Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 31 de 59

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Lá, onde o vento chora

29. Algas

29

Algas

1967

Ao longo do inverno, Chase foi frequentemente à cabana de Kya e costumava passar uma noite com ela, todos os fins de semana. Mesmo em dias frios e húmidos, passeavam de barco por moitas nevoentas. Ela recolhia coisas e ele tocava melodias ao acaso na harmónica. As notas ficavam a pairar no nevoeiro, dissipando-se nas veredas mais sombrias das florestas das terras baixas, e pareciam ser, de alguma forma, absorvidas e memorizadas pelo pantanal, pois sempre que Kya voltava a passar por aqueles canais, ouvia a música dele.

Uma manhã, em finais de março, Kya percorreu o mar sozinha, em direção à aldeia. O céu parecia uma camisola esfiampada de nuvens cinzentas. Chase faria anos daí a dois dias e ela ia ao Piggly comprar ingredientes para um jantar especial – em que se estrearia a fazer bolo de caramelo. Imaginara-se até a pôr-lhe o bolo de velas à frente, algo que não acontecia na cozinha, desde que a mãe se fora embora. Ultimamente, ele dissera-lhe várias vezes, que andava a poupar dinheiro para a casa deles, e ela achou que o melhor seria aprender a fazer bolos.

Depois de prender o barco, ao percorrer a doca em direção às únicas lojas da aldeia, Kya viu Chase ao fundo da doca a falar com os amigos. Estava com o braço à volta dos ombros de uma rapariga loura e magra. Kya fez um esforço para entender aquilo e continuou a caminhar mecanicamente. Ela nunca se aproximava dele quando ele estava com outras pessoas ou quando o via na cidade, mas não tinha como os evitar, a menos que saltasse para dentro de água.

Chase e os amigos viraram-se todos ao mesmo tempo para olhar para ela e ele tirou imediatamente o braço dos ombros da rapariga. Kya estava com uns calções de ganga azuis, que lhe destacavam as pernas compridas, e o cabelo preso em duas tranças negras caídas sobre os seios. O grupo parou de falar e ficou a observá-la. A injustiça de saber que não podia correr ao seu encontro doía-lhe no coração.

Quando chegou ao fim da doca e passou por eles, Chase disse:

– Olá Kya.

Ela olhou para ele e depois para os outros e disse:

– Olá Chase.

Depois, ouviu-o dizer:

– Kya, certamente que te recordas dos meus amigos Brian, Tim, Pearl, Tina… – Disse mais alguns nomes e acabou por se calar.

Depois virou-se na direção dela e disse:

– Apresento-vos Kya Clark.

É claro que ela não se recordava deles, porque nunca lhe tinham sido apresentados. Conhecia-os apenas pelas alcunhas que lhes dera – a Loira-Alta-e-Magra e as outras todas. Sentia-se como aquelas algas que vêm agarradas às linhas de pesca, mas conseguiu sorrir e cumprimentá-los. Aquela era a oportunidade por que tanto ansiava. Estava, finalmente, junto do grupo de amigos de que queria fazer parte. Deu voltas à cabeça à procura de palavras, algo de inteligente que lhes pudesse interessar. Por fim, dois deles saudaram-na friamente e viraram-lhe bruscamente as costas. Os outros seguiram-nos, prontamente, como um cardume de vairões a dar às barbatanas, rua abaixo.

– E aqui estamos nós – disse Chase.

– Não quero interromper nada. Vim só comprar provisões e depois volto para casa.

– Não estás a interromper nada. Eu encontrei-os por acaso. Vou ter contigo no domingo, como te disse.

Chase mudou o peso do corpo para a outra perna e levou os dedos à concha que trazia ao pescoço.

– Até domingo, então – disse ela, mas ele já se tinha virado para ir ter com os outros. Kya dirigiu-se apressadamente para o minimercado, contornando uma família de patos-reais que caminhavam tropegamente pela Main. O laranja-vivo das suas patas contrastava com o pavimento sem cor. No Piggly Wiggly, tentou tirar da cabeça a imagem de Chase com a rapariga. Ao contornar a extremidade do corredor do pão, viu a inspetora escolar – a Sra. Culpepper – apenas a um metro e meio. Ficaram paradas, a olhar uma para a outra, como um coelho e um coiote apanhados numa cerca fechada. Kya estava mais alta do que a mulher, e tornara-se bastante mais culta do que ela, mas nenhuma das duas pensou nisso. Estava tão habituada a fugir dela, que esse foi o seu primeiro instinto, mas acabou por não arredar pé e retribuir o olhar da Sra. Culpepper. A mulher acenou-lhe ligeiramente com a cabeça e seguiu em frente.

Kya encontrou os artigos do piquenique – queijo, pão francês e ingredientes para bolos – o que lhe custou todo o dinheiro que poupara para a ocasião. Mas era como se outra mão que não a sua estivesse a pegar-lhes e a pô-los no carrinho. Estava constantemente a ver o braço de Chase sobre os ombros da rapariga. Comprou um jornal local porque as manchetes falavam num laboratório marinho que ia abrir ali perto, na costa.

Assim que saiu da loja, dirigiu-se apressadamente para a doca, de cabeça baixa, como uma doninha ratoneira. De regresso à cabana, sentou-se à mesa da cozinha a ler o artigo sobre o novo laboratório. Estava, de facto, a ser construído um complexo científico perto de Sea Oaks, a sul, a cerca de trinta quilómetros de Barkley Cove. Os cientistas iriam estudar a ecologia do pantanal, o que contribuiria de diferentes formas para a sobrevivência de mais de metade da vida marinha e…

Kya virou a página para continuar a ler e deu de caras com uma grande fotografia de Chase com uma rapariga, por cima de um anúncio de noivado: Andrews-Stone. Começou por dizer uma série de palavrões, soluçou baixinho e, finalmente, chorou convulsivamente. Depois, levantou-se, olhou para o jornal à distância e voltou a pegar nele para ver melhor – devia estar a imaginar coisas. Mas não. Ali estavam eles, de rosto bem juntinho um do outro, a sorrirem. A rapariga, Pearl Stone – bonita, com um ar distinto, de colar de pérolas e blusa de renda – era a tal em quem ele poisara o braço… a Colar-de-Pérolas!

Kya levou a mão à parede, foi para o alpendre, deixou-se cair na cama, e tapou a boca com as mãos. Depois ouviu um motor, sentou-se repentinamente, olhou na direção da lagoa e viu Chase arrastar o barco para terra.

Lesta como um rato a saltar de uma caixa sem tampa, escapou-se pela porta do alpendre, antes que ele a visse, e fugiu para os bosques, afastando-se da lagoa. Agachou-se atrás de uns palmitos e viu-o entrar na cabana e chamar por ela. Iria ler o artigo do jornal que estava aberto em cima da mesa. Minutos depois, voltou a sair e caminhou na direção da praia, pensando que a encontraria lá.

Ela não se mexeu, nem mesmo quando ele voltou a aparecer, ainda a chamar por ela. Só saiu dos espinheiros quando ele se afastou de barco. Voltou indolentemente para a cabana, foi buscar comida para as gaivotas e seguiu o sol até à praia. Uma forte brisa marinha fustigou-a pelo caminho. Quando chegasse à praia teria, pelo menos, o vento para a amparar. Chamou as gaivotas e atirou grandes pedaços de pão francês ao ar, praguejando mais alto e mais rudemente do que o vento.

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