O Bazar dos Sonhos Ruins
Trovão de verão
Robinson estava bem desde que Gandalf estivesse. Não bem no sentido de tudo estar bem, mas no sentido de ir vivendo um dia após o outro. Ele ainda acordava à noite, muitas vezes com lágrimas escorrendo pelo rosto devido aos sonhos vívidos em que Diana e Ellen estavam vivas, mas quando pegava Gandalf no cobertor no canto onde ele dormia e o colocava na cama, conseguia voltar a dormir na maioria das vezes. Quanto a Gandalf, não fazia diferença onde ele dormia, e se Robinson o puxasse para perto, tudo bem, também. Era quente, seco e seguro. Ele foi resgatado. Era só com isso que Gandalf se preocupava.
Com outro ser vivo para cuidar, as coisas estavam melhores. Robinson dirigiu até o mercado que ficava a oito quilômetros dali seguindo pela Route 19 (com Gandalf sentado no banco do carona da picape, com as orelhas erguidas e os olhos brilhando) e pegou comida de cachorro. O mercado estava abandonado, e é claro que tinha sido saqueado, mas ninguém levou Eukanuba. Depois do Seis de Junho, animais de estimação não eram prioridade na cabeça das pessoas. Foi o que Robinson deduziu.
Fora isso, os dois ficavam perto do lago. Havia bastante comida na despensa, e caixas cheias no porão. Ele costumava brincar que Diana esperava o apocalipse, mas ele é que acabou virando piada. Os dois, na verdade, porque Diana nunca deve ter imaginado que, quando o apocalipse finalmente chegasse, ela estaria em Boston com a filha deles, investigando as possibilidades acadêmicas da Emerson College. Com apenas uma boca para alimentar, os alimentos durariam mais tempo que ele. Robinson não tinha dúvida disso. Timlin disse que eles estavam condenados.
Ele nunca achou que o fim do mundo seria tão lindo. O tempo estava quente e sem nuvens. Antes, o lago Pocomtuck ficaria lotado de lanchas e jet skis (que estavam matando os peixes, os mais velhos reclamavam), mas nesse verão estava silencioso, exceto pelas mobelhas… só que parecia haver menos gritando a cada noite. Primeiro, Robinson pensou que era sua imaginação, que estava tão contaminada de dor quanto o resto do seu cérebro, mas Timlin garantiu que não era.
— Você não reparou que boa parte dos pássaros da floresta já se foi? Não tem concerto de chapins de manhã, não tem música de corvos ao meio-dia. Em setembro, as mobelhas vão ter sumido tanto quanto os malucos que fizeram isso. Os peixes vão viver um pouco mais, mas vão acabar sumindo também. Como os cervos, os coelhos e os esquilos.
Sobre a vida silvestre, não podia haver argumento. Robinson tinha visto mais de dez cervos mortos perto da estrada do lago e mais alguns junto à Route 19, no trajeto que ele e Gandalf fizeram até a Carson Corners General Store, onde a placa na frente — COMPRE SEU QUEIJO & XAROPE DE VERMONT AQUI! — estava agora caída ao lado das bombas vazias de gasolina. Mas a maior parte do holocausto animal estava na floresta. Quando o vento vinha do leste, na direção do lago em vez de a partir dele, o fedor era absurdo. Os dias quentes não ajudavam, e Robinson queria saber o que tinha acontecido com o inverno nuclear.
— Ah, vai chegar — disse Timlin, sentado na cadeira de balanço, olhando para a luz do sol manchada embaixo das árvores. — A terra ainda está absorvendo a explosão. Além do mais, baseado nos últimos relatos que temos, o hemisfério Sul, sem mencionar boa parte da Ásia, estão enfiados debaixo do que pode acabar sendo uma nuvem eterna. Aprecie o sol enquanto o temos, Peter.
Como se ele pudesse apreciar alguma coisa. Ele e Diana andavam conversando sobre uma viagem para a Inglaterra, as primeiras férias longas deles desde a lua de mel, quando Ellen estivesse adaptada na faculdade.
Ellen, pensou ele. Que estava se recuperando do rompimento com o primeiro namorado de verdade e estava começando a sorrir novamente.
Em um desses belos dias de fim de verão pós-apocalipse, Robinson botou uma guia na coleira de Gandalf (ele não fazia ideia de qual era o nome do cachorro antes do Seis de Junho; o vira-lata veio com uma coleira na qual só havia uma placa de vacinação do estado de Massachusetts), e eles andaram os três quilômetros até o condomínio caro no qual Howard Timlin era agora o único residente.
Diana uma vez chamou aquela caminhada de paraíso das fotografias. Boa parte dava vista para penhascos que iam até o lago e vistas panorâmicas de Nova York. Em determinado ponto, onde a estrada fazia uma curva abrupta, uma placa que dizia DIRIJA COM SEGURANÇA! tinha sido pendurada. Os adolescentes de verão, claro, a chamavam de Curva do Morto.
Woodland Acres, um condomínio de luxo antes do fim do mundo, ficava um quilômetro e meio depois. A propriedade central era um chalé de pedra que abrigava um restaurante com uma vista maravilhosa, um chef cinco estrelas e uma “adega de cervejas” com mil marcas diferentes. (“Muitas impossíveis de beber”, disse Timlin. “Pode acreditar.”) Espalhados ao redor do chalé principal, em vários vales arborizados, ficavam vinte e quatro “cabanas” pitorescas, algumas delas propriedade de grandes corporações antes de o Seis de Junho botar um fim em todas as corporações. A maioria das cabanas ainda estava vazia no Seis de Junho, e nos dez dias loucos que se seguiram, as poucas pessoas que estavam morando ali fugiram para o Canadá, que diziam estar livre de radiação. Isso foi quando ainda havia gasolina para tornar isso possível.
Os donos do Woodland Acres, George e Ellen Benson, ficaram. Timlin também, que era divorciado, não tinha filhos para lamentar a perda e que sabia que a história do Canadá só podia ser um boato. Depois, no começo de julho, os Benson tomaram um monte de comprimidos e foram para a cama ouvindo Beethoven em um fonógrafo a pilhas. Agora, só havia Timlin.
— Tudo que você vê é meu — disse ele para Robinson, balançando os braços graciosamente. — E, um dia, meu filho, vai ser seu.
Nessas caminhadas diárias até Acres, a dor e a sensação de deslocamento de Robinson diminuíam; a luz do sol era sedutora. Gandalf farejava os arbustos e tentava mijar em todos. Latia corajosamente quando ouvia alguma coisa no bosque, mas sempre chegava mais perto de Robinson. A coleira era necessária só por causa dos esquilos e tâmias mortos. Gandalf não queria mijar neles, mas queria se esbaldar no que havia sobrado.
Woodland Acres se separava da estrada em que Robinson morava agora em sua vida de solteiro por um portão. Ele estava ali para impedir a entrada de curiosos e da ralé assalariada como ele, mas agora o portão ficava permanentemente aberto. O caminho seguia por oitocentos metros de floresta onde a luz inclinada e poeirenta parecia quase tão velha quanto as píceas e os pinheiros enormes que a filtravam, passava por quatro quadras de tênis, contornava um gramado de golfe e um celeiro onde os cavalos agora estavam mortos nas baias. A cabana de Timlin ficava no lado mais distante do condomínio, uma moradia modesta com quatro quartos, quatro banheiros, com hidromassagem e sauna própria.
— Por que você precisa de quatro quartos se mora sozinho? — perguntou Robinson certa vez.
— Não sei nem nunca soube — disse Timlin —, mas todas as cabanas têm quatro quartos. Exceto Digitalis, Aquileia e Lavanda. Essas têm cinco. Lavanda tem pista de boliche. Todas com conveniências modernas. Mas quando eu vinha aqui quando criança com a minha família, a gente mijava numa casinha do lado de fora. Pode acreditar.
Robinson e Gandalf normalmente encontravam Timlin sentado em uma das cadeiras de balanço na varanda ampla da cabana dele (Verônica), lendo um livro ou ouvindo música no CD player a pilhas. Robinson soltava a guia da coleira de Gandalf e o cachorro, um vira-lata sem nenhuma raça reconhecível exceto pelas orelhas de cocker spaniel, corria pela escada para receber festinha. Depois de fazer carinho, Timlin puxava delicadamente o pelo branco-acinzentado do cachorro em vários pontos, e, como continuava preso na pele, ele sempre dizia a mesma coisa: “Incrível”.
Nesse belo dia em meados de agosto, Gandalf só fez uma breve visita à cadeira de balanço de Timlin, farejando os tornozelos dele antes de descer a escada e entrar no bosque. Timlin levantou a mão para Robinson no gesto de cumprimento de um índio de filme antigo.
Robinson retribuiu o cumprimento.
— Quer uma cerveja? — perguntou Timlin. — Está fresca. Acabei de tirar do lago.
— A bebida de hoje seria Old Shitty ou Green Mountain Dew?
— Nenhum dos dois. Achei uma caixa de Budweiser no depósito. O Rei das Cervejas, como você talvez lembre. Eu a libertei.
— Nesse caso, fico feliz em me juntar a você.
Timlin se levantou com um grunhido e entrou, balançando um pouco de um lado para outro. A artrite tinha elaborado um ataque sorrateiro aos quadris dele dois anos antes, ele contou para Robinson, e, não satisfeita, decidiu tomar posse dos tornozelos também. Robinson nunca perguntou, mas avaliava que Timlin devia ter setenta e tantos anos. O corpo magro sugeria uma vida em forma, mas estava começando a falhar. Robinson nunca se sentiu fisicamente melhor na vida, o que era irônico considerando os poucos motivos que ele tinha para viver. Timlin certamente não precisava dele, embora o sujeito fosse bem agradável. Quando esse verão sobrenaturalmente lindo acabasse, só Gandalf realmente precisaria dele. E tudo bem, porque, no momento, Gandalf bastava.
Só um garoto e seu cachorro, pensou ele.
O dito cachorro saiu do bosque no mês de junho, magro e enlameado, o pelo embaraçado com carrapichos e um arranhão fundo no focinho. Robinson estava deitado no quarto de hóspedes (ele não conseguia suportar dormir na cama que dividia com Diana), insone de sofrimento e depressão, ciente que estava chegando cada vez mais perto de desistir e acabar com a própria vida. Chamaria um ato desses de covarde semanas antes, mas desde então passou a reconhecer vários fatos inegáveis. A dor não acabaria. O sofrimento não passaria. E, claro, sua vida não seria longa de qualquer forma. Bastava sentir o cheiro dos animais em decomposição no bosque para saber o que havia pela frente.
Ele ouviu um barulho e achou que podia ser um ser humano. Ou um urso sobrevivente que tivesse sentido o cheiro da comida dele. Mas o gerador ainda estava funcionando, e no brilho das luzes na entrada de casa, ele viu um cachorrinho cinzento, alternadamente arranhando a porta e se encolhendo na varanda. Quando Robinson abriu a porta, o cachorro primeiro recuou, com as orelhas para trás e o rabo entre as pernas.
— Acho que é melhor você entrar — disse Robinson, e, sem muita hesitação, o cachorro entrou.
Robinson deu a ele uma tigela de água, da qual ele bebeu furiosamente, depois uma lata de carne moída, que ele comeu em cinco ou seis bocadas. Quando terminou, Robinson fez carinho nele, torcendo para não ser mordido. Em vez de morder, o cachorro lambeu sua mão.
— Você é Gandalf — disse Robinson. — Gandalf, o Cinzento.
E começou a chorar. Tentou dizer para si mesmo que estava sendo ridículo, mas não estava. Ele não estava mais sozinho.
— Alguma novidade com aquela sua motocicleta? — perguntou Timlin.
Eles já estavam na segunda cerveja. Quando Robinson terminasse a dele, ele e Gandalf fariam a caminhada de três quilômetros de volta para casa. Ele não queria demorar muito; os mosquitos atacavam no crepúsculo.
Se Timlin estiver certo, pensou ele, os sugadores de sangue vão herdar a Terra em vez de os mansos. Isso se conseguirem encontrar sangue para sugar.
— A bateria morreu — contou a Timlin. — Minha esposa me fez prometer vender a moto quando eu fizesse cinquenta anos. Ela dizia que, depois dos cinquenta, os reflexos de um homem são lentos demais para dirigir com segurança.
— E você faz cinquenta quando?
— Ano que vem — disse Robinson. E riu do absurdo da situação.
— Eu perdi um dente hoje de manhã — contou Timlin. — Pode não querer dizer nada na minha idade, mas…
— Viu sangue na privada?
Timlin tinha dito que era um dos primeiros sinais de envenenamento avançado por radiação, e sabia bem mais sobre o assunto que Robinson. O que Robinson sabia era que a esposa e a filha estavam em Boston quando as conversas frenéticas de paz em Genebra culminaram em uma explosão nuclear no dia cinco de junho, e que ainda estavam em Boston no dia seguinte, quando o mundo acabou. A costa leste dos Estados Unidos, de Hartford a Miami, agora não passava de ruínas.
— Vou recorrer à quinta emenda quanto a isso — disse Timlin. — Lá vem seu cachorro. É melhor dar uma olhada nas patas dele, ele está mancando um pouco. Parece a traseira esquerda.
Mas eles não encontraram nenhum espinho em nenhuma das patas de Gandalf, e desta vez, quando Timlin puxou delicadamente o pelo, uma área perto da anca soltou. Gandalf pareceu não sentir. Os dois homens se olharam.
— Pode ser sarna — disse Robinson. — Ou estresse. Cachorros perdem pelo quando estão estressados, sabia?
— Talvez. — Timlin estava olhando para o oeste, para o outro lado do lago. — Vai ser um lindo pôr do sol. São todos lindos agora, claro. Como quando Krakatoa entrou em erupção em 1883. Só que isso foram dez mil Krakatoas. — Ele se inclinou e fez carinho na cabeça de Gandalf.
— A Índia e o Paquistão… — disse Robinson.
Timlin se empertigou de novo.
— Ah, é. Mas todo mundo tinha que entrar na história, não foi? Até os tchetchenos tinham algumas, que levaram para Moscou em caminhões de entrega. Parece que o mundo esqueceu por vontade própria quantos países, e grupos, grupos!, tinham aquelas coisas.
— E do que aquelas coisas eram capazes — disse Robinson.
Timlin assentiu.
— Isso também. Estávamos preocupados demais com o teto de endividamento, e nossos amigos do outro lado da poça estavam se concentrando em acabar com concursos de beleza infantis e em valorizar o euro.
— Tem certeza de que o Canadá está tão contaminado quanto os quarenta e oito estados abaixo?
— É uma questão de grau, eu acho. Vermont não deve estar tão contaminada quanto Nova York, e o Canadá não deve estar tão contaminado quanto Vermont. Mas vai ficar. Além do mais, a maioria das pessoas que foi para lá já está doente. Doente até a morte, se posso alterar a citação de Kierkegaard. Quer outra cerveja?
— É melhor eu voltar. — Robinson se levantou. — Venha, Gandalf. Está na hora de queimar umas calorias.
— Nos vemos amanhã?
— Talvez no fim da tarde. Tenho uma coisa para fazer de manhã.
— Posso perguntar onde?
— Em Bennington, enquanto ainda tem gasolina suficiente na minha picape para uma viagem de ida e volta.
Timlin ergueu as sobrancelhas.
— Quero ver se consigo encontrar uma bateria para a motocicleta.
Gandalf chegou até a Curva do Morto usando as próprias pernas, embora o andar tenha ficado cada vez mais manco. Quando chegaram lá, ele simplesmente se sentou, como se para ver o pôr do sol ardente refletido no lago. Estava de um laranja fumegante entremeado de artérias vermelho-escuras. O cachorro choramingou e lambeu a perna traseira esquerda. Robinson se sentou ao lado dele por um tempo, mas quando os primeiros mosquitos pediram reforços, ele pegou Gandalf no colo e começou a andar de novo. Quando chegaram em casa, os braços de Robinson estavam tremendo e os ombros doíam. Se Gandalf pesasse mais cinco quilos, talvez mais dois e meio, ele teria que ter deixado o vira-lata na estrada para ir buscar a picape. Sua cabeça também estava doendo, talvez por causa do calor, talvez por causa da segunda cerveja, talvez por causa dos dois.
A entrada ladeada de árvores que descia até a casa era uma poça de sombras, e a casa estava às escuras. O gerador tinha se entregado aos fantasmas semanas antes. O pôr do sol tinha virado um hematoma roxo. Ele subiu na varanda e colocou Gandalf no chão para abrir a porta.
— Entre, garoto — disse ele.
Gandalf tentou se levantar, mas desistiu.
Quando Robinson estava se inclinando para pegá-lo novamente, Gandalf fez outro esforço. Desta vez, passou pela porta e desabou do outro lado, ofegante. Na parede acima do cachorro havia pelo menos vinte e quatro fotos com pessoas que Robinson amava, todas falecidas. Ele não tinha mais forças nem para ligar para os celulares de Diana e Ellen e ouvir as vozes gravadas. O celular dele morreu pouco depois do gerador, mas bem antes disso, todo o serviço de celular parou.
Ele pegou uma garrafa de água Poland Spring na despensa, encheu a tigela de Gandalf e colocou um pouco de ração também. Gandalf bebeu um pouco de água, mas não quis comer. Quando Robinson se agachou para fazer carinho na barriga do cachorro, o pelo caiu aos montes.
Está acontecendo tão rápido, pensou ele. Hoje de manhã ele estava bem.
Robinson foi até o depósito atrás da casa com uma lanterna. No lago, uma mobelha grasnou, só uma. A moto estava debaixo de uma lona. Ele puxou a lona e apontou o feixe de luz para ela, pelo corpo brilhante da moto. Era uma Fat Bob de 2014, com vários anos de idade agora, mas pouca quilometragem; seus dias de percorrer de seis a oito mil quilômetros entre maio e outubro estavam no passado. Mas a Bob ainda era sua moto dos sonhos, embora os sonhos fossem onde ele andava nela nos últimos dois anos. Motor twin cam resfriado a ar. Seis velocidades. Quase 1700 cilindradas. E o ronco que fazia! Só as Harleys fazem esse som, como trovão de verão. Quando você parava ao lado de um Chevy no sinal, o motorista lá dentro era capaz de trancar as portas.
Robinson passou a mão pelo guidão e a perna por cima do banco e se sentou com os pés nos apoios. Diana tinha ficado cada vez mais insistente para que ele a vendesse, e quando ele andava na moto, ela o lembrava de novo e de novo que Vermont tinha lei de usar capacetes por um motivo… diferentemente dos idiotas em New Hampshire e no Maine. Agora, ele podia andar sem capacete se quisesse. Diana não estava ali para pegar no pé dele nem a polícia para fazê-lo parar e lhe dar uma multa. Podia andar pelado se quisesse.
— Se bem que eu teria que ter cuidado com o escapamento quando descesse — disse, rindo. Ele entrou sem botar a lona em cima da Harley. Gandalf estava deitado na cama de cobertores que Robinson tinha feito para ele, com o focinho apoiado nas patas da frente. A ração estava intacta.
— É melhor você comer — disse Robinson, fazendo um carinho na cabeça de Gandalf. — Vai se sentir melhor.
Na manhã seguinte, havia uma mancha vermelha nos cobertores na altura da traseira de Gandalf, que embora tentasse, não conseguia ficar de pé. Depois de desistir uma segunda vez, Robinson o carregou para fora, onde Gandalf se deitou na grama, depois conseguiu levantar o bastante para se agachar. O que saiu dele foi um jorro de bosta sangrenta. Gandalf rastejou para longe como se estivesse com vergonha, depois se deitou e ficou olhando para Robinson com tristeza.
Desta vez, quando Robinson o pegou, Gandalf ganiu de dor. Mostrou os dentes, mas não tentou morder. Robinson o carregou para dentro e o colocou na cama de cobertores. Olhou para as mãos quando se levantou e viu que estavam cobertas de pelo. Quando bateu as palmas das mãos uma na outra, os pelos saíram flutuando como dente de leão.
— Você vai ficar bem — disse ele para Gandalf. — Só está meio mal do estômago. Deve ter mordido um daqueles esquilos quando eu não estava olhando. Fique aí e descanse. Você vai estar se sentindo melhor quando eu voltar.
Ainda havia meio tanque de gasolina na picape, mais do que suficiente para uma viagem de ida e volta de cem quilômetros até Bennington. Robinson decidiu ir até Woodland Acres primeiro para ver se Timlin precisava de alguma coisa.
Seu último vizinho estava sentado na varanda de Verônica na cadeira de balanço. Parecia extremamente pálido, e havia bolsas roxas sob os olhos dele. Quando Robinson contou sobre Gandalf, Timlin assentiu.
— Fiquei acordado boa parte da noite, indo ao banheiro. Acho que pegamos a mesma coisa. — Ele sorriu para mostrar que era piada, ainda que não muito engraçada.
Não, disse ele, não tinha nada que ele quisesse em Bennington, mas talvez Robinson pudesse dar uma passadinha lá na volta.
— Eu tenho uma coisa que talvez você queira — disse ele.
O trajeto até Bennington foi mais lento do que Robinson esperava, porque a estrada estava cheia de carros abandonados. Já era quase meio-dia quando ele parou o carro no estacionamento frontal da Kingdom Harley-Davidson. As vitrines tinham sido quebradas e todas as motos expostas tinham sumido, mas ainda havia muitas motos nos fundos. Essas foram protegidas de roubo por cabos de aço envoltos em plástico e cadeados pesados.
Por Robinson, tudo bem; ele só queria roubar uma bateria. A Fat Bob que escolheu era só um ano ou dois mais nova que a dele, mas a bateria parecia igual. Ele pegou a caixa de ferramentas na caçamba da picape e verificou a bateria com seu Impact (o medidor de carga foi presente da filha dois aniversários antes), e a luz ficou verde. Ele tirou a bateria, entrou no showroom e encontrou uma seleção de mapas. Usando o mais detalhado para decifrar as estradas menores, ele conseguiu voltar ao lago às três da tarde.
Viu muitos animais mortos no caminho, inclusive um alce muito grande caído ao lado dos degraus de cimento do trailer de alguém. No gramado malcuidado do trailer, uma placa pintada à mão tinha sido fixada, só com três palavras: CÉU EM BREVE.
A varanda da cabana Verônica estava vazia, mas quando Robinson bateu à porta, Timlin gritou para ele entrar. Ele estava sentado na sala rústica e luxuosa, mais pálido que nunca. Em uma das mãos, tinha um guardanapo de linho enorme. Estava com manchas de sangue. Na mesa de centro à frente havia três itens: um livro de fotografias chamado A beleza de Vermont, uma agulha hipodérmica cheia de fluido amarelo e um revólver.
— Estou feliz de você ter vindo — disse Timlin. — Eu não queria ir embora sem dizer adeus.
Robinson reconheceu o absurdo da primeira resposta que veio à mente, “Não vamos nos precipitar”, e ficou em silêncio.
— Já perdi seis dentes — disse Timlin —, mas esse não é o maior problema. Nas últimas doze horas, mais ou menos, parece que expeli a maior parte dos meus intestinos. O mais estranho é que quase não dói. As hemorroidas que me atormentaram quando eu tinha uns cinquenta anos foram piores. A dor vai vir, eu já li o bastante para saber sobre isso, mas não pretendo ficar por aqui tempo o bastante para vivenciá-la. Conseguiu a bateria que queria?
— Consegui — respondeu Robinson, e se sentou pesadamente. — Meu Deus, Howard, eu lamento pra caralho.
— Eu agradeço. E você? Como está se sentindo?
— Fisicamente? Bem.
Se bem que isso não era mais completamente verdade. Várias manchas vermelhas que não pareciam queimaduras solares estavam surgindo nos seus antebraços, e havia uma no peito, acima do mamilo direito. Coçavam. Além do mais… o café da manhã não estava voltando, mas seu estômago não parecia muito feliz com isso.
Timlin se inclinou para a frente e deu uma batidinha na seringa.
— Demerol. Eu ia injetar em mim mesmo e olhar fotos de Vermont até… até. Mas mudei de ideia. Acho que a arma vai servir. Fique com a seringa.
— Ainda não estou pronto.
— Não para você, é para o cachorro. Ele não merece sofrer. Não foram os cachorros que construíram as bombas, afinal.
— Talvez ele só tenha comido um esquilo — sugeriu Robinson com voz fraca.
— Nós dois sabemos que não é isso. Mesmo que fosse, os animais mortos estão tão cheios de radiação que daria na mesma se fosse uma cápsula de cobalto. É incrível ele ter sobrevivido por tanto tempo. Fique grato pelo tempo que teve com ele. Um pouco de graça. É isso que um bom cachorro é, sabe? Um pouco de graça.
Timlin o observou com atenção.
— Não vá começar a chorar. Se você chorar, eu também vou, então seja macho. Tem uma caixa com seis Buds na geladeira. Não sei por que me dei ao trabalho de botar lá dentro, mas os velhos hábitos custam a morrer. Por que você não pega uma para cada um de nós? Cerveja quente é melhor do que cerveja nenhuma; acredito que Woodrow Wilson disse isso. Vamos fazer um brinde a Gandalf. E à bateria nova. Enquanto isso, preciso tirar água do joelho. Quem sabe dessa vez eu tiro mais que água.
Robinson pegou a cerveja. Quando voltou, Timlin não estava, e ficou fora por quase cinco minutos. Voltou devagar, se segurando nas coisas. Tinha tirado a calça e amarrado uma toalha na cintura. Ele se sentou com um gemido de dor, mas pegou a lata de cerveja que Robinson deu para ele. Eles brindaram a Gandalf e beberam. A Bud estava quente mesmo, mas não estava tão ruim. Afinal, era o Rei das Cervejas.
Timlin pegou a arma.
— Vai ser o suicídio clássico vitoriano — disse ele, parecendo satisfeito com a perspectiva. — Arma na têmpora. A mão livre sobre os olhos. Adeus, mundo cruel.
— E eu vou entrar para o circo — disse Robinson sem pensar.
Timlin riu com vontade, repuxando os lábios e exibindo os poucos dentes que restavam.
— Seria legal, mas eu duvido. Eu já contei que fui atropelado por um caminhão quando era criança? Daqueles pequenos de entregar leite?
Robinson balançou a cabeça.
— Aconteceu em 1957. Eu tinha quinze anos, estava andando por uma estrada de terra no Michigan, a caminho da Rodovia 22, onde pretendia pegar carona até Traverse City para assistir a uma sessão dupla no cinema. Eu estava pensando em uma garota da minha turma, com pernas muito compridas e seios empinados, e me afastei da segurança relativa do acostamento. O caminhão do leiteiro veio de cima de uma colina, o motorista dirigindo rápido demais, e me acertou de frente. Se estivesse carregado, eu teria morrido, mas, como estava vazio, estava bem mais leve, me permitindo chegar aos setenta e cinco anos e ver como é cagar os intestinos em uma privada que não dá mais descarga.
Não parecia haver resposta apropriada para isso.
— Houve um brilho de sol no para-brisa do caminhão quando chegou no alto da colina, e depois… nada. Acho que vou sentir a mesma coisa quando a bala entrar no meu cérebro e destruir tudo que já pensei e vivenciei. — Ele levantou um dedo professoral. — Só que, desta vez, não vai haver outra coisa depois. Só um brilho, como o sol no para-brisa de um caminhão de leiteiro, seguido de nada. Acho a ideia ao mesmo tempo incrível e terrivelmente deprimente.
— Talvez você devesse esperar um pouco — disse Robinson. — Você pode…
Timlin esperou educadamente, com as sobrancelhas erguidas.
— Porra, sei lá. — E então, surpreendendo a si mesmo, Robinson gritou: — O que fizeram? O que aqueles filhos da puta fizeram?
— Você sabe perfeitamente bem o que eles fizeram — disse Timlin. — E agora, vivemos com as consequências. Sei que você ama aquele cachorro, Peter. É amor desviado, o que os psiquiatras chamam de histeria de conversão, mas a gente pega o que pode, e se tivermos metade de um cérebro, ficamos agradecidos. Então, não hesite. Injete no pescoço dele e injete fundo. Segure a coleira para o caso de ele se afastar.
Robinson botou a cerveja na mesa. Não a queria mais.
— Ele estava mal quando eu saí. Talvez já esteja morto.
Mas Gandalf não estava.
Ele ergueu o rosto quando Robinson entrou no quarto e balançou o rabo duas vezes no cobertor sujo de sangue. Robinson se sentou ao lado dele. Acariciou a cabeça de Gandalf e pensou na maldição do amor, que era tão simples, na verdade, quando você o encarava. Gandalf apoiou a cabeça no joelho de Robinson e olhou para ele. Robinson pegou a seringa no bolso da camisa e tirou a capa protetora da agulha.
— Você é um bom menino — disse ele, e segurou a coleira de Gandalf, como Timlin instruíra.
Enquanto tomava coragem para ir até o fim, ele ouviu um tiro. O som foi baixo àquela distância, mas, com o lago tão parado, não dava para confundir com outra coisa. Espalhou-se pelo ar quente de verão, diminuído, tentou ecoar, falhou. Gandalf levantou as orelhas, e uma ideia ocorreu a Robinson, tão reconfortante quanto absurda. Talvez Timlin estivesse errado sobre o nada. Era possível. Em um mundo em que você podia levantar o rosto e ver um corredor infinito de estrelas, ele achava que qualquer coisa era. Talvez…
Talvez.
Gandalf ainda estava olhando para ele quando Robinson enfiou a agulha no pescoço dele. Por um momento, os olhos do cachorro continuaram brilhantes e cientes, e no momento eterno antes do brilho sumir, Robinson teria voltado atrás se pudesse.
Ele ficou sentado no chão por bastante tempo, torcendo para ouvir aquela última mobelha mais uma vez, mas não ouviu. Depois de um tempo, ele foi até o depósito, encontrou uma pá e cavou um buraco no jardim da esposa. Não havia necessidade de ser fundo; nenhum animal ia aparecer para cavar até chegar a Gandalf.
Quando acordou na manhã seguinte, Robinson sentiu gosto de cobre na boca. Quando levantou a cabeça, a bochecha estava meio grudada no travesseiro. O nariz e as gengivas tinham sangrado durante a noite.
Era mais um lindo dia, e apesar de ainda ser verão, as primeiras folhas começaram a perder a cor. Robinson empurrou a Fat Bob de dentro do abrigo e trocou a bateria, trabalhando lenta e cuidadosamente no silêncio sobrenatural.
Quando terminou, virou o botão. A luz verde neutra se acendeu, mas piscou um pouco. Ele desligou o botão, apertou as conexões e tentou de novo. Desta vez, a luz ficou firme. Ele acionou a ignição, e aquele som, trovão de verão, estilhaçou o silêncio. Parecia sacrilégio, mas, e isso era estranho, de um jeito bom.
Robinson não ficou surpreso de se pegar pensando na primeira e única viagem que fez para a reunião anual de motos em Sturgis, na Dakota do Sul, em 1998, o ano anterior ao que ele conheceu Diana. Ele se lembrava de seguir lentamente pela avenida Junction na Honda GB 500, só mais uma moto em um desfile de duas mil, o rugido combinado de todas as motos tão alto que parecia uma coisa viva. Mais tarde, na mesma noite, houve uma fogueira, e um fluxo infinito de Stones e AC/DC e Metallica soando nas pilhas de amplificadores Marshall que pareciam Stonehenge. Garotas tatuadas dançavam de topless na luz do fogo; homens barbados bebiam cerveja de dentro de elmos bizarros; crianças decoradas com tatuagens de decalque corriam para todo o lado, agitando velas de faíscas. Foi apavorante e incrível e maravilhoso, tudo que era certo e errado no mundo no mesmo lugar e em foco perfeito. Acima, aquele corredor de estrelas.
Robinson acelerou a Fat Boy, depois soltou o acelerador. Apertou e soltou. Apertou e soltou. O odor intenso de gasolina recém-queimada encheu o ar da frente da casa. O mundo era uma casca moribunda, mas o silêncio foi banido, pelo menos por enquanto, e isso era bom. Era ótimo. Foda-se, silêncio, pensou ele. Foda-se você e o cavalo no qual veio montado. Este é o meu cavalo, meu cavalo de ferro, e o que você acha dele?
Ele apertou a embreagem e mudou para a primeira marcha. Saiu rodando pela entrada, virou para a direita e mudou a marcha, primeiro para segunda e depois para terceira. A estrada era de terra e tinha raízes em algumas partes, mas a moto enfrentava raízes com facilidade, levantando Robinson no assento. O nariz dele estava sangrando de novo; o sangue escorria pelas bochechas e voava para trás em gotas fartas. Ele fez a primeira curva e a segunda, virando mais agora, chegando à quarta marcha quando entrou em uma linha reta. A Fat Bob estava ansiosa para rodar. Tinha ficado guardada por tempo demais, pegando poeira. À direita de Robinson, ele via o lago Pocomtuck pelo canto do olho, ainda um espelho, o sol criando filetes amarelo-dourados no azul. Robinson soltou um grito e balançou o punho para o céu, para o universo, antes de voltar a mão para o guidão. À frente estava a curva com a placa de DIRIJA COM SEGURANÇA! que marcava a Curva do Morto.
Robinson mirou a placa e girou o acelerador até o final. Só teve tempo de passar a quinta marcha.
Para Kurt Sutter e Richard Chizmar
Você terminou O Bazar dos Sonhos Ruins
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