Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 3 de 59

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Lá, onde o vento chora

1. Mãe

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Mãe

1952

O sol estava tão quente naquela manhã de agosto, que os carvalhos e os pinheiros pareciam sufocados na neblina húmida do pantanal. Tirando o lento e suave bater de asas das garças que levantavam voo da lagoa, os campos de palmitos estavam invulgarmente silenciosos. Foi então que Kya – na altura, apenas com seis anos – ouviu a porta de rede bater. Parou de raspar restos de papas de aveia de dentro da panela, de pé em cima do banco, e mergulhou-a dentro da bacia com água suja, já quase sem espuma. Agora já só ouvia a sua própria respiração. Quem teria saído da cabana? A mãe não fora, com certeza, pois nunca deixava a porta bater.

Mas quando Kya correu para o alpendre, viu a mãe percorrer o caminho de areia, de saia comprida castanha e saltos altos, sacudindo com os pés as pregas que lhe batiam nos tornozelos. Os sapatos de biqueira larga, em imitação de pele de crocodilo, eram o único par de sapatos que ela tinha para sair. Kya queria chamá-la, mas sabia que era melhor não acordar o pai, por isso abriu a porta e ficou ao cimo dos degraus de tijolo e madeira. Foi então que viu que a mãe levava uma maleta azul na mão. Com a confiança habitual de uma cria, Kya sabia que a mãe voltaria com um pedaço de carne embrulhado num papel gordurento castanho ou com uma galinha de cabeça pendurada para baixo. O certo é que nunca a vira sair de sapatos de crocodilo e maleta.

Sempre que chegava à estrada, ao fundo do caminho de areia, a mãe costumava olhar para trás, de braço no ar, e acenar-lhe com a palma da mão branca, antes de virar para o trilho sinuoso que a levaria à cidade, por entre lagoas de taboas e floresta pantanosa, se a maré o permitisse. Hoje, porém, continuara a caminhar vacilantemente, sem se virar, tentando a custo equilibrar-se pelos sulcos do caminho. A sua figura alta surgia, de vez em quando, por entre as aberturas da floresta, até já só se distinguirem clarões fugazes do seu lenço branco, por entre as folhas. Kya correu para o sítio onde sabia que a estrada começava, convencida de que a mãe iria acenar-lhe de lá, mas já só chegou a tempo de ver desaparecer a maleta azul, cuja cor nada tinha a ver com os bosques. Uma dor densa como lama de algodão negro pesava-lhe no peito, ao voltar para junto dos degraus, para esperar por ela.

Kya era a mais nova de cinco irmãos, todos eles muito mais velhos, mas de cujas idades não conseguiria lembrar-se mais tarde. Viviam com a mãe e o pai, espremidos uns contra os outros, como coelhos engaiolados, naquela cabana tosca, com um alpendre protegido por rede, de olhos arregalados para a floresta, sob as copas dos carvalhos.

Jodie, o irmão a seguir a Kya, mais ainda assim, sete anos mais velho do que ela, saiu de dentro de casa e ficou atrás dela. Tinha os mesmos olhos escuros e o mesmo cabelo negro, e ensinara-lhe cantos de aves, nomes de estrelas e como conduzir um barco por entre os juncos.

– A mãe vai voltar – disse ele.

– Não sei. Ela calçou os sapatos de crocodilo.

– Uma mãe não abandona os filhos. Não está na sua natureza.

– Tu falaste-me de uma raposa que abandonou as crias.

– Sim, mas essa raposa tinha uma perna toda esfacelada. Morreria à fome se tentasse alimentar-se a si e às crias. Era preferível abandoná-las, curar-se e voltar a ter uma ninhada, quando se sentisse capaz de cuidar convenientemente dela. Mas a mãe não está a morrer à fome, por isso vai voltar. – Jodie não estava tão seguro disso como estava a dar a entender, mas disse-o para animar Kya.

Ela sussurrou-lhe com um nó na garganta:

– Mas ela levava aquela maleta azul como se fosse para uma grande cidade.

A cabana erguia-se por trás dos palmitos, que se estendiam por planícies de areia, rodeadas por uma série de lagoas verdes e, mais além, pelo pantanal – quilómetros e quilómetros de juncos tão resistentes, que cresciam em água salgada, interrompidos apenas por árvores tão vergadas que já tinham a forma do vento. Em redor das restantes paredes da cabana havia florestas de carvalhos. Aí ficava também a lagoa mais próxima, cujas águas fervilhantes de vida pareciam redemoinhar à superfície. A brisa salgada do mar pairava por entre as árvores, trazendo consigo o canto das gaivotas.

A ocupação de territórios não se alterara muito desde 1500 e as explorações dispersas pelo pantanal não estavam legalmente documentadas. Os renegados socorriam-se da própria natureza para as demarcar – um riacho aqui, um carvalho morto acolá… Nenhum homem constrói uma cabana num pântano, no meio de palmitos, a menos que ande a fugir de alguém ou tenha chegado ao fim da linha.

O pantanal estava protegido por uma linha costeira acidentada, a que os primeiros exploradores chamaram «O Cemitério do Atlântico» devido às suas correntes de retorno, baixios e ventos alterosos, que destruíam barcos como cascas de noz, semeando destroços ao longo da área costeira, que viria a denominar-se mais tarde, costa da Carolina do Norte. No diário de um marinheiro podia ler-se: «… contornámos a costa… mas não conseguíamos ver nenhuma Entrada. Fomos atingidos por uma violenta Tempestade, que nos obrigou a voltar para o Largo, para nos protegermos, mas fomos Rapidamente arrastados por uma Forte Corrente…».

«Em terra não vimos senão terrenos alagados e Pântanos, por isso regressámos ao Barco… O desânimo apossar-se-ia, certamente, de todos, se nos instalássemos por estas Partes.»

Os que procuravam terra decente seguiam em frente e o infame pantanal converteu-se numa rede em cujas malhas foi caindo uma amálgama de marinheiros amotinados, párias, devedores e gente em fuga de guerras, impostos ou leis que não cumpriam. Os que escaparam à malária e não foram engolidos pelo pântano, deram origem a uma tribo de lenhadores, de diferentes raças e culturas, todos eles capazes de derrubar uma pequena floresta, a golpes de machado, e percorrer quilómetros com um veado às costas. Cada um tinha o seu território, como as ratazanas do rio, mas tinham de se integrar naquela comunidade marginal, de contrário acabariam simplesmente por desaparecer no pântano, mais tarde ou mais cedo. Duzentos anos mais tarde, a comunidade passou a contar com escravos fugitivos, que se escapavam para o pantanal – os chamados maroons – e escravos alforriados – gente atormentada, sem um tostão, que se dispersava pelas terras alagadas, por falta de alternativas.

Talvez fosse uma terra hostil, mas nada tinha de estéril. Camadas de vida amontoavam-se sobre a terra – caranguejos de areia, lagostins, aves marinhas, peixe, camarões, ostras e até veados e gansos anafados. Um homem que não se importasse de procurar comida, jamais passaria fome.

Estávamos agora em 1952. Há quatro séculos que as ocupações estavam a ser feitas por uma série de pessoas sem ligação umas com as outras, sobre as quais não havia qualquer registo, e quase todas eram anteriores à Guerra Civil. Mas havia quem se tivesse instalado na terra mais recentemente, sobretudo depois das duas guerras mundiais, na altura em que os homens regressavam, falidos e despedaçados. O pantanal não os limitava, mas definia-os, e tal como qualquer solo sagrado, mantinha os seus segredos bem guardados. Ninguém se importava que eles ocupassem a terra, porque mais ninguém a queria. Afinal de contas, não passava de um pântano desolado.

À semelhança do uísque, os habitantes do pantanal contrabandeavam também as suas leis. Não eram leis gravadas a fogo na pedra nem inscritas em documentos, mas sim algo de mais profundo, gravado nos próprios genes. Leis ancestrais, naturais, como as dos falcões ou dos pombos. Quando encurralado, desesperado ou isolado, o homem reverte rapidamente a um estado instintivo, no propósito único de sobreviver. Esses instintos serão sempre o seu trunfo, pois são mais frequentemente transmitidos de geração em geração do que outros inscritos em genes mais delicados. Não se trata de moralidade, mas de simples matemática. Os pombos lutam tanto entre si como os falcões.

A mãe não voltou nesse dia, mas ninguém falou no assunto, muito menos o pai.

– O que é o jantar? – perguntou ele, batendo com as tampas das panelas. Fedia a peixe e a aguardente do barril.

Os irmãos e as suas irmãs encolheram os ombros de olhos no chão. O pai praguejou, saiu a coxear e voltou para os bosques. Já antes tinha havido discussões. A mãe chegara mesmo a sair de casa umas duas vezes, mas voltava sempre, puxando para o colo quem precisasse de mimo.

As duas irmãs mais velhas cozinharam feijão vermelho com pão de milho para o jantar, mas ninguém se sentou à mesa para comer como teriam feito se a mãe lá estivesse. Cada um serviu-se de feijão da panela, colocou-lhe um pedaço de pão de milho em cima e foi comer para o colchão que tinha no chão ou para o sofá desbotado.

Kya não conseguiu comer e foi sentar-se nos degraus do alpendre a olhar para o caminho. Magra e alta demais para idade, Kya era muito morena e tinha um cabelo liso, negro e forte como as asas de um corvo.

O anoitecer pôs fim à sua vigília. O coaxar dos sapos abafaria o som de passos. Ainda assim, deitou-se na sua cama do alpendre, à escuta. Ainda nessa manhã acordara com os estalidos do toucinho na frigideira de ferro e o aroma dos biscoitos a alourar no forno de lenha. Puxara as alças das jardineiras para cima e correra para a cozinha, para tirar os pratos e os garfos e catar o gorgulho dos grãos de aveia. Quase todas as manhãs ao nascer do sol, a mãe abraçava-a e dizia-lhe com um grande sorriso:

– Bom dia, como vai a minha menina mais querida? – E iniciavam juntas as tarefas do dia, numa espécie de dança. Por vezes, a mãe cantava música folk e recitava quadras infantis:

– Este porquinho foi ao mercado.

Outras vezes dançava 1 jitterbug com Kya e batiam ambas com os pés no soalho de contraplacado, até abafarem a música do rádio a pilhas, como se este cantasse sozinho, no fundo de um barril. Noutros dias, a mãe falava de coisas de adultos que Kya não entendia, mas ela bebia as suas palavras, enquanto punha lenha no fogão, acenando-lhe com a cabeça como se as entendesse, pois sabia que a mãe precisava de lhes dar algum destino.

Depois, vinha a azáfama de acordar e alimentar toda a gente. O pai não estava lá. Ele tinha duas formas de estar – em silêncio ou aos gritos – por isso era ótimo quando se deixava dormir ou não vinha sequer para casa.

Mas naquela manhã a mãe estivera muito calada; o seu sorriso desaparecera e estava com os olhos vermelhos. Amarrara um lenço branco até meio da testa, à pirata, mas este não cobria totalmente a nódoa negra amarela e roxa que lá tinha, e logo a seguir ao pequeno-almoço, antes mesmo de a loiça estar lavada, a mãe colocara alguns dos seus pertences na maleta, e descera até à estrada, pelo caminho de areia.

Na manhã seguinte, Kya voltou a ocupar o seu posto de vigia nos degraus. Os seus olhos negros perscrutavam o caminho, expectantes, como um túnel à espera de um comboio. Mais além, no pantanal velado pela cerração, a bruma estava tão baixa, que a sua base fofa assentava literalmente sobre a lama. Kya tamborilou com os dedos dos pés descalços nos degraus, atirou pés de erva aos bichos-de-conta, mas uma criança de seis anos não consegue ficar sentada muito tempo, e depressa deu consigo a correr pela margem da lagoa, sentindo a areia empapada a sugar-lhe os dedos dos pés. Depois, agachou-se à beira da lagoa de água cristalina e ficou a ver os vairões nadarem velozmente por entre sombras e poças de sol.

Jodie chamou-a dos palmitos e ela olhou para ele – talvez ele viesse trazer-lhe notícias. Mas ao vê-lo aproximar-se, por entre as palmeiras de folhas aguçadas, Kya percebeu, pela forma descontraída como se movia, que a mãe não voltara para casa.

– Queres brincar aos exploradores? – perguntou ele.

– Tu disseste que estavas demasiado crescido para brincar aos ‘xploradores.

– Disse isso por dizer. Nunca se é demasiado crescido para isso. Desafio-te para uma corrida!

E largaram a correr pelos campos de areia e depois pela floresta, em direção à praia. Ela guinchou, quando ele a ultrapassou, e foi a rir até ao grande carvalho, cujos gigantescos braços se projetavam sobre a areia. Jodie e o irmão mais velho, Murph, tinham pregado algumas tábuas sobre os ramos, para fazer uma torre de vigia – uma espécie de forte na árvore – mas uma boa parte das tábuas tinham caído e estavam agora penduradas em pregos ferrugentos.

Normalmente, os irmãos só a deixavam fazer parte da equipa como criada, para ela lhes levar biscoitos quentes que ela ia roubar ao tabuleiro da mãe.

Mas naquele dia o Jodie disse:

– Podes ser o Capitão.

Kya ergueu o braço direito e ordenou o ataque:

– Expulsem os espanhóis! – Partiram uns paus para servirem de espadas e investiram por entre os arbustos, gritando e desferindo golpes no inimigo.

Depois, com igual naturalidade, Kya deu por findo o faz de conta, dirigiu-se para um tronco coberto de musgo e sentou-se.

Ele juntou-se a ela em silêncio. Queria dizer-lhe alguma coisa que lhe tirasse a mãe da cabeça, mas não lhe ocorreu nada, por isso ficaram a observar as sombras das aranhas de água.

Mais tarde, Kya voltou para os degraus do alpendre e ficou durante muito tempo à espera, de olhos pregados no caminho de areia, sem verter uma lágrima – impassível, de lábios cerrados sob um par de olhos atentos – mas a mãe também não voltou nesse dia.

 

1 Dança popular nos anos quarenta, normalmente associada aos temas de swing. [N. da T.]

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