Julião e a Bíblia

Emilio Martínez · Capítulo 25 de 27

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Julião e a Bíblia

CAPITULO XXV O regresso

CAPITULO XXV

O regresso

 

No dia marcado nas cartas por Julião e o sr. João, chegaram ambos a Madrid.

Suas familias foram esperal-os á estação do caminho de ferro, e agora todos juntos se acham na loja de Julião, conversando, e entre outras pessoas se encontra o joven Mateus, pois terminado o culto daquela noite, como soubesse que o seu amigo Julião chegava, foi tambem esperal-o.

Depois das primeiras saudações, e no momento em que os achamos sentados conversando em casa de Julião, Mateus falava assim:

—Pois sim, meus amigos, durante a vossa ausencia aconteceram muito boas coisas nesta casa.

—Pelo que diz—perguntou Julião,—o culto continuou a fazer-se sem interrupção?

—Sim, senhor.

—E continúa a vir gente?

—Já se vê que sim.

—E diga-me—interrompeu o sr. João,—o padre tem-os incomodado?

—Ah!—exclamou o evangelista.—Pobre padre Francisco! Neste momento a sua alma passa por uma luta terrivel;—a luta entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, entre o seguir as verdades do Evangelho e as praticas romanas. Tal é a sua situação; o pobre sacerdote luta, porém creio que essa luta lhe será proveitosa.

—Sim, sim, pensem no padre—disse o carpinteiro—e verão o que lhes sucede.

—Não sei—disse Mateus,—porém parece-me que o padre Francisco deixará os erros de Roma.

—Pois senhor—insistiu o sr. João,—muito desejarei que assim suceda, porém...

—Nada, senhores—interrompeu Julião,—a obra não é nossa, a obra é de Deus. Ele tem que obrar; nós, com as nossas duvidas e com a nossa falta de fé, fazemos o que fizeram as multidões no tempo de Jesus:—impossibilital-O, com as nossas incredulidades, de que obre maravilhas.

Depois dalgumas palavras mais, Mateus manifestou intenção de se retirar para que os dois recem-chegados descançassem. Julião propoz que se tivesse um pequeno culto de acção de graças ao Senhor, pelo regresso dos dois ao seio de suas familias, e, feito isto, cada qual retirou-se para sua casa.

No dia seguinte, assim que circulou a noticia da chegada de Julião, quasi todos os visinhos foram visital-o e apertar-lhe a mão.

As mulheres não cessavam de falar sobre a vinda de Julião, e tanto assim que muito depressa chegou a noticia aos ouvidos do padre Francisco, que permanecia em sua casa, sem sair dela e sem querer receber ninguem.

O pobre sacerdote lia sem cessar a Biblia, orava continuamente, e a sua alma ia-se abrindo cada vez mais para recolher nela a verdade.

O padre Francisco havia envelhecido dez anos. Estava palido, com os olhos encovados, e tanto assim que a sua governante, assustada, lhe tinha proposto, por vezes, que se chamasse um medico, ao que ele se havia recusado abertamente.

No momento em que soube da chegada do vidraceiro, um raio de alegria iluminou o seu palido semblante, e imediatamente mandou chamar Julião, o qual, recebido o recado, dirigiu-se a casa do sacerdote, emquanto Dôres foi dar a noticia ao sr. João e á sua familia.

—Ah!—exclamou o carpinteiro—já começamos de novo? Pois eu asseguro-vos que, se acaso trama alguma coisa contra vocês, lhes mostrarei o que vale este velho.

Entretanto, o padre Francisco, frente a frente de Julião, contava-lhe os seus temores, as suas duvidas, descobria-lhe, emfim, o estado de sua alma.

—Pois para mim—disse-lhe o vidraceiro depois de o ouvir—a coisa é clara e a solução desta questão é simples; V. antes não conhecia a verdade, pelo que procedia julgando servir a Deus; hoje a verdade lhe foi revelada por meio da Palavra da Vida; agora, pois, não tem mais do que dois caminhos a seguir: ou ter a fé dos anjos, ou ter a fé do demonio.

—Não compreendo—disse o padre.

—Pois creio que me explico bem—disse Julião.—Os demonios crêem em Deus, e, comtudo, tremem; os anjos crêem em Deus e se deleitam n’Ele. Se V. viu a luz, Cristo, e não a segue, por esta unica razão está no caminho da perdição; e devo advertil-o de que o Evangelho já lhe foi anunciado, e Jesus já Se lhe manifestou. Se teme mais aquilo que dirão de si, se teme a anciedade, se receia perder a sua posição aqui no mundo, se não teme a ira de Deus para com aqueles que rejeitam a Jesus, resiste ao Espirito Santo, e é este o mais terrivel pecado que o homem pode cometer.

Julião calou-se, e o sacerdote, que se achava numa grande agitação nervosa, passados alguns instantes, disse:

—No caso de que eu me decidisse pelo Evangelho, como V. o compreende, que deveria fazer?

—A primeira coisa era crêr no Senhor Jesus, como o unico Salvador e Intercessor entre Deus e os homens; a segunda coisa era abandonar completamente as praticas romanistas, resignar todos os cargos que exerce no seio da sua Egreja e fazer a sua profissão publica da sua fé na presença duma congregação de cristãos evangelicos, dedicando-se em seguida a prégar a verdade, com o mesmo afinco e zelo com que antes prégava o erro. Finalmente, se quer ver o que deve fazer, se é convertido ao Senhor, veja e estude o que fez S. Paulo quando deixou de ser Saulo.

—Sim—exclamou o padre Francisco—é preciso que eu prefira o bem a tudo, a verdade ao erro. Porém o mais dificil para mim, o que mais me tortura, é a idéa «do que dirão de mim os meus colegas.»

—Por muito que digam, esteja certo de que nenhum deles vae responder por V. no dia do juizo. Se tem medo do que dirão, do mundo, tema antes o que dirá, do sangue de Jesus, tema o que dirá aquele manso Cordeiro, quando Ele se levantar para lançar-lhe em rosto o desprezo que tem do Seu sacrificio já feito. «Eu—disse o Senhor—eu mesmo vos consolarei. Quem és tu para teres medo dum homem mortal, e do filho do homem, que assim como o feno se secará? E te esqueceste do Senhor, teu opifice, que estendeu os céus e fundou a terra, e todo o dia tremeste continuadamente á vista do furor daquele que te atribulava e se tinha disposto para te perder; onde está agora o furor do que te atribulava?» (Isaias, 51: 12 e 13) Desgraçado daquele que pelo mundo abandona a Deus.

—Não falemos mais; creio em meu coração que devo fazer o que diz, porém ha alguma coisa que mo impede; dentro de poucos dias terá noticias minhas.

Depois duma breve oração, Julião despediu-se do padre Francisco, profundamente convencido de que Deus trabalhava no coração do sacerdote.

Quando chegou a sua casa, estava lá o mestre João, que ao vêl-o disse:

—Aposto em que o padre mais uma vez o enganou!

—Senhor João—respondeu Julião,—oremos ao Senhor pelas almas que trabalham por abandonarem o mal, e ás quaes Satanaz persegue e põe mil obstaculos para as impedir de se acercarem do Senhor. A conversão dum sacerdote romano é para Satanaz um verdadeiro desespero.