que acabamos de falar, achavam-se Julião e Dôres em sua casa, dialogando assim:
—Com que, nada encontraste?—dizia Dôres.
—Nada, Dôres, nada absolutamente.
—E vamos ficar assim todo o dia? Não temos dinheiro para comer, e nem ainda acendi lume por não ter que cosinhar. O menino mama muito, e eu sinto-me cair de fraqueza. Que vamos fazer?
Julião permaneceu em silencio por alguns momentos, e em seu rosto via-se retratada a luta que atormentava a sua alma.
Nunca a tentação o havia perseguido com mais força. Via sofrer sua esposa, e tudo o levava a perder a sua confiança em Deus. Por fim, depois dum breve espaço de tempo, abanou a cabeça, como se quizesse afastar dela alguma idéa que mais o atormentava, e disse em resposta a sua esposa:
—O que faremos? Esperar.
«Esperar que Deus responda á nossa oração.
Neste momento o padre e outro sacerdote apareceram á porta.
—Bons dias, senhores—disseram eles ao verem o vidraceiro e sua mulher.
—Bons dias—responderam eles, e Julião acrescentou:—Que pretendem?
—Vimos—respondeu o padre Francisco—falar comsigo.
—Nesse caso entrem.
Ambos entraram, e, emquanto Julião fechava a porta, Dôres ofereceu uma cadeira a cada um deles.
O padre Francisco tomou a palavra, e disse a Julião:
—Julião, certamente estranhará a minha vinda a sua casa, não é verdade?
—E a que devo eu a honra da sua visita?
—Vimos ver se afinal nos harmonizamos.
—Não entendo.
—Pois olhe, a loja que ocupava está ainda por alugar; quer tornar a ocupal-a?
—Não, senhor, porque para isso parece-me que seria preciso fazer alguma coisa que nem sequer desejo que se me proponha.
O amigo do padre Francisco tomou a palavra e disse:
—Apezar de não ter a honra de o conhecer, fui convidado por este amigo para lhe falar.
O padre calou-se, e depois duma breve pausa continuou:
—Eu sou o confessor da sr. condessa de X... e tenho bastante influencia sobre ela. O amigo trabalhava naquela casa, e por suas exquisitas idéas perdeu o trabalho. Porém, é a coisa mais simples eu falar com a condessa e imediatamente poderá de novo ser readmitido ao trabalho no palacio. Já falei com o sr. padre Francisco sobre aquilo que poderemos fazer por si, e se abandona o mau caminho que trilha pode ainda ser feliz.
...uma carta e uma letra de dezoito libras
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—Senhor padre—respondeu Julião,—agradeço o interesse que a minha situação lhe desperta, porém é inutil que fale por mim á condessa. Hoje é um dia em que ainda não almoçámos; porém, antes morrer de fome do que negar o meu Salvador.
—Vamos, está resolvido a continuar a prégar aqui na casa?
—Mais do que nunca, respondeu Julião.
—Bonita prégação ha de fazer, se ainda não comeu.
—O Senhor me alimentará com a Sua palavra, pois que está escrito: «Não sómente o homem viverá do pão, mas de toda a palavra que sae da boca de Deus».
—Muito bem; pois agora mesmo lhe daremos duas libras se não prégar.
—Não prégar? Ora sempre os senhores teem coisas! O seu dinheiro pereça com os senhores, que julgam amordaçar com ele a palavra nos meus labios. O Senhor dá-me alguma coisa que vale mais do que algumas libras. Cristo deu-me uma coisa, a minha salvação, a qual, apezar de os senhores julgarem vendel-a a tanto por missa, não é comprada com todo o dinheiro do mundo. Não prégar!
—Porém—disse o confessor dos condes de X...—se o não faz por si, faça-o ao menos por sua esposa e filho. Vocemecê é senhor da sua vontade para se deixar morrer á fome, porém não deve obrigar os outros a que o façam.
—Julião—disse o padre Francisco—é tão credulo que julga ver entrar por aquela porta o corvo de Elias com um pão no bico.
—Sr. padre Francisco, eu não estranharia ver entrar um corvo com pão; pois Aquele que o mandou a Elias vive ainda e é todo poderoso para mandar-me a mim, não um corvo, mas sim um anjo, que me conforte.
—Vá lá—disse o padre Francisco, levantando-se—apezar de não querer ceder, e para que veja que não somos tão maus como julga, ahi tem essa libra para que se remedeie; entretanto pense bem na sua situação.
O padre Francisco dirigiu-se a Dôres para dar-lhe a libra, mas, antes de lha deixar cair no regaço, Julião suspendeu o braço do padre, dizendo-lhe:
—Agradeço-lhe do coração a esmola, porém guarde o seu dinheiro, pois que nós para nada o queremos.
O padre Francisco, sem poder responder uma palavra, e metendo o dinheiro no bolso, saiu furioso do quarto, seguido do outro sacerdote.
Quando os dois esposos ficaram sós, Julião exclamou:
—Até quando, Senhor, Te esquecerás de mim? para sempre? Até quando afastarás de mim a Tua face?
«O nosso Deus é refugio, e esforço, favorecedor nas tribulações» (Sal, 12:1; 45:1).
—Dôres, o Senhor põe á prova a nossa fé; e sabe que o Senhor prova até ao ultimo momento. Tem fé, que «Deus providenciará».
Passados uns momentos, durante os quaes Julião esteve exortando sua esposa, bateram de novo á porta. Julião foi abril-a, e um carteiro apareceu com uma carta para o vidraceiro.
Julião fechou a porta, e, dirigindo-se a sua esposa, disse-lhe:
—Será esta carta a resposta á nossa oração de hontem á noite?
Antes que Dôres respondesse, rasgou o envelope, e tirou de dentro dele uma carta e uma letra de dezoito libras. Julião leu em voz alta:
«Povoação de ***
Querido visinho
«Desejo do coração que ao receber esta passe sem
novidade em companhia de sua mulher e seu filhinho. Eu gózo saude e alegria, graças a Deus.
«Porém, como teve coragem para sofrer tanto sem...?
Vamos, digo-lhe que eu não tenho paciencia, e que o padre Francisco não faria o que fez se eu ahi estivesse.
«Pensando bem, eu devia zangar-me comsigo, porque
estar em necessidade e não me pedir nada é coisa que não compreendo, e que não é de amigo. Porque não me escreveu?
«Emfim, agora nada se remedeia do que deixo dito, visto o
mal já estar feito.
«Remeto-lhe essa letra para que torne para a sua loja, e
continue no seu negocio.
«Não se aflija com a idéa de que tem de me pagar essa
quantia; somos amigos e irmãos em Jesus; assim é que, emquanto não tiver dinheiro de sobra, não mo pagará. Falei com o administrador das obras onde estou trabalhando, e pode vir esta assinar a escritura, cujas condições lhe remeto, para tomar a empreitada da obra de pintura; é um bom negocio...»
Daqui em deante a carta falava de coisas relativas ao
negocio de ambos, e por fim dizia:
«Não o incomodo mais, senão para dizer-lhe que aqui não
trabalhamos aos domingos, e que o trabalhador que solta más palavras eu o despeço.
«E minha mulher e minha filha continuam de saude?
«Faça-me muito recomendado a Dôres, á minha Brigida e
á minha filha; tambem me fará lembrado aos meus oficiaes, muitos beijos no seu filhinho, e o visinho receba o carinho deste que deseja muito vêl-o.
João.»
Quando Julião acabou de ler a carta, olhou durante alguns momentos para sua esposa, que parecia estar imersa num sonho, e por fim exclamou:
—«Quando me via atribulado clamei ao Senhor, e Ele me respondeu» (Sal. 19: 1). Eis aqui, Dôres, a resposta á nossa oração de hontem á noite. Crês que Deus sempre providenceia?
—Sim, Julião, e peço perdão a Deus pela minha falta de fé.
—Este dinheiro é mandado por Deus, e devemos aceital-o; agora demos graças ao Senhor por Sua misericordia.
Ambos os esposos se ajoelharam, e a voz de Julião se fez ouvir, dizendo:
—«Louva, ó alma minha, ao Senhor; eu louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei salmos ao meu Deus por quanto tempo eu viver. Não queiras confiar nos principes, nem nos filhos dos homens, em quem não ha salvação. Sairá o seu espirito e tornará á sua terra; naquele dia perecerão todos os pensamentos deles. Ditoso aquele de quem é protector o Deus de Jacob e cuja esperança é no Senhor seu Deus, o qual fez o céu e a terra, o mar e todas as coisas que neles ha; o que guarda verdade para sempre, faz justiça aos que sofrem injuria; dá sustento aos famintos. O Senhor desata os que estão em grilhões; o Senhor alumia os cegos; o Senhor levanta os oprimidos; o Senhor ama os justos; o Senhor guarda os peregrinos, ampara o orfão e a viuva, e destruirá os caminhos dos pecadores. O Senhor reinará pelos séculos; o teu Deus, oh Sião, reinará por todas as gerações».
(Sal., 145). Senhor, graças Te damos por tudo o que tens feito para nós, em nome de Jesus. Amen.»
Depois duma curta pausa, Dôres disse:
—Senhor, aumenta a nossa fé e perdôa os nossos momentos de duvida, por amor de Jesus. Amen.»
Quando se levantaram de orar, Julião correu a dar noticias de João a Brigida e a Antonia, e em seguida foi ao banco receber a letra. Uma hora depois Julião e Dôres almoçavam, e duas horas mais tarde já Julião tinha falado com o senhorio, ficando outra vez senhor da loja, pelo que foi tirado o papel que anunciava que a loja se alugava.
O padre Francisco notou aquilo, e disse comsigo, esfregando as mãos de alegria:
—Olá! Então já está alugada a loja! Agora, se o vidraceiro quizer estabelecer-se, terá que ir procurar outra. Sinto com isto um grande prazer. Oh! como estou alegre!...