Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 23 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XXIII Romano e evangelico

CAPITULO XXIII

Romano e evangelico

 

Passaram dias terriveis para o padre Francisco. Nestes dois dias comeu pouco, dormiu menos e permaneceu encerrado em casa, sem sair á rua, nem mesmo para dizer missa.

No fim destes dois dias bateram á porta. A creada veiu abrir, e anunciou logo:

«O sr. Mateus.»

—Que entre! que entre!—disse o padre, que não poude conter-se, indo ele mesmo á porta.—Bemvindo, bemvindo seja, senhor Mateus.

Saudaram-se mutuamente e entraram logo no escritorio.

Depois de tomarem assento, disse Mateus:

—Hontem á noite, ás onze e meia, recebi a sua carta, pois que estive numa povoação prégando, e, como lhe disse, cheguei hontem a essa hora; por isso apressei-me hoje em vir, e aqui me tem ás suas ordens.

—Meu amigo, é impossivel dizer-lhe as angustias que sofro. O meu espirito luta, e mesmo de noite não posso descançar. No dia em que lhe escrevi, não pude dizer a missa com a tranquilidade de espirito necessaria: á noite, antes de me deitar, li a Biblia, e fui acometido de horriveis pesadelos.

E o padre Francisco contou ao joven os sonhos que teve durante a noite, e tudo o mais que lhe sucedeu na missa. Depois continuou:

—Que significa tudo isto? Porque sofre tanto a minha alma? Eu lhe peço, sr. Mateus, que me diga franca e lealmente se o que crê o crê do coração; se assim é, qual é a base da sua fé, porque difere das crenças da Egreja, porque tem em pouca conta a missa... numa palavra, desejo que me diga sinceramente se obedece á sua consciencia, ou se, tanto o senhor como os da sua seita, estão filiados para, sob a capa do Evangelho, destruir a Egreja catolica, e substituil-a pelo seu protestantismo. Fale-me com toda a franqueza, na certeza de que ninguem saberá esta nossa conversa, e em troca terá restituido a tranquilidade e o repouso á minha alma. Finalmente, sr. Mateus, ou me demonstra clara e terminantemente as erradas crenças que eu confesso, ou diz-me que os protestantes obedecem a planos duvidosos, pois de contrario porque protestam?

O padre Francisco calou-se; o seu olhar estava fito no semblante do evangelista, como se quizesse magnetisal-o. Passados alguns segundos, disse Mateus:

—Senhor padre Francisco, tenho-o estado escutando com toda a seriedade de animo, e compreendi que a sua alma necessitava dum tal desafogo. Agora vou responder á primeira das suas perguntas, pois que, para melhor inteligencia, vou dividil-as em dois grupos. Deseja saber qual é o caracter do protestantismo. Bem; aqui, em nome do Senhor, a quem desde que sou convertido jámais invoco em vão, lhe asseguro que os protestantes, ou, antes, os cristãos evangelicos, não obedecem, em materias religiosas, a planos duvidosos; que por nenhuma causa desejam que o mundo se perca, que não odeiam os ministros, nem os fieis da Egreja romana, antes pelo contrario teem compaixão deles, e, por ultimo, que os protestantes desejam que o Evangelho, em toda a sua pureza, se estabeleça em toda a superficie da terra, e que, conforme as palavras do Senhor, o mundo seja cheio do conhecimento do Seu nome. Agora, a segunda parte da minha resposta é que a unica regra de fé dos protestantes é a palavra de Deus, conforme se acha contida nos livros do Antigo e Novo Testamentos; que acatamos tudo quanto a Biblia diz; que nos submetemos aos seus ensinos e rejeitamos pela base tudo aquilo que está em contradição com as Escrituras ou que não achamos nelas estabelecido. Isto posto, e antes de passarmos a outro ponto, devo perguntar-lhe se depois disto, e do mais sobre o que vamos falar, o Senhor, pelos meus labios, lhe pozer á vista os erros dos romanistas, promete não resistir por mais tempo ao Espirito, antes pelo contrario obrar conforme ele lhe dite?

—Sim, senhor—respondeu o sacerdote.

—Pois bem, observe, á face do Evangelho, os erros da Egreja de que é ministro. Mas para proceder com metodo, tratemos da questão pessoalmente, quero dizer, como se V. fosse o fundador do romanismo e eu do protestantismo.

—Bem, muito bem—disse o padre Francisco;—principiemos pela missa. Eu digo, e a Egreja o confirma, que Jesus foi quem instituiu a missa, quando instituiu o sacramento da Eucaristia.

—E eu—disse Mateus—digo que, antes de mais nada, precisamos de definir a missa. Pergunto, pois: o que é a missa?

—A missa—respondeu o sacerdote—é um sacrificio, no qual o sacerdote oferece a Deus, em sacrificio incruento, a Jesus Cristo, Filho de Deus. Este sacrificio pode aplicar-se em beneficio dos defuntos cujas almas se acham no purgatorio, por algumas faltas que cometeram neste mundo.

—Perfeitamente—replicou o evangelista.—É assim como o entende a Egreja romana; no emtanto, eu digo-lhe que não ouvi jámais tantos erros em tão poucas palavras. Em primeiro logar, como procederam os apostolos em relação ao partir do pão? No cap. 2 dos Atos, ver. 42 a 46, leio que eles, com as pessoas convertidas, participavam da comunhão entre si, celebrando o partir do pão nas casas, e todos com alegria glorificavam a Deus.

«Agora, pois, sabemos que os apostolos não se serviram desta especie de obreia, que a egreja romana emprega na comunhão, senão que comiam o pão como Jesus lhes ordenou; tambem bebiam vinho, não sómente os apostolos, como todos quantos participavam da comunhão, coisa contraria ao que faz o sacerdote romano, que priva do calix o povo, o que me dá direito de lhe perguntar: Quem instituiu o sacramento, o sacerdote ou Cristo?

«O Senhor, falando do calix, diz: « ». Quem é V.

para opôr-se á vontade do Fundador, que quiz que todos se aproveitassem do Seu sangue? Em segundo logar, a missa não foi instituida por Cristo, nem por Seus apostolos, porque um papa, Damaso, bispo de Roma, no ano de 368, instituiu o confiteor; Gelasio, no ano de 492, compoz os Hinos, Coletas, Responsorios, Graduaes, Prefacios, e tambem acrescentou o Vere dignum et justum est. Simaco, no ano de 512, decretou que nos domingos e festas principaes dos martires se cantasse a Gloria in excelsis Deo. Pelagio, pelo ano de 556, acrescentou a comemoração dos defuntos. Gregorio , pelo ano de 600, fez as Antifonas e o Introito, ordenando que a kirie-eleyson se cantasse nove vezes, e do mesmo modo o Aleluia. Além disso, tambem ordenou este papa que o Pater Noster se cantasse em alta voz, e sobre a hostia consagrada; tambem acrescentou ao canon: Dies que nostres in tua pace disponas.

O padre Francisco estava verdadeiramente assombrado, o que deixava ver claramente pelo gestos com que acompanhava as palavras de Mateus, que continuou assim:

—Sergio, que morreu em 701, ordenou que o Agnus Dei se cantasse tres vezes antes de partir a hostia. Gregorio III acrescentou á secreta missa: Quorum solemnitas hodie in conspectu tuae magestates celebratur, domine deus noster, in toto orbe terrarum. Nicolau I acrescentou as sequencias. Não me negará V. que Sixto I acrescentou o Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Inocencio I, pelo ano de 405, acrescentou o osculo de paz. Leão I inventou o Orate, frates, o Deo gratis, e acrescentou ao canon Senatum sacrificium, immaculatam hostiam, e o Hanc igitur oblationem. E, depois de tudo isto, não vê V., meu caro amigo, que Cristo não instituiu a missa, mas sim que esta foi obra em que muitos colaboraram?

O padre continuou silencioso. Mateus prosseguiu:

—Existe outra prova maior do que todas, que demonstra claramente a extraordinaria mentira de que Cristo instituiu a missa. O grande Te igitur clementissime Pater é uma parte da missa, na qual se faz menção do papa, do bispo e do rei, o que é uma prova irrecusavel de que nem instituiu a missa, nem tão pouco a disse, pois que no Seu tempo ainda não havia papas nem bispos. No Communicates faz-se menção da Virgem e dos muitos santos que não existiram senão muitos anos depois dos apostolos, como S. Cipriano, S. Lourenço, S. Crisostomo, S. Cosme, Damião e outros. Ora isto prova a verdade da minha asserção. Agora convem observar a subtileza romana. Não põem no canon a S. Pedro, porque, se o pozessem, poderia dizer-se que aquele apostolo tinha procurado a nossa propria gloria. Com isto convenço o mais pertinaz ou cego de que nem Cristo nem nenhum dos apostolos disseram missa, nem conheceram o que isso era.

O sacerdote deu um suspiro e disse:

—Triste coisa é a gente encontrar-se em presença da fria verdade que esmaga! Oh! que Deus perdôe a todos.

O evangelista continuou:

—Agora passemos ás Escrituras. V. apresenta-me como razão das suas crenças a autoridade dos homens; e eu aceito-a para confundir essa autoridade com a de Deus. A essencia, o fundamento, da missa, está contida no artigo . do Credo do Papa Pio , que diz assim: «Confesso, eu mesmo, que na missa se oferece a Deus um verdadeiro, proprio e propiciativo sacrificio pelos vivos e defuntos, e que no santissimo sacramento da Eucaristia estão verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade, de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que se verifica uma conversão de toda a substancia do vinho no Seu sangue, á qual conversão chama a Egreja Romana

. Tambem confesso que sob qualquer das duas

especies se recebe Cristo total e completamente, e que são um verdadeiro sacramento.» Este artigo, ensinado aos catolicos, obriga-os a crêr em varias coisas; porém as duas principaes são: primeira, que na missa se oferece a Deus um sacrificio de propiciação pelos vivos e pelos mortos; segunda, que na missa, e sob as especies do pão e do vinho, está real, verdadeira e substancialmente Cristo, com a Sua alma e divindade.

Depois disto, e dado o caso de que alguem ousasse levantar-se contra tal impiedade, ou não podesse admitir uma tal crença, vem-nos o concilio de Trento decretar em sua sessão 22, canon , o seguinte:

«Se alguem disser que o sacrificio da missa é sómente um sacrificio de louvor e acção de graças, ou uma mera comemoração do sacrificio feito sobre a cruz, e que não é propiciatorio, ou que aproveita sómente áquele que o recebe, e que não deve ser oferecido pelos vivos ou pelos mortos, por seus pecados, castigos, penitencias mal cumpridas e outras necessidades, seja anatema.»

Todo o catolico romano está obrigado a calar-se e a acatar esta doutrina, esteja ou não conforme com ela, sob pena de ser fulminado pelo anatema.

O ensino, pois, desta egreja é que, cada vez que um sacerdote celebra missa, oferece a Deus um sacrificio proprio e propiciatorio pelos vivos e pelos mortos. Quem é o sacrificado neste sacrificio? Cristo, o mesmo Cristo do Golgota, o Jesus de Belem.

Quando principiámos esta discussão, disse-lhe que, tal como a queda e o caido, assim tinha que ser a redenção e o Redentor. Agora—acrescentou, tirando do bolso a Biblia—contra a doutrina de que o sacrificio de Cristo possa repetir-se ou renovar-se, temos o cap. 6, vers. 9 e 10 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.

«Sabendo que, tendo Cristo ressurgido dos mortos,

, .

Porque, emquanto a Ele morrer pelo pecado, Ele morreu uma só vez; mas, emquanto a viver, vive para Deus.»

 

Escute tambem o que dizem os textos seguintes:

 

«Cristo uma vez morreu pelos nossos pecados; o Justo

pelos injustos, para nos oferecer a Deus (1.ª de Pedro 3:18).»

«E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo,

como o Pontifice cada ano entra no santuario com o sangue alheio; doutra maneira lhe seria necessario padecer muitas vezes desde o principio do mundo, mas agora aparece uma só vez na consumação dos seculos, para destruição do pecado, oferecendo-se a si mesmo por vitima. Assim como está decretado aos homens que morram uma vez, e que depois disto se siga o juizo, assim tambem Cristo foi

imolado para esgotar os pecados de muitos; e a segunda

aparecerá sem pecado aos que o esperam, para a salvação (Hebreus, 9:25—28).»

«Mas este, havendo oferecido uma só hostia pelos

pecados, está sentado para sempre á dextra de Deus, esperando o que resta, até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés» (Hebreus, 10:12 e 13).

 

Estes textos do Novo Testamento, que acabo de ler, demonstram claramente que a missa, ou, melhor, a pretenção de sacrificar a Cristo todos os dias, e em muitos logares ao mesmo tempo, é contraria á vontade de Deus, que quer um só sacrificio. Disto deduzo uma consequencia, e é a seguinte—que os anatemas de Roma são contra Deus.

Agora é claro que para haver sacrificio é necessario haver vitima, e desta aproveita-se a egreja romana por meio da sua transubstanciação, porém tenha V. em conta «que sem derramamento de sangue se não faz remissão». Ora, onde está na missa o derramamento de sangue? De que instrumentos cortantes se serve o sacerdote nesse sacrificio? Quem derrama ali o sangue? E que não digam os romanos que tudo ali se faz em figura e memoria, porque em tal caso cae sobre eles o anatema tridentino; é preciso crer, ainda que não se veja, que Cristo desce ás mãos do sacerdote, e que este O oferece em sacrificio ao Eterno. Ah! Roma faz muito bem em se servir, para representar a fé, duma matrona com os olhos vendados.

Compreendo a razão por que Roma não quer o livre exame, pois que odeia a luz! Pois bem, padre Francisco, o senhor é sacerdote romano, permita que lhe diga que está nas trevas; não está em Deus, «porque Deus é luz.»

O joven calou-se, e o sacerdote disse:

—Ainda que a minha alma receba uma dulcissima consolação, ainda que desejaria confessar-lhe tudo o que sinto, pode descançar. Porém, se não quer, continue.

—Não estou cançado—respondeu o joven, acrescentando:—Além disso, desejo terminar a questão que nos ocupa. Que Cristo, material ou corporalmente, está na missa, que a Sua presença é verdadeira e real, no dizer da egreja romana, não resta duvida, pois no canon I, sessão 13 do referido concilio de Trento, diz-se: «Qualquer que negar que no sacramento da Eucaristia se contém verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, juntamente com Sua alma e divindade, e por consequencia Cristo todo, mas afirmar que está ali em simbolo ou figura, ou por Sua propria virtude, .

Torno, pois, não já a dizer que Roma anatematiza o Deus que ela adora, senão que se opõe com seus decretos á vontade soberana de Deus. Como pode estar Cristo no sacramento, ou na missa, duma maneira corporal? A Escritura, em oposição a isto, diz:

«Pelo que, se ressuscitastes em Cristo, buscae as coisas que são de lá de cima, Cristo estará sentado á dextra de Deus» (Col., 3:1).

«Ao qual (Jesus) certamente é necessario que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, as quaes Deus falou por boca dos Seus santos profetas, desde o principio do mundo.» (Atos, 3:21).

«Mas Este (Jesus), havendo oferecido uma só hostia pelos pecados, á dextra de Deus.» (Hebreus, 10: 12).

Como, pois, se atrevem os senhores a sustentar que Cristo desce a este mundo, quando é preciso que esteja á dextra de Deus até que se cumpram todas as profecias? Como podem sacrificar ou renovar o sacrificio d’Aquele que com um só sacrificio fez perfeitos os que santificou?

Porém vou fazer-lhe uma pergunta, á qual, se responder satisfatoriamente, prometo crer, não digo na transubstanciação, mas em tudo o que de mim exija o infalivel romano. A pergunta é esta: Que Cristo é que Roma sacrifica—o glorificado dos céus ou o terreno do Golgota? O primeiro, atendendo ao que diz S. Paulo, «ha corpos celestes e corpos terrestres», é celestial, ou seja o Cristo glorificado; a esse tal é impossivel sacrificar, porque já está glorificado, e portanto, além da Sua natureza, que a isso se opõe, seria necessario fazer baixar um ser dum logar de gloria a um mundo de padecimentos e a sofrer dôres. Se me dizem que sacrificam o corpo de Cristo como está cá no mundo antes de ser glorificado, digo que não pode ser, porque não existe, e porque o Cristo que o sacerdote sacrifica não corresponde, nem em peso nem em tamanho, ao Cristo que nasceu em Betlehem. Que Cristo é glorificado, e que o Seu corpo é um corpo celestial, nós o sabemos, por aquilo que está escrito na primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15: 45-48, e ainda mais pela leitura de todo o capitulo em que se diz que os que habitam nos céus teem corpos celestiaes.

Depois duma breve pausa, o joven continuou:

—Se alguma crença eu tivesse ácerca da transubstanciação, bastar-me-hia, para abandonal-a, ter lido no missal romano as regras sobre os defeitos da missa, que V. conhecerá perfeitamente. Ha uma pagina de que eu me recordo muito bem, e que diz: «Se uma hostia consagrada chegar a desaparecer, por qualquer acidente, pelo vento, ou por milagre, ou fôr devorada por um animal, consagre-se então outra». Como é possivel que Aquele a quem os crentes obedecem, esteja exposto a ser levado pelo vento? Como dizer que um milagre pode fazer desaparecer outro milagre? Como dizer que Cristo está exposto a ser devorado pelos ratos, que se dão perfeitamente nos retabulos carunchosos das egrejas? Como sei que não ignora o que deverá fazer o sacerdote se uma mosca ou uma aranha cair no vinho consagrado, que deve ser bebido, se da parte do sacerdote não houver nauseas, não lho repetirei, porém, sim, direi alguma coisa da famosa regra que diz: «Se no inverno se

no calix, deve envolver-se este em panos quentes;

se isto não fôr bastante, coloque-se dentro de agua quente perto do altar, até que se , tendo o cuidado de que não

entre agua no calix.»

Pode haver, meu amigo, maior cumulo de impiedades? O sangue de Cristo gelado! Então que Cristo é que sacrificam?

—Meu amigo—disse o sacerdote, profundamente comovido,— desde que me ordenei notei algumas coisas que não compreendia, porém em que cri, pela obediencia passiva, a que somos obrigados. Hoje tenho ouvido algumas que julgo serem verdadeiras, porém desejo ficar só para me ajoelhar deante de Deus, e pedir-Lhe que mostre o que devo fazer. Tudo o que neste momento podesse dizer-lhe não seria ditado por uma consciencia livre, pois que me encontro sob a influencia dos seus argumentos. Todavia, eu lhe prometo obrar conscienciosamente, e, para que tenha uma prova disso, vou fazer-lhe uma promessa e um pedido.

O joven prestou toda a sua atenção, e o sacerdote prosseguiu:

—A promessa é esta: não tornarei a dizer missa até que Deus me convença de que é um erro tudo quanto o senhor acaba de me dizer; o pedido é que me deixe a sua Biblia para que eu possa lêl-a e confrontal-a com a minha. Uma coisa mais: se o Senhor me disser que a egreja da qual sou sacerdote não é de Cristo, renunciarei ás ordens e me separarei dela.

O joven e o padre Francisco combinaram o dia em que se veriam outra vez, e, depois duma breve oração que o evangelista fez, este saiu da casa do sacerdote, pedindo a Deus a sua conversão.