Lá, onde o vento chora
30. Os Agueiros
30
Os Agueiros
1967
Da praia, Kya correu para o barco e levou-o a alta velocidade para o mar, dirigindo-se diretamente para os agueiros. Depois inclinou a cabeça para trás e gritou:
– Sua CABRA RELES!
Ondas confusas e caóticas projetavam a proa do barco para o lado, exercendo pressão contra o leme. Como sempre, o mar parecia mais furioso e intenso do que o pantanal – como se tivesse mais para dizer.
Há muito que Kya aprendera a distinguir as correntes vulgares dos agueiros – como navegá-los ou evitá-los, avançando perpendicularmente ao seu curso – mas nunca fora direita às correntes mais profundas, ao largo da costa da Carolina do Norte, algumas delas impelidas pela Corrente do Golfo que move cento e dez biliões de metros cúbicos de água por segundo, e cuja energia é superior à energia combinada de todos os rios à face da Terra. A rebentação provoca terríveis correntes de retorno, redemoinhos cerrados e circulação invertida das águas que giram nas correntes costeiras, gerando um dos mais temíveis ninhos de cobra dos mares do planeta. Durante toda a sua vida, Kya evitara essas zonas, mas não agora. Hoje, fora direita às suas gargantas, à procura de algo, qualquer coisa que lhe permitisse fugir à dor e a raiva que sentia.
As águas revoltas avançavam na direção do barco, elevando-lhe a proa e inclinando-o a estibordo. O esquife ergueu-se e voltou a endireitar-se e Kya foi sugada para um terrível agueiro de águas alterosas, que a arrastou consigo a uma velocidade três vezes superior à do barco. Tentar virar o barco para sair dele parecia demasiado arriscado, por isso Kya tentou manejar o leme na corrente, atenta aos bancos de areia que formavam barreiras, em constante mutação, abaixo da superfície. Um pequeno toque seria o suficiente para virar o barco.
As ondas rebentavam por cima das suas costas, ensopando-lhe o cabelo. Nuvens rápidas e escuras percorriam velozmente os céus, por cima da sua cabeça, tapando o sol, encobrindo sinais de redemoinhos e de turbulência, e absorvendo o calor do dia.
Ainda assim, o medo esquivou-se dela, embora desejasse sentir-se apavorada. Tudo valia para desalojar a faca enterrada no seu coração.
Subitamente, as águas tumultuosas da corrente mudaram de direção e o pequeno agueiro girou a estibordo, puxando o barco para esse lado. A força da corrente atirou-a para o fundo do barco, fustigado pelas ondas. Aturdida, Kya sentou-se dentro do barco alagado, preparando-se para levar com outra onda.
É claro que não estava sequer perto da Corrente do Golfo. Aquilo era apenas o campo de treino, o parque de diversões do mar alto, mas Kya aventurara-se a entrar naquele terrível agueiro e tencionava sair dele. Ganhar qualquer coisa. Afogar a dor.
Ondas cor de ardósia rebentavam em todas as direções, como se tivessem perdido por completo a noção de simetria e sequência. Ela voltou a arrastar-se para cima do banco e agarrou no leme, mas não sabia em que direção conduzir o barco.
A costa reduzia-se agora a uma linha suspensa e distante, que surgia apenas de vez em quando, entre a crista branca das ondas. Justamente quando avistava terra firme, o barco girou ou inclinou-se e ela voltou a perdê-la de vista. Kya estava perfeitamente segura de que conseguiria navegar na corrente, porém, esta ganhara força e estava a arrastá-la para um mar revolto, cada vez mais escuro. As nuvens baixas estavam agora agrupadas, tapando por completo o sol. Kya estava encharcada e tiritava, sentindo a energia abandoná-la, o que estava a dificultar-lhe o manejo do leme. Não viera equipada para o mau tempo e não trouxera comida nem água.
Por fim, sentiu medo, um medo mais profundo do que o próprio mar. Medo por saber que ia ficar de novo sozinha. Possivelmente, para sempre. Uma condenação perpétua. Kya arquejou em agonia ao sentir o barco torcer-se e guinar para bombordo, inclinando-se perigosamente com cada vaga.
O fundo do barco estava agora com quinze centímetros de água espumosa e fria. Tão fria, que estava a queimar-lhe os pés descalços. Num abrir e fechar de olhos, as nuvens e o mar tinham vencido o calor da primavera. Kya levou uma mão ao peito, para tentar aquecer-se, manejando debilmente o leme com a outra, sem lutar contra a corrente, movendo-se simplesmente com ela.
Finalmente, as águas aquietaram-se e embora a corrente continuasse a arrastá-la com propósitos muito próprios, já não havia redemoinhos nem vagas alterosas. Mais adiante viu um pequeno banco de areia alongado, com cerca de trinta metros de comprimento. Lutando contra a forte corrente submarina, Kya esperou pelo momento exato para virar o leme e sair da corrente. Depois, contornou o banco de areia para o lado virado a sotavento. Nessas águas mais calmas, o barco deslizou para a areia com a suavidade de um primeiro beijo. Saiu do barco, naquela estreita língua de terra, e deixou-se cair na areia. Depois, deitou-se para trás e desfrutou da sensação de estar deitada em terra firme.
Kya sabia que não era por Chase que chorava, mas sim por uma vida pautada por rejeições. Enquanto o céu e as nuvens se digladiavam lá no alto, disse em voz alta:
– Tenho de lidar com a minha vida sozinha, mas isso já eu sabia. Há muito tempo que sei que todos me abandonam.
O facto de Chase lhe falar maliciosamente em casamento para a aliciar, tê-la levado imediatamente para a cama, para depois a trocar por outra pessoa, não eram coincidências. Kya sabia, pelas coisas que lia e via, que os machos costumavam saltar de fêmea em fêmea. Então, porque se apaixonara por aquele homem? O seu elegante barco de esqui aquático era o equivalente ao pescoço enfunado e as enormes armações de um veado no cio: apêndices para afastar outros machos e atrair um corrupio de fêmeas. Ainda assim, caíra no mesmo ardil que a mãe. Sacaninhas matreiros e mulherengos. Que mentiras o pai lhe teria contado? A que restaurantes chiques a teria levado, antes de se lhe acabar o dinheiro e a arrastar para o seu verdadeiro território – uma cabana no pântano? O melhor seria deixar o amor repousar como um terreno de poisio.
Recitou um poema de Amanda Hamilton, em voz alta:
Agora, tenho de me render
E deixar-te partir
O amor é, demasiadas vezes,
Razão para ficar
E quase nunca
Motivo para partir
Vejo-te desaparecer
Enquanto escrevo.
Sempre achaste
Que eram as temíveis correntes
Do peito da tua amante
Que te arrastavam para o fundo.
Mas era a maré do meu coração a libertar-te
Para que pudesses flutuar com as algas
ao sabor das ondas.
O sol mortiço arranjou espaço para brilhar entre as nuvens de barriga escura, e alcançou o banco de areia. Kya olhou em redor. A corrente, essa majestosa varredora do mar, devia ter conspirado com a areia, convertendo-a numa delicada rede de pesca, porque em seu redor estava a mais fantástica coleção de conchas que vira em toda a sua vida. Graças à forma angular do banco de areia, a suave ondulação devia ter depositado as conchas a sotavento, espalhando-as depois delicadamente sobre a areia, sem as partir.
Kya viu várias conchas raras e muitas das suas preferidas, perladas, intactas e ainda a brilhar.
Caminhou por entre elas, escolheu as mais raras e amontoou-as numa pilha. Depois, virou o barco, tirou a água que tinha dentro e alinhou cuidadosamente as conchas ao longo da junta, no fundo do barco. Agora estava de pé, muito direita, a examinar as águas, para planear a viagem de regresso. Leu o mar e tal como aprendera com as conchas, decidiu zarpar a sotavento e dirigir-se diretamente para terra, evitando em simultâneo as correntes mais fortes.
Ao empurrar o barco para a água, percebeu que ninguém jamais voltaria a ver aquele banco de areia. Os elementos tinham criado um breve e transitório sorriso de areia, assim orientado. A próxima maré ou próxima corrente desenhariam outro banco de areia, e outro ainda, mas nunca aquele. Não o que a atraíra e lhe dissera uma ou duas coisas.
Mais tarde, ao passear pela sua praia, recitou o seu poema favorito de Amanda Hamilton:
Pálida lua, segue os meus passos,
Pela luz inteira
Pelas sombras da Terra
E sente comigo
Os ombros frios
Do silêncio.
Só tu sabes
Quão infinitamente
A solidão prolonga
A travessia de um momento
Quanto céu existe num sopro
Quando o tempo volta atrás
Pela areia.
Ninguém entendia melhor a solidão do que a lua.
De regresso aos ciclos previsíveis dos girinos e à dança dos pirilampos, Kya embrenhou-se mais profundamente nos segredos da selva silenciosa. A natureza parecia ser a única pedra firme no caminho.
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