Julião e a Bíblia
CAPITULO XIII Frutos do confessionario
CAPITULO XIII
Frutos do confessionario
Julião estava um dia com sua mulher, com a mulher do carpinteiro e com Antonia, celebrando um culto de familia.
O texto que estudavam era aquele que se acha escrito nos Proverbios, que diz: A maldição de Jehovah está sobre a casa do impio, porém Ele abençoará a morada dos justos.
Julião dizia:
—Deus não pode faltar ás Suas promessas; portanto, confiemos na Sua divina misericordia, que Ele certamente não poderá deixar de nos socorrer. Se o Senhor nos causa hoje aflições, aceitemol-as como uma benção dele; se nos manda alegrias, recebamol-as egualmente, porque dele dimanam.
Depois que oraram, Julião veiu para a loja e principiou o seu trabalho.
Cerca das nove horas da manhã, apresentou-se na loja um individuo que saudou afavelmente o mestre, dizendo-lhe em seguida:
—Mestre, o sr. conde mandou-o chamar.
Julião foi imediatamente.
No momento em que Julião foi introduzido na sala, o conde, recostado numa cadeira, fumava tranquilamente, emquanto que a condessa estava sentada numa outra, entretida a folhear um album.
—O mestre vidraceiro—disse o administrador, inclinando-se na presença dos seus amos.
Julião saudou-os com um movimento de cabeça. O conde falou assim:
—Vocemecê foi sempre quem fez o trabalho cá da casa; porém, agora... agora..., finalmente, agora a sr.ª condessa lhe dirá o que tem a dizer; eu não posso ocupar-me de nada; tenho muito em que pensar; fala tu, condessa.
—Vocemecê é que é o vidraceiro da casa?
—Sim, sr.ª condessa.
—Pois amigo, eu não posso, ainda que me pese, deixar de lhe dizer que não estamos satisfeitos comsigo.
—Então em que ofendi eu os senhores condes?—perguntou Julião, surpreendido.
—Quero que todos os nossos operarios tenham uma irrepreensivel conduta religiosa, que cumpram fielmente todos os preceitos da egreja; do contrario, serão despedidos, e não poderão contar comnosco para coisa alguma. Diga-me uma coisa: costuma ouvir missa?
—Contando com a benevolencia de V. Ex.ª, atrevo-me a dizer que isto tem toda a aparencia de uma confissão, e desde já declaro que só a Deus é que me confesso. V. Ex.ª pergunta-me se vou á missa; mas eu pergunto, por minha vez: «Para que hei de assistir á missa, se não compreendo o que o padre diz?»
—Não estou para discussões: disseram-me que vocemecê era protestante, e eu não quero negocios com essa gente.
—Sou cristão, minha senhora.
—Nesse caso, não tenho nada a dizer. Mas que vem a ser isso de não entender a missa?
—E V. Ex.ª entende-a, porventura?
—Entendo.
—Pois pela minha parte, como desconheço a lingua de que se faz uso na missa, nada daquilo tem significação alguma. Peço licença para lhe observar uma coisa. S. Paulo, escrevendo aos Corintios, diz: «Dou graças a Deus, que falo todas as linguas que vós falaes, mas eu antes quero falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha».
—Nós não temos nada com o que S. Paulo disse ou deixou de dizer; os bons catolicos devem guiar-se por aquilo que a egreja estabeleceu, e seguirem o conselho dos seus confessores. A missa é o sacrificio de Cristo na cruz, e os fieis podem, lá no seu intimo, aplical-a a este ou áquele fim.
—Senhora condessa, V. Ex.ª está num lamentavel erro. O sacrificio de Cristo não se pode repetir.
—Não trato agora dessas questões, e o que desejo é que me diga claramente: é catolico ou protestante? crê na Virgem? crê no Papa?
—Creio em Jesus Cristo, e só nele confio; se isto é ser protestante, então sou-o, de facto.
—Ouves, conde?
—Ouço—respondeu este, e acrescentou:—De hoje em deante não quero mais negocios comsigo, sr. Julião. Queira retirar-se, para não mais pôr os pés nesta casa.
—Senhor conde, estou persuadido de que cumpri sempre com a minha obrigação, e, se o ser cristão obsta a que eu entre em sua casa, não me convem de fórma alguma estar aqui. Logo que terminar o trabalho que tenho entre mãos, deixará de os incomodar a minha presença.
—Não, não—exclamou a condessa;—retire-se quanto antes.
—Mas é que, minha senhora, dispendi em aviamentos para a restauração desta sala uma quantia para mim bastante elevada, e se não concluo a obra sofro um grande prejuizo.
—E que tenho eu com isso? Vá ter com os seus amigos protestantes que lhe paguem.
—Senhora—exclamou, indignado, Julião,—os protestantes, meus amigos, ou, para melhor dizer, meus amados irmãos, nada me devem; quem fez com que eu empregasse em materiaes o fruto dos meus labores foram os condes de X, que teem obrigação de me pagar.
—Pois bem—disse o conde,—paga-se-lhe tudo, para que se vá embora.
—Não—gritou a condessa,—não se lhe paga coisa alguma; se comprou material, não o comprasse. Ou renega a sua religião, ou põe-se já na rua.
—Renegar Cristo!—exclamou Julião;—não, senhora condessa, isso é que não. Cristo deu a Sua vida por mim, e não O vendo por um punhado de oiro. A Escritura fala dum Judas, não fala de dois. Fique com o dinheiro, e faça de conta que lho dei de presente.
—Não sei como me contenho—exclamou o conde;—se não fosse por sujar a mão, fazia calar essa boca. Ponham este homem lá fóra —ajuntou ele, chamando pelos creados.
—Não é necessario, que eu sei onde é a porta. Que Deus lhes perdôe o prejuizo que me causaram.
Julião retirou-se. O palacio dos condes era situado na Castelana, e o vidraceiro, assentando-se num banco que ficava á sombra duma arvore, tirou a sua Biblia da algibeira, e, enxugando algumas lagrimas rebeldes, leu estas consoladoras palavras: «Nenhum te poderá resistir todo o tempo que viveres: como fui com Moisés, assim serei comtigo; não te deixarei nem te desampararei». (Josué, 1:5).
Depois entrou em casa, e contou a sua mulher o que se havia passado.
—E que vaes tu fazer com esse material perdido?—perguntou lhe a esposa.
—Procurar—respondeu Julião—quem o compre, ainda que seja por menos preço.
—Ai, Julião! Não sei que estranho pressentimento me diz que o P.ᵉ Francisco tem parte neste negocio.
Julião foi para a loja e poz-se a trabalhar. De tarde, o P.ᵉ Francisco apareceu na loja, dizendo-lhe:
—Venho pagar-lhe uma divida.
O padre tirou um porte-monnaie e, dando-lhe o dinheiro, disse-lhe:
—Parece-me que não está bom. A sua cara, pelo menos, indica que vocemecê está mal de saude.
—Graças a Deus, não estou; porém tive hoje um grande desgosto.
—Vamos lá; questões domesticas, não é verdade?
—Não, senhor—respondeu Julião,—desgostos com os freguezes.
O padre compreendeu imediatamente tudo, pois o seu amigo, o confessor da condessa de X... já lhe havia dito que Julião ia ser despedido. O P.ᵉ Francisco conheceu que não devia dizer palavra, e ia a retirar-se quando uma nova personagem entrou na loja de Julião.
—Boas tardes—disse ele ao entrar.
Todos responderam á saudação, acrescentando Julião:
—Como! O senhor por aqui?
—Homem—respondeu o recem-chegado em tom familiar,—venho ralhar comsigo.
—Ora essa!
—Encurtando razões. Quero abrir o café no dia primeiro. —Pois olhe, sr. Mariano, como vê, já comprei o zinco e estão trabalhando nele; porém para estar pronto para esse dia, é impossivel.
—Porém, faltando ainda quatro dias até lá, parece-me...
—Desculpe, mas são apenas tres dias!
—Como? Quinta, sexta, sabado, domingo, são quatro.
—Não, senhor, não deve contar o domingo.
—Já principiamos com exquisitices, não é verdade? Não seja doido nem fanatico. Essas preocupações significam o retrocesso de oitenta anos.
—Será o que quizer, porém Deus é mais antigo do que o senhor; portanto, entre Ele, que me manda não trabalhar, e o senhor, que manda que eu trabalhe, devo obedecer antes a Ele do que ao senhor.
—Porém, não conhece que Deus não se intromete nessas coisas? Que lhe importa a Deus que vocemecê trabalhe ou não? Não faça mal a ninguem, que trabalhar não é pecado, não é verdade, sr. padre Francisco?
—Deus quer—respondeu o padre Francisco—que se santifiquem os dias de festa. No domingo e mais dias preceituados pela egreja deve-se ouvir missa... depois... se é preciso trabalhar, pode-se fazer mediante licença. Julião, porém, como é protestante...
—Quê! vocemecê é protestante?—exclamou o freguez.
—Sou cristão evangelico—respondeu Julião.
—Pois, mestre, assim não está bem. Não vê que todos os freguezes o vão deixar? Protestante é a coisa peor que pode haver! porque é não ser hespanhol.
—O que é ser protestante—exclamou Julião, já um pouco exaltado—é ser mais hespanhol do que muitos; protestante é ser bom filho, bom pae, bom esposo, bom amigo e um bom crente em Jesus. Os catolicos romanos desprezam os mandamentos de Deus e submetem-se ao capricho dos homens; chamam doidos e fanaticos áqueles que os guardam, taes quaes se encontram na Biblia, e crêem em milagres, em bulas, em reliquias, em infernos com caldeiras de pez, em diabos grandes e diabos pequenos, em serpentes que se enroscam, em um purgatorio de que Jesus não teve a menor noticia, em um limbo, em bulas a gosto do comprador... em tudo, menos em Jesus e no Evangelho.
—Julião, Julião—disse o sacerdote,—não fale de tal modo, porque não faz mais do que dizer blasfemias.
—Ao catolico romano pouco se lhe importa ir á missa e dali ao baile; isto no dia do Senhor. E que proveito tira da missa?
—Ouve o Evangelho, ou uma parte dalguma epistola.
—Sim? Pois peço-lhe ao senhor, que é catolico romano e que certamente ha de ter ouvido alguma missa, que nos diga o que sabe do Evangelho que tem ouvido na egreja?
—Senhores—respondeu ele,—a falar a verdade, costumo ir poucas vezes á missa, porém eu não sei o que o sacerdote diz... Está disposto a fazer a obra para o dia que indiquei?
—Estou, sim, senhor—respondeu Julião,—porém, pelo que diz respeito a trabalhar no domingo, não trabalho.
—Quer dizer que pelas suas exquisitices vou ser prejudicado, não abrindo o estabelecimento no dia que quero. Vamos, Julião, seja razoavel, deixe-se de protestantismos e trabalhe, que é isso o que lhe dá de comer.
—Sr. Mariano, é completamente inutil que se empenhe em fazer-me trabalhar ao domingo, pois por todo o dinheiro do mundo não o farei.
—Nesse caso, ponto final na questão. Não o incumbirei de mais trabalhos.
—Bem, como quizer; obedeço a Deus, e é quanto basta.
O padre Francisco quiz aparentemente harmonizar a questão, porém foi tudo em vão. A voz de Deus, que ordenava ao nosso amigo o guardar o dia de descanço e santifical-o, teve mais força do que tudo.
Minutos depois, o freguez de Julião saiu, e juntamente com ele o padre Francisco.
Julião entrou no seu quarto para orar, dizendo:
—Jesus, Tu me dizes: «E todo aquele que não traz a sua cruz e não vem apoz mim não pode ser meu discipulo.»