Lá, onde o vento chora
8. Dados Inconclusivos
8
Dados Inconclusivos
1969
Depois de darem por terminada a sua manhã de investigação na torre de vigia, o Xerife Ed Jackson e o adjunto Joe Purdue escoltaram Pearl, a viúva de Chase, e os pais de Chase a um laboratório refrigerado da clínica, que servia de morgue, para o verem deitado numa mesa metálica, com um lençol por cima e se despedirem dele. Mas tudo aquilo era demasiado frio para qualquer mãe, demasiado insuportável para qualquer esposa e ambas as mulheres tiveram de sair da sala amparadas.
Já no gabinete do Xerife, Joe disse:
– Pior não podia ser…
– Pois. Não faço ideia como se ultrapassa uma coisa destas.
– Sam não disse uma palavra. Nunca foi muito falador, mas isto vai acabar com ele.
Alguns diziam que a água salgada do pantanal poderia corroer facilmente um bloco de cimento e nem no escritório do Xerife – semelhante a um bunker – era possível mantê-la à distância. Marcas de água com contornos cintilantes de cristais de sal ondulavam pela parte de baixo das paredes e os veios de bolor negro, alastravam em direção ao teto, como vasos sanguíneos. Pequenos cogumelos negros cresciam aos cantos da sala.
O Xerife tirou uma garrafa da última gaveta da sua secretária, serviu duas doses duplas de Bourbon em canecas de café e ficaram a beber até o sol dourado e meloso como o Bourbon se afundar no mar.
Quatro dias depois, Joe entrou no gabinete do Xerife a sacudir uma série de documentos no ar.
– Recebi o primeiro relatório do laboratório.
– Vamos lá ver isso.
Sentaram-se em frente um do outro, na secretária do Xerife, a examiná-lo. De vez em quando, Joe enxotava uma mosca.
Ed leu alto:
– Hora da morte entre a meia-noite e as duas da manhã de 29 para 30 de outubro de 1969. Tal como tínhamos pensado
Depois de ler durante um minuto, prosseguiu:
– O que aqui está é inconclusivo.
– Tem toda a razão. Não há aí nada, Xerife.
– À exceção das impressões digitais que os rapazes deixaram ao subirem até ao terceiro lanço de escadas, não foram encontradas mais nenhumas impressões digitais recentes, nem na balaustrada nem nas grelhas. Nada. Nem de Chase nem de ninguém. – O rosto do xerife, normalmente avermelhado, ostentava agora a sombra da barba que lhe fora crescendo ao longo do dia.
– Então alguém as limpou todas. Deveria haver, pelo menos, impressões digitais dele na balaustrada e na grelha. Porque não as encontrámos?
– Exatamente. Primeiro não encontrámos pegadas e agora não há impressões digitais. Não há nada que prove que ele atravessou a lama até aos degraus, que os subiu e que abriu as duas grelhas – a da escada e a grelha por onde caiu – nem que outra pessoa o tenha feito. Mas por muito inconclusiva que seja a informação, não deixa de ser informação. Alguém se deu ao trabalho de limpar tudo muito bem. Ou então, matou-o noutro local e levou o corpo para a torre.
– Mas se alguém tivesse transportado o corpo dele até à torre, haveria marcas de pneus.
– Certo. Temos de lá voltar e procurar marcas de pneus, para além das da carrinha e da ambulância. Talvez nos tenha escapado alguma coisa.
Depois de ler durante mais um minuto, Ed disse:
– Seja como for, agora, estou perfeitamente convencido de que isto não foi um acidente.
– Concordo. E não é qualquer um que apaga rastos tão eficazmente.
– Tenho fome. Vamos buscar o jantar no caminho para lá.
– Prepara-te para uma emboscada. Está tudo muito irritadiço na cidade. O homicídio de Chase Andrews é talvez o acontecimento mais estrondoso de sempre nesta cidade. A intriga paira no ar como sinais de fumo.
– Então fica de ouvidos bem abertos. Somos bem capazes de obter alguma informação. Os inúteis não conseguem ficar calados.
Uma fiada de janelas emolduradas por robustas persianas de ciclone cobriam a fachada do Barkley Cove Diner, com vista para o porto. Entre o edifício construído em 1889, e o porto havia apenas uma rua estreita e os degraus sebentos até ao cais.
Por baixo das janelas, havia redes de pesca enroladas e velhos cestos de camarão encostados à parede. Aqui e ali, viam-se cascas de moluscos espalhadas pelo passeio. Os guinchos e dejetos das aves marinhas eram uma presença constante, por toda a parte.
Felizmente, o aroma a salsicha e biscoitos, nabo cozido e frango frito sobrepunha-se ao fedor intenso dos barris de peixe alinhados na doca.
Uma ligeira agitação transbordou para o exterior, quando o xerife abriu a porta. Todos os bancos de costas altas e estofos vermelhos, acolchoados, estavam ocupados, bem como grande parte das mesas. Joe apontou para dois bancos vazios, ao balcão, junto da máquina de refrigerantes à pressão e ambos se dirigiram para lá.
A meio do caminho, ouviram o Lane da Sing Oil dizer ao seu mecânico de motores a gasóleo:
– Eu acho que foi Lamar Sands. Não te lembras que ele apanhou a mulher embrulhada com o Chase, no convés do seu elegante barco de esqui aquático? É um motivo. Além disso, Lamar já tinha tido outros problemas com a polícia.
– Que problemas?
– Ele estava com o grupo que cortou os pneus ao Xerife.
– Mas eram apenas uns miúdos, na altura.
– Houve mais qualquer coisa, mas não consigo lembrar-me o que foi.
Por trás do balcão, Jim Bo Sweeny, proprietário e cozinheiro no local, andava num virote: virava pastéis de camarão na grelha, corria para o fogão, para mexer uma panela de milho com natas, ia à fritadeira virar pernas de galinha e voltava para junto aos pastéis, servindo, entretanto, grandes pratos de comida, diante dos clientes. Dizia-se que conseguia tender massa de biscoitos com uma mão e cortar filetes de peixe-gato com a outra. A sua especialidade – linguado grelhado recheado com camarão, servido sobre papas de aveia com pimento e queijo – só era servida algumas vezes por ano. Não era necessário fazer publicidade porque a notícia corria de boca em boca.
Enquanto se aproximavam do balcão, por entre as mesas, o Xerife e o adjunto ouviram a menina Pansy Price do Kress’ Five and Dime, dizer a uma amiga:
– Podia ter sido aquela maluca que vive no pantanal. A mulher devia estar num hospício. Aposto que seria capaz de fazer algo do género…
– O que queres dizer com isso? O que tem ela a ver com isto?
– Bom, é que ela andou metida com…
Quando o xerife e o adjunto se sentaram ao balcão, Ed disse:
– Vamos pedir uns 2 po-boys, para levar, e sair daqui para fora. Não podemos deixar-nos arrastar para esta confusão.
2 Sanduíche tradicional do Louisiana geralmente feita com rosbife e marisco ou peixe. [N. da T.]
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