Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 22 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XXII Temor, inquietação e duvidas

CAPITULO XXII

Temor, inquietação e duvidas

 

Quando o sacerdote ficou só, fechou-se no seu quarto, depois de dar ordem á creada de que por ninguem nem por coisa nenhuma o fosse incomodar.

O padre Francisco sentou-se á mesa do escritorio, sobre o qual poz o candieiro e a Biblia.

Depois apoiou os cotovelos na mesa, ocultou o rosto entre as mãos, e nesta posição esteve muito tempo.

Durante este intervalo só se ouvia o oscilar da pendula do relogio, que vinha perturbar o profundo silencio que ali reinava.

Por fim, o padre Francisco, mudando de posição, disse:

—Ah! Que revolta confusão de idéas surgem no meu espirito... Sim, sinto uma sêde insaciavel de saber a verdade do assunto... Esse joven é mais sabio do que eu julgava, seus argumentos são de peso, e suas palavras teem tal expressão de verdade que, se não me convenceram, pelo menos fizeram penetrar a duvida no meu espirito.

O sacerdote calou-se, e depois duma breve pausa continuou comsigo:

—As citações que fez, e que lemos nesse livro—dizia, apontando para a Biblia,—tão gravadas ficaram na minha mente que jámais as esquecerei... Oh! receio ter cometido um pecado, lendo este livro! Porém... Porventura não li eu as notas e não vi que estão conformes com a explicação e até mesmo com a aplicação que delas fez o joven?... E, no fim de tudo, os Evangelhos e as Epistolas que nós lemos á missa... Ah! a missa! Parece que tão pouco acredita nela! Não, pois neste ponto não lhe concedo nada; eu sei que Jesus instituiu a missa quando instituiu o sacramento da Eucaristia, e sei que os apostolos tambem disseram missa...

Novamente o padre Francisco se calou, porém ao cabo dalguns momentos continuou:

—Emfim, vou ver o que é a verdade... Lerei os capitulos que me disse da Epistola aos Hebreus... Certamente que lerei as notas; e assim não haverá receio de que o meu espirito se extravie.

O padre Francisco abriu a Biblia, procurou a Epistola e principiou a ler o capitulo 4, depois de ter recitado uma breve oração em latim.

Diversas foram as impressões que o padre Francisco recebeu durante a leitura; impressionavam-no sobremaneira os versiculos 14 e 15 do cap. 4; o 20 do cap. 6; porém sobretudo surpreendeu-o o que estava escrito nos versiculos 24 e 28 do cap. 7, e não poude passar mais adiante.

Ali, viu clara e terminantemente a falsidade de que a missa seja o sacrificio de Cristo.

No versiculo 21 do citado cap. 7, leu ácerca de Cristo:

«Que não tem necessidade, como os outros sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrificios, primeiramente pelos seus pecados, depois pelos do povo, porque isto o fez uma vez, oferecendo-Se a Si mesmo.»

Recorreu o sacerdote ás notas, desejoso de que elas lhe fizessem compreender outra coisa distinta daquilo que ele compreendia, isto é, que depois do sacrificio de Cristo teria havido alguma razão poderosa para se celebrar a missa. Ancioso, cravou os olhos no livro e leu:

 

«Ofereceu-Se a Si mesmo, não por pecados proprios,

como impiamente disse Socino, pois que o Apostolo lhe chama Santo, Inocente, Imaculado, senão que satisfez ao Pae por nós. O ter-Se oferecido uma vez não exclue os sacrificios da Egreja Cristã, porque o mesmo que se efectuou

cruento sobre a cruz está expresso no incruento dos nossos altares». (Conc. Trid. Sessão 22, cap. 11).

 

O padre Francisco deu um murro em cima da mesa e exclamou:

—Claro que a missa é uma representação do sacrificio de Cristo, porém esta nota do Concilio de Trento está abertamente em oposição com aquilo que nós ensinamos, isto é, que na missa sacrificamos a Cristo real e verdadeiramente, pois que temos em nossas mãos um Cristo real, material e verdadeiro. Não posso compreender isto, porém creio que o sacrificio de Cristo não se repete mais... Oh! que está dando entrada no meu coração a heresia!... Nada, nada... porém, sim, a olhos vistos se pode observar que existe uma contradição entre os nossos ensinos e as nossas praticas...

O sacerdote, cançado por uma luta tão prolongada, decidiu ir refugiar-se no leito, esperando encontrar repouso no sono.

Fez as suas orações do costume, porém podemos afirmar que nessa noite os seus labios mais do que o seu espirito tomaram parte nos exercicios piedosos, pois que o espirito, esse achava-se bastante perturbado.

Todavia, contra as suas esperanças, passou aquela noite preza de pezadelos que o não deixaram dormir.

Impossivel nos seria descrever os sinaes de terror que se desenhavam no rosto do padre Francisco ao levantar-se do leito, ao romper do dia. Tremulo e agitado, principiou a vestir-se com uma precipitação desusada, e exclamou:

—Oh Santissima Virgem do Pilar! Tu és boa, tu és pura, tu não quererás que eu, que te amo até ao ponto de ter-te aqui encerrada nesta arca santa, para que nem o proprio ar te dê; tu, oh flôr de Nazaré, oh estrela da manhã, não quererás que eu me perca... Não sou eu sacerdote? Não te amo mais do que a minha vida?... Não daria até o meu proprio sangue por ti? Porque, pois, não me ouves?... Acaso já me não amas a mim? Em que te ofendi? Oh Virgem Santissima, não te mostres indiferente quando eu te oro; pelo contrario, concede-me o que te peço!... Agora vou dizer missa; a ti a ofereço, excelsa Senhora; prepara-me tu, e perdoa-me todos os meus pecados, que na tua presença confesso.

E o sacerdote, cruzando as mãos sobre o peito, inclinou a cabeça e disse em voz baixa:

—Eu, pecador, me confesso a Deus[4] e á bemaventurada sempre Virgem Maria, e ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, e ao bemaventurado S. João Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo e a todos os Santos... que pequei gravemente por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa... por minha culpa... por minha gravissima culpa. Portanto, rogo á bemaventurada Virgem, ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, ao bemaventurado S. João-Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo, e a todos os Santos... que rogueis por mim a Deus, Nosso Senhor... Amen... Jesus, Maria, José, perdoae-me o grave pecado de ler o que não devia ter lido, e falado com quem não devia falar, que me fez sonhar aquilo que eu não queria. Senhor, Maria, Santos que habitaes as mansões celestes. Sumo Pontifice, Arcebispo da diocese, perdoae-me... Amen.

O sacerdote, depois de se ter persignado tres vezes, levantou-se, e, fechando o armario, dirigiu-se ao seu quarto; uma vez ali, poz a capa e, tomando o gorro, saiu.

Emquanto ia a caminho da egreja, novos pensamentos se lhe cruzaram pelo espirito, inquietando-o muitissimo.

Via em sua imaginação a Virgem do Pilar, deante da qual se tinha ajoelhado, tão resplandecente, tão formosa... então, por uma transformação, viu-a negra, sem aquela expressão de bondade no rosto que sempre tinha, tal qual como quando estava nas mãos do artista; depois, viu-a no cadinho derretida, e por ultimo acabou por perguntar a si mesmo: «Ter-me-ha ouvido esse pedaço de prata?»

Como nesta luta estava interessada a cabeça e o coração, tornava-se ainda mais amarga, porque o que aquela aprovava este rejeitava, e vice-versa; assim que, depois da pergunta anterior, veiu-lhe ao espirito o seguinte pensamento: «Porém, se eu me prostrei deante daquela imagem, não foi para a adorar a ela, mas sim aquilo que representa».

Por fim chegou á egreja, e, depois de tomar uma pouca d’agua benta, com que fez uma cruz na testa e na corôa, dirigiu-se para a sacristia.

A sacristia desta egreja é digna de ser observada.

Quasi todas, com pequenas excepções, são eguaes. Um compartimento maior ou menor, com um armario a um dos lados, que serve ao mesmo tempo de meza, o qual é de madeira e duma construção pesada. Nos seus gavetões guardam-se os paramentos, a cera, etc.

Na parede lateral do lado oposto, ha uma especie de banco corrido, que oculta um caixão a todo o comprimento, onde os sacerdotes guardam as capas, quando se preparam para celebrar a missa.

Quadros misticos, um crucifixo, uma pequena taça de pedra com agua, onde o sacerdote lava as mãos antes e depois da missa, compõem todo o adorno daquele logar.

Devemos fazer especial menção duma antiquissima mesa, por detraz da qual ha uma cadeira de couro, não menos antiga.

Fazemos menção especial destes dois objectos, que não faltam em nenhuma egreja paroquial, não por sua antiguidade nem por sua beleza artistica, mas sim porque naquela cadeira e por detraz daquela mesa senta-se um sacerdote. Vejamos de que se ocupa ele.

Uma mulher entra na sacristia, dizendo que deseja mandar dizer uma missa em tal ou qual altar; mandam-na ter com o sacerdote que está sentado á mesa, o qual recebe o dinheiro e escreve num livro, respondendo depois: «Pode-se ir embora, que a missa cá se dirá...»

Depois chegam duas senhoras, com um recem-nascido. Veem mandar dizer uma missa de parida, como vulgarmente se chama. O clerigo recebe dinheiro e diz: «A primeira que agora se fôr dizer é a missa que deseja». Costuma suceder que alguma pessoa entra na sacristia pedindo o Viatico para algum enfermo, e então não falta sacerdote que não murmure:

—Não podem vir á noite? A esta hora tão impropria! Assim está em perigo o doente?

E deste modo, ainda que o sacerdote se revista com as vestes proprias, ainda que o sino dê o sinal do estilo, numa palavra, ainda que se vá desempenhar aquele oficio no mesmo instante, não se faz sem primeiramente se haver murmurado ácerca da hora, do frio, do calor, dos muitos degraus que ha para subir, se o enfermo é pobre e habita nas aguas-furtadas dum quinto andar. Em resumo, para aquele que vae com o dinheiro na mão tudo está muito bem; para o pobre, porém, é outra coisa; tudo se faz, mas sempre de má vontade.

Para terminar esta descrição, diremos que na sacristia, geralmente, reina o melhor humor. Os sacristães, rodeados por seis ou oito meninos do côro que olham com inveja para a sotaina, e aspiram chegar a serem sacristães quando haja logar, ralham sobre a repartição mal feita dalguma propina, ou sobre o dever de ajudar ou não á missa. Porém que ha a estranhar em que os meninos do côro façam isto, quando os sacerdotes lhes dão tal exemplo?

Numa palavra, se os nossos leitores querem inteirar-se a fundo e conhecer as miserias da egreja romana, vão estudal-as no interior dalgumas sacristias paroquiaes, na certeza de que verão com surpreza e escandalo o que o autor destas linhas tem tido ocasião de ver.

Porém, voltando ao padre Francisco, achava-se sentado e absorto em suas meditações, quando um dos sacristães se aproximou dele para lhe dizer que era a hora de dizer missa.

O padre Francisco principiou a paramentar-se, recitando em latim, durante esse ato, as rezas do ceremonial.

Recordou-se então de que nenhum dos apostolos havia usado aquelas vestes, e, a seu pezar, olhava para elas agora com uma certa indiferença que lhe seria impossivel explicar. Por fim tomou o calix e saiu para a egreja. Ao subir os degraus do altar-mór, sentia esvaecimentos de cabeça; porém, apezar disso, continuou.

Segundo o costume, recitou as primeiras orações, e, ao chegar ao confiteo deo, etc; quiz concentrar-se comsigo para fazer uma confissão digna, porém naquele momento assaltou-o este pensamento: Primeiramente pensou que nem S. Paulo nem S. Pedro deviam ter celebrado missa recitando aquela oração, pois, de contrario, eles mesmos se pediriam perdão dos seus proprios pecados; segundo, se, como é de supôr, esta oração não se dizia no tempo dos apostolos, claro é que era um remendo deitado depois, e em tal caso a missa não era como a celebraram os apostolos.

Imediatamente o assaltou outro pensamento:

—Que nescio sou em pensar assim! Claro é que nem S. Pedro nem nenhum apostolo disse esta oração; porém nem por isso a missa está alterada, visto que desde o introito até ao Evangelho não são senão orações preliminares, que não formam parte da missa. Deixemos, pois, de pensar nestas coisas.

Continuou na celebração. Por fim chegou ao Evangelho; o menino do côro que ajudava á missa mudou o missal da esquerda para a direita do altar, e o sacerdote principiou a ler o Evangelho, que naquele dia era o cap. 4 de S. João, ou a passagem de Jesus com a samaritana.

O sacerdote lia rapidamente; porém ao chegar aos versiculos 21, 22 e 23, uma luz penetrou no seu espirito, e por um momento parou na leitura, até que com muita atenção e pausa tornou a ler:

«Vós adoratis quod nescitis...»

—Sim—pensou o padre Francisco—«Vós adoraes o que não sabeis». Isso sucede á maioria dos catolicos. Que sabe ácerca de Deus essa gente que se ajoelha atraz de mim? Como pode estar orando com recolhimento, se está olhando para mim com toda a atenção, para se ajoelhar quando eu me ajoelho, e levantar-se quando eu me levanto?

«Ced venit hora—prosseguiu lendo—et nunc est, quando veri adoratores adorabund Patrem in spiritu et veritate. Nam et Pater tales quoe rit, qui adorant eum, in spiritu et veritate oportet adorare.»

—Oh—disse o padre—eis aqui uma doutrina na qual nunca havia posto a atenção. «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pae em espirito e verdade, porque Ele é Espirito e verdade; além disso, porque tambem o Pae busca taes adoradores para que O adorem.» O Senhor, pois, deseja um culto espiritual, porém certamente que o culto que nós, os catolicos, Lhe rendemos tem muito pouco de espiritual, é antes externo e material. Jámais pensei nisto.

O sacerdote continuou a missa, e concluiu-a, saindo da egreja sem falar a ninguem.

As devotas que costumavam ouvir a missa que ele dizia sahiam, dizendo:

—Hoje sim, que o padre Francisco disse uma missa bem comprida!

Ao chegar a casa escreveu a seguinte carta:

 

Madrid... Embaixadores...

Meu caro Sr. Mateus N.

Apezar de ter resolvido não incomodal-o mais, sinto muito

ter de o fazer, pedindo-lhe que venha por esta sua casa quando lhe seja possivel, tendo em conta que uma alma que sofre necessita da sua presença.

Seu afectuosissimo,

Francisco Maria dos Anjos.