Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 34 de 59

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Lá, onde o vento chora

32. O Álibi

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O Álibi

1969

Nuvens rápidas, baixas e escuras deslizavam pelos céus, em direção a Barkley Cove, sobre um mar cor de aço. O vento chegou primeiro, sacudindo janelas e lançando vagas sobre o embarcadouro. Os barcos atracados na doca baloiçavam furiosamente na água, como brinquedos. Alguns homens de impermeáveis amarelos amarravam uma ou outra corda, para os manter em segurança. Depois a aldeia foi fustigada por uma bátega de água, batida pelo vento, que pareceu esconder tudo à exceção de uma ou outra figura de amarelo, na escuridão parda.

O vento assobiou pelas frestas da janela do escritório do xerife e ele levantou a voz:

– Não tinhas uma coisa para me contar, Joe?

– Tenho pois. Descobri o local onde a menina Clark dirá que esteve, na noite em que o Chase morreu.

– O quê? Conseguiste, finalmente, apanhá-la?

– Estás a brincar? A rapariga é esquiva como uma enguia. Cada vez que me aproximo, desaparece. Por isso fui à doca de Saltos, esta manhã, para ver se ele sabia a que horas ela iria lá voltar. Ela tem de lá ir comprar gasolina, como toda a gente, por isso deduzi que iria apanhá-la mais tarde ou mais cedo. Nem vais acreditar no que descobri.

– Fala.

– Duas fontes de confiança dizem que ela estava fora da cidade, nessa noite.

– O quê? Quem? Ela nunca sai da cidade e mesmo que saísse, quem iria saber disso?

– Lembras-te de Tate Walker? Dr. Walker, como é conhecido, agora. Trabalha no laboratório de ecologia.

– Sim, eu conheço-o. O pai dele é Scupper Walker, o pescador de camarão.

– Bom, Tate diz que conheceu bem a Kya, quando eram mais novos – ele trata-a por Kya.

– Ah sim?

– Não da forma que estás a pensar. Eram dois miúdos. Ele ensinou-a a ler como um pai.

– Foi ele próprio que te disse isso?

– Sim. Ele estava na loja de Saltos. Eu estava a perguntar a Saltos se sabia onde e como poderia fazer algumas perguntas à Miúda do Pantanal. Ele disse que não conseguia saber, assim de repente, quando a voltaria a ver.

– Saltos sempre foi gentil com ela. Duvido que nos revele muito mais.

– Bom, eu perguntei-lhe se por acaso sabia o que ela estava a fazer na noite em que o Chase morreu. Ele disse-me que até sabia, porque ela fora a sua casa de manhã, dois dias depois de o Chase morrer e fora ele que lhe dera a notícia da sua morte. Disse ainda que ela passou duas noites em Greenville, incluindo aquela em que Chase morreu.

– Greenville?

– Foi o que ele me disse. Depois, Tate, que estivera sempre presente, meteu-se na conversa e confirmou que ela tinha estado em Greenville e que fora ele que lhe explicara como comprar o bilhete de autocarro.

– Grandes notícias – disse o xerife Jackson. – Também foi bastante conveniente estarem ali os dois a contar a mesma história. Porque iria ela a Greenville?

– Tate disse que uma editora lhe pagou as despesas para que ela lá fosse conhecê-los. Bem sabes que ela escreveu um livro sobre conchas e outro sobre aves marinhas.

– Custa a acreditar que essa malta elegante das editoras quisesse conhecê-la, mas creio que será bastante fácil de verificar. O que disse Tate sobre as lições de leitura?

– Eu perguntei-lhe como a tinha conhecido e ele disse-me que costumava ir pescar perto de casa dela e quando descobriu que ela não sabia ler, ofereceu-se para a ensinar.

– Ah sim?

Joe disse:

– Seja como for, isto muda tudo. Se ela estava em Greenville, diria que tem um álibi bastante consistente.

– Sim, à primeira vista, talvez seja. Mas tu sabes o que se costuma dizer acerca dos bons álibis. Além disso, aquele pescador de camarão disse que a viu passar de barco em direção à torre de vigia, precisamente na noite em que Chase caiu dela abaixo.

– Pode ter-se enganado. Estava escuro. Não havia luar. Talvez ela estivesse, de facto, em Greenville e ele visse outra pessoa com um barco parecido com o dela.

– Como te disse, não deve ser difícil confirmar essa suposta viagem a Greenville.

A tempestade abrandou e deu lugar aos lamentos do vento e a uma chuva miúda. Mesmo assim, em vez de irem ao restaurante, os dois polícias mandaram um estafeta ir buscar pastéis de galinha, feijão manteiga, gratinado de abóbora, xarope de cana e biscoitos.

Logo a seguir ao almoço, alguém bateu à porta do gabinete do Xerife. A menina Pansy Price abriu a porta e entrou. Joe e Ed levantaram-se. O turbante dela emanava um brilho rosado.

– Bom dia, menina Pansy – disseram-lhe ambos, com um aceno de cabeça.

– Bom dia aos dois. Posso sentar-me? Isto não vai demorar. Creio que tenho informação importante relacionada com o caso.

– Sim, claro. Sente-se, por favor – os dois homens sentaram-se, depois de a menina Pansy se acomodar na cadeira, compondo aqui e ali a indumentária, como uma galinha anafada a ajeitar as penas, de bolsa assente no colo, como um ovo premiado.

O Xerife não resistiu:

– E que caso seria esse, menina Pansy?

– Por amor de Deus, Ed. Você sabe a que caso estou a referir-me – quem assassinou Chase Andrews – esse caso.

– Nós não sabemos se ele foi assassinado, está bem? Agora diga-nos lá que informação tem para nos dar.

– Como sabe, estou empregada no Kress’s – Jamais se diminuiria, enunciando o nome completo da loja. Esperou que o xerife reagisse ao seu comentário com um aceno de cabeça, antes de prosseguir, embora todos estivessem carecas de saber que ela trabalhava lá desde a altura em que lhe vendia soldadinhos de plástico, em miúdo. – Suponho que a Miúda do Pantanal é suspeita, certo?

– Quem lhe disse isso?

– Há muita gente que está convencida disso, mas é, principalmente, Patti Love quem o diz.

– Compreendo.

– Eu e outros empregados do Kress‘s vimos a Miúda do Pantanal entrar e sair do autocarro em dias que demonstram que estava fora da cidade, na noite em que Chase morreu. Poderei atestar horas e datas.

– Ah sim? – Joe e Ed olharam de relance um para o outro. Que horas e datas são essas?

A menina Pansy endireitou-se mais na cadeira.

– Partiu no autocarro das 14:30, no dia 28 de outubro e regressou a 30 de outubro, às 13:16.

– Diz que há mais quem a tenha visto?

– Sim. Se quiser, posso fornecer-lhe uma lista de nomes.

– Não é necessário. Nós passaremos pelo Five and Dime, se quisermos recolher depoimentos. Obrigado, menina Pansy – O Xerife levantou-se, por isso Joe e a menina Pansy levantaram-se também.

Ela dirigiu-se para a porta.

– Obrigada por me dispensarem o vosso tempo. Como o Xerife disse, sabem onde me encontrar.

Despediram-se.

Joe voltou a sentar-se.

– Aí está. Isto confirma o que Saltos e Tate disseram. Ela estava em Greenville nessa noite. A menos que tenha apanhado o autocarro para outro sítio qualquer.

O Xerife suspirou longamente.

– É o que parece. Mas acho que quem apanha um autocarro para Greenville, à tarde, pode perfeitamente voltar de autocarro à noite, fazer o que tem a fazer, e apanhar o autocarro de regresso a Greenville, sem que ninguém dê por isso.

– Acho que sim, mas parece-me uma teoria um pouco rebuscada.

– Vai buscar um horário de autocarros. Veremos se os horários são compatíveis; se é possível fazer uma viagem de ida e volta na mesma noite.

Antes de Joe sair, Ed continuou:

– Também é possível que ela quisesse ser vista a entrar e a sair do autocarro, em pleno dia. Se pensarmos bem no assunto, ela teve de fazer algo de invulgar, para ter um álibi. Se ela alegasse que estava sozinha na cabana na noite em que Chase morreu – como é costume – não teria álibi nenhum. Nada a que se agarrar. Por isso, planeou algo que muita gente pudesse vê-la fazer, criando um álibi perfeito, diante de todas aquelas testemunhas da Main. É brilhante.

– Bem visto. De qualquer forma, já não teremos de andar por aí armados em detetives. Podemos ficar aqui a beber café e esperar que as senhoras da cidade cá venham deixar toda a informação necessária. Vou buscar o horário dos autocarros.

Joe voltou quinze minutos depois.

– Tu tinhas razão – disse ele. – Estás a ver aqui? Seria possível apanhar o autocarro de Greenville para Barkley Cove e regressar numa noite. Seria até bastante fácil.

– Sim, há tempo suficiente entre os dois autocarros, para se ir à torre de vigia empurrar alguém. O melhor é irmos buscar esse mandado de busca.

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