Lá, onde o vento chora
55. Flores do Capim
55
Flores do Capim
1970
Assim que a carrinha saiu do asfalto e entrou na estrada de areia do pantanal, Jodie explicou gentilmente a Kya que ela precisaria de algum tempo, mas acabaria por ficar bem. Ela viu taboas, garças, pinheiros e lagos, da janela do carro, e esticou o pescoço para observar dois castores a nadar. Tal como uma andorinha migratória, que voa milhares de quilómetros de regresso à terra onde nasceu, a saudade e a expectativa que sentia eram tão intensas, que mal deu atenção à conversa de Jodie. Se ao menos ele se calasse e escutasse o seu lado selvagem… Talvez então entendesse.
Jodie percorreu uma última curva da sinuosa estrada de areia e Kya conteve a respiração ao avistar, finalmente, a velha cabana, por baixo dos carvalhos. Barbas-de-velho ondulavam delicadamente ao sabor da brisa, por cima do telhado coberto de ferrugem. Uma garça repousava, à sombra da lagoa, equilibrada numa pata.
Assim que Jodie parou, Kya saltou da carrinha e correu para dentro da cabana, passando os dedos pela cama, pela mesa e pelo fogão. Ele já sabia o que ela queria, por isso deixara-lhe um saco cheio de migalhas em cima do balcão da cozinha. Sentindo uma energia renovada, Kya correu para a praia, com o saco. Chorou de alegria, ao ver as gaivotas voarem ao seu encontro, vindas de ambos os lados da praia. Big Red poisou na areia e passarinhou à volta dela, baloiçando a cabeça.
Ao ajoelhar-se na areia, rodeada daquele turbilhão de aves, estremeceu.
– Nunca pedi nada a ninguém. Talvez agora as pessoas me deixem em paz.
Jodie levou os poucos pertences de Kya para casa, fez chá no velho bule, sentou-se à mesa e esperou. Finalmente, ouviu a porta do alpendre abrir-se. Ao entrar na cozinha, Kya disse:
– Ainda cá estás. – É claro que ainda lá estava. A carrinha estava bem à vista, parada junto da porta.
– Importas-te de te sentar um minuto? – disse ele. – Gostava de conversar um pouco.
Ela não se sentou.
– Eu estou bem, Jodie, a sério.
– Isso quer dizer que queres que eu me vá embora? Passaste dois meses fechada naquela cela, sozinha, a achares que tinhas a cidade em peso contra ti. Mal permitiste que alguém te visitasse. Eu compreendo isso, a sério que compreendo, mas acho que não devia ir-me embora e deixar-te sozinha. Quero ficar contigo alguns dias. Importas-te?
– Eu vivi sozinha durante toda a vida e não apenas dois meses! E não creio que estivesse consciente de que tinha a cidade em peso contra mim.
– Não deixes que esta situação horrível te afaste ainda mais das pessoas, Kya. Passaste por uma terrível provação, mas esta parece ser a tua oportunidade de recomeçares. Talvez o veredicto seja a forma de as pessoas te dizerem que te aceitam.
– A maior parte das pessoas não tem de ser ilibada de um crime para ser aceite.
– Eu sei e tu tens toda a razão para odiares as pessoas. Não te posso censurar por isso, mas…
– É isso que ninguém entende em mim. – Levantou a voz. – Eu nunca odiei ninguém. Eles é que me odiavam a mim. Eles é que se riam de mim, eles é que me abandonaram. Eles é que me importunaram e me atacaram. É verdade: aprendi a viver sem eles, sem ti, sem a mãe, sem ninguém!
Ele tentou abraçá-la, mas ela afastou-o.
– Talvez agora eu esteja apenas cansada, Jodie. Na verdade, sinto-me exausta. Por favor. Eu preciso de ultrapassar tudo isto, sozinha – o julgamento, a prisão, a possibilidade de ser executada – porque não conheço outra forma de lidar com as coisas. Não sei deixar que me consolem. Estou demasiado cansada até para ter esta conversa. Eu…
Não terminou a frase, nem esperou que ele lhe respondesse. Saiu da cabana e embrenhou-se na floresta de carvalhos. Ele não foi atrás dela, pois sabia que era inútil. Esperaria por ela. No dia anterior abastecera a cabana de comida, para o caso de ela ser absolvida, e começou a cortar verduras para fazer o seu prato preferido: tarte de galinha caseira. Mas quando o sol se pôs, já não conseguia suportar a ideia de a manter afastada da cabana, por isso deixou a tarte quente e borbulhante em cima do fogão, e saiu. Ela fora até à praia pelos bosques e assim que ouviu a carrinha dele afastar-se lentamente pela estrada de areia, correu para casa.
O ar estava impregnado do cheiro da massa dourada da tarte, dentro da cabana, mas Kya ainda não estava com fome, por isso foi buscar as suas tintas e começou a planear o seu próximo livro sobre as ervas do pantanal. As pessoas nunca reparavam nas ervas a não ser para as cortar, pisar ou envenenar. Kya passou energicamente o pincel pela tela pintando-a num tom mais próximo do negro do que do verde e visualizou imagens sombrias. Talvez prados de capim seco, sob nuvens de tempestade. Era difícil de perceber.
Depois deixou cair a cabeça e chorou.
– Porque estou zangada, agora? Porquê agora? Porque fui tão cruel com Jodie? – Deixou-se cair para o chão como uma boneca de trapos. Ainda a chorar, enrolou-se num novelo e desejou poder aconchegar-se à única criatura que a aceitara tal como ela era. Mas o gato ficara na prisão.
Mesmo antes do anoitecer, Kya voltou à praia onde as gaivotas estavam a limpar as penas e a acomodarem-se para passar a noite. Ao andar pela rebentação, pedaços de conchas e lascas de caranguejos, roçaram-lhe pelos dedos dos pés, antes de regressarem ao mar. Baixou-se e apanhou duas penas de pelicano, iguais às que Tate pusera na letra «p» do dicionário que lhe oferecera há anos, pelo Natal, e recitou um poema de Amanda Hamilton em voz baixa:
Voltaste a aparecer
E ofuscaste-me
Como o brilho do sol sobre o mar
Mal volto a sentir-me livre
O luar volta a projetar o teu rosto no parapeito da
janela.
De cada vez que te esqueço
Os teus olhos voltam a assombrar-me o coração E eu volto a render-me.
Por isso despeço-me
Até que voltes a aparecer
Até que eu deixe, finalmente, de te ver.
Na manhã seguinte, antes do nascer do sol, Kya sentou-se na sua cama, no alpendre, e encheu o coração dos odores intensos do pantanal. Assim que a luz ténue do amanhecer começou a entrar na cozinha, fez papas de aveia, ovos mexidos, e uns biscoitos tão leves e fofos como os da mãe. Não deixou nada no prato. Depois, quando o sol nasceu, dirigiu-se apressadamente para o barco e atravessou a lagoa, mergulhando os dedos nas suas águas transparentes e profundas.
Ao percorrer o canal, falou com tartarugas e garças e ergueu os braços no ar. Estou em casa.
– Vou passar o dia a apanhar o que me der na real gana – disse ela. Lá no fundo alimentava a esperança de ver Tate. Talvez ele estivesse a trabalhar ali por perto e ela se cruzasse com ele. Poderia convidá-lo para ir à cabana partilhar com ela a tarte de galinha que Jodie fizera.
A pouco mais de um quilómetro, Tate caminhava por águas pouco profundas, recolhendo amostras de água em pequenos frascos. De cada vez que avançava ou enchia um frasco, deixava um rasto de pequenas ondas, atrás de si. Planeara ficar perto da casa de Kya. Talvez ela fosse de barco para o pantanal e se encontrassem. Se não a visse, passaria pela cabana nessa noite. Ainda não decidira, propriamente, o que lhe diria, mas passou-lhe pela cabeça chamá-la à razão, delicadamente.
À distância, ouviu o estrépito furioso de um motor. Era muito mais agudo e ruidoso do que um motor de um barco e abafava todos os ruídos suaves do pantanal. Localizou ruído, ao senti-lo aproximar-se, e de repente, viu um daqueles aerobarcos novos aproximar-se velozmente. Deslizava espalhafatosamente sobre a água e até sobre a erva, projetando um jato curvo de água para trás. Fazia mais barulho do que dez sirenes juntas.
O barco cruzou a sua própria esteira, esmagando arbustos e ervas, e atravessou velozmente o estuário, por entre os guinchos das garças brancas e das garças-reais. Ao verem Tate, os três homens que vinham ao leme, viraram na direção dele. Assim que se aproximaram ele reconheceu o Xerife Jackson, o seu adjunto e outro homem.
A base do espalhafatoso barco voltou a assentar por completo na água, ao abrandar e aproximar-se dele. O xerife gritou-lhe qualquer coisa, mas nem inclinado na direção deles, com as mãos em concha nos ouvidos, conseguiu perceber o que ele estava a dizer-lhe por cima do ruído do barco. Eles aproximaram-se um pouco mais até ficarem junto de Tate, salpicando-lhe as coxas de água. O xerife inclinou-se para ele, a gritar.
Kya estava ali perto e também ouvira o ruído da estranha embarcação. Ao conduzir o esquife na direção do som, viu o aerobarco aproximar-se de Tate. Recuou para uns arbustos e ficou a observar. Depois de ouvir o que o Xerife lhe disse, Tate ficou imóvel, baixou a cabeça e ficou de ombros caídos, como que rendido. Mesmo àquela distância Kya conseguiu perceber o desespero na postura dele. O Xerife voltou a gritar-lhe e Tate esticou, finalmente, os braços, deixando que o adjunto o puxasse para dentro do barco. O outro homem saltou para dentro de água e subiu para a lancha de Tate. Ele ficou entre os dois homens de uniforme, de queixo e olhos baixos. Eles viraram o barco e voltaram a atravessar velozmente o pantanal, em direção a Barkley Cove, seguidos de perto pelo homem que conduzia o barco de Tate.
Kya seguiu-os com os olhos, até ambos os barcos desaparecerem por trás de uma área de zosteras. Porque teriam levado Tate? Teria a ver com a morte de Chase? Tê-lo-iam prendido?
Foi dominada por uma sensação de agonia. Depois de passar a vida inteira a negá-lo, admitira, finalmente, que era a possibilidade de encontrar Tate, a esperança de percorrer uma curva de um riacho e observá-lo através dos juncos, que a compelia a sair para o pantanal, todos os dias, desde os sete anos. Conhecia as suas lagoas e trilhos preferidos, através de lodaçais perigosos, pois sempre o seguira a uma distância segura, espiando-o e amando-o furtivamente, sem nunca partilhar esse amor com ele. Ninguém se magoa amando alguém do lado oposto do estuário. Só sobrevivera aos anos em que o rejeitara, por saber que ele estava algures no pantanal, à espera. Mas agora, talvez ele deixasse de lá estar.
Ficou a ouvir o ruído do motor do estranho barco afastar-se, de olhos pregados na sua esteira. Saltos estava sempre a par de tudo e devia saber por que razão o Xerife levara Tate, e o que poderia fazer para o ajudar.
Puxou a corda do motor de arranque e percorreu velozmente o pantanal.
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