Lá, onde o vento chora

Delia Owens · Capítulo 55 de 59

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Lá, onde o vento chora

53. O Elo Perdido

53

O Elo Perdido

1970

Na manhã seguinte, Tom tinha apenas mais uma testemunha. A sua última cartada.

Chamou Tim O’Neil que, durante trinta e oito anos, governara o seu próprio barco de pesca de camarão, nas águas de Barkley Cove. Tim, que tinha quase sessenta e cinco anos, era alto e robusto. Tinha um cabelo crespo castanho, apenas com algumas brancas, mas a barba farta era quase branca. As pessoas encaravam-no como um homem calado e sério, honesto e amável, que abria sempre a porta às senhoras – o ideal para última testemunha.

– É verdade que na noite de 29 para 30 de outubro do ano passado, estavas a entrar em Barkley Cove, entre a 1:45 e as 2:00 da manhã, ao comando do teu barco, Tim?

– Sim.

– Dois dos membros da tua tripulação, o Sr. Hal Miller, que já testemunhou, e o Sr. Allen Hunt que assinou um depoimento, alegam ter visto a menina Clark a passar no seu barco rumo a norte, aproximadamente a essa hora. Tens conhecimento das suas declarações?

– Tenho.

– Viste esse mesmo barco no local, há mesma hora que o Sr. Miller e o Sr. Hunt o viram?

– Vi, sim.

– E concordas com o seu depoimento? Também achas que foi a menina Clark que viram conduzir o barco em direção a norte?

– Não, não concordo.

– Porquê?

– Porque não havia lua. Estava muito escuro e o barco estava demasiado longe para que se identificasse quem lá ia com alguma certeza. Conheço toda gente que tem barcos desse tipo, nas redondezas. Muitas vezes vi a menina Clark no barco dela e percebia imediatamente quem era, mas naquela noite estava demasiado escuro para se reconhecer o barco ou perceber quem lá ia.

– Obrigado, Tim. Não tenho mais perguntas a fazer.

Eric encaminhou-se para junto do banco das testemunhas.

– Tim, mesmo não conseguindo identificar o barco, nem o seu ocupante, concordas que uma embarcação, mais ou menos das mesmas dimensões e formato que o barco da menina Clark, estava a dirigir-se para a torre de vigia, cerca da 1:45 da manhã, na noite em que Chase Andrews morreu na torre pouco tempo depois?

– Sim, posso dizer que o barco era de dimensões e formato semelhante ao da menina Clark.

– Muito obrigado.

Ao voltar a interrogar a sua testemunha, Tom falou do sítio onde estava:

– Apenas a título de confirmação: tu alegaste que identificaste muitas vezes a menina Clark no seu barco, mas nessa noite não viste nada que te permitisse confirmar que o barco era o da menina Clark e que era ela que o ia a conduzir, correto?

– Correto.

– Podes dizer-nos se há muitos barcos das mesmas dimensões e formato que o da menina Clark a operar nesta área?

– Ah, sim. O barco dela é dos mais vulgares. Há imensos barcos como o dela a operar nas redondezas.

– Então, a pessoa que viste a conduzir o barco nessa noite, poderia ser qualquer um dos proprietários de barcos semelhantes.

– Absolutamente.

– Obrigado. A defesa nada mais tem a acrescentar, Meritíssimo.

O Juiz Sims disse:

– Faremos um intervalo de vinte minutos. Está suspensa a audiência.

Eric levou uma gravata larga, com listas douradas e grená, para a argumentação final. A galeria estava silenciosa e expectante, quando ele se aproximou do júri e parou junto da balaustrada, olhando demoradamente para cada um dos jurados.

– Prezados membros do júri, os senhores fazem parte da comunidade de uma cidade notável, de características únicas, que viu desaparecer, no ano passado, um dos seus filhos. Um jovem que se celebrizou entre nós, e que esperava poder desfrutar de uma longa vida na companhia da sua bela…

Kya mal o ouviu enquanto ele repetia a narrativa do homicídio de Chase Andrews, apanhando apenas fragmentos do seu discurso, de cotovelos apoiados sobre a mesa, com a cabeça aninhada nas mãos.

– … dois homens bem conhecidos nesta comunidade viram a menina Clark e Chase Andrews nos bosques… e ouviram-na dizer que o matava… Um boné de lã vermelho cujas fibras foram encontradas no seu blusão de ganga… Quem mais poderia desejar tirar-lhe aquele colar?… Vocês sabem perfeitamente que essas correntes e ventos podem aumentar significativamente a velocidade de um… O seu estilo de vida revela-nos que seria perfeitamente capaz de andar de barco à noite e subir à torre na escuridão. Todas as peças se encaixam perfeitamente. Todos os seus movimentos nessa noite são claros. Poderão e deverão, por isso mesmo, julgá-la culpada de homicídio qualificado. Obrigado por cumprirem o vosso dever.

O Juiz Sims acenou com a cabeça a Tom, que se aproximou da tribuna do júri.

– Prezados membros do júri, eu cresci em Barkley Cove e também ouvi todas essas historietas sobre a Miúda do Pantanal, na minha juventude. Vamos desmistificá-las publicamente, de uma vez por todas. Nós chamávamos-lhe a Miúda do Pantanal. Muitos ainda lhe chamam. Uns diziam que era meio-lobo, outros que era o Elo Perdido entre o macaco e o homem, que os seus olhos brilhavam no escuro, quando na realidade era apenas uma criança abandonada, uma rapariguinha a sobreviver sozinha num pântano, com fome e frio, que nenhum de nós ajudou. Ninguém das nossas igrejas ou grupos comunitários se dignou oferecer-lhe comida ou roupa, a não ser Saltos, um dos seus raros amigos. Em vez disso, rotulámo-la e rejeitámo-la por a acharmos diferente. Pergunto-vos, senhoras e senhores: será que a excluímos por ser diferente ou seria ela diferente por se sentir excluída? Se a tivéssemos acolhido como nossa igual, creio que era isso mesmo que ela seria hoje. Se a tivéssemos alimentado e vestido, se a tivéssemos recebido nas nossas igrejas e nas nossas casas, não alimentaríamos preconceitos em relação a ela, e eu acredito que ela não estaria aqui hoje a ser julgada por um crime. Foram incumbidos do dever de julgarem esta jovem tímida e rejeitada, mas deverão basear esse julgamento nos factos apresentados nesta sala de audiências e não em rumores ou emoções dos últimos vinte e três anos. Quais são os factos concretos?

Tal como no caso da acusação, Kya apanhou apenas fragmentos do discurso de Tom.

– … a acusação não conseguiu sequer provar que o incidente foi, de facto, um homicídio e não apenas um trágico acidente. Não há arma do crime, não há ferimentos que comprovem que Chase foi empurrado, não há impressões digitais… Um dos factos mais importantes aqui comprovados é que a menina Clark tem um álibi absolutamente inabalável. Nós sabemos que ela estava em Greenville na noite em que Chase morreu… não há qualquer prova de que ela se vestiu de homem para ir a Barkley de autocarro… Na verdade, a acusação não apresentou provas de que ela esteve, efetivamente, em Barkley, nessa noite, tão pouco provou que ela foi à torre. Volto a dizer: não há qualquer evidência que prove que a menina Clark esteve na torre de vigia, em Barkley Cove, ou que assassinou Chase Andrews… de resto, o Sr. O’Neal, capitão do barco de pesca de camarão, que governou o seu próprio barco durante trinta e oito anos, alegou que estava demasiado escuro para identificar o barco em questão… as fibras encontradas no blusão dele podiam lá estar há dois anos… Tudo isto são factos incontestáveis…. Nem uma das testemunhas de acusação tinha a certeza do que viu. Nem uma. No que diz respeito à defesa, porém, todas as testemunhas tinham a certeza absoluta do que… – Tom parou por instantes diante do júri. – Conheço-vos praticamente a todos muito bem e sei que conseguirão pôr de parte qualquer preconceito que possam ter sentido, no passado, em relação à menina Clark. Alguém que, apesar de ter ido à escola apenas um dia, por ser importunada pelas outras crianças, se educou a si própria e é hoje uma conceituada autora e naturalista. Alguém a quem chamávamos Miúda do Pantanal, mas que é hoje reconhecida como uma entendida da vida do Pantanal por instituições da comunidade científica. Julgo que conseguirão pôr de parte todos os rumores e historietas. Acredito que chegarão a um veredicto baseado nos factos relatados nesta sala de audiências, e não nos falsos rumores que ouviram durante anos. Chegou, finalmente, o momento de sermos justos para com a Miúda do Pantanal.

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