Lá, onde o vento chora
26. Michael Row The Boat Ashore
26
Michael Row The Boat Ashore
1965
Na primeira semana que passaram juntos, Chase ia à lagoa de Kya quase todos os dias, depois de largar o trabalho, na Western Auto, e exploravam canais distantes ladeados de carvalhos. No sábado de manhã, ele levou-a numa expedição até um ponto remoto da costa, onde ela nunca tinha estado, por ser demasiado distante para o seu pequeno barco. Ali, em vez dos estuários e das grandes extensões de erva do pantanal, as águas transparentes estendiam-se a perder de vista, por entre uma floresta aberta e luminosa de ciprestes. Garças brancas e cegonhas passeavam-se por entre nenúfares e plantas aquáticas tão verdes que pareciam brilhar. Eles sentaram-se nas grandes excrescências de um cipreste, semelhantes a poltronas, e comeram sanduíches de pimento e batatas fritas, sorrindo ao verem alguns gansos deslizarem na água, por baixo dos seus pés.
Tal como a maioria das pessoas, Chase encarava o pantanal como um local para andar de barco, pescar ou drenar para exploração agrícola, por isso o facto de Kya conhecer todas as suas criaturas, correntes e plantas intrigava-o. Mas desdenhava do seu toque suave, sempre que ela conduzia o barco a baixa velocidade, passando silenciosamente por veados, ou falava em voz baixa junto dos ninhos de aves. Não tinha nenhum interesse em aprender a identificar penas e conchas, e questionava-a sempre que ela fazia anotações no seu diário, ou recolhia espécimes.
– Porque estás a pintar ervas? – perguntou-lhe ele um dia, na cozinha.
– Estou a pintar as suas flores.
Ele riu-se.
– As ervas não dão flor.
– Claro que dão. Olha para estas flores. São minúsculas, mas lindas. Cada espécie de erva produz uma flor ou uma inflorescência.
– O que vais fazer com tudo isso?
– Vou manter registos, para aprender mais sobre o pantanal.
– Só precisas de saber quando e onde morde o peixe. E isso posso eu dizer-te – disse ele.
Ela riu-se para não o melindrar, coisa que nunca antes fizera, abrindo mão de mais uma parte de si, só para poder estar com alguém.
Nessa tarde, depois de Chase se ir embora, Kya saiu sozinha para o pantanal, mas não se sentia sozinha. Acelerou um pouco mais do que o habitual, com os longos cabelos ao vento, e um ligeiro sorriso nos lábios. O simples facto de saber que iria voltar a vê-lo em breve, que iria poder estar com alguém, elevou-lhe o espírito a um novo patamar.
Depois, ao percorrer uma curva de erva alta, viu Tate, mais adiante. Ele estava a uma distância considerável – talvez a uns quarenta metros – e não ouvira o motor do seu barco. Kya largou imediatamente o acelerador, desligou o motor, agarrou no remo e remou para trás, escondendo-se na erva alta.
– De regresso a casa depois da universidade – sussurrou. Vira-o algumas vezes ao longo dos anos, mas nunca tão de perto. E agora ali estava ele, com o seu cabelo rebelde em conflito aberto com outro boné vermelho. Bronzeado, como sempre.
Estava de calças de pesca e caminhava pela água, numa lagoa, recolhendo amostras de água em pequenos frascos. Já não eram os velhos frascos de geleia que usavam quando eram apenas dois miúdos pé-descalço, mas pequenos tubos que tilintavam num suporte especial de transporte. Profissional. Demasiado profissional para ela.
Kya não se afastou imediatamente e ficou a observá-lo durante algum tempo. Talvez todas as raparigas recordassem o seu primeiro amor, pensou. Depois, suspirou longamente e regressou, a remos, pelo mesmo caminho.
No dia seguinte, quando Chase e Kya percorriam a costa em direção a norte, quatro golfinhos vieram ao seu encontro e seguiram-nos. Estava um dia cinzento e os dedos de nevoeiro brincavam com as ondas. Chase desligou o motor, deixou o barco flutuar ao sabor das ondas, pegou na harmónica e tocou a velha melodia de Michael Row The Boat Ashore, uma cantiga nostálgica e melodiosa, cantada por escravos, nos barcos a remos que levavam de Sea Islands, na Carolina do Sul, para o continente, na década de 1860. A mãe costumava cantá-la, enquanto esfregava o chão, e Kya lembrava-se mais ou menos da letra. Os golfinhos aproximaram-se, como que inspirados pela música, e nadaram à volta do barco, de olhos vivos fixos em Kya. Depois, dois deles empinaram-se contra o casco. Ela curvou-se, até ficar com o rosto a escassos centímetros do focinho deles, e cantou baixinho:
«Sister, help to trim dat boat, hallelujah
Brudder lend a helpin’ hand, hallelujah.
Ma fader gone to unknown land, hallelujah.
Michael, row the boat ashore, hallelujah.
Jordon’s river is deep and wide,
Meet my mother on the other side, hallelujah.
Jordon’s river is chilly and cold
Chills the body but not the soul, hallelujah.»
Os golfinhos olharam para Kya durante mais alguns instantes e recuaram, voltando a mergulhar no mar.
Nas semanas seguintes Chase e Kya preguiçaram com as gaivotas, deitados na areia ainda quente do sol, ao anoitecer. Chase nunca a levava ao cinema nem a bailes na cidade – o mundo eram eles os dois, o pantanal, o mar e o céu. Também nunca a beijava, limitando-se a dar-lhe a mão ou a envolver-lhe delicadamente os ombros com o braço, no ar fresco do crepúsculo.
Uma noite, Chase ficou até muito depois de escurecer. Embrulharam-se num cobertor e deixaram-se ficar os dois sentados na praia, sob o céu estrelado, de ombros ligeiramente encostados um ao outro, junto de uma pequena fogueira. Como todas as fogueiras, as chamas projetavam luz nos seus rostos e sombras no areal atrás deles. Ele olhou-a nos olhos e perguntou-lhe:
– Posso beijar-te, agora? – Ela acenou com a cabeça. Ele baixou-se e beijou-a, primeiro delicadamente e depois como um homem.
Deitaram-se no cobertor e ela chegou-se tanto quanto possível para junto dele, para sentir seu corpo forte. Ele envolveu-a firmemente nos seus braços, mas apenas lhe tocou nos ombros com as mãos. Nada mais. Kya respirou fundo, e desfrutou do calor, do cheiro dele e do mar, daquela sensação de união.
Apenas alguns dias depois, Tate, que ainda não regressara à universidade, conduziu velozmente o seu barco em direção ao canal de Kya. Era a primeira vez que o fazia em quatro anos. Continuava a não entender porque não voltara a ir ter com ela antes. Agira, basicamente, como um cobarde acabrunhado. Mas decidira finalmente procurá-la, dizer-lhe que nunca deixara de a amar e suplicar-lhe que lhe perdoasse.
Ao longo daqueles quatro anos de universidade, convencera-se a si próprio de que Kya não conseguiria adaptar-se ao mundo académico, onde ele queria integrar-se, e tentara esquecê-la durante toda a licenciatura – de resto, distrações femininas não faltavam em Chapel Hill. Mantivera até algumas relações de longa duração, mas ninguém se comparava a Kya, e depois de estudar o ADN, os isótopos e os protozoários, Tate aprendeu também que precisava dela como de ar para respirar. É certo que Kya não poderia viver no mundo universitário onde ele procurara integrar-se, mas agora ele poderia voltar a viver no mundo dela.
Já tinha tudo planeado. O professor dissera-lhe que ele poderia terminar a universidade nos próximos três anos, porque acompanhara a pesquisa para a sua tese de doutoramento, durante a licenciatura, e esta estava praticamente pronta. Mais recentemente, Tate soubera que iam construir um laboratório federal de pesquisa, perto de Sea Oaks, e que tinha excelentes hipóteses de ser contratado a tempo inteiro, como cientista de investigação. Ninguém no mundo reunia melhores condições para o cargo: Tate estudara o pantanal local, durante uma boa parte da sua vida, e em breve teria o doutoramento para o apoiar. Dentro de poucos anos poderia viver ali, no pantanal, com Kya, e trabalhar no laboratório. Casar com ela, se ela o aceitasse.
Enquanto saltava sobre as ondas, em direção ao canal de Kya, Tate viu o barco dela passar velozmente, em direção a sul, numa rota perpendicular à sua. Largou o leme e esticou ambos os braços, acenando freneticamente, para chamar a sua atenção. Gritou pelo nome dela, mas ela estava a olhar para leste. Tate olhou nessa direção e viu o barco de esqui aquático de Chase descrever uma curva na direção ao dela. Deixou-se ficar para trás e viu Chase e Kya circundarem-se um ao outro num mar cinzento-azulado. Pareciam descrever círculos cada vez mais pequenos, como águias a cortejarem-se em pleno voo, deixando esteiras turbulentas atrás de si.
Tate observou-os quando, finalmente, se encontraram, e viu-os tocarem nos dedos um do outro, sobre as águas agitadas. Soubera dos rumores que corriam, através dos seus velhos amigos de Barkley Cove, mas esperava que fossem falsos. Percebia o que poderia levar Kya a apaixonar-se por um homem atraente e certamente romântico como Chase, que a passeava no seu belo barco e lhe oferecia piqueniques chiques. Mas ela não fazia a mínima ideia da vida que ele levava na cidade – que namorava e cortejava outras jovens, em Barkley, e até em Sea Oks.
– Mas quem sou eu para dizer alguma coisa? Eu não a tratei melhor. Faltei à minha promessa e nem sequer tive coragem para terminar a relação com ela.
Baixou a cabeça e voltou a olhar de relance para eles, no preciso momento em que Chase se inclinava para a beijar.
– Kya, Kya – pensou. – Como pude eu abandonar-te? – Depois acelerou lentamente o barco e virou-o em direção ao porto da cidade, para ajudar o pai a pôr a pescaria em caixas e carregá-la.
Alguns dias mais tarde, Kya, que nunca sabia quando Chase iria aparecer, deu consigo atenta ao ruído do motor do seu barco, tal como fazia com Tate. Quer estivesse a mondar o jardim, a cortar lenha para o fogão ou a apanhar mexilhões, inclinava, de vez em quando a cabeça, para ver se ouvia alguma coisa.
– Abre-me bem esses ouvidos – costumava dizer Jodie.
Cansada do peso suplementar da esperança, embalou a mochila com biscoitos para três dias, lombo frio e sardinhas, e foi até à cabana de madeira, em ruínas ou a «cabana das leituras», como gostava de lhe chamar. Nesse local verdadeiramente remoto, podia deambular, recolher todos os espécimenes que quisesse, ler palavras ou a vida selvagem. Não ter de esperar ouvir o ruído de alguém a aproximar-se era libertador. Vantajoso até.
Junto de uma moita de chaparrais, muito perto da cabana, Kya encontrou a minúscula pena do pescoço de uma mobelha-pequena e deu uma sonora gargalhada. Toda a sua vida desejara ter aquela pena. E ali estava ela à sua espera, ali mesmo, ao virar da esquina, rio abaixo.
Ia para ali, sobretudo, para ler. Depois de Tate a abandonar, anos antes, deixara de ter acesso a livros, por isso, uma manhã passou por Point Beach de barco e percorreu mais dezasseis quilómetros até Sea Oaks, uma cidade ligeiramente maior e muito mais elegante do que Barkley Cove.
Saltos dissera-lhe que qualquer pessoa podia levantar livros na biblioteca da cidade. Duvidava que isso se aplicasse a um habitante do pântano, mas estava decidida a descobrir.
Atracou o barco à doca da cidade e atravessou o largo ladeado de árvores, com vista para o mar. Ninguém olhou para ela, ninguém ficou a segredar nas suas costas, nem a mandou afastar-se das montras, no caminho para a biblioteca. Ali não era a Miúda do Pantanal.
Entregou uma lista de livros da universidade à bibliotecária, a Sra. Hines.
– Importa-se de me ajudar a encontrar Os Princípios da Química Orgânica, de Geisman, Zoologia dos Invertebrados, de Barnes, e Os Princípios Fundamentais da Ecologia, de Eugene Odum… – Vira esses títulos referenciados na bibliografia de um dos últimos livros do liceu que Tate lhe dera, antes de partir para a universidade.
– Oh meu Deus. Teremos de os pedir emprestados à biblioteca da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.
De regresso à cabana, Kia sentou-se cá fora e pegou numa revista científica. A revista tinha um artigo sobre estratégias reprodutivas que se chamava «Sacaninhas Matreiros», o que lhe arrancou uma gargalhada.
«Como é do conhecimento geral», começava por se ler no artigo, «são, normalmente, os machos mais experientes, com características sexuais secundárias mais evidentes, como por exemplo as armações, o tom das vocalizações ou a largura do peito, que conseguem os melhores territórios, uma vez derrotados os machos mais débeis. As fêmeas preferem acasalar com esses imponentes machos alfa e são, dessa forma, inseminadas com o melhor ADN, que transmitem às suas crias, assegurando-lhes, para além disso, o melhor território. Este é um dos mais poderosos fenómenos de adaptação e sobrevivência das espécies.
Contudo, alguns machos mais raquíticos, não tão fortes, nem tão ornamentados, e sem a aptidão necessária para conservarem bons territórios, socorrem-se de inúmeros truques para enganar as fêmeas. Pavoneiam-se em redor destas, assumindo posturas dominantes e gritam frequentemente – apesar do tom estridente das suas vocalizações – conseguindo copular algumas vezes, graças a esse tipo de simulações e sinais falsos. As rãs-touro mais pequenas agacham-se na erva e escondem-se perto de um macho alfa, que esteja a coaxar entusiasmado, para atrair companheiras. As suas potentes vocalizações acabam por atrair várias fêmeas, ao mesmo tempo, e o macho mais fraco aproveita para copular com uma delas, enquanto o alfa está entretido a copular com uma das outras». O autor chamava a esses impostores «sacaninhas matreiros.»
Muitos anos antes, Kya lembrava-se de ouvir a mãe dizer às irmãs que se acautelassem com jovens que fizessem demasiado barulho com o motor das suas pickups ferrugentas ou conduzissem chaços velhos com o radio aos berros.
– Os rapazes sem préstimo fazem muito barulho – dizia-lhes ela.
Depois, leu uma nota reconfortante para as fêmeas: «Mas a natureza é audaciosa e os machos que andam a saltar de fêmea em fêmea acabam quase sempre por ficar sozinhos.»
Outro artigo abordava o tema da rivalidade entre tipos de esperma, na vida selvagem. «Em quase todas as formas de vida, os machos competem entre si para inseminar fêmeas. Os leões lutam, por vezes, até à morte e os elefantes-touro rivais cruzam as presas e rasgam a pele uns dos outros, revolvendo o solo por baixo das suas patas. Embora bastante ritualizados, esses conflitos podem resultar em mutilações.
Para evitar esses ferimentos, os machos dominantes de algumas espécies competem de forma menos violenta e mais criativa. Os insetos são os mais imaginativos. O pénis das donzelinhas macho está provido de uma pequena colher que remove o esperma ejaculado pelo anterior adversário, antes de este fornecer o seu.»
Kya largou a revista no colo, e olhou contemplativamente para as nuvens. Os insetos fêmea comiam os seus companheiros, algumas mães da classe dos mamíferos abandonavam as suas crias, e inúmeros machos engendravam formas arriscadas ou matreiras de fazer prevalecer o seu esperma sobre o dos seus rivais. Nada parecia demasiado indecoroso, desde que assegurasse a sobrevivência da espécie. Kya sabia que não se tratava de um lado negro da natureza, apenas formas inventivas de subsistir contra todas as expectativas. Para os humanos seria certamente mais do que isso.
Depois de visitar Kya três dias seguidos, sem nunca a encontrar, Chase começou a combinar com ela horas e dias certos para ir visitá-la à cabana ou encontrar-se com ela nesta ou naquela praia, e chegava sempre a horas. Kya conseguia vê-lo à distância, a cortar as ondas com o seu barco de cores garridas, como as penas vibrantes da plumagem de acasalamento de um macho, e sabia que ele só lá ia para estar com ela.
Depois, começou a imaginar-se num piquenique com ele e com os amigos. Corriam para as ondas e pontapeavam a espuma, entre gargalhadas. Ele erguia-a no ar e rodopiava com ela e depois sentavam-se com os outros e partilhavam sanduíches e bebidas que iam tirando das geleiras. Pouco a pouco, e embora tentasse resistir-lhes, foram-lhe surgindo também imagens de casamento e filhos. Talvez seja um impulso biológico para que eu reproduza, disse para consigo mesma. E porque não? Porque não poderia ter entes queridos como outra pessoa qualquer?
Porém, sempre que tentava perguntar-lhe quando iria apresentá-la aos amigos e aos pais, as palavras ficavam-lhe presas na garganta.
Um dia, alguns meses depois de se conheceram, enquanto flutuavam ao largo, ele disse-lhe que o mar estava perfeito para nadarem.
– Eu não olho – disse-lhe ele. – Despe-te e salta para a água que eu salto a seguir. Ela estava à frente dele, a tentar equilibrar-se no barco. Quando despiu a t-shirt pela cabeça, ele não se virou. Levou a mão aos seus seios firmes e acariciou-os ao de leve com os dedos, mas ela não o impediu de o fazer. Ele puxou-a e abriu-lhe o fecho dos calções, que deslizaram facilmente das suas ancas magras. Depois, tirou a camisa e os calções e empurrou-a delicadamente para cima das toalhas.
Ajoelhou-se a seus pés, sem dizer uma palavra, e passou-lhe muito ao de leve os dedos pelo tornozelo esquerdo, até à parte interior do joelho, movendo-os lentamente pelo lado de dentro da coxa. Ela ergueu o corpo na direção da sua mão. Os seus dedos demoraram-se ao cimo das suas coxas e roçaram-lhe pelas cuecas, deslizando depois, delicadamente, sobre a sua barriga. Ela sentiu-os moverem-se sobre o seu estômago na direção dos seus seios, e desviou o corpo dele. Ele encostou-a firmemente ao chão e levou os dedos a um dos seus seios, contornando lentamente o mamilo com um dedo. Depois, olhou para ela sem sorrir, baixou a mão e repuxou-lhe o elástico das cuecas. Ela desejava-o, desejava-o de corpo e alma e começou por pressionar o corpo contra o dele. Porém, segundos depois, deu-lhe a mão.
– Vá lá, Kya – disse ele. Já esperámos demasiado tempo. Estou a ser bastante paciente, não achas?
– Tu prometeste, Chase.
– Raios, Kya. De que é que estamos à espera? – Endireitou-se. – Certamente que te demonstrei que gosto de ti. Porque não?
Ela sentou-se e puxou a t-shirt para baixo.
– E depois, o que vai acontecer? Como posso ter a certeza de que não me abandonas?
– Como pode alguém ter a certeza disso? Mas eu não me vou embora, Kya. Estou a apaixonar-me por ti. Quero estar sempre contigo. O que mais tenho de fazer para to demonstrar?
Ele nunca antes lhe falara em amor. Kya perscrutou-lhe o olhar, à procura da verdade, mas tudo o que viu foi um olhar duro e inescrutável. Não sabia ao certo o que sentia por Chase, mas já não se sentia sozinha e isso parecia-lhe o suficiente.
– Em breve, está bem?
Ele puxou-a contra si.
– Está bem. Anda cá. – Abraçou-a e deitaram-se os dois ao sol, deixando-se flutuar à deriva, embalados pelo ruído cadenciado das ondas no casco.
O dia esgotou-se e a noite caiu pesadamente, com as luzes da aldeia a dançar à distância. As estrelas cintilavam naquele mundo de mar e céu.
Chase disse:
– Porque será que as estrelas cintilam?
– Turbulências na atmosfera. Ventos atmosféricos altos, percebes?
– Ah sim?
– Certamente que sabes que há estrelas que estão demasiado distantes para que as possamos ver. Apenas vemos a sua luz que pode ser distorcida pela atmosfera. É claro que as estrelas não estão paradas; elas movem-se a grande velocidade.
Kya sabia, pelos livros que lera de Albert Einstein, que o tempo era tão dinâmico como as estrelas. O tempo deslocava-se velozmente em torno de planetas e sóis e era diferente em montanhas e vales, mas fazia parte do mesmo tecido que o espaço, que ondulava e se encrespava como o mar. Os objetos – fossem eles planetas ou maçãs – caiam ou orbitavam, não devido à energia gravitacional, mas porque se precipitavam nas dobras acetinadas do espaço-tempo, geradas por objetos de maior massa, como se caíssem na ondulação de um lago.
Mas não lhe disse nada disso. Infelizmente, a mente humana pouca importância dá à gravidade e os manuais do liceu continuavam a ensinar que as maçãs caem para o chão devido a uma poderosa força, vinda da terra.
– Sabes uma coisa? – disse Chase. – Pediram-me que ajudasse a treinar a equipa de futebol do liceu.
Ela sorriu-lhe. Depois pensou para consigo mesma: como tudo o mais, no universo, pendemos para o lado dos objetos de maior massa.
Na manhã seguinte, numa das suas raras viagens ao Piggly Wiggly, para comprar artigos íntimos, que Saltos não vendia, Kya quase chocou com os pais de Chase – Sam e Patti Love – à entrada do minimercado. Eles sabiam quem ela era. Todos sabiam.
Vira-os algumas vezes na cidade, ao longo dos anos, mas quase sempre à distância. Sam estava geralmente atrás do balcão da Western Auto, a atender clientes ou abrir a registadora. Kya lembrava-se de ele a enxotar da montra em criança, como se ela pudesse afugentar os seus verdadeiros clientes. Patti Love não trabalhava a tempo inteiro na loja, o que lhe dava tempo para calcorrear a rua e distribuir folhetos para o Concurso Anual de Colchas ou para o Concurso de Beleza no Blue-Crab, sempre elegantemente vestida em tons pastel, de sapatos de salto alto, bolsa e chapéu a condizer. Qualquer que fosse o tema de conversa, arranjava sempre maneira de dizer que Chase era o melhor quarterback de sempre da cidade.
Kya sorriu timidamente e olhou Patti Love nos olhos, na esperança de que eles se dirigissem a ela de uma forma pessoal e se apresentassem, talvez reconhecendo-a como namorada de Chase. Mas eles pararam bruscamente, sem dizer uma palavra, desviaram-se dela – dando-lhe muito mais espaço do que seria necessário – e seguiram em frente.
Ao cair da noite, Kya e Chase estavam no barco dela, por baixo de um carvalho com excrescências tão grandes, acima da água, que criavam pequenas grutas para as lontras e para os patos.
Dirigindo-se a Chase num tom de voz baixo, em parte para não perturbar os patos-reais, em parte por receio, Kya contou-lhe que encontrara os pais dele e perguntou-lhe se os poderia conhecer em breve.
Chase ficou em silêncio e ela sentiu um nó no estômago.
Por fim, disse:
– Claro que sim. Irás conhecê-los em breve, prometo. – Mas não olhou para ela ao dizê-lo.
– Eles sabem o que se passa entre nós, certo? – perguntou ela.
– Claro.
O barco devia ter-se aproximado demasiado do carvalho, pois nesse mesmo instante, um grande mocho rotundo e fofo como uma almofada de penas precipitou-se da árvore, batendo as suas grandes asas, e atravessou calmamente a lagoa em voo raso, projetando na água suaves reflexos das suas penas do peito.
Chase esticou o braço e deu a mão a Kya, como que a arrancar-lhe a dúvida dos dedos.
Durante semanas, o pôr do sol e o luar acompanharam as descontraídas incursões de Chase e Kya pelo pantanal, e ele continuou a conter-se de cada vez que ela resistia aos seus avanços. Imagens de pombas e peruas sozinhas, com a sua exigente prole, muito depois de os machos partirem para conquistar outras fêmeas, pareciam assaltar continuamente a mente de Kya.
Nada mais faziam do que deitar-se seminus dentro do barco, apesar do que as pessoas da cidade diziam. Embora Chase e Kya fossem reservados, a cidade era pequena e as pessoas viam-nos no barco dele ou nas praias. Os pescadores de camarão não perdiam pitada. Corriam rumores. Alimentavam-se mexericos.
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