Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 18 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XVIII Pobre padre Francisco

CAPITULO XVIII

 

Pobre padre Francisco

 

Depois dum dia em que a Providencia de Deus havia tão misericordiosamente tirado a Julião dos apuros em que se achava, este, com o coração inundado de gozo, preparou-se para prégar na casa que o visinho, por um impulso espontaneo, lhe havia cedido para lá falar de Deus.

O padre Francisco não podia levar a bem estas coisas. Sagaz e manhoso, media a grandes passos o soalho do seu gabinete, vestido de habitos talares, com um barrete de veludo preto na cabeça, e o cigarro na boca; passeava ali, meditando no modo de exterminar Julião e com ele a má semente, quando umas ligeiras pancadas soaram na porta.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada foi dizer-lhe que a sr.ª Joana desejava vêl-o.

—Que entre—disse o padre.

Momentos depois entrou uma mulher, que saudou o padre, beijando-lhe a mão, e dizendo-lhe:

—Disseram-me que vossa senhoria deseja falar-me, e por isso venho aqui para saber o que deseja.

—Os meus agradecimentos. Diga-me: hontem á noite foi ouvir o vidraceiro?

—Sim, senhor; agora já não fala no corredor, mas sim em casa do sr. Hipolito. Á noite foi lá muita gente; e olhe que disse coisas muito boas; falou de Deus, das tentações de Jesus, quando o diabo Lhe disse que convertesse as pedras em pães, e quando o Senhor lhe disse que a Deus sómente se deve adorar... A este respeito disse que era um grande pecado a gente pôr-se de joelhos deante dos santos... finalmente, falou muito bem...

—Basta, basta—exclamou o padre Francisco.—Senhora Joana, aquilo que Julião disse não foi mais do que uma serie não interrompida de erros, condenados pela egreja, pelo papa, pelos concilios e por todos aqueles que teem sido reconhecidos por santos. Aposto que não falou bem dos padres?

—Nem bem, nem mal.

—Aposto que não falou bem da egreja romana?

—Não disse nem uma palavra.

—Não importa, esse silencio é um pecado. Disse alguma coisa de Maria santissima?

—Não, senhor.

—Já se vê; pois se os protestantes não crêem nela!... Todos esses propagadores de nova especie não são senão pessoas que teem por oficio enganar os outros, a troco duma certa quantia que recebem para isso.

—E com que interesse?...

—Oh!—interrompeu o padre Francisco—Vocemecê não pode compreender o interesse que teem, nem o fim que teem em vista. Se não fossem os sacerdotes, já teria desaparecido a religião dos nossos paes! Para socego da sua alma, eu peço-lhe que não vá ouvir essas más doutrinas.

—Muito bem, senhor padre Francisco—respondeu a mulher, farei tudo o que mande.

—Porém é mister, em troca, ajudar a egreja.

—Sim, senhor, sim, eu a ajudarei.

—Bem; pois pode fazer com que nessa casa não se préguem mais heresias, e eu a recompensarei.

—Como?

—A habitação onde mora fica pelo lado de cima do quarto onde préga esse doido. Agora o que podemos fazer é arranjarmos gente para fazer muito barulho, correr dum lado para o outro, assobiar, arrastar as cadeiras, etc. etc. Deste modo, como o ruido os distrairá, não poderão entender-se, e acabará por não ir ninguem á reunião. Eu darei duas pesetas por cada noite em que haja reunião.

—Será servido, senhor padre Francisco, não pelo interesse do dinheiro, mas sim para agradar a Deus, e esta mesma noite começaremos a tarefa; asseguro-lhe que esta noite não se entenderão. Porém o meu quarto é muito pequeno, e não alcança senão uma parte da sala onde eles se reunem: seria bom dizer áquele que vive no quarto do lado para que faça o mesmo.

—Bem; arranje tudo e faça o que bem lhe pareça, comtanto que consigamos o fim desejado: interromper as reuniões.

—Bem; assim se fará.

O padre Francisco deu tres pesetas á mulher, que hipocritamente não queria recebel-as; porém por fim aceitou-as e saiu.

Poucos momentos depois de ficar só, o padre Francisco tornou a encetar o monologo interrompido pela chegada da sr.ª Joana.

—Deste modo—dizia comsigo—não poderão durar muito as reuniões, porém o caso é que todos falam bem do que dizem essas pessoas. Não, pouco tempo lhes durará o passatempo; agora já é outra coisa: se o meio de fazer barulho não surtir efeito, vou ter com o senhorio, ofereço-lhe cinco pesetas mais do que Julião lhe dá, e com certeza que o despede.

De repente olhou para o relogio de parede e exclamou:

—Com a bréca! Dez horas menos vinte, e ás dez tenho de dizer missa!... Vamos!

Em seguida poz a capa, e, depois de recitar algumas orações em latim deante dum crucifixo de marfim, saiu.

—Terão já aberto a loja que pertenceu a Julião?—pensava ele ao descer a escada;—sendo assim, entro e direi ao novo inquilino que deite bastante agua benta em todos os cantos para afugentar o diabo.

Nisto chegou á rua, e efectivamente a loja do vidraceiro estava aberta, se bem que nas estantes não houvesse nada e os vidros estivessem sujos. Evidentemente o novo inquilino estava-se mudando.

O padre Francisco foi pôr por obra o seu pensamento; chegou á porta da vidraça, levantou o fecho, abriu, e um grito saiu de sua boca. No meio da loja estava um homem dando ordens para a colocação dos objetos, e esse homem era... era... Julião.

A surpreza não permitiu que o padre Francisco dissesse uma palavra. Voltou a fechar a porta, e, palido e convulso, entrou outra vez no portal para perguntar ao porteiro como é que Julião estava na loja, donde dias antes havia sido despedido.

—Porque voltou de novo a alugal-a—respondeu o porteiro.

Tal abalo produziu esta noticia no sacerdote que, cambaleando, como se estivesse ébrio, subiu com custo os degraus da escada, recolheu-se em casa, e naquele dia não disse missa.