O Bazar dos Sonhos Ruins
Garotinho malvado
1
A prisão ficava a trinta quilômetros da cidadezinha mais próxima, em uma campina vazia onde o vento soprava quase o tempo todo. O prédio principal — e de muito mau gosto — era alto e feito de pedra, imposto à paisagem no começo do século XX. Crescendo dos dois lados havia blocos de concreto com celas, construídos um a um ao longo dos quarenta e cinco anos anteriores, a maioria com dinheiro federal que começou a entrar durante os anos de Nixon e nunca parou.
A certa distância da prisão ficava um prédio menor. Os prisioneiros chamavam esse anexo de Mansão Agulha. Em um dos lados havia um corredor externo com quarenta metros de extensão e seis de largura, envolto por uma pesada cerca de arame: o Caminho da Galinha. Todos os detentos da Mansão Agulha (atualmente, eram sete) tinham duas horas por dia no Caminho da Galinha. Alguns andavam. Alguns corriam. A maioria só ficava com as costas na cerca, olhando para o céu ou para a colina baixa e gramada que interrompia a paisagem quatrocentos metros a leste. Às vezes, havia o que olhar. Era mais comum que não houvesse nada. Quase sempre havia vento. Durante três meses do ano, o Caminho da Galinha era quente. No resto do tempo, era frio. No inverno, era gelado. Os detentos desejavam sair mesmo assim. Havia o céu para olhar, afinal. Pássaros. Às vezes, cervos se alimentando no cume de uma colina baixa, livres para irem aonde quisessem.
No centro da Mansão Agulha ficava uma sala azulejada com uma mesa em forma de Y e alguns instrumentos médicos rudimentares. Em uma parede havia uma janela com as cortinas fechadas. Quando abertas, revelavam uma área de observação do tamanho da sala de uma casa de subúrbio, com umas doze cadeiras de plástico desconfortáveis onde convidados podiam observar a mesa em forma de Y. Na parede via-se uma placa que dizia FIQUE EM SILÊNCIO E NÃO FAÇA GESTOS DURANTE O PROCEDIMENTO.
A Mansão Agulha tinha exatamente doze celas. Mais além, havia um posto de guarda. Depois do posto de guarda havia uma estação de monitoramento que era controlada vinte e quatro horas por dia. Depois da estação de monitoramento havia uma sala de visitação, onde a mesa do lado do detento era separada do lado do visitante por uma parede de acrílico grosso. Não havia telefone; os detentos conversavam com seus entes queridos ou com seus representantes legais por alguns buraquinhos, como havia no bocal de um telefone antigo.
Leonard Bradley se sentou de um lado da mesa e abriu a pasta. Colocou um bloco amarelo e uma caneta Uniball na mesa. E esperou. O ponteiro grande do relógio deu três voltas e começou uma quarta até que a porta que levava ao interior da Mansão Agulha se abriu com um estalo alto de trancas sendo abertas. Bradley já conhecia todos os guardas. Aquele era McGregor. Não era um mau sujeito. Estava segurando George Hallas pelo braço. As mãos de Hallas estavam soltas, mas uma corrente comprida se arrastava no chão entre seus tornozelos. Havia um cinto largo de couro na cintura do macacão laranja de presidiário, e quando ele se sentou do outro lado do vidro de acrílico, McGregor prendeu uma das correntes do cinto a um aro de metal no encosto da cadeira. Ele deu um puxão para testar se estava firme antes de cumprimentar Bradley com um gesto.
— Boa tarde, doutor.
— Boa tarde, McGregor.
Hallas nada disse.
— Você sabe o procedimento — disse McGregor. — O tempo que quiser hoje. Ou o tempo que aguentá-lo, pelo menos.
— Eu sei.
Normalmente, as consultas entre advogado e cliente tinham o limite de uma hora. Mas um mês antes da viagem programada para a sala com a mesa em forma de Y, o tempo de consulta era aumentado para noventa minutos, durante o qual o advogado e seu cada vez mais apavorado parceiro nessa valsa mortal forçada pelo Estado discutiam um número cada vez menor de opções de merda. Durante a última semana, não havia limite de tempo para as conversas. Isso valia para parentes próximos e para advogados, mas a esposa de Hallas se divorciou dele semanas depois da condenação, e não tinham filhos. Ele estava sozinho no mundo exceto por Leonard Bradley, mas não parecia dar bola para nenhuma das apelações (e consequentes adiamentos) que Bradley conseguiu.
Até hoje.
“Ele vai falar com você”, dissera McGregor após uma consulta breve de dez minutos, no mês anterior, durante a qual as falas de Hallas foram praticamente só não e não. “Quando chegar a hora, ele vai falar bastante. Eles ficam com medo, sabe? Esquecem que queriam entrar na sala da injeção com a cabeça erguida e os ombros retos. Começam a entender que isto não é um filme, que vão morrer de verdade, e aí querem tentar todas as apelações que existem.”
Mas Hallas não parecia estar com medo. Ele estava o mesmo de sempre: um homem pequeno de ombros curvados, pele amarelada, que estava ficando calvo e tinha olhos que pareciam pertencer a uma pintura. Ele tinha a aparência de um contador — coisa que realmente foi na vida anterior — que perdera todo o interesse nos números que antes pareciam tão importantes.
— Divirtam-se com a conversa, rapazes — disse McGregor, e foi até a cadeira no canto. Ele se sentou, ligou o iPod e ocupou os ouvidos com a música. Mas os olhos nunca se afastaram deles. Os buraquinhos por onde conversavam eram pequenos demais para enfiar um lápis, mas uma agulha não estava fora de questão.
— O que posso fazer por você, George?
Por vários minutos, Hallas não respondeu. Ele encarou as mãos, que eram pequenas e pareciam frágeis… Não pareciam as mãos de um assassino, alguém poderia ter dito. E então, levantou o rosto.
— O senhor é um cara bem legal, sr. Bradley.
Bradley ficou surpreso e não soube responder.
Hallas assentiu, como se o advogado tivesse tentado negar.
— É, sim. O senhor continuou mesmo depois que deixei claro que queria que parasse e deixasse o processo seguir seu curso. Poucos advogados indicados pelo tribunal fariam isso. Eles só diriam Tá, você quem sabe e seguiriam para o próximo otário que o juiz passasse para eles. O senhor não fez isso. Me disse o que queria fazer, e quando mandei não fazer, foi e fez assim mesmo. Se não fosse pelo senhor, eu já estaria enterrado há um ano.
— Querer nem sempre é poder, George.
Hallas deu um sorriso breve.
— Ninguém sabe disso melhor que eu. Mas não foi tão ruim; posso admitir isso agora. Principalmente por causa do Caminho da Galinha. Eu gosto de ir lá fora. Gosto do vento no rosto, mesmo quando faz frio. Gosto do cheiro da grama da campina e de ver a lua diurna no céu quando está cheia. E os cervos. Às vezes eles ficam pulando lá na colina, correndo uns atrás dos outros. Eu gosto disso. Me faz gargalhar às vezes.
— A vida pode ser boa. Às vezes vale a pena lutar por ela.
— Algumas vidas, talvez. Não a minha. Mas admiro a forma como o senhor lutou por ela mesmo assim. Aprecio sua dedicação. Então, vou contar para o senhor o que nunca disse no tribunal. E por que me recusei a fazer qualquer uma das apelações habituais… apesar de não ter conseguido impedir o senhor de fazê-las em meu nome.
— As apelações feitas sem a participação do apelante não têm tanto peso nos tribunais deste estado. Nem nas instâncias mais altas.
— O senhor também foi muito gentil nas suas visitas, e também aprecio isso. Poucas pessoas seriam gentis com um assassino de crianças condenado, mas o senhor foi comigo.
Mais uma vez, Bradley não conseguiu pensar em uma resposta. Hallas já tinha dito mais nos últimos dez minutos do que em todas as visitas nos últimos trinta e quatro meses.
— Não tenho como pagar nada, mas posso contar por que matei aquela criança. O senhor não vai acreditar em mim, mas vou contar mesmo assim. Se estiver disposto a ouvir.
Hallas espiou pelos buracos no acrílico arranhado e sorriu.
— Está disposto, não está? Porque está encucado com alguma coisa. A acusação não questionou nada, mas o senhor, sim.
— Bem… algumas perguntas surgiram, é claro.
— Fui eu mesmo. Eu tinha um revólver .45 e esvaziei o pente naquele menino. Havia muitas testemunhas, e o senhor deve saber que o processo de apelação só adiaria o inevitável por mais três anos, ou quatro, ou seis, mesmo que eu tivesse participado integralmente. Qualquer dúvida que o senhor tivesse na época desapareceu perto de um caso de assassinato premeditado tão descarado. Não é verdade?
— Nós poderíamos ter alegado insanidade temporária. — Bradley se inclina para a frente. — Ainda podemos fazer isso. Não é tarde demais, nem mesmo agora. Ainda não.
— A defesa alegando insanidade raramente funciona depois do fato consumado, sr. Bradley.
Ele não me chama de Leonard, pensou Bradley. Nem mesmo depois de todo esse tempo. Vai morrer me chamando de Bradley.
— Raramente não é o mesmo que nunca, George.
— Não, mas não estou maluco agora e não estava maluco na época. Tem certeza de que quer ouvir o testemunho que eu não quis dar no tribunal? Se não quiser, tudo bem, mas é tudo que tenho para lhe oferecer.
— É claro que quero ouvir — respondeu Bradley.
Ele pegou a caneta, mas acabou não tomando nota nenhuma. Só ouviu, hipnotizado, enquanto George Hallas falava com seu sotaque suave do centro-sul.
2
Minha mãe, que foi saudável durante toda a sua vida curta, morreu de embolia pulmonar seis horas depois que eu nasci. Isso foi em 1969. Devia ser um defeito genético, porque ela só tinha vinte e dois anos. Meu pai era oito anos mais velho. Ele era um bom homem e um bom pai. Era engenheiro de mineração e trabalhou quase sempre na região sudeste do país, até eu fazer oito anos.
Uma empregada viajava com a gente. O nome dela era Nona McCarthy, e eu a chamava de Mama Nonie. Ela era negra. Acho que ele dormia com ela, mas, quando eu ia para cama dela, o que fazia em muitas manhãs, Nonie estava sempre sozinha. Não importava para mim, na verdade. Eu não sabia qual era o problema de alguém ser negro. Ela era boa, fazia meu almoço e lia as histórias de ninar de sempre quando meu pai não estava em casa, e era isso que importava para mim. Não era uma organização familiar comum, eu sabia disso, mas estava feliz.
Em 1977, nós nos mudamos para o leste, para Talbot, no Alabama, não muito longe de Birmingham. É uma cidade conhecida pela base militar, Forte John Huie, mas também área de mineração de carvão. Meu pai foi contratado para reabrir as minas Good Luck, a Um, a Dois e a Três, e adequá-las às especificações ambientais, o que significava abrir novos buracos no chão e elaborar um sistema de escoamento que impedisse que os detritos poluíssem os riachos locais.
Nós morávamos em um bairro agradável de subúrbio, em uma casa que a empresa Good Luck ofereceu. Mama Nonie gostou de lá porque meu pai transformou a garagem em um apartamento de dois aposentos para ela. Acho que sufocava um pouco a fofoca. Eu o ajudei com a reforma nos fins de semana, entregando tábuas e ferramentas. Foi um bom momento para nós. Eu pude estudar na mesma escola durante dois anos, tempo suficiente para fazer amigos e ter um pouco de estabilidade.
Uma das minhas amigas era a vizinha que morava na casa ao lado. Se fosse um programa de TV ou uma revista, nós teríamos acabado dando nosso primeiro beijo na casa da árvore, nos apaixonando e indo ao baile juntos quando finalmente passássemos para o ensino médio. Mas isso nunca ia acontecer comigo e com Marlee Jacobs.
Papai nunca me deu a ideia de que ficaríamos em Talbot de forma permanente. Ele disse que não havia nada mais cruel do que encorajar falsas esperanças em uma criança. Ah, eu talvez estudasse na Mary Day Grammar School até o quinto ano, com sorte chegaria ao sexto, mas o contrato com a Good Luck um dia acabaria e nós teríamos que nos mudar. Talvez voltássemos para o Texas ou fôssemos para o Novo México; talvez para a Virgínia Ocidental ou o Kentucky. Eu aceitava isso, e Mama Nonie também. Meu pai era o chefe, era um bom chefe, e nos amava. É só minha opinião, mas acho que não dá para ser muito melhor do que isso.
O segundo motivo tinha a ver com a própria Marlee. Ela era… bem, atualmente as pessoas a chamariam de “mentalmente incapaz”, mas, naquela época, as pessoas do nosso bairro só diziam que ela tinha miolo mole. Você pode achar isso uma maldade, sr. Bradley, mas, quando olho para trás, acho que combina perfeitamente. É poético, até. Ela via o mundo assim, todo mole e fora de foco. Às vezes, até com frequência, isso pode ser uma vantagem. Repito: isso é só a minha opinião.
Nós dois estávamos no terceiro ano do ensino fundamental quando a conheci, mas Marlee já tinha onze anos. Nós passamos para o quarto ano no ano seguinte, mas no caso dela foi só para poder seguir em frente no sistema. Era assim que as coisas aconteciam em lugares como Talbot, naquela época. E ela não era a idiota da cidade. Sabia ler um pouco e fazer contas de somar simples, mas subtração era impossível para ela. Tentei explicar de todas as formas que sabia, mas ela nunca ia entender.
Nós nunca nos beijamos em uma casa da árvore, nunca nos beijamos em lugar algum, mas sempre ficávamos de mãos dadas quando andávamos até a escola de manhã e voltávamos de tarde. Devia ser uma cena engraçada, porque eu era um pirralhinho e ela era uma garota grande, pelo menos dez centímetros mais alta que eu e já com os seios começando a crescer. Era ela que queria dar as mãos, não eu, mas eu não me importava. Também não me importava de ela ter miolo mole. Com o tempo, acho que me importaria, mas eu só tinha nove anos quando ela morreu, uma idade em que as crianças aceitam praticamente tudo que acontece com elas. Acho isso uma bênção. Se todo mundo fosse miolo mole, você acha que ainda teríamos guerras? Duvido.
Se nós morássemos setecentos metros mais longe, Marlee e eu pegaríamos o ônibus. Mas, como estávamos perto de Mary Day, seis ou oito quarteirões de distância, nós íamos a pé. Mama Nonie me entregava todo dia um saco de papel pardo com o almoço dentro, ajeitava meu cabelo e dizia “Seja um bom garoto, George”, depois me levava até a porta. Marlee ficava esperando em frente à porta da casa dela, usando um vestido ou um macacão, com o cabelo preso em marias-chiquinhas com fitas e a lancheira na mão. Ainda me lembro daquela lancheira. Tinha uma foto de Steve Austin, o Homem de Seis Milhões de Dólares. A mãe ficava de pé na porta e dizia “Oi, George”, e eu dizia “Oi, sra. Jacobs”, e ela dizia “Se comportem, crianças”, e Marlee dizia “Vamos nos comportar, mãe”, depois Marlee segurava minha mão e nós seguíamos pela calçada. Os dois primeiros quarteirões eram só nossos, mas logo outras crianças começavam a aparecer, vindas de Rudolph Acres. Era lá que muitas das famílias do exército moravam, porque era mais barato, e Forte Huie ficava a apenas oito quilômetros ao norte pela Rodovia 78.
Devíamos ser uma visão e tanto: o bobão carregando um saco de papel com o almoço de mãos dadas com a altona com a lancheira do Steve Austin batendo no joelho ralado. Mas não me lembro de ninguém ter debochado ou implicado. Devem ter tirado sarro de tempos em tempos, crianças são sempre crianças, mas provavelmente foi algo bobo e sem importância. Quando a calçada ficava apinhada de gente, alguns garotos diziam coisas como “Oi, George, quer brincar de pique depois da aula?” e as garotas diziam “Oi, Marlee, essas fitas no seu cabelo são lindas”. Não me lembro de ninguém nos tratando mal. Pelo menos até o garotinho malvado.
Um dia depois da aula, Marlee demorou muito para sair do prédio da escola. Deve ter sido pouco depois do meu nono aniversário, porque eu estava com meu paddleball. Ganhei de presente de Mama Nonie e não durou muito — bati com força demais e o elástico arrebentou —, mas eu estava com ele naquele dia, e estava batendo com a parte da frente e a de trás enquanto esperava. Ninguém me disse que eu tinha que esperá-la, eu só esperava.
Quando ela finalmente saiu, estava chorando. Com o rosto todo vermelho e catarro escorrendo do nariz. Eu perguntei qual era o problema, e ela disse que não conseguia encontrar a lancheira. Marlee disse que almoçou como sempre, e colocou a lancheira de volta na prateleira na sala dos casacos ao lado da lancheira rosa da Barbie de Cathy Morse, como fazia todo dia, mas, quando o sinal tocou, havia sumido. “Alguém roubou”, disse ela.
“Não, não, alguém deve ter mudado de lugar e vai estar lá amanhã”, respondi. “Pare de criar caso e fique quieta. Seu rosto está todo molhado.”
Mama Nonie não me deixava sair de casa sem um lenço, mas eu limpava o nariz na manga como todos os outros garotos, porque usar um lenço parecia uma coisa meio afrescalhada. Então ainda estava limpo e dobrado quando o tirei do bolso de trás e limpei o catarro do rosto de Marlee. Ela parou de chorar e abriu um sorriso, dizendo que fazia cócegas. Em seguida, segurou minha mão, e nós andamos para casa, como sempre, ela tagarelando sem parar. Eu não me importei, porque pelo menos o caso da lancheira tinha sido esquecido.
Em pouco tempo, todas as crianças tinham sumido apesar de ainda conseguirmos ouvi-las rindo e fazendo graça enquanto seguiam para Rudolph Acres. Marlee estava falante como sempre, dizendo qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. Eu deixei a falação dela passar por mim sem absorver uma palavra, só dizendo “É” e “Aham” e “Legal”, pensando que queria botar logo a calça de veludo cotelê quando chegasse em casa, e se Mama Nonie não me mandasse fazer alguma tarefa, eu pegaria minha luva de beisebol, correria para o parque da Oak Street e entraria no jogo que acontecia todos os dias, até as mães começarem a gritar que era hora do jantar.
Foi nessa hora que ouvi alguém gritando conosco do outro lado da rua School. Só que não era bem uma voz, mas mais um relincho de burro.
GEORGE E MARLEE EM CIMA DA ÁRVORE! B-E-I-J-A-N-D-O!
Nós paramos. Tinha um garoto ali, ao lado de um arbusto de celtis. Eu nunca o tinha visto, nem na Mary Day nem em qualquer outro lugar. Ele não chegava a um metro e quarenta e era corpulento. Estava com um short cinza que ia até os joelhos e um suéter verde com listras laranja. Ficava meio volumoso em cima, com peitos de menino gordo, e a barriga era protuberante. Ele usava um boné com uma hélice idiota no alto.
O rosto era gorducho e firme ao mesmo tempo. O cabelo era laranja como as listras do suéter, aquele tom do qual ninguém gosta, e estava todo desgrenhado nas laterais, acima das orelhas de abano. O nariz era uma bolota embaixo dos olhos mais intensos e verdes que já vi. Ele tinha a boca carnuda e bem definida, com lábios tão vermelhos que parecia que tinha passado o batom da mãe. Já vi muitos ruivos com lábios vermelhos depois disso, mas nenhum tão vermelho quanto os daquele garotinho malvado.
Ficamos olhando para ele. Marlee parou com a falação. Ela usava óculos estilo gatinho com armação rosa, e por trás das lentes seus olhos estavam arregalados e esbugalhados.
O garoto, e ele não podia ter mais do que seis ou sete anos, projetou aqueles lábios vermelhos e fez barulhos de beijo. Em seguida, colocou as mãos na bunda e começou a balançar os quadris para a frente e para trás.
GEORGE E MARLEE EM CIMA DA ÁRVORE! F-O-D-E-N-D-O!
Relinchando como um burro. Nós ficamos olhando, impressionados.
“É melhor usar camisinha quando trepar com ela”, gritou ele, projetando os lábios vermelhos. “A não ser que queira ter um bando de retardadinhos, que nem ela.”
“Cala a boca”, eu falei.
“Senão o quê?”, disse ele.
“Senão eu calo pra você”, respondi.
E estava falando sério. Meu pai ficaria furioso se soubesse que seu filho estava ameaçando bater em um garoto mais novo e menor que eu, mas não era certo ele ficar dizendo aquelas coisas. Ele parecia uma criancinha, mas o que estava dizendo não era coisa de criancinha.
“Chupa meu pau, seu merda”, disse ele, e entrou atrás da moita.
Pensei em ir atrás dele, mas Marlee estava segurando minha mão com tanta força que quase me machucou.
“Não gostei daquele menino”, disse ela.
Eu falei que também não gostei dele, mas que era melhor deixar pra lá. “Vamos para casa”, eu falei.
Mas antes de conseguirmos nos afastar, o garoto saiu de detrás da moita com a lancheira do Steve Austin de Marlee nas mãos. Ele a exibiu.
“Perdeu alguma coisa, retardada?”, perguntou ele, rindo. Rir enrugava a cara dele e fazia com que parecesse a de um porco. Ele cheirou a lancheira e disse “Acho que deve ser sua, porque tem cheiro de xoxota. De xoxota retardada”.
“Me dá isso, é meu!”, gritou Marlee. Ela soltou minha mão. Eu tentei segurá-la, mas a mão escorregou por causa do suor na palma.
“Vem buscar”, disse ele, e a esticou na direção dela.
Antes de eu contar o que aconteceu depois, tenho que falar um pouco sobre a sra. Peckham. Ela era a professora do primeiro ano na Mary Day. Eu nunca tive aula com ela porque fiz o primeiro ano no Novo México, mas a maioria das crianças de Talbot teve, inclusive Marlee, e todos a adoravam. Eu a adorava, e só a conhecia do parquinho, quando era a vez dela de ser a monitora. Se tinha jogo de beisebol de meninos contra meninas, ela sempre era a arremessadora do time das meninas. Às vezes, arremessava a bola pelas costas, e todo mundo ria. Ela era o tipo de professora de quem você lembra quarenta anos depois, porque sabia ser gentil e alegre, mas também conseguia fazer até os garotos mais agitados gostarem dela.
Ela tinha um velho Buick Roadmaster azul-claro, e nós a chamávamos de Tartaruga Peckham, porque ela nunca dirigia a mais de cinquenta quilômetros por hora, sempre sentada empertigada atrás do volante com os olhos estreitados. Claro que nós só a víamos dirigir no bairro, que era zona escolar, mas aposto que dirigia do mesmo jeito quando estava na estrada. Até mesmo na interestadual. Ela era cuidadosa e cautelosa. Nunca machucaria uma criança. Pelo menos, não de propósito.
Marlee começou a atravessar a rua para pegar a lancheira. O garotinho malvado riu e a jogou na direção dela. Bateu no meio da rua e se abriu. A garrafa térmica caiu e saiu rolando. Vi o Roadmaster azul-claro chegando e gritei para Marlee tomar cuidado, mas não fiquei preocupado porque era só a Tartaruga Peckham, e ela ainda estava a um quarteirão de distância, seguindo devagar como sempre.
“Você soltou a mão dela, então agora é culpa sua”, afirmou o garoto. Ele estava sorrindo para mim, com os lábios repuxados para que eu pudesse ver todos os dentinhos. Ele disse: “Você não consegue segurar nada, seu chupador de rola”. Então mostrou a língua e, em seguida, voltou para trás da moita.
A sra. Peckham disse que o acelerador emperrou. Não sei se a polícia acreditou nela ou não. Só sei que ela nunca mais deu aula no primeiro ano da Mary Day.
Marlee se inclinou, pegou a garrafa térmica e a balançou. Deu para ouvir o barulho que fez. Ela disse: “Está toda quebrada por dentro”, e começou a chorar. Ela se inclinou de novo para pegar a lancheira, e foi nessa hora que o acelerador da sra. Peckham deve ter emperrado, porque o motor rugiu e o Buick saiu pulando pela rua. Como um lobo dando o bote em um coelho. Marlee se levantou com a lancheira agarrada contra o peito em uma das mãos e a garrafa térmica quebrada na outra, e viu o carro chegando, mas não se mexeu.
Talvez eu pudesse tê-la empurrado para longe e a salvado. Ou talvez, se eu tivesse corrido para rua, também acabasse sendo atropelado. Não sei, porque fiquei tão paralisado quanto ela. Só fiquei ali parado. Nem me mexi quando o carro a acertou. Nem virei a cabeça. Eu só a segui com os olhos enquanto ela voava e caía, batendo a cabeça miolo mole no asfalto. Em pouco tempo, ouvi gritos. Era a sra. Peckham. Ela saiu do carro e caiu, depois se levantou com os joelhos sangrando e correu até onde Marlee estava, estirada na rua, com sangue saindo da cabeça. Então também corri. No meio do caminho, virei a cabeça. Eu podia enxergar a parte de trás do arbusto de celtis. Não havia ninguém lá.
3
Hallas parou e afundou o rosto nas mãos. Depois de um tempo, ele as baixou.
— Você está bem, George? — perguntou Bradley.
— Só com sede. Não estou acostumado a falar tanto. Não conversamos muito no Corredor da Morte.
Eu balancei a mão para McGregor. Ele tirou os fones de ouvido e se levantou.
— Terminou, George?
Hallas balançou a cabeça.
— Não cheguei nem na metade.
Bradley disse:
— Meu cliente gostaria de um copo d’água, sr. McGregor. É possível?
McGregor foi até o interfone ao lado da porta que levava à sala de monitoramento e trocou algumas palavras brevemente. Bradley aproveitou a oportunidade para perguntar a Hallas qual era o tamanho da Mary Day Grammar School.
Ele deu de ombros.
— Cidade pequena, escola pequena. Não devia ter mais que cento e cinquenta crianças, do primeiro ao sexto ano.
A porta da sala de monitoramento se abriu. A mão de alguém apareceu, segurando um copo descartável. McGregor pegou o copo e ofereceu a Hallas. Ele bebeu com avidez e agradeceu.
— De nada — respondeu McGregor. Ele voltou para a cadeira, recolocou os fones e se perdeu mais uma vez no que estava ouvindo.
— E esse garoto, esse garotinho malvado, ele era ruivo? Ruivo mesmo?
— O cabelo parecia um letreiro de néon.
— Então, se ele estudasse na sua escola, você o teria reconhecido.
— Com certeza.
— Mas você não reconheceu, e ele não estudava lá.
— Não. Eu nunca o vi lá antes nem depois.
— Então, como ele pegou a lancheira da garota Jacobs?
— Não sei. Mas tenho uma pergunta melhor.
— Que pergunta seria, George?
— Como ele escapou daquela moita? Não tinha nada além de grama dos dois lados. Ele desapareceu.
— George…
— O quê?
— Você tem certeza de que havia um garoto ali?
— A lancheira dela, sr. Bradley. Estava na rua.
Não duvido disso, pensou Bradley, batendo com a caneta no bloco amarelo. Era onde estaria se estivesse com ela o tempo todo.
Ou (eis um pensamento horrível, mas pensamentos horríveis eram esperados quando se estava ouvindo a história maluca de um assassino de crianças) talvez você estivesse com a lancheira dela, George. Talvez você tenha tirado dela e jogado na rua para provocá-la.
Bradley ergueu o olhar do bloco e viu pela expressão de seu cliente que seus pensamentos podiam muito bem estar passando em legenda pela testa. Sentiu seu rosto ficar quente.
— Quer ouvir o resto da história? Ou já chegou a uma conclusão?
— De jeito nenhum — disse Bradley. — Continue. Por favor.
Hallas bebeu o restante da água e retomou a história.
4
Durante uns cinco anos eu sonhei com aquele garotinho malvado com o cabelo laranja e o boné com hélices, mas os sonhos acabaram passando. Por fim, cheguei a um ponto em que acreditava no que você deve acreditar, sr. Bradley: que foi apenas um acidente, que o acelerador da sra. Peckham emperrou mesmo, como acontece às vezes, e se havia um garoto lá pegando no pé dela… bem, garotos fazem isso às vezes, não fazem?
O contrato do meu pai com a mineradora Good Luck chegou ao fim, e nós nos mudamos para o leste do Kentucky, onde ele foi trabalhar fazendo a mesma coisa que fazia no Alabama, só que em escala maior. Havia muitas minas naquela parte do mundo… Nós moramos na cidade de Ironville por tempo suficiente para eu terminar o ensino médio. No meu primeiro ano lá, só por diversão, entrei para o Clube de Teatro. Acho que as pessoas ririam se soubessem. Um sujeitinho pequeno como eu, que se sustentava fazendo imposto de renda para pequenos negócios e viúvas, atuando em peças como Entre quatro paredes? Parece coisa de Walter Mitty! Mas eu me inscrevi, e eu era bom. Todo mundo dizia. Achei até que podia perseguir a carreira de ator. Eu sabia que nunca seria um protagonista, mas talvez alguém tivesse que fazer o papel do assessor econômico do presidente, ou o braço direito do vilão, ou até o mecânico que morre na primeira cena de um filme. Eu sabia que podia fazer papéis assim, e achei que as pessoas acabariam me contratando. Falei para o meu pai que queria estudar teatro quando fosse para a faculdade. Ele disse tudo bem, ótimo, vá em frente, mas sempre tenha um plano B para garantir seu futuro. Eu estudei em Pitt, onde me formei em arte dramática e também tirei diploma de administração de empresas.
A primeira peça para a qual fui escalado foi She Stoops to Conquer, e foi lá que conheci Vicky Abington. Eu era Tony Lumpkin, e ela, Constance Neville. Ela era linda, com cabelo louro volumoso e cacheado, muito magra e nervosinha. Bonita demais para mim, eu pensei, mas acabei conseguindo reunir coragem para convidá-la para tomar um café. Foi assim que começou. Ficávamos horas no Nordy’s, a lanchonete que vendia hambúrgueres no centro estudantil da Pitt, e ela despejava todos os problemas — que tinham a ver com a mãe controladora — e me contava sobre suas ambições — que tinham a ver com o teatro, principalmente teatro sério em Nova York. Vinte e cinco anos atrás, esse tipo de coisa ainda existia.
Eu sabia que ela pegava comprimidos no Centro Estudantil Nordenberg, talvez para ansiedade, talvez para depressão, talvez para as duas coisas. Mas pensei: isso é só porque ela é ambiciosa e criativa, é provável que a maioria dos grandes atores e atrizes faça a mesma coisa. É bem provável que Meryl Streep tome comprimidos iguais, ou tomasse antes de ficar famosa em O franco atirador. E, quer saber? Vicky tinha um ótimo senso de humor, que é uma coisa que muitas mulheres bonitas parecem não ter, principalmente se sofrem de problemas nervosos. Ela era capaz de rir de si mesma, o que fazia com frequência. Dizia que conseguir fazer isso era a única coisa que a mantinha sã.
Fomos escalados como Nick e Honey em Quem tem medo de Virginia Woolf ? e recebemos críticas melhores do que os atores que fizeram os papéis de George e Martha. Depois disso, não éramos só colegas que iam tomar café, nós viramos um casal. Às vezes, ficávamos de amassos em um canto escuro do centro estudantil, apesar de isso normalmente terminar com ela em lágrimas dizendo que não era boa o bastante e que seria um fracasso no teatro, como sua mãe repetia sem parar. Uma noite, depois da festa do elenco de Armadilha, no terceiro ano da faculdade, nós transamos. Foi a única vez. Ela disse que amou, que foi maravilhoso, mas acho que não foi. Não para ela, pelo menos, já que ela nunca mais quis fazer.
No verão do ano 2000, nós ficamos no campus porque ia ter uma produção de verão de O vendedor de ilusões, no Frick Park. Era uma oportunidade e tanto, porque a peça seria dirigida por Mandy Patinkin. Vicky e eu fizemos testes. Eu não fiquei nervoso porque não esperava conseguir nada, mas aquela peça se tornou a coisa mais importante da vida de Vicky. Ela a chamou de primeiro passo para o estrelato, falando do jeito como as pessoas falam quando estão falando sério, mas fingem que é só brincadeira. Fomos chamados em grupos de seis, cada um segurando um cartão dizendo em que papel estávamos mais interessados. Vicky estava tremendo como vara verde enquanto esperávamos em frente ao auditório onde aconteciam os ensaios. Passei o braço ao redor dela e ela se acalmou, mas só um pouco. Vicky estava tão branca que a maquiagem parecia uma máscara.
Eu entrei e entreguei meu cartão com Prefeito Shinn escrito, porque é um papel pequeno na peça, mas acabei pegando o papel principal: Harold Hill, o golpista encantador. Vicky queria o papel de Marian Paroo, a bibliotecária que dá aulas de piano. É a protagonista. Ela foi bem, eu achei; não excelente, não o melhor de que era capaz, mas bem. E então, veio a parte de cantar.
Era o grande número de Marian. Se você não conhece, é uma música muito doce e simples chamada “Godnight, My Someone”. Ela cantou para mim a capela umas seis vezes, e foi perfeita. Doce, triste e esperançosa. Mas, naquele dia, no auditório, Vicky ferrou tudo. Foi péssima. Ela não conseguia alcançar a nota certa e teve que começar de novo não uma, mas duas vezes. Eu conseguia ver Patinkin ficando impaciente, porque tinha mais umas seis garotas esperando para ler e cantar. A instrumentista que acompanhava a música estava revirando os olhos. Senti vontade de dar um soco na cara de cavalo idiota dela.
Quando Vicky terminou, estava tremendo demais. O sr. Patinkin agradeceu, e ela agradeceu a ele, muito educada, antes de sair correndo. Eu a alcancei antes que saísse do prédio e disse que ela foi ótima. Vicky sorriu, me agradeceu e disse que nós dois sabíamos a verdade. Eu falei que, se o sr. Patinkin fosse bom como todo mundo dizia que era, ele veria além do nervosismo e enxergaria a ótima atriz que ela era. Ela me abraçou e disse que eu era seu melhor amigo. “Além do mais”, disse Vicky, “vai haver outras peças. Na próxima vez vou tomar um Valium antes do teste. Eu só estava com medo de que fosse alterar minha voz, porque ouvi dizer que alguns comprimidos fazem isso.” Então, ela riu e disse: “Afinal, não dá para ser muito pior do que foi hoje, né?”. Eu disse que pagaria um sorvete no Nordy’s, e ela disse que aquilo era uma boa ideia, e nós fomos embora.
Estávamos andando pela calçada de mãos dadas, o que me fez lembrar todas as vezes que fui e voltei da Mary Day Grammar de mãos dadas com Marlee Jacobs. Não posso afirmar se esses pensamentos o invocaram ou não. Eu não sei. Só sei que, algumas noites, fico acordado na cela, pensando.
Acho que ela estava se sentindo um pouco melhor, porque, enquanto caminhávamos, ela começou a falar que eu seria um ótimo professor Hill, mas alguém gritou conosco do outro lado da rua. Só que não foi um grito. Foi um relincho de burro.
GEORGE E VICKY EM CIMA DA ÁRVORE! F-O-D-E-N-D-O!
Era ele. O garotinho malvado. Com o mesmo short, o mesmo suéter, o mesmo cabelo laranja saindo do boné com a hélice de plástico no alto. Mais de dez anos haviam se passado, e ele não tinha envelhecido nem um dia. Foi como voltar no tempo, só que agora estava com Vicky Abington, não Marlee Jacobs, e estávamos na rua Reynolds em Pittsburgh em vez de na rua School em Talbot, no Alabama.
“Que merda é essa?”, disse Vicky. “Você conhece aquele garoto, George?”
Bem, o que eu podia responder? Eu não falei nada. Fiquei tão surpreso que não consegui nem abrir a boca.
“Você atua mal pra caralho e é uma cantora ainda pior!”, gritou ele. “CORVOS cantam melhor que você! E é tão FEIAAA! VICKY FEIOSA, é isso que você é!”
Ela colocou as mãos sobre a boca, e eu me lembro de seus olhos ficando grandes e se enchendo de lágrimas de novo.
“Por que não chupa o pau dele?”, gritou o menino. “Só assim uma garota escrota, feia e sem talento como você vai conseguir um papel!”
Eu parti para cima dele, mas nada daquilo parecia real. Era como se estivesse sonhando. Era o fim da tarde, e a rua Reynolds estava cheia de carros, mas isso não passou pela minha cabeça. Mas passou pela de Vicky. Ela segurou meu braço e me puxou. Acho que devo minha vida a ela, porque um ônibus enorme passou poucos segundos depois, apertando a buzina.
“Não”, disse ela. “Ele não vale o esforço, seja lá quem for.”
Um caminhão surgiu logo atrás do ônibus, e depois que os dois passaram, nós vimos o garoto correndo do outro lado da rua com a bunda grande balançando. Ele chegou à esquina, mas, antes de virar, baixou a parte de trás do short, se inclinou e mostrou a bunda.
Vicky se sentou em um banco, e eu me sentei ao lado dela. Ela me perguntou de novo quem ele era, e eu disse que não sabia.
“Então, como ele sabia nossos nomes?”, perguntou ela.
“Não sei”, repeti.
“Bem, ele estava certo sobre uma coisa”, disse ela. “Se eu quiser um papel em O vendedor de ilusões, deveria mesmo chupar o pau de Mandy Patinkin.” Depois, ela riu, e dessa vez foi uma gargalhada de verdade, do tipo que vem lá de dentro. Ela jogou a cabeça para trás e deixou a gargalhada fluir. “Você viu aquela bundinha feia?”, perguntou ela. “Pareciam dois bolinhos prontos para irem ao forno!”
Isso me fez rir. Nós nos abraçamos, juntamos as bochechas e morremos de rir. Achei que estava tudo bem, mas a verdade — e a gente nunca vê essas coisas na hora, não é? — é que estávamos histéricos. Eu porque era o mesmo garoto de tantos anos antes, Vicky porque acreditava no que ele disse: que ela não era boa o bastante e, mesmo se fosse, nunca conseguiria superar o nervosismo para demonstrar.
Eu a levei de volta até Fudgy Acres, um prédio grande e velho que só alugava quartos para jovens moças, e depois Vicky me abraçou e me disse de novo que eu seria um ótimo Harold Hill. Alguma coisa na voz dela me preocupou, e eu perguntei se ela estava bem. Ela respondeu “Claro que estou, bobinho”, e correu até a entrada. Foi a última vez que a vi com vida.
Depois do enterro, fui tomar um café com Carla Winston, porque ela era a única garota de Fudgy Acres de quem Vicky ficou amiga. Acabei precisando passar o café dela da xícara para um copo, pois suas mãos tremiam tanto que fiquei com medo de ela se queimar. Carla não estava só muito triste; ela se culpava pelo que aconteceu. Da mesma forma que tenho certeza de que a sra. Peckham se culpava pelo que aconteceu com Marlee.
Ela encontrou Vicky na sala do andar de baixo naquela tarde, olhando para a TV. Só que a TV estava desligada. Ela disse que Vicky parecia distante e desconectada. Carla já tinha visto Vicky assim quando perdeu a contagem dos comprimidos e tomou um a mais ou os tomou na ordem errada. Ela perguntou se Vicky queria ir ao Centro de Bem-Estar para uma consulta, mas Vicky disse que não, que estava bem, tinha sido um dia difícil, mas logo, logo estaria melhor.
“Um garotinho malvado apareceu”, Vicky contou a Carla. “Eu me dei mal no teste, e aí esse garoto começou a me sacanear.”
“Que saco”, disse Carla.
“George conhecia o garoto”, disse Vicky. “Ele me disse que não conhecia, mas pude perceber que sim. Sabe o que eu acho?”
Carla respondeu que não. Àquela altura, ela já tinha certeza de que Vicky tinha tomado os remédios errados, fumado maconha ou as duas coisas juntas.
“Acho que George o mandou fazer aquilo”, disse ela. “Para me provocar. Mas quando viu como fiquei chateada, se arrependeu e tentou fazer o garoto parar. Mas ele não quis parar.”
Carla disse: “Isso não faz sentido, Vic. George nunca faria algo desse tipo com você. Ele gosta de você”.
Vicky disse: “Mas aquele garoto estava certo. Eu devia mesmo desistir”.
A essa altura na história de Carla, eu contei a ela que o garoto não tinha nada a ver comigo. Carla disse que eu nem precisava ter dito isso, ela sabia que eu era um cara legal e quanto gostava de Vicky. Então, começou a chorar.
“É minha culpa, não sua”, disse ela. “Eu vi que ela estava mal, mas não fiz nada. E você sabe o que aconteceu. Isso também foi culpa minha, porque ela não pretendia. Tenho certeza de que não pretendia…”
Carla deixou Vicky na sala e subiu para estudar. Duas horas depois, foi para o quarto de Vicky.
“Achei que talvez ela quisesse sair para comer alguma coisa”, disse ela. “Ou, se o efeito dos comprimidos tivesse passado, beber uma taça de vinho. Só que ela não estava no quarto. Então olhei na sala, mas ela também não estava lá. Duas garotas estavam assistindo à TV, e uma disse que achava que tinha visto Vicky descer para o porão pouco tempo antes, provavelmente para lavar roupa.
“Porque ela estava com uns lençóis”, disse a garota.
Isso preocupou Carla, mas ela não se permitiu pensar por quê. Ela desceu, mas não tinha ninguém na lavanderia e nenhuma das máquinas estava ligada. A sala ao lado era um depósito, onde as garotas guardavam as malas. Ela ouviu alguns ruídos vindos de lá e, quando entrou, viu Vicky de costas. Ela estava de pé em uma pilha de malas. Tinha amarrado dois lençóis para fazer uma corda. Uma ponta estava enrolada no pescoço dela. A outra, em um cano no teto.
“Mas a questão era que só havia três malas, e o lençol estava folgado”, disse Carla. “Se ela estivesse determinada mesmo, teria usado um lençol só e colocado uma das malas de pé. Era só o que as pessoas do teatro chamam de ‘ensaio final’.”
“Você não tem como ter certeza”, eu disse. “Não sabe quantos comprimidos ela deve ter tomado nem quanto estava confusa.”
“Eu sei o que vi”, disse Carla. “Se ela pulasse daquelas malas para o chão, o lençol no pescoço nem esticaria. Mas não pensei nisso na hora. Fiquei chocada demais. Só gritei o nome dela.”
O grito alto vindo de trás a assustou, e em vez de pular das malas, Vicky tomou um susto e caiu para a frente. As malas deslizaram sob seus pés. “Ela teria caído no chão de concreto de barriga, mas não havia tanta folga no lençol”, disse Carla. “Ela talvez ainda tivesse sobrevivido se o nó que prendia os dois lençóis tivesse cedido, mas não cedeu. O peso da queda esticou a corda e puxou a cabeça dela para cima com força.”
“Eu ouvi o estalo de quando o pescoço dela quebrou”, disse Carla. “Foi alto. E foi culpa minha.”
E ela chorou e chorou e chorou.
Nós saímos do café, e eu a acompanhei até um ponto de ônibus na esquina. Falei repetidamente que não foi culpa dela, e Carla acabou parando de chorar. Até sorriu um pouco.
Ela disse: “Você é muito persuasivo, George”.
O que eu não contei a ela — porque ela não teria acreditado — foi que toda aquela persuasão vinha da certeza absoluta.
5
— O garotinho malvado ia atrás das pessoas que eu amava — disse Hallas.
Bradley assentiu. Estava óbvio que Hallas acreditava mesmo nisso, e se essa história tivesse sido citada no julgamento, o sujeito poderia ter acabado com prisão perpétua em vez de em um catre na Mansão Agulha. O júri todo não acreditaria, mas seria uma jogada para tirar a pena de morte das opções. Agora, já devia ser tarde demais. Uma moção por escrito pedindo uma anulação baseada na história de Hallas do garotinho malvado pareceria desespero. Era preciso estar na presença dele e ver a certeza absoluta em seu rosto. Ouvir sua voz.
Enquanto isso, o condenado estava olhando para ele pela divisória de acrílico ligeiramente embaçada, com um leve sorriso.
— Aquele garoto não era só malvado; ele também era ganancioso. Para ele, tinha que ser sempre dois pelo preço de um. Um morto; e um vivo para se afogar em uma grande poça de culpa.
— Você deve ter convencido Carla — disse Bradley. — Ela se casou com você, afinal.
— Eu nunca a convenci completamente, e ela nunca acreditou no garotinho malvado. Se tivesse acreditado, teria ido ao julgamento, e nós ainda estaríamos casados. — Ele encarou Bradley pela barreira com olhos sinceros. — Se tivesse acreditado, teria ficado feliz de eu tê-lo matado.
O guarda no canto, McGregor, olhou para o relógio, tirou os fones e se levantou.
— Não quero apressar o senhor, doutor, mas já são onze e meia da manhã, e daqui a pouco seu cliente tem que voltar para a cela para a contagem da metade do dia.
— Não sei por que você não pode contá-lo aqui — disse Bradley… de forma amena. Não adiantava nada irritar um guarda, e apesar de McGregor ser um dos melhores, Bradley tinha certeza de que o homem tinha um lado ruim. Fazia parte do ofício de cuidar de condenados. — Você está olhando para ele, afinal.
— Regras são regras — respondeu McGregor, e levantou a mão, como se para descartar um protesto que Bradley não fez. — Sei que o senhor pode ter o tempo que quiser tão perto assim da data, então, se quiser esperar, eu o trago de volta após a contagem. Mas ele vai ficar sem almoço, e acho que o senhor também.
Eles viram McGregor voltar para a cadeira e recolocar os fones de ouvido. Quando Hallas se virou para a barreira de acrílico, havia um sorriso maior nos lábios dele.
— Que se dane, acho que você é capaz de adivinhar o resto.
Embora Bradley tivesse certeza de que podia mesmo adivinhar, ele cruzou as mãos em cima do bloco amarelo sem nada escrito e disse:
— Por que você não me conta mesmo assim?
6
Recusei o papel de Harold Hill e larguei o Clube de Teatro. Perdi a vontade de atuar. Durante meu último ano na Pitt, me concentrei nas aulas de administração, principalmente contabilidade, e em Carla Winston. No ano em que me formei, nós nos casamos. Meu pai foi meu padrinho. Ele morreu três anos depois.
Uma das minas pelas quais ele era responsável ficava na cidade de Louisa. Fica um pouco ao sul de Ironville, onde ele ainda vivia com Nona McCarthy, Mama Nonie, como sua “governanta”. A mina se chamava Fair Deep. Um dia, houve um desmoronamento no segundo nível, uns sessenta metros abaixo da terra. Não foi sério, ninguém ficou ferido, mas meu pai desceu com dois caras do escritório da empresa para ver o dano e tentar descobrir quanto tempo demoraria para tudo voltar a funcionar. Ele nunca saiu. Nenhum deles saiu.
“Aquele garoto fica me ligando”, disse Nonie depois.
Ela sempre foi uma mulher bonita, mas, no ano seguinte à morte do meu pai, floresceu em rugas e papada. O andar passou a ser arrastado, e ela encolhia os ombros sempre que alguém entrava no aposento, como se esperasse levar um tapa. Não foi a morte do meu pai que fez isso; foi o garotinho malvado.
“Ele fica ligando. Me chama de puta crioula, mas não ligo para isso. Já fui chamada de coisa pior. Isso entra por um ouvido e sai pelo outro. O que não sai é ele dizer que o acidente é culpa do presente que dei para o seu pai. Aquelas botas. Não pode ser verdade, pode, Georgie? Só pode ter sido outra coisa. Ele devia estar usando as sapatilhas de feltro. Ele nunca esqueceria de colocar o feltro depois de um acidente, mesmo que não parecesse sério.”
Eu concordei, mas consegui ver a dúvida a corroendo como ácido.
As botas eram Trailman Specials. Ela as deu para ele de presente de aniversário menos de dois meses antes da explosão em Fair Deep. Devem ter custado uns trezentos dólares, mas valiam cada centavo. Iam até os joelhos, com couro macio como seda, mas resistente. Era o tipo de bota que um homem podia usar a vida toda e depois deixar para o filho. Botas presas com pregos, entende, e pregos assim podem fazer fagulhas na superfície certa, como uma pederneira no aço.
Meu pai nunca usaria botas com pregos dentro de uma mina onde podia haver bolsões de metano ou grisu, e era impossível ele ter esquecido, não com ele e aqueles outros dois carregando máscaras nos quadris e tanques de oxigênio pendurados nas costas. Mesmo se ele estivesse usando as botas, Mama Nonie estava certa, ele também estaria usando sapatilhas de feltro por cima. Mama Nonie não precisava que eu lhe dissesse: ela sabia quanto ele era cuidadoso. Mas até a ideia mais maluca consegue entrar na sua cabeça, se você for solitário, estiver sofrendo e alguém ficar batendo na mesma tecla. A ideia pode ir penetrando lá como uma minhoca e botar ovos, e em pouco tempo seu cérebro está cheio de larvas.
Eu falei para ela mudar o número do telefone, e ela mudou, mas o garoto descobriu o novo e continuou ligando, dizendo que meu pai tinha esquecido o que tinha nos pés e que um daqueles pregos fez uma fagulha, e lá se foi tudo para o alto.
“Nada disso teria acontecido se você não tivesse dado aquelas botas para ele, sua crioula puta e burra.” É o tipo de coisa que ele dizia, e devia ter coisa pior que ela não me contava.
Por fim, ela mandou desinstalar o telefone. Eu falei que, morando sozinha daquele jeito, ela precisava de um telefone. Mama Nonie nem quis saber, apenas disse: “Às vezes, ele liga no meio da noite, Georgie. Você não sabe como é estar deitada ouvindo o telefone tocar e saber que é aquela criança. Nem consigo imaginar que tipo de pais deixariam uma criança fazer uma coisa dessas.”
“Desconecte à noite”, pedi.
Ela disse: “Eu desconectava. Mas às vezes tocava mesmo assim”.
Falei que aquilo era fruto da imaginação dela. Eu tentei acreditar, mas nunca acreditei, sr. Bradley. Se aquele garotinho malvado conseguiu pegar a lancheira do Steve Austin de Marlee e se sabia quanto Vicky havia se dado mal no teste, se sabia das botas Trailman — se conseguia se manter jovem ano após ano —, então é claro que era capaz de fazer o telefone tocar mesmo fora da linha. A Bíblia diz que o diabo foi libertado para vagar pela terra, e que a mão de Deus não o segurava. Não sei se aquele garotinho malvado era o diabo, mas sei que era um diabo.
Também não sei se ligar para uma ambulância poderia ter salvado Mama Nonie. Só sei que, quando teve o ataque cardíaco, ela não pôde ligar para pedir ajuda porque o telefone tinha sido desligado. Ela morreu sozinha no chão da cozinha. Uma vizinha a encontrou no dia seguinte.
Carla e eu fomos ao enterro, e depois que Nonie foi enterrada, passamos a noite na casa que ela e meu pai dividiam. Acordei de um pesadelo logo antes do amanhecer e não consegui voltar a dormir. Quando ouvi o jornal cair na varanda, fui buscar e vi que a bandeira da caixa de correspondência estava levantada. Andei até a rua de roupão e chinelos e a abri. Dentro havia um boné com uma hélice de plástico no alto. O boné ainda estava quente ao toque, como se a pessoa que tivesse acabado de tirá-lo estivesse ardendo de febre. Tocar nele me fez sentir sujo, mas eu o virei e olhei dentro. Estava oleoso de alguma espécie de brilhantina de cabelo, do tipo que quase ninguém usa mais. Vi alguns fios de cabelo laranja grudados. Também tinha um bilhete, escrito com uma caligrafia infantil, com as letras tortas e inclinadas. O bilhete dizia PODE FICAR COM ESTE, EU TENHO OUTRO.
Levei o maldito boné para dentro de casa, segurando-o entre o indicador e o polegar, era o máximo que eu estava disposto a tocar nele, e coloquei no fogão. Encostei um fósforo aceso nele, e o boné pegou fogo na mesma hora: ca-flump. As chamas eram esverdeadas. Quando Carla desceu meia hora depois, sentiu o cheiro e disse: “Que cheiro horrível é esse? Parece maré baixa!”.
Eu respondi que talvez a fossa estivesse cheia e precisando ser esvaziada, mas sabia a verdade. Era o fedor de metano, provavelmente o último cheiro que meu pai sentiu antes de alguma coisa soltar uma fagulha e explodi-lo junto com os outros dois para o reino dos céus.
Àquela altura, eu tinha emprego em uma firma de contabilidade, uma das maiores firmas independentes do Meio-Oeste, e fui subindo lá dentro com rapidez. Eu acho que, se você chega cedo, vai embora tarde e fica com o olho na jogada nesse meio tempo, é isso que vai acontecer. Carla e eu queríamos ter filhos e tínhamos dinheiro, mas não aconteceu; ela recebia a visita do chico todos os meses, regular como um relógio. Fomos a um obstetra em Topeka, e ele fez os exames de sempre. Disse que estávamos bem e que era cedo demais para falarmos de tratamentos de fertilidade. Nos mandou ir para casa, relaxar e curtir nossa vida sexual.
Foi isso que fizemos, e, onze meses depois, as visitas do chico pararam. Ela foi criada como católica e parou de ir à igreja quando estava na faculdade, mas, quando teve certeza de que estava grávida, começou a ir de novo, e me arrastou junto. Nós íamos a St. Andrew’s. Eu não me importava. Se ela quisesse dar a Deus os créditos pelo pãozinho no forno dela, por mim, tudo bem.
Ela estava no sexto mês quando sofreu o aborto. Por causa do acidente que não foi um acidente de verdade. O bebê viveu algumas horas e morreu. Era uma menina. Como precisava de um nome, escolhemos Helen, em homenagem à avó de Carla.
O acidente aconteceu depois da igreja. Quando a missa acabou, nós íamos almoçar em um lugar no centro e depois íamos para casa, onde eu veria o jogo de futebol americano. Carla ficaria com os pés para o alto, descansaria e apreciaria a gravidez. Ela gostava, sr. Bradley. Todos os dias, mesmo no comecinho, quando enjoava pelas manhãs.
Vi o garotinho malvado assim que saímos. O mesmo short largo, o mesmo suéter, os mesmos peitinhos gorduchos e a barriga protuberante. O boné que encontrei na caixa de correspondência era azul, e o que ele estava usando quando saímos da igreja era verde, mas tinha a hélice de plástico. Eu tinha passado de garotinho a homem com os primeiros fios grisalhos, mas aquele garotinho malvado ainda tinha seis anos. Sete, no máximo.
Ele estava um pouco distante. Tinha outro garoto na frente dele. Um garoto normal, que ia crescer. Ele parecia perplexo e com medo. Estava com alguma coisa na mão. Parecia a bola do paddleball que Mama Nonie me deu tantos anos antes.
“Vá em frente”, disse o garotinho malvado. “A não ser que queira que eu pegue de volta os cinco dólares.”
“Eu não quero”, disse o garoto normal. “Mudei de ideia.”
Carla não viu nada disso. Ela estava no alto da escada falando com o padre Patrick, contando para ele que tinha gostado da homilia, que havia lhe dado muito em que pensar. Aqueles degraus eram de granito, e eram íngremes.
Fui segurar o braço dela, eu acho, mas não tenho certeza. Talvez eu tenha ficado paralisado, como fiquei quando Vicky e eu vimos aquele garotinho depois do teste ruim para O vendedor de ilusões. Antes que eu conseguisse reagir ou dizer qualquer coisa, o garotinho cruel deu um passo à frente, enfiou a mão no bolso do short e pegou um isqueiro. Assim que acendeu e eu vi a fagulha, soube o que tinha acontecido naquele dia na mina Fair Deep, e não teve nada a ver com os pregos nas botas do meu pai. Alguma coisa começou a chiar e faiscar no alto da bola vermelha que o garoto normal estava segurando. Ele a jogou longe para se livrar dela, e o garotinho malvado riu. Só que foi uma risada grave e melequenta, hgurr-hgurr-hgurr, assim.
A bola bateu na lateral dos degraus, embaixo do corrimão de ferro, e quicou antes de explodir com um estrondo de furar os tímpanos e um brilho azul. Não era uma bombinha, nem uma bomba mediana. Era uma M-80. Carla tomou o mesmo susto que deve ter dado em Vicky naquele dia no depósito de Fudgy Acres. Eu fui tentar pegá-la, mas ela segurava uma das mãos do padre Patrick entre as dela, e só consegui roçar no cotovelo. Eles rolaram pelos degraus juntos. Ele quebrou o braço direito e a perna esquerda. Carla quebrou o tornozelo e teve uma concussão. E perdeu o bebê. Perdeu Helen.
O garoto que jogou a M-80 entrou na delegacia no dia seguinte com a mãe e admitiu a culpa. Ele estava arrasado, claro, e disse o que as crianças sempre dizem e quase sempre é de coração quando uma coisa dá errado: foi um acidente, ele não pretendia machucar ninguém. Ele disse que não ia jogar, mas o outro garoto acendeu o pavio, e ele ficou com medo de perder os dedos. Não, ele disse, nunca tinha visto o outro garoto antes. Não, não sabia o nome dele. Em seguida, deu ao policial os cinco dólares que o garotinho malvado tinha dado a ele.
Carla não queria mais saber de intimidade depois disso, e parou de ir à igreja. Mas eu continuei indo à missa, e me envolvi com a igreja. Você sabe o que é, sr. Bradley, não por ser católico, mas porque foi aí que você entrou. Eu não dava bola para a parte religiosa, eles tinham o padre Patrick para isso, mas eu gostava de treinar os times de beisebol e futebol americano. Eu sempre estava lá nos churrascos e acampamentos; mudei minha habilitação para poder dirigir o ônibus da igreja e levar os garotos a reuniões de natação, a parques de diversão e retiros adolescentes. E eu sempre carregava uma arma. A .45 que comprei na Wise Penhores e Empréstimos, você sabe, a Prova A da acusação. Eu carreguei aquela arma por cinco anos, no porta-luvas do meu carro ou na caixa de ferramentas do ônibus de excursão. Quando estava treinando os times, carregava na bolsa.
Carla passou a não gostar do meu trabalho com a igreja porque ocupava muito do meu tempo livre. Quando o padre Patrick pedia voluntários, eu era sempre o primeiro a levantar a mão. Acho que ela ficou com ciúmes. “Você quase nunca fica em casa nos fins de semana”, disse ela. “Estou começando a me perguntar se não está gostando de garotos…”
Eu devia mesmo parecer meio bicha, porque criei o hábito de escolher garotos especiais e dar mais atenção a eles. Eu fazia amizade, ajudava. Não era difícil. Muitos vinham de lares de baixa renda. Normalmente, quem cuidava desses lares era uma mãe solteira que ganhava um salário mínimo no emprego, ou pegava dois ou três trabalhos para botar comida na mesa. Se houvesse um carro, ela precisava dele, então eu ficava feliz em buscar meu garoto especial do momento em casa para levar aos encontros de quinta à noite na igreja, e depois levava de volta. Se não podia fazer isso, dava passagens de ônibus para eles. Mas nunca dinheiro; descobri logo que dar dinheiro àqueles garotos era uma péssima ideia.
Eu tive alguns sucessos no caminho. Um deles, acho que devia ter duas calças e três camisas quando o conheci, era um prodígio da matemática. Arrumei uma bolsa de estudos para ele em uma escola particular, e agora ele é calouro na Kansas State, com tudo indo de vento em popa. Já outros estavam envolvidos com drogas, e consegui tirar pelo menos um deles dessa vida. Eu acho. Nunca dá para ter certeza. Outro fugiu depois de uma briga com a mãe e me ligou de Omaha um mês depois, bem na época que a mãe estava concluindo que ele tinha morrido ou sumido de vez. Eu fui buscá-lo.
Trabalhar com aqueles garotos me deu chance de fazer mais bem do que eu fazia com formulários de imposto de renda e criando empresas isentas de impostos em Delaware. Mas não era por isso que eu fazia, era só um efeito colateral. Às vezes, sr. Bradley, eu levava um dos meus garotos especiais para pescar no riacho Dixon, ou no rio grande, na ponte da cidade baixa. Eu também estava pescando, mas não para pegar trutas ou carpas. Por muito tempo, não senti nenhum puxão na linha. Mas, certo dia, Ronald Gibson apareceu.
Ronnie tinha quinze anos, mas parecia mais novo. Era cego de um olho, então não podia jogar beisebol nem futebol americano, mas era fera no xadrez e em todos os outros jogos de tabuleiro que os garotos jogavam em dias de chuva. Não sofria bullying; ele era uma espécie de mascote do grupo. O pai abandonou a família quando ele tinha uns nove anos, e Ronnie ansiava por atenção masculina. Em pouco tempo, passou a me procurar para falar dos problemas. O principal, claro, era aquele olho ruim. Era um defeito congênito chamado ceratocone, ou córnea deformada. Um médico disse para a mãe dele que Ronnie precisava de um transplante de córnea, mas seria caro, e a mãe não tinha dinheiro para isso.
Eu procurei o padre Patrick, e fizemos alguns eventos de arrecadação chamados “Visão nova para Ronnie”. Até conseguimos aparecer na TV, no noticiário local do Canal 4. Uma imagem minha com Ronnie andando pelo parque Barnum, eu com o braço ao redor dos ombros magros dele, começou a circular. Carla resmungou quando viu. “Se você não é bicha, as pessoas vão dizer que é quando virem isso”, disse ela.
Eu não ligava para o que as pessoas diziam, porque pouco tempo depois dessa notícia, senti o primeiro puxão na linha. Bem no meio da minha cabeça. Era o garotinho malvado. Eu finalmente chamei a atenção dele. Eu conseguia senti-lo.
Ronnie fez a cirurgia. Não recuperou por completo a visão no olho ruim, mas boa parte. Durante o primeiro ano depois disso, ele tinha que usar óculos especiais que ficavam escuros na luz do sol intensa, mas não se importou. Ronnie dizia que os óculos eram maneiros.
Pouco tempo depois da operação, ele e a mãe foram me visitar depois da aula na salinha no porão da igreja de St. Andrew’s. Ela disse: “Se houver alguma coisa que possamos fazer para retribuir, sr. Hallas, é só pedir”.
Eu falei que não era necessário, que foi um prazer. E fingi ter uma ideia.
“Talvez tenha uma coisa”, comentei. “Uma coisinha de nada.”
“O que é, sr. H?”, perguntou Ronnie.
Eu respondi: “Certo dia, no mês passado, eu estacionei atrás da igreja e estava na metade da escada quando lembrei que não tinha trancado o carro. Eu voltei e vi um garoto lá dentro, mexendo nas minhas coisas. Eu gritei com ele, que saiu correndo com minha caixinha de moedas, a que deixo no porta-luvas para o pedágio. Eu fui atrás dele, mas ele era rápido demais para mim”.
“O que quero”, eu disse para Ronnie e para a mãe dele, “é encontrá-lo e falar com ele. Dizer o que digo para vocês todos: roubar é um começo ruim na vida.”
Ronnie me perguntou como ele era.
“Baixo e meio gorducho”, eu disse. “Tinha cabelo laranja, bem ruivo mesmo. Quando o vi, ele estava de short cinza e suéter verde com listras da mesma cor do cabelo.”
A sra. Gibson interrompeu: “Ah, meu Deus! Ele estava com um chapeuzinho com uma hélice?”.
“Estava, sim”, falei, mantendo a voz gentil e firme. “Agora que você mencionou, acho que estava, sim.”
“Eu o vi do outro lado da rua”, disse ela. “Achei que tinha se mudado para um dos condomínios de lá.”
“E você, Ronnie?”, eu perguntei.
“Não”, disse ele. “Nunca vi esse garoto.”
“Bem, se você o vir, não diga nada para ele. Só venha me chamar. Pode fazer isso?”
Ele fez que sim, e eu fiquei satisfeito. Porque eu sabia que o garotinho malvado tinha voltado e sabia que precisaria estar por perto quando ele agisse. Ele ia me querer por perto, porque essa era a questão. Era a mim que ele queria magoar. Todos os outros, Marlee, Vicky, meu pai, Mama Nonie, foram apenas dano colateral.
Uma semana se passou, depois, duas. Eu estava começando a achar que o garoto tinha pressentido o que eu estava planejando. Mas um dia, aquele dia, sr. Bradley, um dos garotos correu para o pátio atrás da igreja, onde eu estava ajudando a pendurar uma rede de vôlei.
“Um garoto derrubou Ronnie e roubou os óculos dele!”, gritou o garoto. “Ele saiu correndo para o parque, e Ronnie foi atrás!”
Eu não esperei, só peguei minha bolsa, que eu levava para todo lado durante os anos em que tive os garotos especiais, e corri pelo portão até o parque Barnum. Eu sabia que não tinha sido o garotinho malvado que roubara os óculos de Ronnie; não era o estilo dele. O ladrão de óculos era alguém tão comum quanto o garoto que jogou a bomba, e se lamentaria da mesma forma quando o que quer que o garotinho malvado estivesse tramando acontecesse. Se eu deixasse que as coisas acontecessem.
Ronnie não era um garoto atlético e não conseguia correr rápido. O ladrão de óculos deve ter percebido, porque parou perto do outro lado do parque, balançou os óculos acima da cabeça e gritou: “Venha pegar, Ray Charles! Venha pegar, Stevie Wonder!”
Eu conseguia ouvir o trânsito no bulevar Barnum e soube exatamente o que aquele garotinho malvado estava planejando. Ele achou que o que funcionou uma vez ia funcionar de novo. Era um par de óculos especiais com redução de brilho em vez de uma lancheira do Steve Austin, mas a ideia era a mesma. Mais tarde, o garoto que pegou os óculos de Ronnie ia chorar e dizer que ele não sabia o que ia acontecer, que achou que era só brincadeira, uma provocação, ou talvez vingança por alguma briga entre Ronnie e o gorducho.
Eu poderia ter alcançado Ronnie com facilidade, mas não fiz isso de cara. Ele era minha isca, entende, e a última coisa que eu queria era puxar o anzol cedo demais. Quando Ronnie chegou perto, o garoto fazendo o trabalho sujo do garotinho malvado passou correndo por um arco de pedra entre o parque e o bulevar Barnum, ainda balançando os óculos acima da cabeça. Ronnie foi atrás dele, e eu segui atrás. Enquanto corria, abri a bolsa, peguei o revólver e larguei a bolsa no chão. Corri com tudo.
“Fique aqui!”, gritei para Ronnie, passando correndo por ele. “Não dê nem mais um passo!”
Ele fez o que eu mandei, e agradeço a Deus por isso. Se alguma coisa tivesse acontecido com ele, eu não estaria aqui esperando a agulha, sr. Bradley. Eu teria me matado.
Quando passei pelo arco, vi o garotinho malvado esperando na calçada. Ele continuava o mesmo. O garoto mais velho estava entregando para ele os óculos de Ronnie, e o garotinho malvado estava entregando dinheiro de volta. Quando me viu, perdeu pela primeira vez o sorrisinho debochado naqueles lábios vermelhos esquisitos. Porque o plano não era aquele. O plano era Ronnie primeiro e depois eu. Ronnie tinha que correr atrás do garotinho malvado pela rua e ser atropelado por um caminhão ou por um ônibus. Eu tinha que chegar por último. E ver tudo.
O cenourinha correu para o bulevar Barnum. Você sabe como é fora do parque, ou pelo menos deveria saber, depois que a acusação passou o vídeo três vezes no julgamento. Com três pistas em cada direção, duas para seguir em frente e uma para quem vai virar, e uma divisão de concreto no meio. O garotinho malvado olhou para trás quando chegou na divisão, e a essa altura já estava bem mais que surpreso. A expressão era de puro medo. Ver aquela expressão me deixou feliz pela primeira vez desde que Carla saiu rolando escada abaixo na igreja.
Uma olhadela rápida foi tudo que recebi, e ele saiu correndo para as pistas que iam para o sul sem nem olhar o que podia estar indo para cima dele. Eu atravessei correndo as pistas, seguindo para o norte da mesma forma. Sabia que podia ser atropelado, mas não liguei. Pelo menos seria um acidente genuíno, sem acelerador emperrado misteriosamente. Você pode me chamar de suicida, mas não sou. É que eu não podia deixá-lo fugir. Talvez só voltasse a vê-lo vinte anos mais tarde, e aí já seria um homem idoso.
Não sei quanto cheguei perto de ser atropelado, mas ouvi muitos freios chiando e pneus cantando. Um carro desviou para não acertar o garoto e bateu de lado em um caminhão. Alguém me chamou de babaca maluco. Outra pessoa gritou: “Que porra ele está fazendo?”. Isso tudo não passou de ruído de fundo. Eu estava com toda a minha atenção grudada no garotinho malvado. Com os olhos no prêmio, certo?
Ele estava correndo o mais rápido que conseguia, mas não importava o tipo de monstro que era por dentro; por fora ele ainda tinha pernas curtas e uma bunda gorda, e não teve chance. O garotinho só podia torcer para um carro me atropelar, mas isso não aconteceu.
Ele tropeçou no meio-fio quando chegou à calçada. Eu ouvi uma mulher, uma moça corpulenta com cabelo tingido de louro, gritar: “Aquele homem tem uma arma!”. Foi a sra. Jane Hurley. Ela foi testemunha no julgamento.
O garoto tentou se levantar. Eu falei: “Isto é por Marlee, seu filho da putinha”, e atirei nas costas dele. Foi o primeiro tiro.
Ele começou a engatinhar. Sangue pingava na calçada. Eu falei: “Isto é por Vicky”, e dei outro tiro nas costas dele. Foi o segundo. Então, continuei: “Isto é por meu pai e por Mama Nonie”, e meti uma bala na parte de trás de cada joelho, bem onde aquele short largo terminava. Foram o terceiro e o quarto tiros.
Muitas pessoas estavam gritando àquela altura. Um homem gritava: “Façam alguma coisa!”. Mas ninguém fez nada.
O garotinho malvado virou de costas e olhou para mim. Quando vi o rosto dele, quase hesitei. Ele não parecia mais ter seis ou sete anos. Assustado e com dor, ele não parecia ter mais que cinco. O boné tinha caído da cabeça e estava no chão. Uma das hélices de plástico estava torta. Meu Deus, pensei, eu atirei em uma criança inocente, e ele está deitado aqui aos meus pés, mortalmente ferido.
Sim, ele quase me enganou. Foi uma atuação boa, sr. Bradley, nível de Oscar mesmo, mas aí, a máscara escorregou. Ele conseguia fazer a maior parte do rosto parecer ferida e sofrida, mas não os olhos. Aquela coisa ainda estava nos olhos dele. Você não pode me impedir, diziam seus olhos. Você não vai me impedir enquanto eu não tiver terminado, e ainda não terminei com você.
“Tirem a arma dele!”, gritou uma mulher. “Antes que ele assassine aquela criança!”
Um sujeito grande correu na minha direção. Ele também testemunhou, eu acho. Mas apontei a arma para ele, que recuou rápido com as mãos erguidas.
Eu me virei para o garotinho malvado e atirei no peito dele, dizendo: “Pela bebê Helen”. Esse foi o quinto tiro. Já tinha sangue escorrendo pela boca e pelo queixo dele. Meu .45 era antiquado, com seis disparos, então só tinha mais uma bala. Eu me ajoelhei em uma poça do sangue dele. Era vermelho, mas deveria ser preto. Como a gosma que sai de um inseto venenoso quando você pisa nele. Eu coloquei o cano da arma entre os olhos do garotinho.
“E isto é por mim”, falei. “Agora volte para o inferno de onde veio.” Puxei o gatilho, e esse foi o sexto. Mas, pouco antes de eu atirar, aqueles olhos verdes se encontraram com os meus.
Eu não terminei com você, diziam os olhos dele. Não terminei e não vou terminar até você parar de respirar. Talvez nem aí. Talvez eu esteja esperando você do outro lado.
A cabeça dele pendeu para o lado. Um dos pés tremeu, e ele ficou imóvel. Deixei a arma ao lado do corpo, levantei as mãos e comecei a me erguer. Dois homens me seguraram antes disso. Um deles me deu uma joelhada na virilha. O outro me deu um soco na cara. Mais pessoas se juntaram a eles. Uma delas foi a sra. Hurley. Ela me deu duas porradas das boas. Não falou sobre isso no testemunho dela, não é?
Não que eu a culpe, advogado. Não culpo nenhum deles. O que eles viram caído na calçada naquele dia foi um garotinho tão desfigurado por balas que nem a mãe dele o teria reconhecido. Supondo que tivesse uma.
7
McGregor levou o cliente de Bradley para o interior da Mansão Agulha para a contagem da metade do dia, prometendo trazê-lo de volta depois.
— Trago sopa e um sanduíche se quiser — disse McGregor para Bradley. — O senhor deve estar com fome.
Bradley não estava. Não depois daquela história. Ele ficou esperando do lado dele da divisória de acrílico, com as mãos cruzadas sobre o bloco amarelo. Estava meditando sobre vidas arruinadas. Das duas em consideração, a de Hallas era a mais fácil de aceitar, porque o homem estava evidentemente maluco. Se tivesse ido testemunhar no próprio julgamento e tivesse contado essa história, ainda mais com aquela mesma voz razoável do tipo “Como você pode duvidar de mim?”, Bradley tinha certeza de que Hallas estaria agora em uma das duas instituições de segurança máxima para doentes mentais em vez de esperando uma sequência de injeções de tiopentato de sódio, brometo de pancurônio e cloreto de potássio: o coquetel letal que os detentos da Mansão Agulha chamavam de Boa Noite, Mamãe.
Mas Hallas, provavelmente levado à insanidade após a perda da filha, teve pelo menos uma vida parcial. Obviamente tinha sido infeliz, tomada de fantasias paranoicas e ilusões de perseguição, mas, distorcendo um velho aforisma, meia vida era melhor que nenhuma. O garotinho era um caso bem mais triste. De acordo com o legista estadual, o garoto que estava no bulevar Barnum na hora errada não tinha mais que oito anos, talvez seis ou sete. Aquilo não foi uma vida, foi um prólogo.
McGregor trouxe Hallas de volta, acorrentou-o à cadeira e perguntou quanto tempo mais eles demorariam.
— Porque ele não quis ir almoçar, mas eu não me incomodaria de comer alguma coisa.
— Não muito — respondeu Bradley. Na verdade, ele só tinha mais uma pergunta, e quando Hallas se sentou novamente, ele a fez.
— Por que você?
Hallas ergueu as sobrancelhas.
— Como é?
— O demônio, acho que é isso que você acha que ele era, por que ele escolheu você?
Hallas sorriu, mas foi só um mero esticar de lábios.
— Isso é meio ingênuo, advogado. Dá na mesma perguntar por que um bebê nasce com a córnea deformada, como Ronnie Gibson, e os cinquenta que nascem depois no hospital nascem bem. Ou por que um bom homem com uma vida decente tem um tumor cerebral aos trinta anos e um monstro que ajudou a operar as câmaras de gás do campo de concentração de Dachau viveu até os cem. Se quer saber por que coisas ruins acontecem com pessoas boas, você veio ao lugar errado.
Você atirou seis vezes em uma criança em fuga, pensou Bradley. Os últimos três ou quatro tiros à queima-roupa. Desde quando isso torna você uma boa pessoa?
— Antes de o senhor ir — disse Hallas —, quero lhe perguntar uma coisa.
Bradley esperou.
— A polícia já identificou a criança?
Hallas fez a pergunta no tom preguiçoso de um prisioneiro que só está puxando papo para ficar mais um pouco fora da cela, mas, pela primeira vez desde que a longa visita começou, seus olhos brilharam com vida e interesse real.
— Acho que não — respondeu Bradley com cautela.
Na verdade, ele sabia que não. Tinha uma fonte no escritório da promotoria que lhe daria o nome e o histórico da criança bem antes de os jornalistas terem acesso e publicarem, como estavam ansiosos para fazer, claro; o Garoto Desconhecido era uma história de interesse humano que se espalhou por toda a nação. Morrera nos últimos quatro meses, mas, depois da execução de Hallas, voltaria aos jornais.
— Eu diria para o senhor pensar nisso — disse Hallas —, mas não preciso, não é? O senhor está pensando. Não deve ter tirado seu sono, mas, sim, está pensando no assunto.
Bradley não respondeu.
Desta vez, o sorriso de Hallas foi largo e genuíno.
— Sei que não acredita em uma palavra do que acabei de contar, e, ei, quem pode culpá-lo? Mas, só por um minuto bote esse seu cérebro para trabalhar e pense direito: era um garoto branco, o tipo de criança perfeito para se dar falta em uma sociedade que ainda valoriza crianças brancas do sexo masculino acima de todas as outras. Hoje em dia, as digitais das crianças são coletadas quando se matriculam na escola, para ajudar na identificação se elas se perdem, são assassinadas ou sequestradas. Acredito que neste estado é lei, até. Ou estou errado?
— Não está. — Bradley falou com relutância. — Mas seria errado exagerar nessa questão, George. Esse garoto por acaso não está no sistema, só isso. Acontece. O sistema tem falhas.
O sorriso de Hallas se abriu ainda mais.
— Pode ficar repetindo isso para si mesmo, sr. Bradley. Repita quantas vezes quiser. — Ele se virou e acenou para McGregor, que tirou os fones e se levantou.
— Terminaram?
— Sim — disse Hallas. Ele se virou para Bradley quando McGregor se inclinou para desacorrentá-lo. O sorriso dele, o único que Bradley viu naquele rosto, tinha sumido. — O senhor vem? Quando for a hora?
— Estarei aqui — disse Bradley.
8
E estava mesmo, seis dias depois, quando as cortinas da sala de observação foram abertas às 11h52 e revelaram a câmara da morte com seus azulejos brancos e a mesa em forma de Y. Apenas mais duas testemunhas estavam presentes. Uma era o padre Patrick, da igreja St. Andrew’s. Bradley se sentou com ele na fileira de trás. O promotor estava lá na frente, com os braços cruzados sobre o peito e os olhos grudados na sala do outro lado da janela.
O grupo de execução (Que termo grotesco, pensou Bradley) estava em posição. Eram seis no total: o diretor Toomey; McGregor e dois outros guardas; uma dupla de médicos de jalecos brancos. A estrela do show estava deitada na mesa, com os braços esticados presos por tiras de velcro, mas, quando as cortinas se abriram, o primeiro a chamar a atenção de Bradley foi o diretor, que estava com um traje estranhamente esportivo, de camisa azul desabotoada no alto.
Com um cinto de segurança ao redor da cintura e outro de três pontos passando por cima dos ombros, George Hallas parecia pronto para ser disparado em uma cápsula espacial, e não para morrer por injeção letal. A seu pedido, não havia capelão, mas quando viu Bradley e o padre Patrick, ele levantou a mão o tanto que as tiras dos pulsos permitiam em um gesto de reconhecimento.
Patrick levantou o braço em retribuição, depois se virou para Bradley. O rosto dele estava branco como papel.
— Você já assistiu a uma coisa dessas?
Bradley fez que não. A boca estava seca, e ele não acreditava ser capaz de falar usando um tom de voz normal.
— Nem eu. Espero ficar bem. Ele… — O padre Patrick engoliu em seco. — Ele era muito bom com todas as crianças. Elas o amavam. Não consigo acreditar… até agora, não consigo acreditar…
Bradley também não conseguia. Mas tinha que acreditar.
O promotor se virou para eles e franziu a testa, os braços ainda cruzados.
— Fechem a matraca, cavalheiros.
Hallas olhou para a última sala que habitaria. Parecia atordoado, como se não soubesse direito onde estava nem o que estava acontecendo. McGregor colocou a mão no peito dele em um gesto reconfortante. Agora eram 11h58.
Um dos caras de jaleco branco, Bradley supôs que enfermeiro especialista em injeção intravenosa, amarrou um tubo de borracha no antebraço direito de Hallas, depois enfiou uma agulha na veia e prendeu com esparadrapo. A agulha estava ligada a um tubo intravenoso. O tubo ia até um console na parede, onde havia três lâmpadas vermelhas acesas acima de três interruptores. O segundo cara de jaleco branco foi até o console e juntou as mãos. Agora, o único movimento na câmara da morte vinha de George Hallas, que estava piscando rapidamente.
— Já começaram? — sussurrou o padre Patrick. — Não sei dizer.
— Eu também não — sussurrou Bradley. — Talvez, mas…
Ouviram um clique amplificado que fez os dois pularem (o representante legal do estado permaneceu imóvel como uma estátua). O diretor disse:
— Vocês conseguem me ouvir direito aí dentro?
O promotor fez sinal de positivo e voltou a cruzar os braços.
O diretor se virou para Hallas.
— George Peter Hallas, você foi condenado à morte por um júri de semelhantes, cuja sentença foi confirmada pela suprema corte deste estado e pela Suprema Corte dos Estados Unidos.
Como se qualquer uma das duas tivesse dito qualquer coisa sobre o assunto, pensou Bradley.
— Você quer dizer algumas palavras antes de sua sentença ser executada?
Hallas começou a balançar a cabeça para negar, depois pareceu mudar de ideia. Ele olhou pelo vidro, para a sala de observação.
— Oi, sr. Bradley. Fico feliz que tenha vindo. Preste atenção, ok? Eu teria cuidado, se fosse o senhor. Lembre-se: ele sempre vem como criança.
— Isso é tudo? — perguntou o diretor de forma quase jovial.
Hallas olhou para o diretor.
— Mais uma coisa, eu acho. Onde foi que comprou essa camisa?
O diretor Toomey piscou como se alguém tivesse borrifado água fria no seu rosto e se virou para o médico.
— Está tudo pronto?
O cara de jaleco branco ao lado do painel assentiu. O diretor recitou um monte de coisas, verificou o relógio e franziu a testa. Eram 12h01, o que os deixava com um minuto de atraso. Ele apontou para o jaleco branco como um diretor de palco dando a deixa de um ator. O jaleco mexeu nos botões, e as três luzes vermelhas ficaram verdes.
O interfone ainda estava ligado, e Bradley ouviu Hallas parafraseando o padre Patrick:
— Já começaram?
Ninguém respondeu. Não importava. Seus olhos se fecharam. Ele fez um ruído de ronco. Um minuto se passou. Outro ronco longo e irregular. Mais dois minutos. Quatro. Nenhum ronco ou movimento. Bradley olhou ao redor. O padre Patrick tinha ido embora.
9
Um vento frio de pradaria soprava quando Bradley saiu da Mansão Agulha. Ele fechou o casaco e ficou respirando fundo, tentando levar o máximo de ar puro para dentro do corpo, o mais rápido que conseguisse. Não foi a execução em si; apesar da camisa azul bizarra do diretor, a execução pareceu uma coisa tão prosaica quanto tomar vacina para tétano ou para catapora. Esse foi o verdadeiro horror da situação.
Bradley viu alguma coisa se mover pelo canto do olho, no Caminho da Galinha, onde os prisioneiros condenados faziam exercícios. Só que não era para ter ninguém lá. Os períodos de exercícios eram cancelados quando tinha uma execução marcada. McGregor contou isso a ele. E, quando ele virou a cabeça, o Caminho da Galinha estava mesmo vazio.
Bradley pensou: Ele sempre vem como criança.
Ele riu. Forçou-se a rir. Era só mais um caso plausível de nervosismo, nada além disso. Como se para provar a si mesmo que era verdade, ele tremeu.
O Volvo velho do padre Patrick já não estava mais lá. O carro dele era o único no pequeno estacionamento de visitantes adjacente à Mansão Agulha. Bradley andou alguns passos naquela direção, depois se virou de repente para o Caminho da Galinha, com a barra do sobretudo batendo nos joelhos. Não tinha ninguém lá. Claro que não, Jesus Cristo. George Hallas estava maluco, e mesmo que aquele garotinho malvado fosse real, estava morto agora. Seis tiros de .45 eram garantia de morte.
Bradley voltou a andar, mas, quando chegou ao capô do carro, parou novamente. Havia um arranhão feio do para-choque até o farol traseiro esquerdo. Alguém tinha passado a chave no seu carro. Em uma prisão de segurança máxima em que se tinha que passar por três muros e pela mesma quantidade de postos de verificação, alguém tinha riscado o carro dele com uma chave.
O primeiro suspeito de Bradley foi o promotor, que ficou sentado com os braços cruzados, um retrato da arrogância talmúdica. Mas isso não tinha lógica. O promotor teve o que queria, no fim das contas; ele viu George Hallas morrer.
Bradley abriu a porta do carro, que ele não tinha se dado ao trabalho de trancar (ali era uma prisão, afinal) e ficou parado por alguns segundos, em choque. Depois, como se controlado por uma força que não era sua, ergueu a mão lentamente até a boca e a cobriu. No banco do motorista havia um boné com uma hélice no alto. Uma das duas hélices de plástico estava torta.
Ele finalmente se inclinou e o pegou, segurando na ponta de dois dedos, como Hallas tinha feito. Bradley virou o boné. Um bilhete tinha sido colocado lá dentro, com letras tortas e inclinadas. Letra de criança.
PODE FICAR COM ESTE, EU TENHO OUTRO.
Ele ouviu uma gargalhada de criança, alta e animada. Olhou para o Caminho da Galinha, mas ainda estava vazio.
Virou o bilhete e viu outra coisa, um recado ainda mais curto.
VEJO VOCÊ EM BREVE.
Para Russ Dorr
Em The Hair of Harold Roux, provavelmente o melhor romance sobre escrita já publicado, Thomas Williams nos oferece uma metáfora impressionante, talvez até uma parábola, de como uma história nasce. Ele descreve uma planície sombria com uma pequena fogueira no meio. Uma a uma, pessoas saem do escuro para se aquecer. Cada uma delas leva um pouco de combustível, e a pequena fogueira acaba virando um fogaréu. Os personagens ficam ao redor dela, os rostos iluminados e cada um belo da própria maneira.
Uma noite, quando estava quase adormecendo, vi uma chama bem pequena, um lampião de querosene, na verdade, com um homem tentando ler um jornal à luz dele. Outros homens chegaram com seus lampiões, lançando mais luz em uma paisagem lúgubre que acabou se mostrando ser o Território de Dakota.
Tenho visões assim com frequência, embora não me sinta à vontade de admitir isso. Nem sempre conto as histórias que as acompanham; às vezes, o fogo se apaga. Esta tinha que ser contada, porque eu sabia exatamente o tipo de linguagem que queria usar: seca e lacônica, bem diferente do meu estilo habitual. Eu não fazia ideia de aonde esta história ia dar, mas tive total confiança de que a linguagem me levaria até lá. E levou.