Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 29 de 59

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Lá, onde o vento chora

27. Motel à saída de Hog Mountain Road

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Motel à saída de Hog Mountain Road

1966

A cabana estava silenciosa. Tudo o que se ouvia era o leve restolhar das asas dos tordos madrugadores. Uma intensa neblina de inverno estava a formar-se rente ao solo, acumulando-se junto das paredes como algodão. Utilizando o dinheiro de várias semanas de venda de mexilhão, Kya comprara mercearias especiais, fritara fatias de presunto de melaço, fizera

molho 4 redeye e servira-o com biscoitos de natas ácidas e compota de amora. Chase bebeu café instantâneo e ela chá gelado. Estavam juntos há quase um ano, embora nenhum deles falasse disso. Chase disse-lhe que era uma sorte o pai ser proprietário da Western Auto.

– Assim, poderemos ter uma bela casa, quando nos casarmos. Vou mandar construir uma casa de dois andares, na praia, com uma varanda à volta, ou o tipo de casa que preferires, Kya.

Kya mal conseguia respirar. Ele queria que ela fizesse parte da sua vida. Não era apenas um indício, era praticamente um pedido de casamento. Iria pertencer a alguém, fazer parte de uma família. Empertigou-se na cadeira.

Ele prosseguiu.

– Acho que não devíamos viver mesmo na cidade. Seria uma transição demasiado brusca para ti, mas podíamos mandar construir uma casa nos arredores. Perto do pantanal, percebes?

Ultimamente, ocorrera-lhe vagamente a possibilidade de se casar com Chase, mas não se atrevera a aprofundar demasiado o assunto. Mas agora ele estava a falar nisso em voz alta e, apesar de se sentir um pouco incrédula, Kya deu consigo a pensar nos detalhes, empolgada. Eu consigo, pensou. Se vivermos longe das pessoas, talvez resulte.

Depois, baixou a cabeça e perguntou-lhe:

– E os teus pais? Contaste-lhes?

– Tens de entender uma coisa em relação aos meus pais, Kya. Eles amam-me. Se eu lhes disser que tu és a minha escolha, é assunto encerrado. Assim que te conhecerem, vão apaixonar-se por ti.

Ela mordeu o lábio. Queria tanto acreditar nisso.

– Mandarei construir um ateliê para as tuas coisas – prosseguiu ele. – Com grandes janelas para que possas ver os detalhes de todas essas malditas penas.

Kya não sabia se sentia por Chase o que uma esposa deveria sentir, mas naquele momento, estava nas nuvens e parecia amor. Não teria de apanhar mais mexilhões.

Levou a mão ao pescoço dele e tocou no colar da concha, por baixo da garganta.

– A propósito – disse Chase. – Dentro de dias, terei de ir a Ashville de carro, comprar mercadoria para a loja, e estava aqui a pensar se gostarias de vir comigo.

Ela baixou os olhos e disse:

– Mas Ashville é uma grande cidade. Vai lá estar imensa gente. Além disso não tenho roupa adequada. Nem sei sequer qual é a roupa adequada e…

– Kya, Kya, escuta. Vais estar comigo e eu sei tudo. Não precisamos de ir a nenhum sítio elegante. Além disso, irias conhecer uma boa parte da Carolina do Norte – o Piedmont, as Great Smoky Mountains… Quando lá chegássemos poderíamos ir simplesmente a um drive-in comer hambúrgueres. Podes levar o que tens vestido. Não terás de falar com ninguém se não quiseres. Eu trato de tudo. Já lá fui imensas vezes. Cheguei mesmo a ir a Atlanta. Ashville não é nada. Se vamos casar, é bom que comeces também a sair um pouco para o mundo, e abras essas grandes asas.

Ela acenou com a cabeça. Pelo menos iria ver as montanhas.

Ele continuou:

– É trabalho para dois dias, por isso teremos de pernoitar por lá. Ficaremos num sítio descontraído. Num pequeno motel. Não vão levantar problemas porque somos dois adultos.

– Compreendo. – Foi tudo o que ela disse.

Kya nunca andara de carro numa estrada, por isso ia agarrada ao banco com ambas as mãos, de olhos pregados na janela, ao afastar-se para oeste de Barkley com Chase, dias depois. A estrada sinuosa estendia-se por quilómetros de palmitos e juncos, com o mar cada vez mais distante, no vidro traseiro do carro.

Durante mais de uma hora, Kya continuou a ver os prados de erva e os cursos de água, que tão bem conhecia, pela janela da carrinha. Identificou garrinchões e garças do pantanal, e as semelhanças da paisagem reconfortaram-na. Era como se não tivesse saído do pantanal. Como se o trouxesse consigo.

Mas de repente, foi como se alguém traçasse uma linha na terra e os prados do pantanal terminaram, dando lugar a terra poeirenta – terrenos mondados, divididos em carreiros, vedados em quadrados. Árvores paraplégicas erguiam-se em florestas arrasadas. Postes ligados por arames estendiam-se a perder de vista. É claro que ela sabia que o pantanal costeiro não cobria o mundo inteiro, mas nunca viajara para além dele. O que fizera a humanidade à terra? As casas assemelhavam-se todas a caixas de sapatos, acaçapadas em relvados aparados. Kya viu um bando de flamingos a alimentar-se num pátio, mas ao virar-se, surpreendida, na direção deles, viu que eram de plástico. Os veados eram de cimento e os únicos patos que viu a voar, estavam pintados em caixas do correio.

– São incríveis, não são?

– O quê?

– As casas. Nunca tinhas visto nada assim, pois não?

– Não.

Horas mais tarde, nas planícies de Piedmont, Kya viu os suaves contornos azuis dos Apalaches, na linha do horizonte. À medida que se aproximavam os picos iam crescendo em redor deles. Florestas montanhosas estendiam-se a perder de vista, em suaves ondulações.

As nuvens repousavam algum tempo ao colo das montanhas e depois subiam e afastavam-se. Alguns fiapos formavam finas espirais, percorrendo as ravinas mais quentes, à semelhança do nevoeiro que invadia os brejos húmidos do pantanal. As mesmas leis da física a atuarem em diferentes campos da biologia.

Kya era oriunda das terras baixas, uma área de horizontes, onde o pôr do sol e o nascer da lua aconteciam a horas certas. Mas naquela área de topografia confusa, o sol equilibrava-se pelos picos, escondendo-se, por instantes, atrás de uma cordilheira, para voltar a surgir quando a carrinha de Chase subia em direção a outra elevação. Nas montanhas, a hora do pôr do sol varia consoante o ponto da colina onde estivermos, pensou Kya.

Perguntou a si mesma onde ficariam as terras do avô. Talvez a sua família tivesse criado porcos num velho celeiro acinzentado, como um que vira num prado com um riacho. Uma família que deveria ter sido a sua, trabalhara, rira e chorara, em tempos, naquela paisagem. Alguns ainda deviam viver anonimamente dispersos pela região.

A estrada deu lugar a uma via rápida de quatro faixas e Kya agarrou-se bem ao banco, enquanto a carrinha de Chase avançava velozmente a escassos metros de outros veículos. Chase virou para um acesso em curva que se elevava magicamente no ar e os levou em direção à cidade.

– Uma saída em trevo – disse ele, orgulhosamente.

Enormes edifícios de oito e nove andares erguiam-se contra os contornos das montanhas. Inúmeros veículos circulavam apressadamente, como caranguejos da areia, e havia tanta gente nos passeios, que Kya esmagou o nariz contra o vidro da janela e perscrutou os seus rostos, pensando que a mãe e o pai poderiam estar entre eles. Viu um rapaz moreno, de cabelo escuro, parecido com Jodie, a correr pelo passeio, e virou-se para o observar. É claro que o irmão deveria ter crescido, entretanto. Ainda assim, seguiu-o com os olhos, até este desaparecer numa esquina.

Chase reservou um quarto para ambos, num motel, do lado oposto da cidade, à saída de Hog Mountain Road. Um edifício térreo, castanho, com uma fiada de quartos, iluminado por néones com a forma de palmeiras, por incrível que pareça.

Depois de Chase abrir a porta, ela entrou num quarto razoavelmente limpo, a tresandar a detergente de limpeza, equipado com mobília americana barata: paredes apaineladas em imitação de madeira, uma cama afundada com um vibrador de moedas e uma televisão a preto e branco, presa à mesa com uma corrente e um cadeado incrivelmente pesados. As cobertas eram cor de lima e alcatifa felpuda, cor de laranja. Kya reviu todos os lugares onde tinham estado deitados juntos – areais cintilantes, piscinas criadas pela maré, barcos ao sabor da corrente, sob a luz do luar… Ali a peça central era a cama, mas o quarto não transmitia amor.

Ela manteve-se, intencionalmente, junto da porta.

– Não é grande coisa – disse ele, poisando o seu saco de lona em cima da cadeira.

Depois, aproximou-se dela.

– Está na altura, não achas, Kya? Está na altura.

É claro que a ideia dele sempre fora essa, mas Kya estava pronta. O seu corpo desejava-o há meses e depois de ele lhe falar de casamento, a sua mente rendera-se também, por isso assentiu.

Ele veio lentamente ao seu encontro e desabotoou-lhe a blusa, virou-a delicadamente e abriu-lhe o fecho do sutiã, percorrendo-lhe os seios com os dedos. Um calor excitante trespassou-lhe o corpo, dos seios até às coxas. Quando ele a deitou na cama, sob a luz vermelha e verde dos néones, que se escoava através das cortinas, ela fechou os olhos. Anteriormente, de todas as vezes que ele quase lá chegara e ela o contivera, os seus dedos pareciam ganhar magia, animando-lhe partes do corpo, compelindo-a a arqueá-lo ao encontro dele, tonta de desejo e de ânsia. Mas agora que lhe dera, finalmente, permissão para avançar, ele parecia possuído por um ímpeto que o fazia ignorar as necessidades dela e a avançar à força.

A dada altura Kya sentiu que algo se rasgara e gritou, convencida de que alguma coisa estava a correr mal.

– Está tudo bem. Agora vai ser melhor – disse ele, com grande propriedade. Mas não melhorou muito e, pouco depois, ele deixou-se cair para o seu lado, a sorrir.

Depois, acabou por adormecer e Kya ficou de olhos postos nos néones intermitentes do motel.

Algumas semanas mais tarde, Chase estava sentado à mesa da cozinha, na cabana de Kya, depois de terminarem um pequeno-almoço de ovos fritos e papas de aveia com presunto. Ela aconchegara-se num cobertor, depois do sexo que não melhorara muito desde a primeira tentativa, no motel. Chase deixava-a sempre carente, mas ela não fazia a mínima ideia de como abordar o assunto, e também não sabia como deveria sentir-se. Talvez aquilo fosse o normal.

Chase levantou-se da mesa, ergueu-lhe o queixo com os dedos e beijou-a, dizendo:

– O Natal está à porta, por isso não te visitarei muito nos próximos dias. Vamos ter imensos eventos e temos familiares a chegar.

Kya olhou para ele e disse:

– Estava na esperança de… de que tu me levasses a algumas festas. Pelo menos ao jantar de Natal da tua família.

Chase voltou a sentar-se na sua cadeira.

– Escuta Kya, há algum tempo que queria falar contigo sobre isto. Gostaria de te convidar para o baile do Elks Club, e coisas do género, mas sei que és tímida, e nunca vais a lado nenhum na cidade. Sei que irias sentir-te pessimamente, porque não conheces ninguém, nem tens roupa adequada. Nem sequer sei se sabes dançar. Não é o teu tipo de coisa. Compreendes isso, não é?

Ela baixou os olhos para o chão e disse:

– Sim, tudo isso é verdade, mas eu tenho de começar a adaptar-me um pouco à tua vida. Abrir as asas, como tu disseste. Terei de arranjar roupa adequada e conhecer alguns dos teus amigos. – Levantou a cabeça. – Podias ensinar-me a dançar.

– Claro que posso. E vou ensinar-te. Mas quando penso em nós os dois, penso no que temos aqui. Adoro o tempo que passamos juntos, sozinhos. Para te dizer a verdade, estou a ficar um pouco farto daqueles bailes idiotas. É sempre a mesma coisa. Há anos que assim é. Velhos e jovens todos juntos, no ginásio do liceu, com a mesma música estúpida de sempre. Eu quero seguir em frente. Aliás, quando formos casados não faremos coisas desse tipo. Para quê arrastar-te para isso agora? Não faz sentido nenhum, percebes?

Ela voltou a olhar para o chão e ele levantou-lhe de novo o queixo e olhou-a nos olhos. Depois disse com um grande sorriso:

– Quanto ao jantar de Natal com a minha família, essas minhas tias que vêm da Flórida não se calam um bocadinho. Aturá-las é algo que não desejaria a ninguém, muito menos a ti. Não perdes nada em não ir, acredita.

Ela ficou em silêncio.

– Não quero que te sintas mal por isso, Kya. A sério. O que nós temos aqui é o que de mais especial alguém jamais poderia desejar ter. Tudo o mais – sacudiu as mãos no ar – é uma perfeita estupidez.

Agarrou nela e puxou-a para o seu colo e ela encostou a cabeça ao seu ombro.

– É isto que importa, Kya. O resto não interessa. – Deu-lhe um beijo terno e caloroso e levantou-se. – Ok. Tenho de me ir embora.

Kya passou o Natal sozinha com as gaivotas, como todos os anos, desde que a mãe se fora embora.

Dois dias depois do Natal, Chase ainda não aparecera. Quebrando a promessa que fizera a si própria de nunca mais voltar a esperar por ninguém, Kya passarinhava impacientemente pela margem da lagoa, de cabelo entrançado e lábios pintados com o velho batom da mãe.

Mais adiante, o pantanal exibia o seu manto de inverno, em tons de castanho e cinzento. Quilómetros de ervas em fim de vida, depois de polinizadas as suas sementes, curvavam reverentemente a cabeça para a água, como que rendidas ao seu poder. O vento fustigava e despedaçava os seus caules ásperos, sacudindo-os num ruidoso coro de lamentos. Kya soltou o cabelo e limpou os lábios com as costas da mão.

Na manhã do quarto dia, Kya estava sentada na cozinha, sozinha, a empurrar os biscoitos e os ovos à volta do prato.

– «É isto que importa». Onde está ele agora, depois dessa conversa toda? – disse ela, irritada, imaginando-o a jogar futebol americano com os amigos ou a dançar em festas. – As tais coisas estúpidas de que está a ficar farto.

Finalmente, ouviu o ruído do barco dele. Saltou da mesa, bateu com a porta e correu até á lagoa, na altura em que o barco se tornou visível. Mas não era o barco de esqui aquático de Chase. Não era Chase. Era um jovem de cabelo louro, agora mais curto, mas ainda assim difícil de esconder debaixo de um boné de esqui. Era o velho esquife de pesca. Era Tate, agora adulto. Tate cujo rosto de rapaz dera lugar às feições maduras de um homem atraente – de pé no barco, embora este estivesse ainda em movimento – com uma pergunta nos olhos e um tímido sorriso nos lábios.

O seu primeiro impulso foi fugir. Mas a mente gritou-lhe: NÃO! Esta é a minha lagoa. Passo a vida a fugir, mas desta vez não vou fugir. A seguir, pegou numa pedra e atirou-lha à cara, a seis metros de distância. Ele baixou-se rapidamente e a pedra passou-lhe, à tangente, por cima da testa.

– Merda, Kya. O que é isto? Espera – disse ele, tapando o rosto com as mãos, ao vê-la pegar noutra pedra e fazer pontaria. – Kya, por amor de Deus, para. Por favor. Será que não podemos falar?

A pedra atingiu-o violentamente no ombro.

– SAI DA MINHA LAGOA, MEU PORCO SEBENTO! QUE TAL? AGRADA-TE A CONVERSA?

– Kya, por favor ouve-me. Eu sei que tu estás com o Chase, agora, e respeito isso. Só quero falar contigo. Por favor, Kya.

– Porque haveria eu de falar contigo? Nunca mais te quero ver. NUNCA MAIS! – Pegou numa série de pedras mais pequenas e atirou-lhas à cara.

Ele esquivou-se para um lado e curvou-se para a frente, agarrando-se à amurada, ao sentir o barco bater em terra.

– EU DISSE PARA SAÍRES DAQUI!

Ainda a gritar, mas num tom mais brando, disse:

– Sim, agora estou com outra pessoa.

Tate recuperou o equilíbrio, depois de o barco bater em terra com um solavanco, e sentou-se no banco da proa.

– Kya, por favor. Há coisas que precisas de saber acerca dele. – Não era sua intenção falar sobre Chase, mas nada estava a correr como imaginara, naquela visita surpresa a Kya.

– Que conversa é essa? Não tens o direito de vir aqui comentar a minha vida privada – disse ela, irritada, agora a cerca de meio metro dele.

Ele respondeu com firmeza:

– Eu sei que não, mas de qualquer forma vou fazê-lo.

Ao ouvir isto, Kya virou-se para se ir embora, mas Tate levantou a voz.

– Tu não vives na cidade e não sabes que Chase sai com outras mulheres. Apenas há algumas noites vi-o sair com uma loira na pickup, depois de uma festa. Ele não te merece.

Ela virou-se.

– A sério? E és TU que o dizes? O tal que me abandonou e não voltou quando prometeu. O tal que nunca mais apareceu; que nunca me escreveu para se explicar ou, pelo menos, para eu saber se estava vivo ou morto. Não foste capaz de me dizer uma palavra. Não foste suficientemente homem para me enfrentar. Desapareceste, simplesmente, meu COBARDE DE MERDA. E agora resolves aparecer aqui de barco, ao fim de todos estes anos? Tu és pior do que ele. Ele poderá não ser perfeito, mas tu és muito pior, de longe. – Subitamente, parou de falar e ficou a olhar para ele.

Ele abriu as mãos e disse-lhe em tom de súplica:

– Tens razão acerca de mim. Tudo o que disseste é verdade. Fui um cobarde e não tinha o direito de falar do Chase. Não tenho nada a ver com isso e nunca mais te importunarei. Preciso apenas de te pedir desculpa e explicar-me. Há anos que o lamento. Por favor, Kya.

Ela pendurou os ombros como uma vela sem vento. Tate era mais do que o seu primeiro amor: partilhavam da mesma devoção pelo pantanal. Ele ensinara-a a ler e era o único elo com a sua família desaparecida, por muito insignificante que fosse essa ligação. Ele era uma página no tempo, um recorte num livro de colagens, porque era tudo o que lhe restava. Quando a fúria se dissipou, o coração batia-lhe com força no peito.

– Olha para ti – tão bonita – estás uma mulher. Como tens passado? Ainda vendes mexilhões? – Tate estava estupefacto com a mudança que se operara nela. Feições mais refinadas – mas ainda assim assombrosas – molares pronunciados, lábios carnudos.

– Sim. Sim.

– Toma. Trouxe-te uma coisa. – Tirou uma minúscula pena vermelha da face de um pica-pau, de dentro de um envelope. Ela pensou em atirá-la para o chão, mas nunca encontrara uma pena daquelas. Porque não haveria de ficar com ela? Guardou-a no bolso sem lhe agradecer.

Ele disse muito depressa:

– Abandonar-te não foi apenas um erro, Kya, foi a pior coisa que fiz ou jamais voltarei a fazer na vida. Há anos que lamento isso e creio que o lamentarei para sempre. Penso em ti todos os dias. Vou arrepender-me de te ter abandonado para o resto da vida. A verdade é que pensei que tu não conseguirias abdicar do pantanal e viver noutro mundo, por isso não via como poderíamos ficar juntos. Mas foi um erro. Foi um disparate eu não ter voltado, para falar contigo sobre isso. Eu sabia quantas vezes tu tinhas sido abandonada antes, mas não queria encarar a dor que te causei. Não fui suficientemente homem para isso, como tu própria disseste. – Parou de falar e ficou a observá-la.

Finalmente, ela disse:

– O que queres agora, Tate?

– Se ao menos pudesses, de alguma forma, perdoar-me. – Respirou fundo e esperou.

Kya olhou para os pés. Porque teria de ser a vítima, ainda dorida e a sangrar, a suportar o ónus do perdão? Não lhe respondeu.

– Eu tinha de te dizer isto, Kya.

Como ela continuava sem dizer nada, ele prosseguiu:

– Estou a tirar um curso de zoologia, na universidade. Protozoologia, essencialmente. Ias adorar.

Ela não conseguia sequer imaginar o que isso era. Voltou a olhar para a lagoa, para ver se Chase aí vinha.

Tate reparou nisso, pois percebera logo que ela estava ali à espera dele.

Ainda na semana anterior o vira na Gala de Natal, de smoking branco, a dançar com várias mulheres. O baile, tal como grande parte dos eventos em Barkley Cove, decorrera no ginásio do liceu. Chase estava a dançar o «Wooly Bully» com uma morena, ao som da pequeníssima aparelhagem de hi-fi, instalada debaixo do cesto de basquetebol. Quando o «Mr. Tamborine Man» começou a tocar, abandonou a pista de dança e a morena, e foi partilhar umas goladas de Bourbon do seu frasco de bolso, com outros antigos atletas. Tate estava perto dele, a conversar com dois dos seus antigos professores do liceu, e ouviu-o dizer:

– Sim, ela é selvagem como uma raposa fêmea presa num laço. Exatamente o que se poderia esperar de uma sirigaita do pantanal. Vale bem o dinheiro da gasolina.

Tate teve de fazer um esforço para se afastar dele.

Um vento frio fustigava a lagoa, cobrindo-a de pequenas ondas. Kya saíra de casa a correr, de jeans e camisola fina. Desconfortável, abraçava o próprio corpo.

– Estás gelada. Vamos para dentro – disse Tate, apontando para a cabana. A chaminé ferrugenta do velho fogão fumegava.

– Acho que está na altura de te ires embora, Tate – disse ela, olhando repetidas vezes para o canal. E se Chase chegasse e o encontrasse?

– Por favor, Kya. Ficarei apenas uns minutos. Gostava muito de voltar a ver as tuas coleções.

Ela correu para a cabana e Tate seguiu-a, mas quando chegou ao alpendre, parou subitamente. O passatempo de criança dera lugar a um verdadeiro museu de história natural do pantanal. Ergueu uma vieira rotulada com uma aguarela da praia onde fora apanhada, com algumas ilustrações da criatura a comer outras criaturas marinhas mais pequenas. Eram centenas, talvez milhares de espécimenes, todos identificados da mesma forma. Vira alguns deles em criança, mas agora que estava prestes a tirar o doutoramento em zoologia, era como cientista que os estava a apreciar.

Virou-se para ela, ainda à porta da cabana.

– São magníficas, Kya, maravilhosamente detalhadas. Tu podias publicar isto. Na verdade, isto dava um livro, ou vários livros.

– Não, não. Quero-as só para mim. Ajudam-me a aprender, só isso.

– Escuta, Kya. Tu sabes melhor do que ninguém que os títulos de referência nesta área são praticamente inexistentes. Estes magníficos desenhos, com as anotações e os dados técnicos são o livro de que toda a gente está à espera. – Era verdade. Os velhos manuais da mãe sobre conchas, plantas, aves e mamíferos eram as únicas publicações jamais impressas sobre o tema, e eram deploravelmente imprecisos, apenas com imagens a preto e branco e informação bastante incompleta em cada entrada de texto.

– Se puder levar algumas amostras, tentarei encontrar uma editora, para ver o que eles dizem.

Ela ficou a olhar para ele sem saber o que pensar daquilo. Teria de ir a algum lado conhecer gente? Essas dúvidas não passaram despercebidas a Tate.

– Não terias de sair daqui. Poderias enviar, simplesmente, as tuas amostras por correio a um editor. Ganharias algum dinheiro. Não muito, mas talvez o suficiente para não teres de voltar a apanhar mexilhões na vida.

Kya continuava em silêncio. Mais uma vez, Tate estava a encorajá-la a cuidar de si própria e não apenas a oferecer-se para cuidar dela. Era como se ele tivesse estado sempre presente na sua vida. E depois, desapareceu.

– Tenta, Kya. O que tens a perder com isso?

Ela acabou por aceitar que ele levasse algumas amostras e ele escolheu uma coleção de aguarelas de conchas, em tons suaves, e a pena da garça-azul, devido aos esboços detalhados da ave em cada estação do ano e à delicada pintura a óleo da sua pena curva, semelhante a uma sobrancelha.

Tate ergueu a pintura da pena – uma profusão de minúsculas pinceladas em cores vivas que culminavam num tom profundo de negro, com tantos reflexos que que o sol parecia estar a incidir sobre ela. O detalhe do rasgão no raque era inconfundível. Tate e Kya perceberam, ao mesmo tempo, que aquela era a pintura da primeira pena que ele lhe oferecera na floresta, levantaram os olhos da pena e olharam um para o outro. Mas ela virou-lhe as costas, para não sentir. Não voltaria a deixar-se atrair por alguém em quem não podia confiar.

Ele aproximou-se dela e tocou-lhe no ombro. Tentando delicadamente virá-la para si.

– Lamento muito ter-te abandonado, Kya. Consegues perdoar-me?

Por fim, ela virou-se e olhou para ele.

– Não sei como, Tate. Jamais conseguiria voltar a acreditar em ti. Por favor, Tate. Vai-te embora, agora.

– Eu sei. Obrigado por me ouvires e me dares hipótese de te pedir desculpa. – Esperou um pouco, mas ela não disse mais nada. Pelo menos não ia de mãos a abanar. A esperança de encontrar uma editora era um motivo para voltar a contactá-la.

– Adeus, Kya. – Ela não lhe respondeu. Tate encarou-a e ela olhou-o nos olhos, mas depois virou-lhe as costas e Tate encaminhou-se para o barco.

Ela esperou até que ele se fosse embora e sentou-se na areia húmida e fresca da lagoa, à espera de Chase, repetindo em voz alta, o que dissera a Tate:

– Chase poderá não ser perfeito, mas tu és pior do que ele.

Porém, ao contemplar as águas sombrias, não conseguia pensar senão no que Tate lhe dissera acerca de Chase: «… vi-o sair com uma loira na pickup».

Chase só apareceu uma semana depois do Natal. Entrou na lagoa, disse que podia ficar toda a noite e que passariam a véspera de Ano Novo juntos. Deram o braço um ao outro e dirigiram-se para a cabana, cujo telhado parecia também coberto de nevoeiro. Depois de fazerem amor, aconchegaram-se em cobertores, junto do fogão. O ar denso estava carregado de humidade, por isso, quando a água da chaleira ferveu, as janelas cobriram-se de grandes gotas de condensação.

Chase tirou a harmónica do bolso, encostou-a aos lábios e tocou uma velha cantiga nostálgica – Molly Malone:

“Now her ghost wheels her barrow through the streets broad and

narrow, singing cockles and mussels, alive, alive oh.”

Kya achava que era naquelas melodias melancólicas que a alma de Chase mais se revelava.

 

4 Molho feito com a gordura do presunto frito misturada com café. [N. da T.]

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