Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 14 de 59

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Lá, onde o vento chora

12. Meia Dúzia de Patacas e Aveia

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Meia Dúzia de Patacas e Aveia

1956

Durante semanas, depois de o pai desaparecer, sempre que ouvia os corvos grasnar, Kya levantava a cabeça, na esperança de que estes o tivessem visto cambalear pelos bosques. Sempre que ouvia um ruído estranho no vento, esticava o pescoço e ficava a ver se ouvia alguma coisa – qualquer coisa. Nem que fosse a correria apressada da inspetora escolar.

Mas era, sobretudo, o rapaz do barco, que queria encontrar. Vira-o algumas vezes à distância, ao longo dos anos, mas não falava com ele desde os sete anos. Há três anos, desde que ele a guiara até casa, pelo pantanal. Era a única alma que conhecia no mundo, para além de Saltos e de algumas vendedoras. Sempre que percorria os canais, procurava-o.

Uma manhã, ao entrar com o barco num estuário de espartos, viu o barco dele escondido nos juncos. Tate usava um boné de basebol diferente e estava mais alto, mas ela reconheceu os seus caracóis louros, embora estivesse a mais de quinze metros dele. Kya abrandou e conduziu silenciosamente o barco para o meio da erva alta, espreitando para o sítio onde ele estava. Humedeceu os lábios e pensou em passar por ele e perguntar-lhe se já tinha apanhado peixe. Isso era, no seu entender, o que o pai ou qualquer outra pessoa do pantanal diria, ao cruzar-se com alguém. «Há peixe? Já o sentiste morder?»

Mas ficou apenas a olhar, sem sair do mesmo sítio. A vontade de ir ter com ele era tão grande como a vontade de se afastar, o que a estava a manter ali presa. Por fim, regressou a casa, com o coração a martelar-lhe o peito.

Sempre que o via era a mesma coisa – observava-o como às garças.

Continuava a apanhar penas e conchas, mas agora deixava-as espalhadas pelos degraus de tijolo e madeira, cheias de areia e de sal. Todos os dias ficava a namorar indolentemente algumas delas, com loiça suja a acumular-se no lava-loiças. Para quê lavar jardineiras que voltariam a encher-se de lama? Há muito tempo que passara a usar as velhas jardineiras descartáveis dos irmãos desaparecidos. Tinha as t-shirts cheias de buracos e já não tinha sapatos nenhuns para calçar.

Uma noite, Kya tirou um vestido de verão florido, rosa e verde, de um cabide de arame. Era o vestido que a mãe usava para ir à igreja. Há anos que se entretinha a passar os dedos pela beleza que era aquele vestido – o único que o pai não queimara – tocando nas pequenas flores cor-de-rosa. Tinha uma nódoa na parte da frente. Uma mancha ténue, acastanhada, por baixo das alças. Agora já mal se via, pois fora esfregada e lavada, tal como outras memórias ingratas.

Kya enfiou o vestido pela cabeça, deixando-o deslizar pelo corpo magro. A bainha chegava-lhe quase aos dedos dos pés. Não podia ser. Tirou-o e pendurou-o. Voltaria a vesti-lo daí a mais alguns anos. Seria uma pena cortá-lo ou usá-lo para ir apanhar mexilhão.

Alguns dias mais tarde, Kya levou o barco até Point Beach, um avental de areias brancas, alguns quilómetros a sul da loja de Saltos. O tempo, as ondas e os ventos, tinham-lhe dado a forma de uma península alongada, onde apareciam mais conchas do que noutras praias. Kya encontrara algumas bem raras no local. Depois de prender o barco no extremo sul da praia, caminhou para norte, à procura de conchas. Subitamente, chegou-lhe aos ouvidos o som distante de vozes agudas e animadas.

Atravessou imediatamente a praia a correr, em direção aos bosques, parando junto de um carvalho com mais de vinte e quatro metros de copa, aninhado por entre fetos tropicais. Escondeu-se atrás da árvore e viu um grupo de miúdos a caminharem pela areia. De vez em quando, corriam para a beira-mar e pontapeavam a espuma das ondas. Um dos rapazes adiantou-se dos outros e um dos amigos atirou-lhe uma bola de futebol. Os seus calções garridos pareciam pássaros coloridos, em contraste com a areia branca, como que a assinalar a mudança de estação – era como se o verão viesse ao seu encontro pela praia.

Quando eles se aproximaram, ela encostou-se mais ao carvalho e espreitou. Eram cinco raparigas e quatro rapazes um pouco mais velhos do que ela. Deviam ter uns doze anos. Viu Chase Andrews atirar a bola aos rapazes com quem estava sempre.

As raparigas – A Loira-Alta-e-Magra, a Sardenta-de-Rabo-de-Cavalo, a Garçonne-de-Cabelo-Preto, a Colar-de-Pérolas e a Cara-de-Lua – ficaram para trás num pequeno grupo, caminhando mais pausadamente, a tagarelar e a rir. As suas vozes ecoavam pelo ar como carrilhões ao vento. Kya era demasiado jovem para se interessar pelos rapazes, por isso estava de olhos postos no grupo de raparigas. Elas baixaram-se para ver um caranguejo andar de lado na areia. Depois encostaram os ombros umas às outras, às gargalhadas, acabando por cair em monte, na areia.

Kya mordeu o lábio inferior, ao observá-las, imaginando como seria estar entre elas. A alegria delas gerava uma aura quase visível contra o azul profundo do céu. A mãe dissera-lhe um dia que as mulheres precisavam muito mais umas das outras do que dos homens, mas nunca lhe explicara como lidar com o orgulho. Sem pensar duas vezes, Kya embrenhou-se mais na floresta e ficou a observá-los por trás dos fetos gigantes. Finalmente, os miúdos voltaram a percorrer a praia pelo caminho que os levara até lá, até se converterem em pequenos pontos à distância.

O sol da alvorada brilhava timidamente por entre nuvens cinzentas, quando Kya parou junto da doca de Saltos. Ele saiu da pequena loja a abanar a cabeça.

– Lamento muito, menina Kya, mas eles chegaram primeiro. Já tenho a minha quota semanal de mexilhões. Não posso comprar mais.

Ela desligou o motor e o barco bateu contra umas estacas. Era a segunda semana que eles chegavam primeiro. Ficara sem dinheiro e já não podia comprar absolutamente nada. Restavam-lhe meia dúzia de cêntimos e alguma aveia.

– Terá de descobrir outras formas de arranjar dinheiro, menina Kya. Não se pode colher patacas de uma única árvore.

Já de regresso a casa, Kya sentou-se nos degraus de tijolo e madeira, a pensar, e teve outra ideia. Pescou durante oito horas seguidas e deixou os vinte peixes que pescara em salmoura, durante a noite. Ao nascer do dia, alinhou-os nas prateleiras do velho fumeiro do pai, que tinha o tamanho e a forma de uma latrina, fez uma fogueira no poço, e colocou ramos verdes nas chamas como o vira fazer. O fumo cinzento-azulado elevou-se no ar, escapando-se pela chaminé e por todas as fendas nas paredes, e a cabana encheu-se de fumo.

No dia seguinte foi de barco à loja de Saltos e mostrou-lhe o balde, ainda de pé no barco – um patético amontoado de pequenas douradas e carpas, a desfazerem-se aos bocados.

– Costumas comprar peixe fumado, Saltos? Tenho aqui algum.

– Pois tem, menina Kya, pois tem. Proponho-lhe o seguinte: aceito-os à consignação. Se os vender, dou-lhe o dinheiro, caso contrário devolvo-lhos tal como estão. Está bem assim?

– Está bem, Saltos. Obrigada.

Nessa noite, Saltos percorreu o trilho de areia até Colored Town – um aglomerado de cabanas, telheiros e até algumas casas a sério, dispersos por pântanos e atoleiros remotos. Não corria uma brisa naquela alhela embrenhada nas profundezas da floresta, onde parecia haver mais mosquitos do que em todo o estado da Georgia.

Depois de palmilhar quase cinco quilómetros, por entre os pinheiros, chegou-lhe às narinas o cheiro a lume para cozinhar e começou a ouvir a algazarra dos netos. Não havia estradas em Colored Town, apenas trilhos pela floresta, que conduziam à habitação desta ou daquela família. Ele vivia numa casa a sério que ele e o pai tinham construído em pinho, com uma cerca de madeira em bruto, à volta de um pátio de terra batida, que Mabel, a sua esposa avantajada, mantinha tão limpa como o próprio soalho. Nenhuma cobra que se esgueirasse para dentro do pátio escaparia à vigilância da sua enxada, num raio de trinta metros dos degraus.

Ela saiu de dentro de casa e veio ao seu encontro a sorrir, como era habitual, e ele entregou-lhe o balde com o peixe fumado de Kya.

– O que é isto? – perguntou ela. – Pelo aspeto, nem os cães lhe tocariam.

– Foi aquela miúda. Foi a menina Kya que os trouxe. Nem sempre é a primeira a chegar com os mexilhões, por isso resolveu defumar peixe e quer que eu o venda.

– Meu Deus. Temos de fazer alguma coisa por aquela criança. Ninguém vai comprar-lhe o peixe. Eu posso guisá-lo e a nossa igreja pode arranjar-lhe roupa e outras coisas. Dizemos-lhe que há uma família que está disposta a trocar camisolas por carpas. Que tamanho veste ela?

– Estás a perguntar-me isso a mim? Só sei que é magrinha, um pau de virar tripas. Estou a contar vê-la lá amanhã de manhã bem cedo. Está sem um tostão.

Depois de um pequeno-almoço de mexilhões aquecidos em papas de aveia, Kya foi de barco à loja de Saltos, para saber se ganhara algum dinheiro com o peixe fumado. Durante todos aqueles anos, nunca lá vira mais ninguém a não ser ele ou algum cliente, mas ao aproximar-se devagar, viu uma grande mulher negra a varrer a doca como se fosse o chão da cozinha. Saltos estava sentado na sua cadeira, encostado à parede da loja, a fazer contas no seu livro. Quando a viu, saltou da cadeira e acenou-lhe.

– Bom dia –disse-lhe ela, num tom brando, aproximando habilmente o barco da doca.

– Viva, menina Kya. Queria que conhecesse uma pessoa. Esta é Mabel, a minha mulher. – Mabel aproximou-se e ficou ao pé de Saltos, por isso quando subiu para a doca estavam os dois bem perto dela.

Mabel pegou-lhe na mão, aninhou-a delicadamente na sua e disse-lhe:

– É um prazer conhecê-la, menina Kya. O Joe disse maravilhas da menina; diz que é uma das melhores na apanha de ostras.

Apesar de ter de cuidar do seu jardim e passar metade do dia a cozinhar, a limpar e a costurar para brancos, Mabel tinha uma mão macia. Kya deixou-se ficar de dedos aninhados naquela luva de veludo, mas não sabia o que dizer, por isso ficou em silêncio.

– Bom, é que nós conhecemos uma família que aceita peixe fumado em troca de roupa e outras coisas de que a menina precisa.

Kya acenou com a cabeça e sorriu para os pés, perguntando depois:

– E a gasolina para o meu barco?

Mabel olhou interrogativamente para Saltos.

– Bom – disse ele. – Hoje, vou ceder-lhe alguma porque sei que tem pouco dinheiro, mas quero que continue a trazer mexilhões e coisas do género, sempre que puder.

Mabel disse na sua voz sonora:

– Meu Deus, menina, não vamos preocupar-nos com isso agora. Deixe-me olhar para si. Tenho de calcular o tamanho que veste para lhes dizer. – Conduziu-a para dentro da pequena loja. – Vamos sentar-nos aqui mesmo e a menina diz-me de que roupa e de que outras coisas está a precisar.

Depois de conversarem sobre a lista, Mabel desenhou o contorno dos pés de Kya num saco de papel castanho.

– Se voltar amanhã, terá uma pilha de coisas à sua espera.

– Fico-te muito agradecida, Mabel. – Depois, baixou a voz. – Há mais uma coisa. Encontrei estes velhos pacotes de sementes, mas não sei nada de jardinagem.

Mabel recostou-se e deixou escapar uma gargalhada grave, vinda do fundo do seu busto generoso.

– Sei bem como se planta um jardim. – Explicou-lhe detalhadamente todos os passos, meteu a mão numas latas que estavam em cima da prateleira e tirou algumas sementes de abóbora e de tomate. Embrulhou cada espécie de sementes num papel e fez o desenho do vegetal, do lado de fora. Kya não percebeu se Mabel o fez por não saber ler, ou por perceber que ela não sabia, mas serviu os propósitos de ambas.

Ao entrar no barco, agradeceu a ambos.

– Tenho muito gosto em ajudá-la, menina Kya, mas volte amanhã para vir buscar as suas coisas. – disse Mabel.

Nessa mesma tarde, Kya começou a mondar os carreiros de terra onde a mãe costumava ter o jardim. A enxada produzia ruídos surdos, ao longo dos carreiros, libertando odores da terra e desenterrando vermes rosados. Depois ouviu um ruído diferente, baixou-se e descobriu um dos velhos travessões de plástico e de metal da mãe. Limpou-o delicadamente nas jardineiras, até lhe tirar toda a terra, e a memória da boca vermelha e dos olhos escuros da mãe tornou-se, subitamente, tão vívida como se aquele travessão barato os estivesse a refletir. Kya olhou em redor, convencida de que a mãe vinha a subir o caminho naquele preciso instante, para a vir ajudar a sachar a terra, que regressara finalmente a casa. Era raro estar tudo tão silencioso. Não se ouvia sequer o grasnido dos corvos. Conseguia até ouvir a sua própria respiração.

Apanhou algumas madeixas de cabelo e prendeu o travessão por cima da orelha esquerda. Talvez a mãe nunca voltasse para casa. O melhor seria pôr de parte alguns sonhos, pensou, e desfez um torrão de barro em pedacinhos, com a enxada.

Quando Kya foi à loja de Saltos, na manhã seguinte, ele estava sozinho. Talvez a figura rotunda da sua mulher e as suas belas ideias fossem uma ilusão. Mas estavam dois caixotes cheios de coisas em cima da doca e Saltos estava a apontar para eles com um grande sorriso.

– Bom dia, menina Kya. Isto é para si.

Kya subiu para a doca e olhou para os caixotes a transbordar.

– Vá lá – disse Saltos. – É tudo para si.

Ela retirou delicadamente alguns itens de dentro da caixa – jardineiras, jeans, blusas a sério – e não apenas t-shirts – um par de ténis azuis-escuros, com atacadores, e um par de sapatos castanhos e brancos, tão bem engraxados que brilhavam. Kya ergueu uma blusa branca com gola de renda e um laço de cetim azul junto do pescoço e abriu ligeiramente a boca.

O outro caixote continha fósforos, aveia, um frasco de óleo, feijões secos e um litro de banha caseira. Por cima havia nabos, verduras, rutabagas e quiabos frescos, embrulhados em papel de jornal.

– Saltos – disse ela, brandamente –, isto vale mais do que aqueles peixes. Isto é a pescaria de um mês inteiro.

– Bom, mas o que iriam eles fazer com tanta roupa velha espalhada pela casa? Eles têm estas coisas a mais e a menina precisa delas; a menina tem o peixe de que eles precisam – o acordo é esse. Tem de levar isso agora, porque eu não tenho espaço para essa tralha aqui.

Kya sabia que era verdade. Saltos não tinha espaço na doca, portanto estaria a fazer-lhe um favor se levasse dali os caixotes.

– Nesse caso, eu levo-os, mas agradece-lhes por mim, está bem? Vou defumar mais peixe e trazê-lo assim que puder.

– Muito bem, menina Kya. Está bem assim. Traga o peixe quando puder.

Kya regressou ao mar. Depois de contornar a península e perder de vista a loja de Saltos, abrandou, vasculhou dentro do caixote, tirou a blusa de gola de renda e vestiu-a mesmo por cima das jardineiras coçadas, com remendos nos joelhos. Prendeu a pequena fita de cetim azul à volta do pescoço, com um laço e percorreu o oceano e os estuários, de regresso a casa, com uma mão no laço e outra no leme.

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