Lá, onde o vento chora
35. A Bússola
35
A Bússola
1969
Numa tarde de julho de 1969, mais de sete meses depois da visita de Jodie, o segundo livro de Kya, intitulado Aves Marinhas da Costa Leste – um volume de rara beleza, incrivelmente detalhado – apareceu na caixa do correio. Kya passou os dedos pela deslumbrante capa do livro – uma pintura sua de uma gaivota de arenque – e sorriu, dizendo:
– Ena, Big Red, conseguiste chegar a capa de livro.
Depois, dirigiu-se silenciosamente para a sombria clareira de carvalhos, perto de sua casa, com o seu novo livro, e foi à procura de cogumelos. Sentiu o solo fresco e empapado por baixo dos seus pés ao aproximar-se de um aglomerado de cogumelos de um amarelo-intenso. Subitamente, parou: um pequeno pacote de leite vermelho e branco, idêntico ao que encontrara há anos, estava poisado sobre o velho toco das penas, o que lhe provocou um inesperado ataque de riso.
O pacote continha uma velha bússola do exército, dentro de um estojo de latão oxidado, coberto de verdete, embrulhado em papel de seda. Kya arquejou ao vê-la. Nunca precisara de uma bússola, porque as direções lhe pareciam óbvias. Mas nos dias encobertos em que sol se tornava evasivo, esta poderia guiá-la.
Num bilhete dobrado lia-se:
Minha amada, Kya,
O meu avô trouxe esta bússola da I Guerra Mundial e ofereceu-ma quando eu era miúdo. Nunca a usei, e achei que tu poderias tirar melhor partido dela. Com amor, Tate. PS: Fico feliz por poderes ler este bilhete!
Kya releu as palavras «minha amada» e «amor». Tate, o rapaz de cabelo louro, que a guiara até casa, antes de uma tempestade; que lhe deixara penas num toco carcomido de uma árvore; que a ensinara a ler; o adolescente carinhoso que a ajudara a lidar com o primeiro ciclo de amadurecimento da mulher; o jovem cientista que a encorajara a publicar os seus livros…
Apesar de lhe ter oferecido o livro das conchas, Kya continuava a esconder-se na vegetação rasteira, sempre que o via no pantanal, remando para longe, sem que ele a chegasse a ver. Tudo o que conhecia do amor eram os sinais enganadores dos pirilampos.
Até Jodie lhe dissera que devia dar mais uma oportunidade a Tate. Mas sempre que pensava nele ou o via, o seu coração parecia dividido entre o amor do passado e a dor do abandono. Se ao menos este se decidisse de uma vez.
Alguns dias depois, percorreu os estuários sob a neblina matinal, com a bússola guardada na mochila, ainda que fosse pouco provável vir a precisar dela. Decidira ir à procura de flores silvestres raras, numa língua de areia arborizada, que se estendia mar adentro, mas parte de si esquadrinhava os cursos de água, na esperança de ver o barco de Tate.
O nevoeiro insistiu teimosamente em ficar envolvendo as excrescências e os galhos mais baixos das árvores. O ar estava parado: até as aves estavam em silêncio, ao percorrer o canal. Ali perto, ouviu um ruído surdo e ritmado de um remo de madeira a bater ao de leve na amurada de um barco, e viu uma embarcação emergir da neblina, como um espetro.
As cores veladas pela penumbra foram ganhando forma, à medida que o barco se aproximava da luz. Caracóis louros, debaixo de um boné vermelho. Tate avançava pelo canal com a ajuda de um remo, à popa de seu velho esquife de pesca, como que saído de um sonho. Kya desligou o motor do barco e remou para trás, escondendo-se numa moita, para o ver passar.
Na praia, ao pôr do sol, já mais calma e recomposta, Kya recitou:
Um ocaso nunca é simples.
E a luz refratada pelo crepúsculo
Nunca é verdadeira.
Mesmo o anoitecer é um embuste
Que esconde rastos e mentiras.
Não queremos saber
Se o anoitecer nos engana
Pois vemos nele cores brilhantes
E jamais aprendemos a lição.
Quando lhe sentimos o ardor
Já o sol se escondeu sob a Terra.
Um ocaso é um engano
Que esconde verdades e mentiras.
A.H.
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