Lá, onde o vento chora
16. As Leituras
16
As Leituras
1960
Durante dias, Tate não voltou para as sessões de leitura. Antes do jogo das penas, a solidão tornara-se um apêndice tão natural para Kya como um braço, mas agora parecia estar a ganhar raízes dentro de si e pesava-lhe no peito.
Um dia, ao fim da tarde, decidiu sair de barco.
– Não posso ficar aqui parada à espera.
Em vez de atracar o barco na loja de Saltos, onde poderia ser vista, escondeu-o numa pequena baía, a sul, e percorreu o trilho sombrio, em direção a Colored Town, com um saco de serapilheira. Chuviscara durante quase todo o dia e agora que o sol se aproximava do horizonte, a névoa estava a aumentar dentro da própria floresta e pairava por belas clareiras. Kya nunca fora a Colored Town, mas sabia onde era e achou que conseguiria encontrar a casa de Saltos e Mabel depois de lá chegar.
Vestira uns jeans e uma blusa cor-de-rosa que Mabel lhe oferecera. Dentro do saco de serapilheira levava frascos de um litro de geleia de amoras, bem fluida, que ela própria fizera para retribuir a gentileza de Saltos e Mabel. A necessidade de estar com alguém e falar com uma mulher amiga encorajara-a a ir ao encontro deles.
Se Saltos ainda não estivesse em casa, talvez ela pudesse sentar-se com Mabel e conversar um pouco.
Depois, ao chegar perto de uma curva, ouviu vozes a aproximarem-se dela. Parou e ficou à escuta. Saiu rapidamente do caminho, entrou na floresta e escondeu-se atrás de uma moita de murtas. Alguns instantes depois, dois rapazes brancos, de jardineiras esfarrapadas surgiram na curva, com uma lata de isco e uma série de peixes-gato, presos num fio mais comprido do que o seu braço. Kya ficou muito quieta atrás da moita e esperou.
Um dos rapazes apontou para o caminho.
– Olha, lá vai um preto, a caminho da Cidade dos Pretos. Vê lá a nossa sorte. – Kya olhou para o trilho e viu Saltos a caminho de casa para passar o serão. Estava bastante perto, por isso devia ter ouvido os rapazes, mas limitou-se a baixar a cabeça, desviou-se para os bosques, para manter a distância, e seguiu em frente.
O que se passa com ele? Porque não faz nada? – disse Kya para consigo mesma, enfurecida. Sabia que «preto» era uma palavra muito feia, pela forma como o pai a utilizava quando praguejava. Saltos poderia ter batido com a cabeça dos rapazes uma na outra, para lhes dar uma lição. Mas em vez disso, apertara o passo e continuara a andar.
– Não passa de um preto velho a caminho da cidade. Tem cuidado, preto. Vê lá se cais – disseram eles, para provocar Saltos, que continuava de olhos no chão. Um dos rapazes baixou-se, apanhou uma pedra do chão e atirou-a às costas de Saltos. Atingiu-o mesmo por baixo da omoplata, com um ruído surdo. Ele baloiçou um pouco para a frente, mas continuou a andar. Os rapazes riram e desapareceram na curva. Depois, apanharam mais pedras e foram atrás dele.
Kya seguiu-os pela floresta até lhes passar à frente, sempre de olho nos seus bonés, por cima dos ramos. Agachou-se num local em que os arbustos cerrados cresciam à beira do caminho, onde eles passariam a menos de meio metro dela, daí a segundos. Saltos ia já muito à frente e Kya perdera-o de vista. Torceu o saco de serapilheira de forma a apertar bem os frascos lá dentro e quando os rapazes passaram pela moita, brandiu o pesado saco, atingindo o que estava mais próximo dela, na nuca. Ele foi projetado para a frente e foi de cara ao chão. Kya correu na direção do outro rapaz, aos guinchos, disposta a atingi-lo também na cabeça, mas ele fugiu. Depois, embrenhou-se uns cinquenta metros na floresta e ficou a observar o primeiro rapaz até este se levantar, agarrado à cabeça, a praguejar.
Posto isto, pegou no saco de frascos de geleia, voltou para o barco e foi para casa, concluindo que era bem possível que não voltasse a visitar ninguém.
No dia seguinte, ao ouvir o barco de Tate percorrer ruidosamente o canal, Kya correu para a lagoa, e ficou nos arbustos, a vê-lo sair do barco com uma mochila. Ele olhou em redor e chamou-a. Ela avançou devagar, de jeans justos, e uma blusa com botões desirmanados.
– Olá, Kya. Desculpa não ter conseguido chegar mais cedo, mas tive de ajudar o meu pai. Vais aprender a ler num instante.
– Olá, Tate.
– Vamos sentar-nos aqui. – Apontou para um carvalho, sob o denso teto de sombras da lagoa. Depois, tirou um livro fino e amarelado do alfabeto e um caderno de linhas, de dentro da mochila, e desenhou cuidadosamente as letras a, A, b, e B, pedindo-lhe que fizesse o mesmo. Ela desenhou-as estoicamente, de língua presa entre os lábios, e ele enunciou-as devagar, num tom de voz sonoro e brando.
Kya lembrava-se de algumas das letras que aprendera com Jodie e com a mãe, mas não sabia, propriamente, como formar palavras com elas.
Apenas minutos depois, Tate disse:
– Vês? Já consegues escrever uma palavra.
– O que queres dizer com isso?
– T-á-x-i. Já consegues escrever a palavra «táxi».
– O que é táxi? – perguntou ela. Ele sabia que não podia rir-se.
– Não te preocupes com isso. Vamos continuar. Em breve aprenderás a escrever palavras que conheces.
Mais tarde disse:
– Vais ter de trabalhar muito mais no alfabeto. Demorarás algum tempo a assimilá-lo, mas já consegues ler. Eu mostro-te. – Não tinha manual de gramática, por isso o primeiro livro que lhe deu foi um exemplar do pai de Pensar como uma Montanha, de Aldo Leopold. Apontou para a frase introdutória e pediu-lhe que lha lesse. A primeira palavra era «Há» e ela teve de voltar a olhar para o alfabeto e praticar o som de cada palavra, mas ele era paciente e explicou-lhe a sonoridade especial de há. Quando Kya conseguiu, finalmente, reproduzi-la, ergueu ambos os braços, vitoriosa, e riu-se. Ele observou-a com um sorriso luminoso.
Aos poucos, Kya foi decifrando cada uma das palavras da frase:
«Há quem consiga viver longe do que é selvagem e há quem não consiga».
– Ah! – exclamou ela. – Ah…
– Tu consegues ler, Kya. De hoje em diante, conseguirás sempre ler.
– Não é só isso – disse ela, praticamente num sussurro. – Eu não fazia ideia de que as palavras pudessem ter tanto significado, que uma frase pudesse ser tão rica.
Ele sorriu:
– Aquela é uma boa frase, mas nem todas as palavras têm tanto significado.
Nos dias seguintes, Tate ensinou-a a decifrar o canto dos gansos e grous em redor, umas vezes sentados à sombra do carvalho, outras vezes ao sol, junto da margem.
– E se os gansos deixassem de cantar?
Para além de ajudar o pai e jogar basebol com os amigos, Tate visitava Kya várias vezes por semana e ela passara a estar sempre atenta ao ruído do seu barco, a subir o canal, quer estivesse a mondar o jardim, a alimentar as galinhas ou à procura de conchas.
Um dia, enquanto lia o que os chapins comiam ao almoço, na praia, Kya perguntou-lhe:
– Vives com a tua família em Barkley Cove?
– Sim, vivo com o meu pai, em Barkley.
Kya não lhe perguntou se o resto da família desaparecera. Provavelmente, a mãe também o abandonara. Uma parte de si desejava desesperadamente tocar-lhe na mão – um desejo um pouco estranho – mas os dedos recusavam-se a obedecer-lhe. Preferiu, por isso, memorizar a intrincada teia de veias azuladas na parte de dentro do seu pulso, em tudo semelhante ao emaranhado de veias desenhado nas asas das vespas.
À noite, reviu as lições, sentada à mesa da cozinha, à luz da lanterna de querosene, cujo brilho suave se escoava através das janelas da cabana e beijava os ramos mais baixos dos carvalhos. Tirando a luminescência suave dos pirilampos, aquela era a única luz visível na escuridão, num raio de muitos quilómetros.
Kya escrevia e repetia diligentemente cada palavra, vezes sem conta. Tate explicara-lhe que as palavras longas não passavam de palavras curtas associadas, por isso ela não tinha medo delas e aprendeu imediatamente a palavra «plistoceno» juntamente com «ficar». Nunca na vida nada lhe dera tanto gozo como aprender a ler, mas não conseguia entender por que razão Tate se dispusera a ensinar escumalha branca e pobre como ela, nem porque começara a lá ir deixar-lhe aquelas magníficas penas. Mas também não lhe perguntou, com receio que isso o deixasse pensativo e o afugentasse.
Agora, poderia finalmente identificar todos os seus preciosos espécimenes. Pegou em cada uma das penas, insetos, conchas e flores, foi ao livro da mãe ver como soletrar os seus nomes e escreveu-os cuidadosamente, junto das pinturas, nos respetivos sacos de papel castanho.
Que número vem a seguir a vinte e nove? – perguntou ela um dia a Tate.
Ele olhou para ela. Sabia mais sobre marés, gansos das neves, águias e estrelas do que a maioria das pessoas jamais viriam a saber, porém, não sabia contar até trinta. Ele não quis envergonhá-la, por isso não se mostrou surpreendido, porque ela era exímia a decifrar olhares.
– Trinta – disse ele, simplesmente. – Escuta, vou ensinar-te os números e praticaremos alguma aritmética básica. Não é difícil. Vou trazer-te alguns livros sobre isso.
Ela lia tudo o que apanhava. As instruções dos pacotes de aveia, as notas de Tate e até as histórias dos livros de contos de fadas que, durante anos, fingira ler. Certa noite, lembrou-se da velha Bíblia que lá tinha e tirou-a da prateleira. Depois, sentou-se à mesa e folheou cuidadosamente as suas finíssimas folhas, até à página com os nomes de família. O seu estava mesmo ao fundo da página. Ali estava o dia do seu aniversário: Menina Catherine Danielle Clark, nascida em 10 de outubro de 1945. Depois voltou ao início da lista e leu os verdadeiros nomes dos seus irmãos e irmãs:
Menino Jeremy Andrew Clark, nascido a 2 de janeiro de 1939.
– Jeremy – disse ela, em voz alta. – Jodie, nunca te encarei como menino Jeremy.
Menina Amanda Margaret Clark, nascida a 17 de maio de 1937. Kya tocou no nome com os dedos, repetiu-o várias vezes e continuou a ler:
Menino Napier Murphy Clark, nascido a 4 de abril de 1936.
– O teu nome era Napier, Murph – disse Kya baixinho.
A mais velha estava ao cimo da lista:
Menina Mary Hellen Clark, nascida a 19 de setembro de 1934.
Voltou a passar os dedos pelos nomes, e viu rostos. A imagem era indistinta, mas conseguia vê-los espremidos uns contra os outros, à volta da mesa, a comerem guisado, a passarem pão de milho uns aos outros e até a rirem. Sentia-se desanimada por ter esquecido os seus nomes, mas agora que os encontrara, jamais voltaria a esquecê-los.
Por cima da lista dos filhos, leu:
O menino Jackson Henry Clark casou com a menina Jullienne Maria Jacques, a 12 de junho de 1933. Só então ficou a saber os verdadeiros nomes dos pais.
Ficou ali durante alguns minutos com a Bíblia aberta em cima da mesa. Com família diante dos seus olhos.
O próprio tempo zela para que as crianças nunca conheçam os seus pais enquanto jovens. Kya jamais veria o atraente Jake pavonear-se pela cafetaria de refrigerantes e batidos de Ashville, onde vira Maria Jacques, pela primeira vez, no início dos anos trinta, uma beleza de Nova Orleães, de caracóis negros e lábios vermelhos que estava de visita à cidade. Jake pedira um batido e dissera-lhe que a família tinha uma plantação e que depois de terminar o liceu, estudaria advocacia e viveria numa mansão com colunas.
Mas quando a Depressão se agravou, o banco despojou os Clarks das suas terras e leiloou-as. O pai de Jake tirou-o da escola e mudaram-se para uma pequena cabana de pinho, ao fundo da rua, que fora habitada por escravos, num passado não muito distante. Jake foi trabalhar para os campos de tabaco, e enfardou folhas de tabaco, ombro a ombro com homens negros e mulheres negras com bebés às costas e xailes coloridos.
Dois anos mais tarde, Jake partiu de casa da família de madrugada, sem se despedir de ninguém, levando consigo toda a roupa cara e tesouros de família que pôde, incluindo o relógio de bolso de ouro do avô e o anel de diamantes da avó. Viajou à boleia até Nova Orleães e descobriu que Maria vivia com a família numa casa elegante, à beira-mar. Eram descendentes de um mercador francês e proprietários de uma fábrica de sapatos.
Jake empenhou as relíquias da família e começou a levá-la a restaurantes chiques, decorados com cortinas de veludo vermelhas, prometendo-lhe que lhe compraria a tal mansão com colunas. Certo dia, ajoelhou-se debaixo de uma árvore de magnólias, e ela aceitou o seu pedido de casamento. Casaram em 1933, numa pequena igreja, perante o silêncio da família dela.
Nessa altura já todo o dinheiro desaparecera, por isso Jake aceitou o emprego na fábrica de sapatos do sogro, convencido de que seria gerente. Mas o Sr. Jacques, que não era homem para se deixar enrolar facilmente, insistiu que Jake tinha de conhecer o negócio e começar por baixo como qualquer outro empregado. Por isso, Jake começou por cortar solas.
Maria e ele viviam num pequeno apartamento anexo à garagem, mobilado com algumas peças caras do dote dela, misturadas com mesas e cadeiras compradas em feiras. Jake inscreveu-se em aulas noturnas para terminar o liceu, mas faltava frequentemente às aulas, para ir jogar póquer, e voltava para junto da sua recente esposa, tarde e más horas, a tresandar a uísque. Três semanas depois, a professora expulsou-o das aulas.
Maria implorou-lhe que parasse de beber e mostrasse algum entusiasmo pelo trabalho, para que o seu pai o promovesse, mas os bebés começaram a nascer e ele nunca parou de beber. Entre 1934 e 1940 tiveram quatro filhos e Jake foi promovido apenas uma vez.
A guerra com a Alemanha foi o nivelador. Jake poderia finalmente esconder a sua vergonha e recuperar o seu orgulho, escondido atrás de um uniforme do mesmo tom que todos os outros. Mas certa noite, numa trincheira enlameada em França, alguém gritou que o sargento fora ferido e estava caído no chão a sangrar, a cerca de vinte metros. Os soldados, que não passavam de uns miúdos, e na verdade, deveriam estar sentados num campo de basebol, à espera de entrar em jogo – talvez um pouco nervosos com um lançamento mais rápido – e não numa trincheira, precipitaram-se todos para fora do seu esconderijo, para tentar salvar o homem ferido.
Todos menos um.
Jake, na altura demasiado assustado para se mexer, ficou encolhido a um canto. Mas nesse mesmo instante, a explosão luminosa de um morteiro, a escassos metros da trincheira, estilhaçou-lhe os ossos da perna esquerda. Quando os soldados voltaram a atirar-se para dentro da trincheira, arrastando consigo o sargento, deduziram que Jake tivesse sido atingido enquanto ajudava os outros a salvar o camarada e declaram-no um herói. Nunca ninguém soube o que realmente se passara, a não ser Jake.
Mandaram-no para casa com uma medalha e uma dispensa médica. Jake não estava disposto a trabalhar mais na fábrica de sapatos, por isso ficou apenas algumas noites em Nova Orleães. Vendeu toda a mobília boa e a prata que tinha em casa, perante o silêncio de Maria, meteu a família num comboio e mudaram-se para a Carolina do Norte. Depois, descobriu através de um velho amigo, que a mãe e o pai tinham morrido, o que lhe permitiu concretizar o seu plano.
Jake convencera Maria que se fossem viver para uma cabana que o pai construíra como retiro de pesca, na costa da Carolina do Norte, poderiam começar de novo. Não teriam de pagar renda e ele poderia terminar o liceu. Comprou um pequeno barco de pesca em Barkley Cove e percorreu quilómetros de canais do pantanal com a família e todos os seus pertences empilhados à sua volta – com algumas caixas de bons chapéus, por cima. Quando, finalmente, entraram na lagoa, e se depararam com a cabana decrépita, com redes de proteção ferrugentas, aninhada sob os carvalhos, Maria apertou Jodie, o filho mais novo, nos braços, tentando conter as lágrimas.
Mas Jake tranquilizou-a.
– Não te preocupes. Repararei isto em menos de um fósforo.
Jake nunca recuperou a cabana nem terminou o liceu. Pouco depois de chegarem, começou a beber e a jogar póquer ao Swamp Guinea, como que a tentar esquecer a trincheira num copo de shot.
Maria fez o que pôde para construir um lar. Comprou lençóis para os colchões assentes no chão, em vendas de beneficência, e uma banheira de latão; lavava a roupa debaixo da torneira do pátio e descobriu por si própria como plantar um jardim e criar galinhas.
Pouco depois de chegarem, foi com as crianças a pé até Barkley Cove, para inscrevê-las na escola. Mas Jake desdenhava do conceito de educação e raro era o dia em que não instigava Murph e Jodie a faltarem às aulas e trazerem esquilos ou peixe para o jantar.
Jake levou Maria a passear de barco ao luar uma única vez, o que resultou no nascimento do seu último filho, uma menina chamada Catherine Danielle, a quem mais tarde deram o diminutivo de Kya, porque quando lhe perguntaram como se chamava, pela primeira vez, foi assim que pronunciou o seu nome.
Uma vez por outra, quando estava sóbrio, Jake voltava a sonhar em terminar os estudos e proporcionar uma vida melhor a todos, mas a sombra da trincheira depressa voltava a assombrá-lo. Consciente de que em tempos fora um homem confiante, convencido, atraente e em boa forma, Jake já não suportava aquilo em que se transformara e ia afogando as mágoas em álcool. Misturar-se com os renegados quezilentos, grosseiros e bêbados do pantanal, foi a coisa mais fácil do mundo para Jake.
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