Lá, onde o vento chora
33. A Cicatriz
33
A Cicatriz
1968
Numa manhã de inverno de 1968, Kya estava sentada à mesa da cozinha, a pintar a forma arredondada de um cogumelo com aguarelas em tons de laranja e rosa. Terminara o seu livro sobre aves marinhas e estava agora a trabalhar num manual sobre cogumelos. Também já tinha planos para um livro sobre borboletas e outro sobre traças.
Estava a ferver feijão-frade, cebola roxa e presunto salgado, na sua velha panela amolgada – continuava a preferir cozinhar no fogão a lenha, sobretudo no inverno. Uma chuva miúda tamborilava musicalmente no telhado de zinco. Subitamente, chegou-lhe aos ouvidos o ruído de uma carrinha, a avançar lentamente pelo trilho de areia. Sentindo o pânico crescer, Kya aproximou-se da janela e viu uma pickup vermelha avançar pelos sulcos lamacentos do caminho.
O seu primeiro pensamento foi fugir, mas a carrinha já estava muito próxima do alpendre. Agachou-se junto do parapeito da janela e viu um homem de uniforme militar cinzento e verde sair da carrinha. Ficou simplesmente ali parado, com a porta da carrinha escancarada, a olhar para o trilho que dava acesso à lagoa por entre os bosques. Depois fechou a porta da carrinha, devagar, correu à chuva até ao alpendre e bateu à porta.
Kya praguejou. Provavelmente perdera-se, pediria indicações e seguiria caminho, mas ela não queria lidar com ele. Poderia esconder-se ali, na cozinha, e esperar que ele se fosse embora, mas ouviu-o dizer em voz alta:
– Yo! Está alguém casa? Alô!
Irritada, mas ao mesmo tempo curiosa, Kya percorreu a sala recentemente remodelada e aproximou-se do alpendre. O forasteiro alto, de cabelo escuro estava nos degraus da entrada, a segurar na porta de rede, a cerca de metro e meio dela. O uniforme parecia rígido a ponto de se aguentar em pé, como se o estivesse a amparar. O peito do casaco estava coberto de medalhas coloridas retangulares. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi uma cicatriz irregular, avermelhada, da orelha ao cimo dos lábios, que parecia cortar-lhe o rosto ao meio. Kya arquejou.
Subitamente, viu-se de novo naquele domingo de Páscoa, cerca de seis meses antes de a mãe partir de vez. Ela e a mãe percorreram a sala de estar de braço dado, entraram na cozinha a cantar o Rock of Ages, e reuniram os ovos de cores vivas que tinham pintado na noite anterior. Os irmãos tinham ido à pesca, por isso ela e a mãe tiveram tempo para esconder os ovos e meter o frango e os biscoitos no forno. Os irmãos e as irmãs estavam demasiado crescidos para procurarem guloseimas, mas iriam correr de um lado para o outro, à procura delas, fingindo não as encontrar, erguendo, depois, no ar cada tesouro que encontravam, às gargalhadas.
Kya e a mãe iam a sair da cozinha com os cestos de ovos e coelhos de chocolate do Five and Dime, quando o pai apareceu à esquina do corredor.
Arrancou o chapéu de Páscoa da cabeça de Kya, abanou-o pelo ar e gritou à mãe:
– Onde arranjas dinheiro para estes luxos? Chapéus e sapatos de couro brilhante? Ovos frescos e coelhos de chocolate? Fala. Onde arranjaste dinheiro para isto?
– Vá lá Jake. Por favor, acalma-te. Estamos na Páscoa. Isto é para os miúdos.
Ele empurrou a mãe para trás.
– Andaste a prostituir-te lá por fora, é o que é. Foi assim que conseguiste o dinheiro? Diz-me já. Agarrou na mãe pelos braços e sacudiu-a tanto, que o seu rosto parecia trepidar em torno de um par de olhos arregalados e fixos. Alguns ovos em tons pastel tombaram do cesto e rolaram vacilantemente pelo chão.
– Pai! Por favor, para! – gritou Kya entre lágrimas.
Ele levantou a mão e esbofeteou-a com força na face.
– Caluda, meu bebé-chorão mimado! Vai mas é tirar esse vestidinho tonto e descalçar esses sapatos. Isso é roupa comprada com o dinheiro do putedo.
Kya baixou-se agarrada à cara, à procura dos ovos pintados à mão pela mãe.
– Estou a falar contigo, mulher! Onde vais buscar o dinheiro? – Agarrou no atiçador e avançou na direção da mãe.
Kya gritou tão alto quanto possível e agarrou-se ao braço dele, ao vê-lo desferir um violento golpe no peito da mãe. O sangue jorrou, salpicando-lhe o vestido florido de verão de pintas vermelhas. Depois, uma figura corpulenta percorreu o corredor. Kya levantou os olhos e viu Jodie agarrar o pai por trás e derrubá-lo, o que os fez cair a ambos no chão. O irmão colocou-se entre a mãe e o pai e gritou à mãe e a Kya que fugissem, e foi o que elas fizeram. Mas antes de se virar, Kya viu o pai erguer o atiçador e desferir um golpe no rosto de Jodie, que lhe deslocou grosseiramente o maxilar. O sangue jorrava às golfadas. Parecia estar a ver a cena, agora: o irmão caído no chão, por entre ovos cor de alfazema e coelhos de chocolate; ela e a mãe a correrem por entre os palmitos, para se esconderem no bosque; o seu vestido ensanguentado; a mãe a dizer-lhe repetidamente que estava tudo bem, que os ovos não se partiriam e ainda poderiam assar o frango. Kya não percebeu por que razão ficaram tanto tempo ali escondidas. Tinha a certeza de que o irmão estava a morrer e precisava da ajuda delas, mas estava demasiado apavorada para se mexer. Esperaram bastante tempo. Depois, regressaram cautelosamente a casa, espreitando pela janela para se assegurarem de que o pai já tinha saído.
Jodie estava caído no chão, inconsciente, com uma poça de sangue à volta. Kya gritou que ele estava morto, mas a mãe reanimou-o e levou-o para o sofá, onde lhe suturou o rosto com uma agulha de cozer. Quando já tudo estava sossegado, Kya apanhou o chapéu do chão, largou a correr pela floresta, e atirou-o com quanta força tinha, para os juncos.
Kya encarou o forasteiro, agora parado no seu alpendre e disse:
– Jodie.
Ele sorriu, retorcendo a cicatriz no rosto, e respondeu:
– Tinha esperança de te encontrar aqui, Kya. – Olharam-se nos olhos, procurando reconhecer-se na figura mais madura um do outro. Jodie não sabia, mas estivera sempre presente, ao longo de todos aqueles anos. Em inúmeras ocasiões, fora ele que a guiara pelo pantanal e lhe ensinara coisas acerca das garças e dos pirilampos. Era Jodie e a mãe que Kya mais desejava voltar a ver. A sua mente e o seu coração fizeram por esquecer a cicatriz e toda a dor que a acompanhara. Não era de admirar que preferisse enterrar essa memória bem fundo. Não era de admirar que a mãe decidisse partir depois de levar com um atiçador no peito. Kya voltou a ver sangue nas manchas esmaecidas do vestido florido de verão.
Jodie queria abraçá-la, aconchegá-la nos seus braços, mas ao avançar para ela, Kya baixou a cabeça e inclinou-a timidamente para o lado, acabando por recuar. Por isso, ele limitou-se a subir para o alpendre.
– Entra – disse ela, conduzindo-o para a pequena sala de estar, agora totalmente preenchida pelos seus espécimes.
– Ah, então és mesmo tu – exclamou ele. – Eu vi o teu livro, Kya. Não tinha a certeza se era mesmo teu, mas agora vejo que sim. – É impressionante. – Caminhou pela sala e olhou para as coleções dela, examinando também a própria sala, com a nova mobília, e os quartos, ao fundo do corredor, sem intenção de bisbilhotar, mas absorvendo tudo o que via.
– Queres um café ou um chá? – Kya não sabia se ele viera apenas visitá-la ou se tencionava ficar. O que pretenderia ele, ao fim de todos aqueles anos?
– Um café seria ótimo, obrigado.
Na cozinha, ele reconheceu o velho fogão a lenha, junto do fogão a gás e frigorífico novos. Passou a mão pela velha mesa de cozinha, que ela mantivera tal como estava antes – com a tinta descascada e toda a sua história intacta.
Kya serviu o café em canecas e sentaram-se os dois.
– Então és soldado.
– Com duas comissões no Vietname. Ficarei no exército durante mais alguns meses. Eles trataram-me bem. Pagaram-me o curso de engenharia mecânica na Georgia Tech. O mínimo que posso fazer é ficar lá mais algum tempo.
A Georgia não ficava assim tão longe. Ele podia tê-la visitado antes. Mas estava ali, agora.
– Todos vocês se foram embora – disse ela. – O pai ficou durante algum tempo, depois de tu te ires embora, mas também acabou por desaparecer. Não sei para onde foi, nem se está vivo ou morto.
– Tens vivido aqui sozinha desde então?
– Sim.
– Eu não devia ter-te deixado com aquele monstro, Kya. Sofri bastante. Senti-me terrivelmente mal durante anos, pelo facto de o ter feito. Fui cobarde. Estupidamente cobarde. Estas medalhas não têm qualquer significado. – Bateu com força no peito. – Eu abandonei-te. Deixei uma rapariguinha à mercê do pântano e de um louco. Não espero que me perdoes. Nem agora nem nunca.
– Está tudo bem, Jodie. Tu também eras apenas um miúdo. O que podias tu fazer?
– Poderia ter voltado alguns anos depois. De início, foi uma luta diária pela sobrevivência, nas ruas secundárias de Atlanta. – Sorriu displicentemente. – Saí daqui com vinte e cinco cêntimos no bolso. Roubei-os do dinheiro que o pai deixou na cozinha. Tirei-os sabendo que iriam fazer-te falta. Fiz uns biscates, para me desenrascar, até que o exército me aceitou. Depois dos treinos, fui diretamente para a guerra. Quando regressei, muito tempo depois, calculei que tu tivesses partido há muito, que também tivesses fugido. Foi por isso que não escrevi. Creio que me inscrevi para voltar, para me punir a mim próprio. Por achar que era isso que merecia depois de te abandonar. Depois de me licenciar na Tech, há alguns meses, vi o teu livro numa loja – Catherine Danielle Clark. Senti-me destroçado e radiante ao mesmo tempo. Tinha de te encontrar, por isso achei que o melhor seria começar por aqui e depois tentar localizar-te.
– E aqui estamos nós – disse ela, sorrindo pela primeira vez. Os olhos dele eram os mesmos de sempre. Os rostos mudam com as agruras da vida, mas os olhos continuam a ser uma janela para o passado e Kya conseguia vê-lo neles.
– Lamento que te tenhas preocupado tanto, que te tenhas martirizado por me abandonares. Nunca te culpei por isso. Nós éramos as vítimas e não os culpados.
Ele sorriu.
– Obrigado, Kya – Ambos ficaram de lágrimas nos olhos e desviaram o rosto um do outro.
Ela hesitou, mas depois disse:
– Talvez seja difícil de acreditar, mas o pai tratou-me bem durante algum tempo. Bebia menos e ensinou-me a pescar. Saíamos frequentemente de barco e percorríamos todo o pantanal. Mas depois é claro que voltou à bebida e deixou-me entregue a mim própria.
Jodie acenou com a cabeça.
– Pois. Eu vi esse lado dele algumas vezes, mas ele acabava sempre por voltar ao álcool. Um dia disse-me que tinha a ver com a guerra. Eu também estive na guerra e vi coisas capazes de levar um homem a afogar-se em álcool. Mas ele não devia ter descarregado isso na mulher e nos filhos.
– O que é feito da mãe e dos outros? – perguntou ela. – Alguma vez tiveste notícias deles ou soubeste para onde foram?
– Não sei nada acerca do Murph, da Mandy ou da Missy. Não os reconheceria se me cruzasse com eles na rua. A estas horas, creio que se dispersaram ao vento. Quanto à mãe… Bom, essa é uma das razões por que queria encontrar-te, Kya. Tenho algumas notícias dela.
– Algumas notícias? Que notícias? Conta-me. – Kya sentiu um arrepio percorrer-lhe os braços, até à ponta dos dedos.
– Não é bom, Kya. Só soube disto a semana passada. – A mãe morreu há dois anos.
Kya dobrou-se pela cintura e amparou o rosto nas mãos. Pequenos gemidos cresceram-lhe na garganta. Jodie tentou abraçá-la, mas ela afastou-se dele.
Jodie prosseguiu:
– A mãe tinha uma irmã. Rosemary. Quando a mãe morreu, ela tentou localizar-nos através da Cruz Vermelha, mas não conseguiu encontrar-nos. Há alguns meses, eles encontraram-me através do exército e puseram-me em contacto com Rosemary.
Kya murmurou, num tom de voz roufenho.
– A mãe estava viva há dois anos. Durante todos estes anos, esperei vê-la percorrer aquele caminho. – Levantou-se e apoiou-se no lava-loiças. – Porque não voltou? Por que razão ninguém me disse onde ela estava? Agora é tarde de mais.
Jodie foi ao seu encontro e embora ela tentasse virar-lhe as costas, ele abraçou-a.
– Lamento Kya. Vem sentar-te. Eu conto-te o que a Rosemary me disse.
Esperou por ela e depois disse:
– A mãe estava com um esgotamento nervoso quando nos abandonou e foi para Nova Orleães, a terra onde cresceu. Ela estava física e mentalmente doente. Lembro-me vagamente de Nova Orleães. Creio que tinha cinco anos quando partimos. Lembro-me apenas de uma bela casa, com grandes janelas sobre o jardim. Mas depois de nos mudarmos para aqui, o pai não permitia que nenhum de nós falasse de Nova Orleães ou dos avós. Nada que tivesse a ver com eles. Por isso, varremos isso da memória.
Kya acenou com a cabeça.
– Eu nunca soube.
Jodie prosseguiu.
– Rosemary disse que os pais estavam contra o casamento da mãe com o pai, desde o início, mas a mãe partiu para a Carolina do Norte com o marido, sem um tostão em nome de ambos. A dada altura a nossa mãe começou a escrever a Rosemary e revelou-lhe a situação em que estava – a viver numa cabana no pântano, com um alcoólico que batia nela e nos filhos. Anos mais tarde, a mãe apareceu lá. Usava um daqueles pares de sapatos a imitar pele de crocodilo, de que gostava imenso. Não tomava banho nem se penteava há dias.
A mãe passou meses sem dizer uma palavra. Ficou no seu antigo quarto, em casa dos pais, e quase não comia. É claro que mandaram vir médicos, mas nenhum deles conseguiu ajudá-la. O pai dela, nosso avô, contactou o Xerife em Barkley Cove, para saber se os netos estavam bem, mas do escritório do Xerife disseram-lhe que não tentavam sequer vigiar os habitantes do pantanal.
Kya ia fungando, de vez em quando.
– Por fim, quase um ano depois, a mãe ficou histérica e disse a Rosemary que se lembrara que abandonara os filhos. Rosemary ajudou-a a escrever uma carta ao nosso pai, perguntando-lhe se poderia vir buscar-nos para que fôssemos viver com ela, em Nova Orleães. Ele respondeu-lhe que se ela voltasse para casa ou tentasse contactar qualquer um de nós, nos espancaria até ficarmos irreconhecíveis, e ela sabia que ele era bem capaz de o fazer.
A carta do envelope azul. A mãe perguntava por ela, por todos eles. A mãe queria vê-la. Mas a carta produzira um resultado totalmente diferente. As palavras que continha enfureceram o pai, levaram-no de novo à bebida e ela também acabara por o perder. Kya não revelou a Jodie que ainda tinha as cinzas da carta guardadas num pequeno frasco.
– Rosemary disse que a mãe nunca arranjou amigos, nunca jantava com a família, nem interagia com quem quer que fosse. Não se dava ao direito de ter vida, nem prazer. Algum tempo depois, começou a falar um pouco mais, mas o seu único tema de conversa eram os filhos. Rosemary disse que a mãe nos amou durante toda a vida, mas sentia-se paralisada num terrível impasse, pois acreditava que nos fariam mal se voltasse e que estaria a abandonar-nos se não voltasse. Ela não nos abandonou para ter uma aventura, ela deu em louca e mal se lembrava que partira.
– Como morreu ela? – perguntou Kya.
– Ela tinha leucemia. Rosemary disse que era possível tratá-la, mas ela recusou toda a medicação. Foi ficando cada vez mais fraca e acabou por morrer há dois anos. Rosemary disse que ela morreu da mesma forma que vivera. Na escuridão. Em silêncio.
Ficaram ambos calados e Kya lembrou-se do poema de Galway Kinnel que a mãe sublinhara no seu livro:
Tenho de confessar que estou aliviado por tudo ter terminado: No final já só conseguia sentir pena.
Daquele desejo de continuar a viver.
… Adeus.
Jodie levantou-se.
– Vem comigo, Kya. Quero mostrar-te uma coisa. Conduziu-a à sua pickup, subiu para a caixa aberta da carrinha e abriu cuidadosamente um grande caixote de cartão, de onde foi tirando pinturas a óleo, por embrulhar, que foi encostando à caixa da carrinha. Uma delas retratava três rapariguinhas – Kya e as irmãs – agachadas junto da lagoa, a observarem as libelinhas. Outra era de Jodie e do irmão a exibirem uma série de peixes pendurados num fio.
– Trouxe-as para o caso de tu ainda cá estares. Foi Rosemary que mas enviou. Disse que a mãe passou anos a pintar-nos, dia e noite.
Num dos quadros viam-se cinco crianças que pareciam estar a observar o artista. Kya olhou fixamente para os olhos dos irmãos, que tinham igualmente os olhos presos nela.
– Quem é quem? – perguntou, num sussurro.
– O quê?
– Nunca se fizeram fotografias, por isso eu não os reconheço. Quem é quem?
Jodie ficou sem fôlego ao ouvir aquilo, mas, finalmente, disse:
– Bom, esta é Missy, a mais velha. A seguir está Murph e Mandy. É claro que este miúdo giro sou eu. E aquela és tu – disse, finalmente.
Deu-lhe algum tempo e depois disse:
– Olha para esta.
Diante dele estava uma pintura a óleo, extraordinariamente colorida, de duas crianças agachadas no meio de redemoinhos de erva verde e flores silvestres. A rapariguinha, de cabelo liso preto, caído sobre os ombros, era ainda bebé. Não devia ter mais de três anos. O rapazinho, um pouco mais velho do que ela, tinha caracóis louros e apontava para uma borboleta monarca, de asas amarelas e pretas abertas sobre uma margarida. Estava com a mão no braço da rapariguinha.
– Acho que esse é o Tate Walker – disse Jodie.
– Acho que tens razão. Parece ser ele. Porque iria a mãe pintar o Tate?
– Ele costumava aparecer frequentemente, para ir pescar comigo. Estava sempre a mostrar-te insetos e coisas do género.
– Porque será que não me lembro disso?
– Eras muito pequena. Uma tarde, o Tate entrou na nossa lagoa de barco. O pai estava muito bêbado, aos puxões ao saco. Tu andavas pela água e ele devia estar a vigiar-te. Subitamente, sem razão aparente, o pai agarrou-te pelos braços e sacudiu-te com tanta força que te atirou com a cabeça para trás. Depois, largou-te na lama e começou a rir às gargalhadas. O Tate saltou do barco e correu ao teu encontro. Tinha apenas sete ou oito anos, mas gritou com o pai. É claro que o pai lhe deu um bofetão e gritou-lhe que saísse das suas terras e nunca mais lá voltasse, de contrário levaria um tiro. Nesta altura, já todos tínhamos corrido até lá abaixo para ver o que se passava, e embora o pai continuasse a praguejar enraivecido, o Tate pegou em ti e entregou-te à mãe, certificando-se de que tu estavas bem, antes de se ir embora. Continuámos a ir pescar juntos, depois disso, mas ele nunca mais voltou a nossa casa.
Exceto no dia em que me guiou até a casa, da primeira vez que levei o barco para o pantanal, pensou Kya. Olhou para a pintura em tons pastel. Era tão serena. A mãe conseguira, de alguma forma, extrair beleza, de toda aquela insanidade. Qualquer pessoa que olhasse para aqueles quadros, julgaria retratarem uma família feliz da zona costeira, a brincar ao sol.
Jodie e Kya sentaram-se na borda da caixa da carrinha, ainda a observarem as pinturas em silêncio.
Depois, Jodie prosseguiu:
– A mãe estava isolada. Sozinha. As pessoas têm formas diferentes de reagir em circunstâncias daquelas.
Kya gemeu baixinho.
– Por favor não me fales em isolamento. Ninguém precisa de me dizer até que ponto o isolamento nos modifica. Eu vivi-o. Eu sou o isolamento em pessoa – sussurrou Kya, num tom ligeiramente irritado. – Perdoo à mãe por se ter ido embora, mas não entendo por que razão não voltou, por que razão me abandonou. É possível que não te lembres, mas depois de ela partir, tu disseste-me que as raposas-fêmea abandonam, por vezes, as suas crias quando estão famintas ou sob outro tipo de tensão extrema. As crias morrem – como iriam morrer de qualquer forma – mas a raposa sobrevive para voltar a reproduzir, assim que as condições melhorem e ela se sinta capaz de conceber e criar uma ninhada. Tenho lido imenso sobre isso, desde então. Na natureza mais remota – lá longe, onde o vento chora – esses comportamentos, aparentemente impiedosos, acabam, efetivamente, por aumentar o número de crias que a fêmea concebe ao longo da sua vida, levando-a a transmitir à geração seguinte os genes que a compelem a abandonar a sua prole, em momentos de tensão, e esse ciclo vai-se repetindo. Isso também acontece entre seres humanos. Certos comportamentos, que agora nos parecem cruéis, asseguraram a sobrevivência do homem primitivo, qualquer que fosse o pântano em que habitasse, na altura. Sem eles, nós não estaríamos aqui, agora. Nós ainda temos esses instintos guardados nos nossos genes e eles manifestam-se em determinadas circunstâncias. Em parte, seremos sempre o que éramos, o que tínhamos de ser para sobreviver, há muito tempo atrás. Talvez a mãe nos abandonasse movida por um impulso primitivo transmitido por genes remotos, devido à tensão, ao horror e ao perigo real que era viver com o pai, embora isso não desculpe a atitude em si – ela devia ter decidido ficar – mas talvez o facto de sabermos que essas tendências estão inscritas na nossa «planta» biológica, nos ajude a perdoar, mesmo a uma mãe fracassada. É possível que isso explique porque se foi embora, mas continuo a não perceber porque não voltou. Porque nem sequer me escreveu. Podia ter-me escrito, cartas atrás de cartas, anos a fio, até que uma delas viesse parar às minhas mãos.
– Creio que há coisas que não se explicam. Ou as perdoamos ou não. Não sei responder a essa pergunta. Talvez não tenha sequer resposta. Lamento trazer-te tão más notícias.
– Vivi sem família e sem notícias da família durante uma boa parte da minha vida, e agora, em escassos minutos, reencontrei um irmão e perdi a minha mãe.
– Lamento muito Kya.
– Não lamentes. Na verdade, eu perdi a mãe há anos e agora tu regressaste, Jodie. Não há palavras que expressem o quanto desejava ver-te de novo. Este é um dos dias mais felizes e mais tristes da minha vida. – Tocou-lhe no braço com os dedos. Ele conhecia-a suficientemente bem para saber que isso era raro nela.
Voltaram para a cozinha e ele olhou em redor, a apreciar as coisas novas – as paredes acabadas de pintar, os armários feitos à mão.
– Como conseguias safar-te, Kya? Onde ias arranjar dinheiro para comer, antes de o livro ser publicado?
– Isso é uma história um pouco longa e enfadonha. Basicamente, vendia mexilhões, ostras e peixe fumado ao Saltos.
Jodie atirou a cabeça para trás e deu uma sonora gargalhada.
– Saltos! Há anos que não penso nele. Ainda é vivo?
Kya não se riu.
– Saltos é o meu melhor amigo desde há anos. O meu único amigo. A minha única família, a menos que contes com as gaivotas de arenque.
Jodie ficou com uma expressão séria.
– Não tinhas amigos na escola?
– Só fui à escola um dia – disse ela, rindo baixinho. – Os miúdos riram-se de mim, por isso nunca mais lá pus os pés. Passei semanas a enganar os inspetores escolares, o que não foi muito difícil, depois de tudo o que aprendi contigo.
Ele parecia perplexo.
– Como aprendeste a ler, para escreveres o teu livro?
– Na verdade, foi Tate Walker que me ensinou a ler.
– Continuas a vê-lo?
– De vez em quando. – Levantou-se virou-se para o fogão. – Queres mais café?
Jodie sentia a solidão dela pairar pela cozinha. Estava patente na pequena quantidade de cebolas, no cesto dos legumes, no único prato a secar no escorredouro, no pão de milho cuidadosamente embrulhado numa toalha de chá, tal qual uma velha viúva faria.
– Já bebi café suficiente, hoje, obrigado. E que tal darmos uma volta pelo pantanal? – perguntou ele.
– Claro. Não vais acreditar: tenho um barco a motor novo, mas continuo a usar o mesmo velho esquife.
O sol rompera por entre as nuvens e estava radioso e quente para um dia de inverno. Enquanto Kya conduzia o barco pelos canais estreitos e estuários de águas espelhadas, Jodie deixou escapar uma exclamação ao ver uma saliência de que ainda se recordava, exatamente na mesma, e um dique de castores ainda no mesmo sítio. Ao chegarem à lagoa onde a mãe, Kya e as irmãs tinham encalhado o barco na lama, riram com gosto.
De regresso à cabana, Kya reuniu comida e fizeram um piquenique na praia, com as gaivotas.
– Eu era tão pequena quando eles se foram embora – disse ela. – Fala-me deles. Ele contou-lhe histórias sobre Murph, o seu irmão mais velho, que costumava andar com ela às cavalitas pelos bosques.
– Tu passavas o tempo todo a rir. Ele corria e andava em círculos, contigo às cavalitas. Uma vez riste-te tanto que molhaste as cuecas no pescoço dele.
– Oh não! Não pode ser – disse Kya, recostando-se na cadeira a rir.
– Molhaste sim. Ele gritou um pouco, mas continuou a andar. Depois, foi direito à lagoa, a correr, até ficar debaixo de água, ainda contigo às cavalitas. Todos nós estávamos a assistir – a mãe, Missy, Mandy e eu. Chorámos a rir. A mãe riu tanto que teve de se sentar no chão.
Kya ia inventando imagens para as histórias que ele contava. Retalhos de uma vida em família que nunca imaginara ter tido.
Jodie continuou:
– Foi Missy que começou a dar comida às gaivotas.
– O quê? A sério? E eu a julgar que fora a única a fazê-lo, depois de todos se irem embora.
– Não. Ela ia alimentar as gaivotas, sempre que podia. Até lhes deu nomes. Lembro-me que chamava Big Red a uma delas, por causa daquela pinta vermelha no bico.
– É claro que são outras aves, mas eu própria lhes conheci várias gerações de Big Reds. Aquela ali à esquerda é o atual Big Red. Tentou ligar-se à irmã que lhe legara as gaivotas, mas apenas conseguiu visualizar o rosto da pintura, o que era mais do que antes conseguia.
Kya sabia que a pinta vermelha no bico das gaivotas de arenque não era apenas decorativa. Só quando as crias lhe tocavam nesse ponto com o bico, é o que progenitor libertava a comida que apanhara para elas. Se a pinta vermelha estivesse oculta e as crias não tocassem no bico do progenitor, este não as alimentava e elas morriam. Mesmo na natureza, a linha pela qual os progenitores se regem é bem mais ténue do que se possa imaginar.
Ficaram sentados durante algum tempo e depois Kya disse:
– É que não consigo lembrar-me de quase nada.
– Sorte a tua. Continua assim.
E ali ficaram, sentados em silêncio, tentando não recordar.
Kya fez um jantar tipicamente sulista, tal como a mãe teria feito: feijão-frade com cebola roxa, presunto frito, pão de milho com pedaços estaladiços de porco, feijão manteiga cozinhado em manteiga e leite, torta de amora com chantili batido e Bourbon que Jodie trouxera. Enquanto comiam ele disse-lhe que gostaria de lá passar alguns dias, se ela não se importasse, e ela disse-lhe que podia ficar o tempo que quisesse.
– Estas terras agora são tuas, Kya. Bem as mereceste. Eu ainda ficarei mais algum tempo estacionado em Fort Benning, por isso não poderei cá ficar muito tempo. Depois disso, é provável que arranje um emprego em Atlanta, para que possamos manter-nos em contacto. Gostaria de te ver tão frequentemente quanto possível. Saber que tu estás bem sempre foi o meu único desejo na vida.
– Gostaria muito, Jodie. Vem sempre que possas, por favor.
Na noite seguinte, enquanto estavam sentados na praia, com a espuma das ondas a fazer-lhes cócegas nos dedos dos pés descalços, Kya estava invulgarmente conversadora, e Tate parecia surgir em todos os parágrafos. Contou-lhe que se perdera no pantanal, quando era ainda criança, e fora ele que a guiara até casa. Falou-lhe do primeiro poema que ele lhe lera e do jogo das penas. Contou-lhe ainda que ele a ensinara a ler e que trabalhava, agora, como cientista no novo laboratório. Contou-lhe que ele fora o seu primeiro amor, mas que a abandonara quando foi para a universidade, deixando-a à espera dele na margem da lagoa, e por isso tudo terminara.
– Há quantos anos foi isso? – perguntou Jodie.
– Há cerca de sete anos, creio eu. Quando ele foi para Chapel Hill.
– Voltaste a vê-lo desde então?
– Ele voltou para me pedir desculpa. Disse que ainda me amava. Foi ele que sugeriu que eu publicasse livros de referência. Agrada-me vê-lo de vez em quando, no pantanal, mas não voltarei a envolver-me com ele. Não é de confiança.
– Isso aconteceu há sete anos, Kya. Ele era apenas um miúdo. Era a primeira vez que estava longe de casa, com centenas de miúdas giras à volta dele… Se ele voltou, pediu desculpa e diz que te ama, talvez fosse boa ideia não seres tão dura com ele.
– Grande parte dos homens andam a saltar de uma mulher para outra. Os que menos valem andam por aí a pavonear-se e seduzem-nos com falsidades. Talvez seja por isso que a mãe se apaixonou por um homem como o pai. Tate não foi o único a abandonar-me. Chase Andrews chegou até a falar-me em casamento, mas casou-se com outra pessoa. E nem sequer me disse. Fui eu que vi no jornal.
– Lamento muito, Kya. A sério que lamento, mas não são apenas os homens que são infiéis. Eu próprio fui enrolado, rejeitado e atropelado várias vezes. Encaremos as coisas como são: nem sempre o amor vinga. Porém, mesmo quando falha, liga-te a outras pessoas, e é isso que está, no final – as ligações. Olha para nós: neste momento temo-nos um ao outro. Agora pensa: se eu tiver filhos e tu tiveres filhos, criaremos uma linha de relacionamentos inteiramente nova… e por aí adiante. Se amas o Tate, arrisca, Kya.
Kya pensou no quadro que a mãe pintara dela e de Tate, em crianças, de rostos bem juntos, rodeados de borboletas e flores em tons pastel. Afinal, talvez a mãe lhe tivesse deixado uma mensagem.
Na terceira manhã da visita de Jodie, desembalaram as pinturas da mãe – todas, exceto uma com que Jodie quis ficar – e penduraram algumas nas paredes. A cabana ganhou uma luz diferente, como se mais janelas se abrissem. Kya recuou e olhou para elas. Era um milagre poder voltar a ter algumas das pinturas da mãe nas paredes, como que arrancadas da fogueira.
Depois, Kya acompanhou Jodie à pickup e deu-lhe um saco com uma merenda que lhe fizera para a viagem. Ambos olharam através das árvores, para o fundo do caminho de areia, evitando a todo o custo olharem-se nos olhos.
Finalmente, ele disse:
– É melhor eu ir andando. Aqui está a minha morada e o meu telefone – disse ele, retirando um pedaço de papel de um bloco de notas. Ela ficou sem fôlego e amparou-se na carrinha com a mão esquerda, agarrando no papel com a direita. Nada mais simples: a morada de um irmão escrita num pedaço de papel. Saber que tinha uma família e onde a encontrar, ter um número para onde ligar, sabendo que ele iria atender, parecia-lhe simplesmente inacreditável. Quando ele a puxou para si, sentiu a garganta embargada e, finalmente, uma eternidade depois, deixou-se cair nos braços dele e chorou.
– Nunca imaginei que iria voltar a ver-te. Julguei que tivesses desaparecido para sempre.
– Estarei sempre presente, prometo. Sempre que me mudar, enviar-te-ei a minha morada. Se precisares de mim, escreve-me ou telefona-me, ouviste?
– Assim farei. E tu, por favor, volta para me visitar sempre que puderes.
– Vai à procura de Tate, Kya. Ele é bom homem.
Jodie acenou-lhe da carrinha até ao fim do caminho. Ela seguiu-o com os olhos a chorar e a rir ao mesmo tempo. Quando ele virou para a estrada, conseguia ainda distinguir o vermelho da pickup e o seu longo braço a acenar-lhe por entre os intervalos das árvores – os mesmos onde em tempos vira desaparecer um lenço branco – até que, finalmente, o perdeu de vista.
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