Lá, onde o vento chora
Parte 2
O Pantanal
OceanofPDF.com
22
A Mesma Maré
1965
Kya estava sentada em Point Beach, a ver os caranguejos recuarem e enterrarem-se na areia molhada. Tinha agora dezanove anos, pernas mais longas, olhos maiores e, aparentemente, mais negros. De repente, ouviu vozes a sul e levantou-se bruscamente. O grupo de miúdos – agora jovens adultos – que fora observando, ocasionalmente, ao longo dos anos, caminhava descontraidamente na sua direção, a brincar com uma bola de futebol, a correr à beira-mar e a pontapear a espuma das ondas. Receando que eles a vissem, correu para as árvores, revolvendo a areia com os calcanhares, e escondeu-se atrás do tronco largo de um carvalho, mesmo sabendo que a poderiam achar esquisita por isso.
– Pouco ou nada mudou – pensou. – Eles a rirem e eu a esconder-me como um caranguejo da areia. – Uma selvagem envergonhada das suas próprias bizarrias.
A Loira-Alta-e-Magra, a Sardenta-de-Rabo-de-Cavalo, a Colar-de-Pérolas e a Cara-de-Lua, cabriolavam pela praia entre abraços e gargalhadas. Numa das suas raras visitas à aldeia ouvira os seus comentários ofensivos:
– Pois é, a Miúda do Pantanal vai buscar a roupa aos pretos e tem de trocar aveia por mexilhões.
Porém, ao fim de todos aqueles anos, continuavam amigas. Já era alguma coisa. Poderiam parecer umas tontas, mas eram unha com carne, como Mabel costumava dizer.
– Precisas de arranjar amigas, amor. As amigas são para sempre – mesmo sem votos. Nada mais terno e resiliente que um punhado de mulheres.
Kya deu consigo a rir baixinho com elas, ao vê-las salpicaram-se umas às outras com água salgada. Depois guincharam e entraram juntas na rebentação. O seu sorriso esmoreceu, ao vê-las sair da água e unirem-se no seu tradicional abraço em grupo.
Os guinchos e a camaradagem delas pareciam sublinhar o seu silêncio e a sua solidão, mas o facto de saber que a viam como escumalha do pantanal, impediu-a de sair de trás do carvalho.
Concentrou-se no rapaz mais alto, que jogava à bola em tronco nu, de calções de caqui, observando os cordões de músculos salientes nas suas costas e os seus ombros bronzeados. Sabia que era Chase Andrews. Desde o dia em que ele quase lhe passara por cima com a bicicleta, anos antes, que o via na praia com aqueles amigos, a entrar na cafetaria para ir beber um batido, ou na loja de Saltos a comprar gasolina.
O grupo estava agora mais próximo, mas ela estava a observá-lo apenas a ele. Um outro rapaz atirou a bola. Ele correu para a apanhar e aproximou-se mais da árvore onde ela estava, enterrando os pés na areia quente. Ao erguer o braço para atirar a bola, olhou, inadvertidamente, para trás e viu os olhos de Kya. Depois de atirar a bola, virou-se, sem chamar a atenção dos outros, e olhou-a nos olhos. Tinha cabelo preto como ela, mas os seus olhos eram azuis-claros. Tinha um rosto forte e cativante. Um sorriso quase impercetível desenhou-se nos seus lábios. Depois descontraiu os ombros e voltou calmamente para junto dos amigos.
Mas reparara nela; olhara-a nos olhos. Kya conteve a respiração, sentindo uma onda de calor percorrer-lhe o corpo.
Seguiu-os com os olhos ao longo da praia – a ele, sobretudo. Os olhos da razão viam-no de uma forma, o seu desejo de outra. Era com o corpo e não com o coração que estava a observar Chase Andrews.
No dia seguinte, voltou com a mesma maré, a uma hora diferente, mas só lá estavam falaropos barulhentos e caranguejos da areia.
Fez o possível por evitar aquela praia e ficar pelo pantanal, procurar ninhos de aves e penas e alimentar as gaivotas com aveia, a salvo. A vida ensinara-lhe a amarfanhar sentimentos até estes se tornarem armazenáveis.
Mas a solidão parece ter a sua própria bússola e Kya voltou à praia, para ver se o via, no dia seguinte, e no outro a seguir…
Um dia, ao fim da tarde, depois de andar à procura de Chase Andrews, Kya foi até à praia e deitou-se numa língua de areia ainda lustrosa e macia da última onda. Estendeu os braços por cima da cabeça e roçou-os pela areia molhada, esticando as pernas e os dedos dos pés. Depois, rebolou lentamente o corpo em direção ao mar, de olhos fechados. Os seus braços e as suas ancas iam deixando pequenos sulcos na areia cintilante, que se acentuavam e desvaneciam à medida que se movia. Ao aproximar-se das ondas, sentiu o rugido do oceano percorrer-lhe o corpo, e a pergunta ganhou forma: quando irá o mar tocar-me? Onde me tocará primeiro?
A espuma da rebentação percorreu velozmente a areia, ao encontro dela. Kya respirou fundo, expectante, rebolando-se cada vez mais devagar, na areia. De cada vez que o fazia, mesmo antes de roçar com o rosto na areia, erguia delicadamente a cabeça, para cheirar o sol e o mar. Estou perto. Estou muito perto. Ele aí vem. Quando o irei sentir?
A expectativa cresceu, como uma febre. A areia por baixo do seu corpo estava mais molhada e o rugido das ondas mais intenso. Rebolou, lentamente, o corpo mais alguns centímetros, como que a antecipar o contacto. Está quase, quase. Era como se estivesse a senti-lo, antes mesmo de ele lhe tocar.
Apeteceu-lhe abrir os olhos e espreitar, para ver quanto tempo teria ainda de esperar, mas resistiu à tentação, cerrando mais ainda as pálpebras. O céu luminoso, por trás delas, nada revelava.
Subitamente, gritou, ao sentir a poderosa onda passar velozmente por baixo do seu corpo, acariciar-lhe as pernas e as virilhas, percorrer-lhe as costas, rodopiar por baixo da sua cabeça, arrastando consigo finas madeixas de cabelo escuro. Rebolou mais rapidamente na direção das ondas, contra torrentes de conchas e pedaços de oceano, e a água abraçou-a. Nadou contra o corpo possante do mar e este envolveu-a nos seus braços. Não estava sozinha.
Depois, sentou-se na areia e abriu os olhos, contemplando os suaves padrões brancos da espuma do oceano em constante mutação.
Desde que Chase olhara para ela na praia, Kya já fora à doca de Saltos duas vezes numa semana, sem nunca admitir perante si própria que esperava encontrá-lo. O facto de alguém ter reparado nela, parecia ter despertado em si o desejo de sociabilizar.
– Como está Mabel? – perguntou ela a Saltos, como nos bons velhos tempos. – Ainda tens algum neto em casa? – Saltos notou a diferença, mas sabia que não devia comentar.
– Temos sim senhora. Neste momento temos quatro connosco. Só se ouve o riso das crianças por casa. Pintam a manta.
Mas alguns dias depois, quando Kya foi à doca de Saltos de manhã, não o viu em parte alguma. Alguns pelicanos pardos empoleirados em postes olharam-na como se estivessem a tomar conta da loja. Kya sorriu-lhes.
Depois tocaram-lhe no ombro e ela deu um salto.
– Olá.
Kya virou-se e o sorriso desapareceu, ao ver Chase Andrews atrás de si.
– Chase Andrews – disse ele, olhando-a fixamente com aqueles olhos penetrantes, cor de gelo, sem qualquer espécie de constrangimento.
Ela não disse nada, mas passou o peso do corpo para a outra perna.
– Tenho-te visto no pantanal, ao longo dos anos. Como te chamas? – Por instantes, pensou que ela não ia falar; talvez fosse muda ou falasse uma língua qualquer primitiva, como se dizia por aí. Um homem menos confiante ter-se-ia, certamente, ido embora.
– Kya. – Era evidente que não se lembrava do incidente com a bicicleta, no passeio, e só a conhecia como a Miúda do Pantanal.
– Kya. É um nome diferente, mas bonito. Queres ir a um piquenique de barco comigo, no domingo?
Ela olhou à distância por cima do seu ombro, como que a avaliar as suas palavras, mas não conseguiu levar a tarefa até ao fim. Ali estava uma oportunidade de estar com alguém.
Finalmente, disse:
– Está bem.
Chase pediu-lhe que fosse ter com ele à península dos carvalhos, a norte de Point Beach, ao meio dia, meteu-se no seu barco azul e branco de esqui aquático, cheio de cromados brilhantes, e afastou-se velozmente.
Kya voltou a ouvir passos, virou-se e viu Saltos percorrer apressadamente a doca.
– Olá, menina Kya. Desculpe, mas estive a carregar caixotes vazios para acolá. Atesto o depósito?
Kya acenou-lhe com a cabeça.
No caminho para casa, desligou o motor e deixou-se ir ao sabor da corrente, já com a margem à vista. Encostou-se à velha mochila, a olhar para o céu, e recitou poesia de memória, como às vezes fazia.
Um dos seus poemas favoritos era a «Febre do Mar», de John Masefield:
… tudo o que peço é um dia de vento com nuvens brancas a
voar.
Os salpicos das ondas, a espuma arrastada pelo vento e o choro
das gaivotas.
Depois, decidiu recitar um poema recentemente publicado num jornal local que comprara no Piggly Wiggly, escrito por uma poetisa menos conhecida chamada Amanda Hamilton:
Preso no coração
O amor é como uma fera enjaulada
Que devora a própria carne.
O amor quer-se livre, para ir onde quiser
Escolher o seu porto de abrigo
E respirar.
As palavras recordaram-lhe Tate e ela conteve a respiração. Bastara-lhe encontrar algo melhor para desaparecer. Nem sequer lá fora despedir-se.
Kya não sabia, mas Tate voltara para a ver.
Um dia antes de apanhar o autocarro, nesse Quatro de Julho, o Dr. Blum, o professor que o contratara, entrou no laboratório de protozoologia e perguntou-lhe se queria reunir-se a um grupo de ecologistas de renome, numa expedição sobre aves, nesse fim de semana.
– Reparei no teu interesse em ornitologia e achei que irias gostar de vir. Só tenho lugar para um aluno e pensei em ti.
– Sim. Absolutamente. Pode contar comigo. – Depois de o Dr. Blum sair. Já sozinho no laboratório, entre bancadas de trabalho e microscópios, com a autoclave a zunir-lhe aos ouvidos, Tate perguntou a si mesmo porque teria cedido tão rapidamente. Porquê a pressa de impressionar o professor. Talvez pelo orgulho de ser destacado, por ter sido o único aluno convidado, pensou.
Quinze dias depois, voltaria a ter uma oportunidade de ir a casa, ainda que apenas por uma noite. Estava desesperado para pedir desculpa a Kya, que iria certamente compreender, assim que soubesse do convite do Dr. Blum.
Ao sair do mar e entrar no canal, abrandou. Os troncos estavam cobertos de carapaças brilhantes de tartarugas a apanhar sol. Quase a meio do caminho, avistou o barco dela, cuidadosamente escondido por entre espartos. Abrandou imediatamente e viu-a mais adiante, ajoelhada num banco de areia, aparentemente fascinada com um pequeno crustáceo.
Como estava de cabeça baixa perto do solo, não o viu nem ouviu o ruído do barco que se movia a baixa velocidade. Ele virou silenciosamente o esquife para os juncos e escondeu-se. Há anos que sabia que ela o espiava, às vezes, por entre acácias amarelas, e decidiu fazer o mesmo, por impulso.
Ela levantou-se e espreguiçou-se, descobrindo a sua cinturinha de vespa. Estava descalça, com uns jeans cortados e uma t-shirt branca. Voltou a ajoelhar-se e encheu as mãos de areia, deixando-a escapar por entre os dedos para examinar os organismos que ficaram a contorcer-se na palma das suas mãos. Ele sorriu ao ver a jovem bióloga tão absorvida e alheada. Imaginou-a à retaguarda do grupo de observação de aves, tentando passar despercebida, mas identificando todas as aves muito antes de qualquer outro membro do grupo. Num tom de voz brando, e com requintada minúcia, enumeraria, timidamente, as espécies de ervas que compunham cada ninho ou a idade de uma cria fêmea, a partir das cores que iam surgindo na ponta das suas asas, as mais pequenas especificidades, que caracterizam cada espécie – a sua própria essência – revelando conhecimentos muito superiores aos dos manuais e do respeitado grupo de ecologistas.
Tate sobressaltou-se ao vê-la levantar-se repentinamente, com areia a escoar-se por entre os dedos, e olhar rio acima, na direção oposta. O ruído baixo do motor fora de borda mal se ouvia. Devia ser um pescador ou um habitante do pantanal a caminho da cidade – o rumor habitual e tranquilo de um motor. Mas Kya agarrou na mochila, correu pelo banco de areia e escondeu-se apressadamente na erva alta. Depois baixou-se e caminhou agachada em direção ao seu barco, de joelhos praticamente junto do queixo, espreitando, de vez em quando, para ver se o barco já estava à vista. Agora, estava mais próxima dele e Tate reparou na expressão enlouquecida dos seus olhos escuros. Quando alcançou o barco, escondeu-se abaixo da amurada, de cabeça baixa.
O pescador, um velhote de chapéu, com uma expressão bem-disposta, passou calmamente por eles, sem os ver, e voltou a desaparecer numa curva. Mas ela continuou imóvel, à escuta, até o ruído do motor deixar de se ouvir. Depois levantou-se, limpou o suor da testa e continuou a olhar na direção do barco, como uma corsa olha para o mato deserto, depois da passagem de uma pantera.
De certa forma, ele já sabia que ela se comportava assim, mas desde o jogo das penas que não o presenciava a nu. Que tormento, que isolamento. Que estranha ela era.
Ele estava na universidade há menos de dois meses, mas já se entrosara no universo que queria, analisando a estranha simetria das moléculas de ADN como se tivesse gatinhado para o interior de uma cintilante catedral de átomos adjacentes e subisse os degraus acídicos da sua cadeia em espiral. Já percebera que toda a vida depende deste código preciso e complexo, transcrito em frágeis tiras orgânicas, que morreriam imediatamente num mundo ligeiramente mais quente. Estava finalmente rodeado de grandes perguntas e de pessoas tão interessadas como ele em descobrir as respostas que o aproximariam do seu objetivo – tornar-se um biólogo de investigação, com o seu próprio laboratório, e interagir com outros cientistas.
A mente de Kya poderia facilmente viver num ambiente desses, mas não ela. Respirando com dificuldade, contemplou a sua decisão, escondido nos espartos: ou Kya ou tudo o resto.
– Kya, Kya, não consigo – sussurrou. – Desculpa.
Depois de ela se afastar, entrou no seu barco e regressou ao oceano pelo mesmo caminho, amaldiçoando o cobarde em si, que nem conseguira despedir-se dela.
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