Julião e a Bíblia
CAPITULO VI Manda-o minha filha, e é quanto basta
CAPITULO VI
Manda-o minha filha, e é quanto basta
Ao declinar da tarde do dia seguinte em que Antonia recebeu o Viatico, a sua cabeça estava um pouco mais leve, manifestando alguns sinaes de melhoras. Perguntou então por Dôres.
—Não está aqui—respondeu a mulher que cuidava dela.
—Nesse caso chamem-na—disse ela.
A mulher saiu da alcova para dar conhecimento aos paes de Antonia do desejo que ela acabára de manifestar. A mãe enxugou as lagrimas, procurou tranquilisar-se para entrar no quarto de sua filha, á qual perguntou carinhosamente:
—Que queres, minha filha?
—Quero ver Dôres.
—Para quê? O confessor disse que não falasses com ela.
—Não quero saber do que disse o confessor; o que eu quero é falar com ela, e tanto basta. O confessor encheu-me de muito medo, impoz-me uma penitencia que... finalmente, quero ver Dôres.
—Minha filha, socega, não penses em nada, nem te recordes de nada.
—Minha mãe—disse Antonia, já bastante agitada—já disse que quero ver Dôres, e hei-de vêl-a. Ela entende-me e diz-me umas coisas que ninguem as sabe dizer... quero ver Dôres, já disse... e se fosse possivel...
Mestre João, desejoso de ouvir o que dizia sua filha, tinha-se aproximado pé ante pé da alcova, escutou a petição de sua filha, e em seguida entrou e disse resolutamente.
—Para que queres ver Dôres?
—Para falar com ela—respondeu Antonia.
—Pois espera, que eu mesmo vou chamal-a.
—Muito obrigada, meu pae, muito obrigada...
João saiu da alcova, e sua mulher apoz ele, dizendo-lhe:
—Porém espera, homem; vê o que fazes!
—O que faço?—perguntou ele muito secamente.
—Então sempre vaes chamar essa mulher?
—Sim; e não só a ela como tambem o seu marido.
—Homem, tu estás...
—Estou como queiras que esteja, porém agora vou chamal-os. Pede-o minha filha, e é quanto basta.
—Porém o padre Francisco disse que não e... não.
—E minha filha diz que sim, e... e sim.
E João, sem fazer caso do que dizia sua mulher, acompanhada no mesmo tom pela tia de Antonia, saiu em direcção da oficina de Julião, pedindo a este a sua mulher e sua mãe que fossem a sua casa, logo que fechassem a porta.
Dôres, acompanhada de seu marido, entrou na casa de sua amiga.
—Antonia—disse Dôres muito baixinho.
—Ah! és tu?—respondeu a filha do carpinteiro, reanimando-se.
—Como estás?
—Mal, Dôres, muito mal; porém não sei que voz secreta me diz que desta vez ainda não morro.
—Tem confiança em Deus e está socegada, filha, esperando que a Sua vontade seja feita... porém não fales mais...
—Mas eu quero falar-te.
—E a cabeça?
—A cabeça já não me doe tanto. Oh! se tivessem continuado as mesmas dôres de hontem, certamente que já não seria deste mundo... Não podiam deixar-nos sósinhas?—disse para duas mulheres, suas visinhas.
—Sua mãe—respondeu uma delas—disse que a não deixassemos nem um instante só.
—Pois saiam agora e vão para a sala.
—Olha—disse Antonia quando se viu sósinha com Dôres—tu és a pessoa em quem tenho mais confiança, e por isso, se eu morrer, desejo encarregar-te de certas coisas...
—Antonia, querida Antonia—interrompeu Dôres—não te alteres, socega. Não disseste ainda ha pouco que não morrerias desta vez?
—Não me altero, Dôres, e tão pouco penso em morrer.
Depois de descançar um momento, disse:
—Recordas-te de que, no dia de Santo Antonio, em que fui para o campo, ao despedir-me de ti te disse: Mau dia vou ter?
—Sim.
—Vê então como acertei sem ser profetiza. Por mais que pedisse de todo o meu coração ao Santo, não fui ouvida dele.
—Olha, Antonia, e crê o que te vou dizer: Em logar de pedires a Santo Antonio, pede em nome de Jesus. Foi Ele que te remiu com o Seu sangue; Ele te chama; para que deixar a Deus pelo homem, o certo pelo duvidoso?
—Sim, sim, tens razão... Olha, hontem quando me deram o Santissimo pareceu-me que estava tranquila, porém hoje, que a minha cabeça está um pouco mais leve, as duvidas assaltam o meu espirito; pois que a verdade é que, quando me confessei, com a cabeça já quasi perdida, o P.ᵉ Francisco me falou da morte, do inferno, e não sei de quantas coisas mais. No estado em que tinha a cabeça, a minha confissão...
—Antonia, só Deus pode perdoar os pecados; portanto, só a Ele é que deves confessar-te; dize-Lhe, pois: «Pae, pequei contra Ti, mas por amor de Jesus Cristo perdôa todos os meus pecados».
—E dize-me Dôres, Deus perdoa assim tão facilmente? Não haverá nada que purgar?
—Não, não ha nada, porque Cristo purgou tudo.
—Ai, Dôres, se eu pudesse crêr nisso, que bem sentiria!
—Se queres, esta noite virá Julião, e ele te falará a esse respeito.
—Sim, quero, que venha. Tenho um encargo a fazer-te. Abre a gaveta daquele toucador e vê se ali ha uma caixinha; dentro dela ha uns brincos, a um falta-lhe fazer o aro; sabe quanto custa e dize-mo.
Dôres obedeceu, fazendo o que Antonia lhe havia recomendado.
As duas amigas pouco depois despediram-se, e Dôres saiu em direcção a sua casa.
Vejamos entretanto o que fazem mestre João, sua mulher e a tia de Antonia, irmã de João, que estão na oficina.
—Tenho dito—dizia a sr.ª Brigida—que não quero que essa mulher esteja ahi, e não estará.
—E Antonia—respondeu o carpinteiro—disse que quer que esteja, e estará.
—Porém tu queres perder a alma da pequena? perguntou sua irmã.
—O que vós ambas quereis é que eu perca a paciencia, e então...
—Essa mulher cheira-me a enxofre, João.
—E dize-me, querida Brigida, não te cheirava a enxofre quando lhe recomendavas que tivesse cuidado da nossa casa?
—Então não sabia o que eles eram.
—Sim, que o sabias, porque na noite em que baptizaram o seu filho foste á capela dos protestantes vêl-o baptizar.
—Eu não sabia que eram tão maus como são.
—Porém eles que te fizeram?
—A mim nada, porém o P.ᵉ Francisco sabe-o muito bem, e por isso ele diz o que diz. Estou certa de que agora Dôres está dizendo a nossa filha que não acredite em Deus nem nos santos, para que morra em pecado e seja condenada.
—Isso—observou a tia—se não a matar.
—Quando digo que...
—Esta noite—interrompeu Brigida—vou chamar o P.ᵉ Francisco para que confesse outra vez Antonia.
—E eu, se torno a ver o padre dentro de minha casa, vós e ele saireis correndo pela porta. Repara, Brigida, que estou meio louco, que jámais te faltei ao respeito; porém eu sei que Dôres não diz a nossa filha nenhuma coisa má, e que não quero o padre em minha casa. Se até aqui tenho sido fraco, agora não o sou.
—Digo-te que virá o P.ᵉ Francisco... e ha-de vir.
A disputa terminou, saindo mestre João a tratar dos seus negocios, e Brigida saiu apoz ele para ir falar com o padre, a quem disse:
—Ah! meu padre! minha filha quiz ver a mulher de Julião, e meu marido foi chamal-a.
—Pois é necessario impedir que ela lhe fale.
—Oh! senhor! Já estão falando ha bastante tempo!
—Porém, qual é a opinião de seu marido a tal respeito?
—Meu marido diz que Dôres não diz coisa alguma que seja má a Antonia!
—Então como se entende isso? Não diz nada que seja mau? Julgue a senhora por si mesma. A primeira coisa que sem duvida lhe terá dito é que não faça caso daquilo que eu lhe disse; que será bom que se entregue a Deus e que tenha confiança n’Ele (e isto para a enganar, pois que este é o sistema dos protestantes), porém que não satisfaça a penitencia, porque é uma loucura que dá muito incomodo; tambem lhe terá dito que pode muito bem salvar-se sem recorrer a nenhum santo; e que não creia de maneira nenhuma no poder e intercessão de Maria Santissima.
«Oh! contra a bemaventurada Virgem certamente que terá dito coisas que não estão na cartilha; como, por exemplo, que nunca existiu, que não foi pura e...
—Oh! que horror! que horror!—exclamou Brigida com os olhos fóra das orbitas, como tomada dum grande espanto, e acrescentou:
—E não poderá vir agora comigo, que não está em casa meu marido?
—Sim, sr.ª Brigida.
—Então corramos a salvar minha filha.
O sacerdote saiu em companhia da sr.ª Brigida, para visitar Antonia. Na oficina já estava mestre João, que, oferecendo uma cadeira ao padre, lhe disse:
—Poderá dizer-me a que devo a honra da sua visita?
—Sim, senhor—respondeu o P.ᵉ Francisco;—sua mulher disse-me coisas muito graves e serias.
—Minha mulher fala mais do que aquilo que deve...
—Não se altere, sr. João—disse o sacerdote, acrescentando:— Não trate assim sua pobre mulher.
—Nunca—respondeu mestre João—tratei mal a minha mulher nem a ninguem, porém agora empenharam-se em se oporem áquilo que eu ordeno, e isto não posso consentil-o.
—Mas em que se opõem á sua vontade?
—Em que não quero que contrariem minha filha no estado em que ela está.
—Aquele que mais quer mal a Antonia é vocemecê.
—Eu?
—Sim, senhor; vocemecê, que lavra a eterna condenação dela, lançando-a no inferno, onde será para sempre atormentada, porque, estando prestes a sua ultima hora, vocemecê, seu pae, ácerca de pessoas que...
—Essas pessoas são tão dignas como V. S. e como eu— exclamou o carpinteiro com certa energia, e acrescentou:—Que mal lhe fizeram Dôres e seu marido para que fale dessa maneira?
—São uns herejes—respondeu o sacerdote—que renegam a fé cristã.
—P.ᵉ Francisco, se não tivesse em atenção o seu caracter sacerdotal, dir-lhe-hia claramente que aquilo que diz não é verdade.
—Como! eu minto!—exclamou o padre, levantando a voz.
—Ouça, sr. padre: na minha casa ninguem levanta mais a voz do que eu.
—Eu sou um ministro de Deus e tenho poder para erguer a minha voz sagrada, sempre e onde seja necessario.
—João, sê prudente—disse a sr.ª Brigida em voz suplicante.
—Cala-te—respondeu o marido; e em seguida, dirigindo-se ao padre, disse-lhe:—Para que veja como eu respeito esses direitos, peço-lhe que me diga franca e claramente o que quer, ou então que saia de minha casa.
—Bem—respondeu o padre,—venho confessar sua filha, pois de contrario morre em pecado e será condenada, por ter falado com essa mulher que está excomungada.
—E eu digo-lhe que não confessará minha filha, e que, pelo contrario, o Sr. Julião e sua mulher estarão constantemente em minha casa e á cabeceira de minha filha.
—Pois eu não respondo pela sua alma, nem nenhum santo estará á sua cabeceira quando exale o ultimo suspiro, e, o que é mais ainda, ninguem lhe dirá uma missa por sua alma, pois que será inutil.
—Tão inutil será então como o é agora. Não fui senão uma vez á capela dos protestantes, e nessa ocasião tirei mais proveito do que em todas as vezes que fui á missa. Ali se lê e prega o Evangelho. Ali o ministro roga a Deus pela nação, pelo governo, pelos enfermos, pelos pobres e pelos aflitos. Ali os assistentes tomam parte no culto cantando hinos. Ali falam em hespanhol, de modo que o senhor e todos podem entender o que se diz. O senhor que lingua fala quando diz missa? Tanto pode ser mouro, como grego, como latim; o que eu sei é que não entendo palavra.
—Nem faz falta que entenda; o que lhe faz falta é crêr.
—Mas crêr em quê?
—No valor da missa.
—Porém, que valor tem a missa?
—Muito.
—Pois eu dou-lhe uma libra para que diga uma missa afim de que minha filha fique boa.
—A missa não cura senão as enfermidades da alma.
—Pois então enganaram minha mulher, pois que eu sei que lhe aconselharam a que mandasse dizer missa pela saude de minha filha.
—Parece mentira que um homem que tem em sua casa um altar dedicado a Santo Antonio fale dessa maneira.
—O que vou fazer do Santo Antonio, mais tarde o verá. Como me ha-de ouvir ele, se não é mais do que um pedaço de madeira? Fique sabendo que eu vi esse Santo quando tinha cortiça. Do mesmo tronco de madeira fizeram o Santo e um cavalo.
—Oh! não posso ouvil-o por mais tempo.
—Pois o que lhe digo é verdade; o escultor é muito meu amigo.
—Por ultimo, permite-me que confesse sua filha?
—Não, senhor.
—E que lhe fale?
—Tambem não.
—Julião falará com ela?
—Sim, senhor. E a mim me ensinará a viver; a sua casa é mais abençoada do que a minha.
—Não durará muito essa benção, eu lho prometo, nem habitará por muito tempo na casa onde mora.
—Pode fazer tudo o que quizer.