Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 11 de 59

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Lá, onde o vento chora

9. Saltos

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Saltos

1953

Sentada à proa do barco, Kya viu longos dedos de nevoeiro baixo alcançarem a embarcação. De início, eram apenas pequenos farrapos de névoa por cima das suas cabeças, mas depois o nevoeiro cinzento envolveu-os. Tudo o que ouviam era o ruído baixo do motor. Minutos depois, pequenos e inesperados borrões de cor começaram a ganhar forma, à medida que a velha estação de serviço da marina se ia tornando visível, como se estivesse a aproximar-se deles e não eles dela. O pai entrou na marina, e o barco bateu suavemente nos pilares da doca. Kya só ali fora uma vez. O proprietário, um velho negro, saltou da cadeira, para os ajudar. Por isso todos lhe chamavam Saltos. As patilhas brancas e o cabelo grisalho emolduravam um rosto largo, gentil, e uns olhos de coruja. Era alto e magro, falava muito, sorria constantemente e dava umas gargalhadas singulares, atirando a cabeça para trás, de lábios cerrados. Ao contrário da maior parte dos homens que trabalhavam na região, não usava jardineiras, mas sim uma camisa engomada, azul, um par de calças escuras, um pouco curtas demais, e botas de trabalho. Muito de vez em quando, nos dias mais impiedosos de verão, usava um chapéu de palha esfiampado. A loja onde vendia combustível e isco balançava sobre um embarcadouro instável ligado a terra por um cabo firmemente preso ao carvalho mais próximo, a cerca de doze metros. A cabana e o embarcadouro de pranchas de cipreste tinham sido construídos pelo bisavô de Saltos um pouco antes da Guerra Civil – uma época de que já poucos se recordavam.

Há três gerações que lhe cobriam as paredes com placas coloridas – reclames de refrigerantes e cigarros, e vinte e nove anos de chapas de matrícula da Carolina do Norte. Essa explosão de cor era visível do mar, mesmo no nevoeiro mais cerrado.

– Olá Sr. Jack, como está?

– Bem, acordei do lado de cima da terra – respondeu o pai.

Saltos desatou a rir como se nunca tivesse ouvido aquela frase batida.

– Trouxe a sua filhinha consigo e tudo. Muito bem.

O pai acenou com a cabeça e depois, como se não tivesse pensado nisso antes, disse:

– Sim, esta é a minha filha, a menina Kya Clark.

– É uma honra conhecê-la, menina Kya.

Kya olhou para os dedos dos pés á procura de palavras, mas não as encontrou.

Saltos não se incomodou com isso e continuou a falar na recente abundância de peixe. Depois perguntou ao pai:

– Atesto o depósito, Sr. Jake?

– Sim, enche-o até cima.

Falaram ambos do tempo, de pesca e de novo do tempo, enquanto ele lhe enchia o depósito.

– Desejo-vos um bom dia – disse ele, ao atirar-lhe a corda.

O pai conduziu calmamente o barco, de regresso ao oceano luminoso. O sol levava menos tempo a devorar o nevoeiro do que Saltos a encher um depósito. Percorreram vários quilómetros em redor de uma península de pinhais e chegaram, finalmente, a Barkley Cove, onde o pai amarrou o barco aos postes bem firmes da doca da cidade. Os pescadores andavam atarefados a embalar peixe e a amarrar cordas.

– Acho que podemos ir comer uma vitela ao restaurante – disse o pai, guiando-a ao longo do cais, na direção do Barkley Cove Diner. Kya nunca comera comida de restaurante nem entrara em nenhum. O coração batia-lhe com força no peito, ao sacudir a lama seca das jardineiras demasiado curtas, e alisar o cabelo embaraçado. Quando o pai abriu a porta, todos os clientes pararam de mastigar. Alguns homens cumprimentaram-no com um ligeiro aceno de cabeça. As mulheres franziram o sobrolho e viraram a cara. Uma delas conteve uma gargalhada.

– Ali diz «usar sapatos e camisa», mas eles não devem saber ler.

O pai fez-lhe sinal para se sentar numa pequena mesa com vista para a doca. Kya não conseguia ler a carta, mas ele explicou-lhe praticamente tudo o que lá estava. Kya pediu frango frito, puré, molho de carne, ervilhas brancas e uns biscoitos fofos como algodão acabado de colher. Ele comeu camarões fritos, papas de aveia com queijo, quiabos fritos e tomate verde frito. A empregada trouxe para a mesa um prato cheio de rolinhos de manteiga, assentes em cubos de gelo, um cesto de pão de milho, biscoitos e um grande jarro de chá gelado açucarado. À sobremesa, comeram torta de amora com gelado. Kya sentiu-se tão cheia que pensou que ia vomitar, mas acabou por concluir que valeria a pena.

Enquanto o pai pagava a conta na caixa, Kya saiu para o passeio, onde o fedor pungente a peixe podre dos barcos de pesca pairava pela baía. Trazia um guardanapo gorduroso na mão, onde guardara restos de franco e biscoitos e os bolsos das suas jardineiras estavam cheios de crakers, que a empregada deixara na mesa, para comerem à descrição.

– Olá. – Kya ouviu uma vozinha atrás de si, virou-se e viu uma rapariguinha de caracóis louros, com uns quatro anos, a olhar para ela. Estava de vestidinho azul-claro e estendeu-lhe a mão. Kya olhou para a mãozinha dela. Era rechonchuda e macia. Nunca na vida vira uma mão tão limpa. De certeza que nunca esfregara roupa com sabão de lixívia, nem sujara as mãos com lama dos mexilhões, daquela que se entranhava debaixo das unhas. Depois fitou os olhos da rapariguinha, onde viu a sua própria imagem de criança refletida.

Kya passou o guardanapo para a mão esquerda e estendeu lentamente a mão direita à miúda.

– Tu aí. Afasta-te dela! – A Sra. Teresa White, esposa do pastor metodista, saiu precipitadamente da sapataria da Buster Brown.

Em Barkley Cove, a religião era servida bem cozida ou frita em óleo. Apesar de pequena, a aldeia tinha quatro igrejas só para brancos e os negros tinham mais três.

É claro que os pastores e os pregadores, bem como as respetivas esposas, gozavam de um estatuto altamente privilegiado na aldeia, vestindo-se e comportando-se sempre em conformidade. Teresa White usava frequentemente saias em tons pastel e blusas brancas, com sapatos e mala a condizer.

Agora, correra para junto da filha e pegara-lhe ao colo. Depois de se afastar de Kya, voltou a poisar a criança no passeio, agachando-se junto dela.

– Meryl Lynn, minha querida, não te aproximes daquela rapariga, ouviste? Ela está muito suja.

Kya viu a mãe passar os dedos pelos caracóis da miúda e reparou que ficaram ambas de olhos presos uma na outra.

Uma mulher saiu do Piggly Wiggly, e apressou-se a ir ao encontro delas.

– Estás bem, Teresa? O que aconteceu aqui? Aquela rapariga estava a importunar a Meryl Lynn?

– Eu vi-a a tempo. Obrigada Jenny. Quem me dera que esta gente não viesse à cidade. Olha para ela: sebenta, absolutamente repugnante. Anda para aí um surto de gastroenterite e eu tenho a certeza de que foram eles que o trouxeram. E o ano passado foi o sarampo, que é uma doença grave. – Teresa afastou-se, agarrando firmemente na mão da criança.

Nesse instante, o pai saiu com algumas cervejas num saco de papel castanho e chamou-a.

– O que estás a fazer? Anda, temos de ir embora. A maré está a baixar. Kya virou-se e seguiu-o. No caminho de regresso ao pantanal, Kya voltou a ver os caracóis da miúda e aquele olhar entre mãe e filha.

O pai continuava a desaparecer, de vez em quando, e a ficar fora de casa durante vários dias, mas não tão frequentemente como antes, e quando aparecia, em vez de entrar em letargia, comia uma refeição e conversava um pouco com ela. Uma noite em que estavam a jogar às cartas, ele deu uma gargalhada quando ela lhe ganhou e ela tapou a boca com as mãos a rir, como qualquer outra criança.

Sempre que saía do alpendre, Kya olhava para o caminho. Embora as glicínias selvagens já estivessem a murchar, anunciando o final da primavera, e a mãe tivesse partido no final do verão anterior, Kya continuava a ter esperança de a ver caminhar pela areia em direção a casa, ainda de sapatos de imitação de pele de crocodilo. Agora que ela e o pai iam pescar juntos e já conversavam, talvez pudessem voltar a tentar ser uma família. O pai batia em todos eles, especialmente quando estava bêbado. Costumava ficar sóbrio durante alguns dias. Nesses dias comiam frango e guisado juntos. Chegaram mesmo a lançar um papagaio na praia. Depois, voltava à bebida, aos gritos e à pancada. Alguns dos detalhes desses ataques de fúria estavam bem gravados na sua memória. Um dia o pai atirou a mãe contra a parede da cozinha e bateu-lhe até ela cair no chão. Kya tocara-lhe num braço, em lágrimas, implorando-lhe que parasse. Ele agarrara-a pelos ombros, gritara-lhe que baixasse as calças e as cuecas e dobrara-a sobre a mesa da cozinha. Depois, tirara o cinto das calças, com um movimento suave, tantas vezes praticado, e batera-lhe com ele. É claro que se lembrava do ardor que sentira no traseiro nu, mas curiosamente, as imagens mais nítidas na sua memória eram os jeans caídos à volta dos tornozelos, e a mãe prostrada junto do fogão, a chorar. Kya não sabia qual fora o motivo da discussão,

Mas se a mãe voltasse agora que o pai estava a comportar-se decentemente, talvez pudessem começar de novo. Kya nunca imaginara que fosse a mãe e não o pai a partir, mas sabia que ela jamais a abandonaria para sempre e onde quer que estivesse, acabaria por regressar. Parecia ainda estar a ver os seus lábios carnudos vermelhos, quando cantava para o rádio, parecia ainda ouvir as suas palavras:

– Ouve o Sr. Orson Wells com atenção, porque ele fala como um verdadeiro cavalheiro. Nunca digas, na’, porque isso nem sequer é uma palavra.

A mãe pintara os estuários e o pôr do sol em aguarelas e quadros a óleo tão cheios de vida, que pareciam retirados da própria terra. Trouxera consigo algum material de pintura e conseguira comprar mais algum no Kress’ Five and Dime. Às vezes, a mãe deixava-a pintar também em sacos de papel castanho do Piggly Wiggly.

No início de setembro, numa tarde pálida e tórrida desse verão de pesca, Kya foi à caixa do correio ao fundo do caminho de areia. Passou revista aos folhetos do minimercado e ficou petrificada, ao ver um envelope azul endereçado na letra bonita da mãe. Quando se afastou da caixa do correio, estava pálida como as folhas dos plátanos. Todo aquele tempo sem dar sinal de vida e agora uma carta. Kya olhou para o envelope, ergueu-o à luz e passou ao de leve os dedos pela letra inclinada e perfeita da mãe. Sentia o coração martelar-lhe o peito.

– A mãe está de boa saúde e foi viver para outro sítio. Porque não voltou para casa? – Pensou em abrir a carta, mas a única coisa que conseguiria ler seria o seu nome e este não estava no envelope.

Correu para a cabana mas o pai saíra de barco, por isso encostou a carta ao saleiro que estava em cima da mesa, para que ele a visse. Enquanto cozia feijão-frade com cebola, ficou de olho na carta, não fosse esta desaparecer.

De dois em dois segundos, espreitava pela janela da cozinha para ver se ouvia o ruído do motor do barco. Subitamente, viu o pai subir os degraus do alpendre e toda a coragem a abandonou. Passou a correr por ele, gritando-lhe que ia à latrina e o que o jantar estava quase pronto. Ficou dentro da latrina malcheirosa, com o coração em despique com o estômago. Depois, equilibrou-se em cima do banco de madeira e espreitou pela abertura em forma de meia-lua da porta, sem saber bem o que esperar.

Depois, ouviu a porta do alpendre bater e viu o pai a caminhar apressadamente na direção da lagoa. Foi direito ao barco de saco na mão e foi-se embora. Ela voltou a correr para casa e foi à cozinha, mas a carta tinha desaparecido. Abriu as gavetas da cómoda do quarto dele e vasculhou no roupeiro, à procura dela.

– A carta também é minha. É tanto minha como tua.

De regresso à cozinha procurou no caixote do lixo e viu as cinzas da carta ainda debruadas a azul. Recolheu-as com a ajuda de uma colher e reuniu-as sobre a mesa numa pequena pilha de despojos azuis, enegrecidos. Retirou do lixo todos os pedacinhos que encontrou – talvez algumas palavras se tivessem escapado para o fundo do caixote – mas tudo o que viu foi restos de cinzas agarrados a cascas de cebola.

Sentou-se à mesa com o feijão ainda a borbulhar na panela e olhou para o pequeno amontoado de cinzas.

– A mãe tocou-lhes. Talvez o pai me diga o que ela escreveu.

Não sejas estúpida. Isso é tão improvável como ver nevar no pântano.

Até o carimbo dos correios desaparecera. Agora, nunca iria saber onde a mãe estava. Colocou as cinzas dentro de uma pequena garrafa e guardou-a na caixa de charutos que tinha junto da cama.

O pai não voltou para casa nessa noite, nem no dia seguinte, e quando finalmente voltou, foi de novo o bêbado que cambaleou pela porta. Quando reuniu coragem para lhe perguntar o que dizia a carta, ele gritou-lhe:

– Na tens nada a ver com isso. Ela na vai voltar para casa. Tira daí a ideia – acrescentou. Depois, arrastou-se até ao barco, com um saco.

– Isso não é verdade – gritou-lhe Kya, de punhos cerrados de ambos os lados do corpo. Depois, viu-o afastar-se e gritou para a lagoa deserta.

– «Na» nem sequer é uma palavra.

Mais tarde interrogou-se se deveria ter aberto a carta, enquanto estava sozinha, sem a mostrar sequer ao pai. Se o tivesse feito, teria podido salvar as palavras para as ler um dia, e ele estaria bem melhor se não as tivesse lido.

O pai não voltou a levá-la à pesca. Aqueles dias quentes eram apenas um bónus. As nuvens baixas abriam-se, inundando, por breves instantes, o seu mundo de luz, para voltarem a fechar-se pesadamente, logo a seguir.

Kya já não se lembrava como se rezava. O que seria mais importante? A forma de unir as mãos ou a força com que se fechava os olhos?

– Talvez se eu rezar, a mãe e Jodie voltem para casa. Mesmo com toda aquela gritaria e todo aquele estardalhaço vivia-se melhor do com estas papas de aveia encaroçadas.

Entoou fragmentos de cânticos:

– E Ele caminha comigo ainda com o orvalho sobre as rosas. – Era tudo o que conseguia recordar da pequena igreja branca, onde a mãe a levara algumas vezes. Tinham lá ido, pela última vez, no domingo de Páscoa, antes de a mãe se ir embora, mas tudo o que recordava desse feriado era gritos e sangue, alguém a cair, ela e a mãe a fugirem, por isso decidiu pôr a memória desse dia de parte.

Kya olhou para a horta de nabos e milho da mãe, agora afogada em ervas daninhas. De certeza que não havia rosas.

– Esquece. Nenhum Deus virá a este jardim.

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