O Bazar dos Sonhos Ruins
Fogos de artifício e bebedeira
Depoimento dado pelo sr. Alden McCausland
Departamento de Polícia do Condado de Castle
Depoimento dado ao Chefe de Polícia Andrew Clutterbuck
A policial Ardelle Benoit, que efetuou a prisão, também está presente
11h15-13h20
5 de julho de 2015
Sim, dá para dizer que mamãe e eu bebemos muito e fomos muito para o lago depois que papai morreu. Não tem lei contra isso, tem? Se você não estiver atrás do volante, claro, e isso nós nunca fizemos. E nós tínhamos dinheiro, porque naquela época já vivíamos de renda. Nunca teria esperado isso, papai foi carpinteiro a vida toda. Dizia que era um “carpinteiro qualificado”, e mamãe sempre acrescentava “pouco qualificado e muito destilado”. Era a piadinha dela.
Mamãe trabalhava na floricultura Royce na rua Castle, mas só em novembro e dezembro era em tempo integral; tinha mãos habilidosas com guirlandas de Natal e também não era ruim com coroas funerárias. Ela fez a de papai, sabia? Tinha uma fitinha amarela que dizia COMO O AMÁVAMOS. Quase bíblico, não acham? As pessoas choraram quando viram, até aquelas para quem papai devia dinheiro.
Quando terminei o ensino médio, fui trabalhar na Oficina do Sonny, alinhando rodas, trocando óleo e remendando pneus furados. No começo, eu também botava gasolina, mas claro que agora é cada um por si. Eu também vendia maconha, é melhor admitir logo. Não faço isso há anos, então acho que vocês não podem me acusar disso, mas nos anos 1980 era um bom negócio, principalmente por essas áreas. Sempre ganhava uma graninha na sexta ou no sábado à noite. Eu gosto da companhia de mulheres, mas fiquei longe do altar, pelo menos até agora. Acho que, se tenho ambições, uma seria ver o Grand Canyon e outra seria me tornar o que chamam de solteirão. É mais fácil assim. Além do mais, pude ficar de olho na mamãe. Vocês sabem o que dizem: a melhor amiga de um garoto é sua…
Eu vou chegar na história, Ardelle, mas, se vocês querem ouvir, vão ter que me deixar contar do meu jeito. Se alguém devia ter um pouco de solidariedade para ouvir a história completa, essa pessoa é você. Quando estudávamos juntos na escola, você não calava a boca. A língua caída no meio e se movendo dos dois lados, a sra. Fitch dizia. Lembra-se dela? No quarto ano. Que figura! Lembra quando você colocou chiclete na ponta do sapato dela? Ha!
Onde eu estava? No lago, né? O lago Abenaki.
Não passa de um chalé de três quartos com um trechinho de praia e um píer velho. Papai comprou em 1991, eu acho, quando ganhou um dinheiro extra com um trabalho. Não foi o bastante para a entrada, mas quando acrescentei a renda dos meus remédios de erva, nós conseguimos pagar. Mas o lugar era bem ruim, admito. Mamãe chamava de Buraco de Mosquito. Nós nunca ajeitamos a casa, mas papai fez os pagamentos regularmente. Quando faltava, mamãe e eu ajudávamos. Ela reclamava de ter que dar o dinheiro que ganhava com as flores, mas nunca muito; ela gostava de ir para lá desde o começo, mesmo com os insetos e a goteira no telhado. Nós nos sentávamos no deque e fazíamos piquenique e víamos o mundo passar. Mesmo na época ela não dizia não para uma lata ou uma garrafa ou para conhaque de café, apesar de naquela época ela só beber nos fins de semana.
O chalé foi quitado por volta da virada do século, e por que não? Ficava no lado da cidade do lago, o lado oeste, e vocês dois sabem como é lá, cheio de junco e raso, com muito mato. O lado leste é melhor, com as casas grandes que os veranistas têm que ter, e imagino que eles olhavam para a favela do nosso lado, nossos barracos e chalés e trailers, e diziam uns para os outros que era uma pena como os locais tinham que viver, sem nem uma quadra de tênis. No que nos dizia respeito, nós éramos tão bons quanto todo mundo. Papai pescava um pouco na beira do píer, e mamãe cozinhava o que ele pegava no fogão a lenha, e depois de 2001 (talvez tenha sido 2002), tínhamos água corrente e não precisávamos mais ir até a casinha no meio da noite. Igual todo mundo.
Nós achávamos que haveria um pouco mais de dinheiro para os consertos quando o chalé estivesse pago, mas nunca parecia ter; a forma como desaparecia era um mistério, porque na época havia muitos empréstimos de banco para pessoas que queriam construir, e papai tinha emprego fixo. Quando ele morreu de ataque cardíaco no meio de um trabalho em Harlow, em 2002, mamãe e eu pensamos que estávamos ferrados. “Mas vamos dar um jeito”, disse ela, “e se era com prostitutas que ele estava gastando dinheiro, não quero nem saber.” Mas ela disse que teríamos que vender o chalé em Abenaki se conseguíssemos encontrar alguém louco o bastante para comprá-lo.
— Vamos tentar vender na primavera — disse ela —, antes que os borrachudos se reproduzam. Tudo bem para você, Alden?
Eu disse que sim, e nós até trabalhamos para dar uma melhorada. Chegamos a trocar as telhas e substituir as piores tábuas podres do píer, e foi quando tivemos nosso primeiro golpe de sorte.
Mamãe recebeu uma ligação de uma companhia de seguros de Portland e descobriu por que nunca parecia haver dinheiro sobrando mesmo depois que o chalé e o hectare onde ele ficava estavam pagos. Não eram prostitutas; papai botou todo o dinheiro extra em um seguro de vida. Talvez tenha tido o que chamam de premonição. Coisas estranhas acontecem no mundo todos os dias, como chuvas de sapos e o gato de duas cabeças que vi na Feira do Condado de Castle e que me deu pesadelos, de verdade, ou aquele monstro do lago Ness. Fosse o que fosse, tínhamos setenta e cinco mil dólares que nunca esperamos caindo do céu em nossa conta do banco Key.
Esse foi o Golpe de Sorte Número Um. Dois anos depois dessa ligação, quase dois anos exatos, aconteceu o Golpe de Sorte Número Dois. Mamãe tinha o hábito de comprar raspadinhas de cinco dólares uma vez por semana, depois que fazia as compras no Normie’s SuperShop. Durante anos ela fez isso e nunca ganhou mais que vinte dólares. Um dia, em 2004, ela conseguiu um 27 em cima e um 27 embaixo em uma raspadinha Big Maine Millions, e Jesus Cristo de bicicleta, ela descobriu que essa combinação valia duzentos e cinquenta mil dólares.
— Eu achei que ia mijar na calça — disse ela.
Colocaram a foto dela na vitrine do SuperShop. Vocês talvez lembrem, ficou lá por uns dois meses.
Um quarto de milhão! Estava mais para cento e vinte mil depois que pagamos os impostos, mas mesmo assim. Nós investimos na Sunny Oil, porque mamãe disse que petróleo sempre seria um bom investimento, pelo menos até acabar, e nós já estaríamos mortos quando isso acontecesse. Eu tive que concordar com ela, e deu tudo certo. Foram anos prósperos no mercado de ações, como vocês talvez lembrem, e foi quando começamos nossa vida de lazer.
Também foi quando começamos a beber pra valer. A gente bebia um pouco na casa da cidade, mas não tanto assim. Vocês sabem como os vizinhos gostam de fofocar. Só quando começamos a passar boa parte do tempo no Buraco de Mosquito que começamos a pegar pesado. Mamãe largou a floricultura de vez em 2009, e eu dei adeus para remendar pneus e substituir silenciadores um ano depois, mais ou menos. Depois disso, não tínhamos muitos motivos para morar na cidade, pelo menos até o inverno. Lá no lago não tinha aquecimento. Em 2012, quando nosso problema com os carcamanos do outro lado do lago começou, nós íamos para lá uma semana ou duas antes do Memorial Day e ficávamos até o dia de Ação de Graças, mais ou menos.
Mamãe ganhou peso, uns setenta quilos, mais ou menos, e acho que boa parte disso foi por causa do conhaque de café. Não chamam de bunda gorda no copo por nada. Mas ela dizia que nunca tinha sido uma Miss América mesmo, nem mesmo uma Miss Maine.
— Sou uma mulher aconchegante — ela gostava de dizer.
O que Doc Stone gostava de dizer, ao menos até ela parar de ir ao seu consultório, era que ela ia ser uma mulher que morreria jovem se não parasse de beber Allen.
— Você é um ataque cardíaco esperando para acontecer, Hallie — disse ele. — Ou uma cirrose. Já tem diabetes tipo dois, não basta? Vou ser franco: você precisa parar de beber e precisa dos Alcoólicos Anônimos.
— Ufa! — disse mamãe quando voltou. — Depois de uma bronca dessas, preciso de um gole. E você, Alden?
Eu disse que também queria, então levamos nossas cadeiras de jardim para o pequeno píer, como costumávamos fazer, e enchemos a cara enquanto víamos o sol se pôr. Tão bem quanto qualquer um e melhor que muita gente. E, vejam bem: alguma coisa vai matar todo mundo, não estou certo? Os médicos sempre se esquecem disso, mas mamãe sabia.
— O filho da puta macrobiótico deve estar certo — disse ela enquanto andávamos de volta até o chalé. Isso foi por volta das dez da noite, e nós dois estávamos cheios de picadas apesar de termos passado repelente no corpo todo. — Mas, pelo menos, quando eu for, vou saber que vivi. E eu não fumo, todo mundo sabe que isso é o pior. Não fumar deve me manter viva por um tempo, mas e você, Alden? O que você vai fazer quando eu morrer e o dinheiro acabar?
— Não sei — respondi —, mas eu gostaria de ver o Grand Canyon.
Ela riu, bateu com o cotovelo nas minhas costelas e disse:
— Esse é meu menino. Você nunca vai ter uma úlcera no estômago com essa atitude. Agora, vamos dormir.
E nós dormimos e acordamos por volta das dez do dia seguinte, e começamos a medicar as ressacas por volta do meio-dia com Muddy Rudders. Eu não me preocupava tanto com mamãe quanto o médico; achei que ela estava se divertindo demais para morrer. No fim das contas, ela viveu mais do que Doc Stone, que foi atropelado e morto por um motorista bêbado na ponte Pigeon certa noite. Podem chamar de ironia ou de tragédia ou de fato da vida. Eu não sou filósofo. Só fiquei feliz de o doutor não estar com a família junto. E espero que eles tenham recebido o seguro.
Pois então, esse é o pano de fundo. É agora que as coisas começam a acontecer.
Os Massimos. E aquele trompete de merda, perdoe meu français.
Eu chamo de corrida armamentista do Quatro de Julho, e apesar de a corrida só ter começado a esquentar em 2013, o início de verdade foi no ano anterior. Os Massimos eram donos da casa diretamente em frente à nossa do outro lado do lago, uma casa branca grande com pilares e um gramado que ia até a praia, que era de areia branquinha em vez de cascalho como a nossa. Aquela casa devia ter uns doze quartos. Vinte ou mais se contar o chalé de visitas. Eles chamavam de Propriedade Doze Pinheiros, por conta dos abetos ao redor da casa principal, isolando um pouco o local.
Propriedade! Jesus amado, aquilo era uma mansão. E, sim, eles tinham uma quadra de tênis. E de badminton e um lugar do lado para jogar ferraduras. Iam para lá no fim de junho e ficavam até o Labor Day, depois fechavam tudo. Um lugar daquele tamanho, e eles deixavam vazio durante nove meses no ano. Eu não conseguia acreditar. Mas mamãe conseguia. Ela dizia que nós éramos “ricos por acidente”, mas os Massimos eram ricos de verdade.
— Só que é riqueza ilegal, Alden — disse ela —, e não estou falando de uma plantaçãozinha de maconha. Todo mundo sabe que Paul Massimo tem CONTATOS. — Ela sempre falava assim, em maiúsculas.
Supostamente, o dinheiro vinha da Massimo Construções. Eu pesquisei na internet, e parecia estar na legalidade, mas eles eram italianos, e a Massimo Construções tinha sede em Providence, Long Island, e vocês são policiais, podem juntar os pontos. Como mamãe sempre dizia, quando se soma dois mais dois, nunca dá cinco.
Eles usavam todos os quartos da grande casa branca quando estavam lá, vou dizer só isso. E os do “chalé de visitas” também. Mamãe olhava para o outro lado do lago e fazia um brinde com Sombrero ou Muddy Rudder e dizia que os Massimos eram vendidos no atacado.
Eles sabiam se divertir, isso eu tenho que admitir. Havia churrascos, futebol de sabão e adolescentes andando de jet ski. Eles deviam ter uns seis, com cores tão fortes que queimavam os olhos se você olhasse por muito tempo. À noite, brincavam de futebol americano, normalmente havia Massimos suficientes para fazer dois times de onze, e quando ficava escuro demais para ver a bola, eles cantavam. Dava para ver pelo jeito como gritavam as músicas, muitas vezes em italiano, que eles também gostavam de uma bebida ou três.
Um deles tinha um trompete, e tocava junto com as músicas, só wah-wah-wah, o bastante para fazer os olhos lacrimejarem.
— Dizzy Gillespie ele não é mesmo — dizia mamãe. — Alguém devia mergulhar esse trompete em azeite e enfiar no cu dele. Ele poderia peidar “Deus Salve a América”.
Por volta das onze, ele tocava “Taps”, e essa era a última da noite. Não sei se algum dos vizinhos teria reclamado mesmo que a cantoria e o trompete tivessem continuado até as três da manhã, não quando a maioria das pessoas do nosso lado do lago achava que ele era o Tony Soprano da vida real.
Chegou o Quatro de Julho daquele ano, e estou falando de 2012, e eu tinha algumas estrelinhas, dois ou três pacotes de fogos Black Cat e duas bombinhas. Comprei com Pop Anderson no Mercado das Pulgas Alegres de Anderson, na estrada para Oxford. Isso também não é dedurar. A não ser que vocês sejam burros, e sei que não são. Todo mundo sabia que dava para comprar fogos de artifício nas Pulgas Alegres. Mas Johnny só vendia coisas pequenas, porque na época a compra e a venda de fogos de artifício era contra a lei.
Todos aqueles Massimos estavam correndo pelo lago, jogando futebol americano e tênis e puxando as sungas uns dos outros na bunda, os pequenos só no raso, os maiores mergulhando das boias. Eu e mamãe estávamos na beirada do píer em nossas cadeiras, tranquilos, com nossos suprimentos patrióticos ao lado. Quando o crepúsculo chegou, eu dei uma estrelinha para ela, acendi, e acendi a minha a partir da dela. Nós as giramos ao entardecer, e em pouco tempo os pequeninos do outro lado viram e começaram a pedir os deles. Os dois garotos Massimo mais velhos distribuíram e acenaram para nós. As estrelinhas deles eram maiores e duravam mais que as nossas, e as cabeças foram tratadas com algum tipo de produto químico que fazia com que brilhassem em cores diferentes enquanto as nossas eram só amareladas e brancas.
O carcamano com o trompete tocou, wah-wah, como se dizendo: “Estrelinhas de verdade são assim”.
— Tudo bem — disse mamãe. — As estrelinhas deles podem ser maiores, mas vamos soltar uns fogos e ver o que eles acham.
Acendemos um a um e jogamos, para que estourassem e brilhassem antes de caírem no lago. Os garotos nos Doze Pinheiros viram e começaram a pedir de novo. Um dos homens Massimo entrou na casa e voltou com uma caixa. Estava cheia de fogos. Em pouco tempo, os maiores estavam acendendo um pacote de cada vez. Eles deviam ter uns duzentos pacotes, que queimaram como fogo de metralhadora, o que fez os nossos parecerem bem sem graça.
Wah-wah, fez o trompete, como se dizendo: “Tentem de novo”.
— Bom, que seja — disse mamãe. — Me dê uma das bombas que você está guardando, Alden.
— Tá. Mas tome cuidado, mãe. Você já bebeu bem, e talvez ainda queira ter todos os dedos amanhã de manhã.
— Me dá uma e não banca o espertinho — retrucou ela. — Eu não caí no feno ontem e não gosto do som daquele trompete. Aposto que eles não têm isso, porque Pop não vende para intrusos. Ele vê as placas nos carros e diz que acabou.
Dei uma para ela e acendi com meu isqueiro Bic. O pavio brilhou, e ela jogou no ar. Explodiu com um brilho intenso o bastante para machucar os olhos, e o estrondo ecoou por todo o lago. Eu acendi a outra e joguei para o alto como Roger Clemens. Bang!
— Pronto — disse mamãe. — Agora, eles sabem quem é que manda.
Mas aí, Paul Massimo e seus dois filhos mais velhos foram até o fim do píer. Um deles, um sujeito grande e bonito de camisa de rúgbi, estava com aquele trompete em um tipo de alça, preso no cinto. Eles acenaram para nós, e o coroa deu uma coisa para cada um dos garotos. Eles seguraram a coisa para poderem acender os pavios. Jogaram em cima do lago e… meu Deus! Não foi bang, mas bum! Dois buns, altos como dinamite, com brilhos brancos intensos.
— Isso não é bomba — eu disse. — É M-80.
— Onde eles conseguiram? — perguntou mamãe. — Pop não vende isso.
Nós nos olhamos e não precisamos nem falar: em Rhode Island. Devia dar para comprar qualquer coisa em Rhode Island. Pelo menos, se seu nome fosse Massimo.
O coroa deu outro para cada um e os acendeu. E acendeu um para si. Três buns, altos o bastante para assustar todos os peixes do Abenaki para o lado norte, sem dúvida. Paul acenou para nós, o sujeito do trompete o tirou da alça como uma arma e tocou três sopros longos: Waaaah… waaaah… waaaah. Como se dizendo: “Sinto muito, seus ianques de merda, boa sorte ano que vem”.
E não tinha nada que a gente pudesse fazer. Nós tínhamos outro pacote de Black Cat, mas não teriam a menor graça depois daqueles M-80. E, do outro lado, aquele grupo de carcamanos estava aplaudindo e comemorando, as garotas pulando de biquíni. Em pouco tempo, eles começaram a cantar “Deus Abençoe a América”.
Mamãe olhou para mim e eu olhei para ela. Mamãe balançou a cabeça e eu balancei a minha. Ela disse:
— Ano que vem.
— É — respondi. — Ano que vem.
Ela levantou o copo e, pelo que me lembro, estávamos bebendo Bucket Lucks naquela noite, e eu levantei o meu. Nós brindamos à vitória em 2013. E foi assim que começou a corrida armamentista do Quatro de Julho. E acho que a culpa mesmo foi da porra do trompete.
Perdão pelo meu français.
No ano seguinte, fui até Pop Anderson e expliquei minha situação; falei que sentia que a honra do lado oeste do lago tinha que ser recuperada.
— Bem, Alden — disse ele —, não sei o que acender pólvora tem a ver com honra, mas negócios são negócios, e se você voltar em uma semana, mais ou menos, eu talvez tenha uma coisa para você.
Eu fiz exatamente isso. Ele me levou até a sala dele e colocou uma caixa na mesa. Tinha um monte de caracteres chineses.
— Normalmente, eu não vendo isso — disse ele —, mas sua mãe e eu nos conhecemos desde a escola de alfabetização, quando ela soletrava para mim perto do fogão a lenha e me ajudava com a tabuada. Tenho umas bombas que chamam de M-120, e não tem nada muito maior no que diz respeito a barulho, a não ser que vocês queiram começar a jogar bananas de dinamite. E tem também doze desses.
Ele pegou um cilindro que estava em cima de um tubo vermelho.
— Isso parece um busca-pé — eu falei —, só que maior.
— É, pode chamar esse de modelo de luxo — disse ele. — São chamados de peônias chinesas. Voam duas vezes mais alto e fazem um brilho danado, alguns vermelhos, alguns roxos, alguns amarelos. Você coloca em uma garrafa de Coca-Cola ou de cerveja, como com um busca-pé normal, mas tem que ficar bem longe, porque o pavio vai espalhar fagulhas para todo o lado quando decolar. Fique com uma toalha por perto para não botar fogo na vegetação.
— Ótimo. Ninguém vai tocar trompete quando vir isso.
— Vendo a caixa toda por trinta dólares — disse Pop. — Sei que é caro, mas também coloquei alguns Black Cats e algumas estrelinhas. Você pode colocar esses em pedaços de madeira e deixar flutuando no lago. São bem lindos.
— Está bom pra mim — respondi para ele. — Seria barato até pelo dobro desse preço.
— Alden, não se deve falar isso para um sujeito na minha linha de trabalho.
Eu levei os fogos de artifício para casa, e mamãe ficou tão empolgada que queria acender uma das M-120 e uma das peônias chinesas na hora. Eu não costumava contrariar minha mãe, ela era capaz de morder a gente no tornozelo, mas fiz dessa vez.
— Se dermos a esses Massimos a menor chance, eles vão arrumar alguma coisa melhor — eu disse.
Ela pensou no assunto, me deu um beijo na bochecha e disse:
— Sabe, para um garoto que mal terminou o ensino médio, você tem a cabeça no lugar, Alden.
Chega o glorioso Quatro de Julho de 2013. Todo o clã Massimo estava reunido em Doze Pinheiros e, como sempre; devia haver mais de vinte e quatro, e eu e minha mãe estávamos na beirada do nosso píer nas nossas cadeiras. Estávamos com nossa caixa entre nós, junto com uma jarra de bom tamanho de Orange Driver.
Em pouco tempo, Paul Massimo vai para a beirada do píer com a caixa dele, um pouco maior que a nossa, mas isso não me preocupou. Não é o tamanho do cachorro na briga, sabe, mas quanto de briga tem dentro do cachorro. Os dois garotos mais velhos estavam junto. Eles acenaram, e nós acenamos em resposta. O crepúsculo chegou, e eu e mamãe começamos a disparar os Black Cats, não um a um desta vez, mas por pacote. Os garotinhos fizeram a mesma coisa do lado deles e, quando ficaram cansados, acenderam estrelinhas grandes e as balançaram. O filho com o trompete soprou duas vezes, meio que afinando.
Um grupo dos mais novos ouviu e foi para o píer de Doze Pinheiros, e depois de conversar um pouco, Paul e os garotos mais velhos deram uma bola cinza grande que reconheci como sendo M-80 para cada um. O som se propaga muito bem pelo lago, principalmente quando não tem brisa, e ouvi Paul dizendo para os menores para tomarem cuidado e demonstrando como eles iam jogar aquilo no lago. E então, Massimo acendeu.
Três dos garotos jogaram alto, longe e lindamente, como deveriam, mas o mais novo, que não devia ter mais de sete anos, acabou bancando o Nolan Ryan e jogou no píer bem diante dele. Quicou, e teria arrancado seu nariz se Paul não o tivesse puxado na hora. Algumas mulheres gritaram, mas Massimo e os garotos só caíram na gargalhada. Acho que deviam ter bebido, e não foi pouco. Vinho, provavelmente, porque é isso que os carcamanos gostam de beber.
— Tudo bem — disse mamãe —, chega de brincar. Vamos mostrar para eles antes que o alto comece a tocar a porcaria da corneta.
Eu peguei dois M-120, que eram pretos e pareciam as bombas que se vê às vezes naqueles desenhos animados, as que o vilão usa para explodir trilhos de trem e minas de ouro e essas coisas.
— Tome cuidado, mãe — pedi. — Se você segurar demais uma coisa assim, perde mais do que os dedos.
— Não se preocupe comigo. Vamos mostrar a esses comedores de espaguete que não é para se meterem com a gente.
Eu acendi, e nós jogamos as bombas, e ka-pow! Uma depois da outra! O bastante para sacudir janelas até Waterford, talvez. O senhor tocador de corneta parou com o trompete a caminho dos lábios. Alguns dos pequenos começaram a chorar. Todas as mulheres correram até a praia para ver o que estava acontecendo, se eram terroristas ou o quê.
— Eles não estavam esperando por isso! — disse mamãe, e fez um brinde ao jovem tocador de corneta, com o trompete na mão e o polegar no cu. Não de verdade, sabe, é jeito de falar.
Paul Massimo e os dois filhos voltaram para a extremidade do píer, e lá se reuniram como um bando de jogadores de beisebol quando as bases estão ocupadas. Depois, todos andaram até a casa juntos. Achei que eles tinham terminado, e mamãe tinha certeza. Então, acendemos as estrelinhas só para comemorar. Eu tinha cortado quadrados de isopor de um material de embalagem que encontrei no balde de lixo nos fundos do chalé, e colocamos neles e empurramos para a água. Àquela altura, o céu estava naquele tom roxo de logo antes do anoitecer, muito lindo, com a estrela dos desejos no céu e as outras prontas para aparecer. Não era dia nem noite, a hora mais bonita que tem, é o que eu acho. E as estrelinhas, elas eram mais que bonitas. Eram lindas, flutuando em vermelho e verde, oscilando como a chama de uma vela e refletindo sua luz na água.
Ficou silencioso de novo também, tão silencioso que dava para ouvir o estalo do show de fogos começando em Bridgeton, e os sapos coaxando no lago. Os sapos achavam que o barulho e a agitação da noite tinham acabado. Mal sabiam eles, porque nessa hora Paul e os dois filhos mais velhos voltaram para o píer e olharam para nós. Paul estava com uma coisa quase do tamanho de uma bola de softball na mão, e o garoto grande sem o trompete, o que o tornava o mais inteligente dos dois na minha opinião, acendeu. Massimo não desperdiçou tempo e o jogou para o alto, acima da água, e antes que eu pudesse dizer para mamãe cobrir os ouvidos, o troço explodiu. Jesus amado, o brilho pareceu obliterar o céu, e a explosão foi alta como uma bala de artilharia. Desta vez, não foram só as mulheres e as garotas Massimo que saíram para ver, mas quase todo mundo do lago. E apesar de metade provavelmente ter mijado na calça quando aquela porra explodiu, eles aplaudiram! Vocês acreditam nisso?
Mamãe e eu nos olhamos, porque nós sabíamos o que vinha agora, e veio mesmo: o capitão corneta levantou a porra do trompete e soprou na nossa direção, um ruído longo: Waaaaaaah!
Todos os Massimos riram e aplaudiram mais ainda, e todo mundo dos dois lados da água. Era muita humilhação. Dá para entender isso, não dá, Andy? Ardelle? Nós fomos superados por um bando de latachos de Rhode Island. Não que eu não goste de um prato de espaguete de tempos em tempos, mas todos os dias? Não!
— Tudo bem, tá — disse mamãe, empertigando os ombros. — Eles podem explodir mais alto que a gente, mas a gente tem aquelas peônias chinesas. Vamos ver o que eles acham.
Mas vi no rosto dela que ela achava que eles poderiam nos superar de novo.
Coloquei doze latas de cerveja e de refrigerante na ponta do nosso píer e coloquei uma peônia em cada um. Os homens Massimo estavam do outro lado nos olhando, e aí o que achava que não conseguia tocar trompete correu até a casa para buscar mais munição.
Enquanto isso, eu passei o isqueiro pelos pavios, um atrás do outro, e as peônias chinesas se acenderam uma após a outra, sem falhar. Eram bem lindas, mas não duraram muito. Com todas as cores do arco-íris, como Pop prometeu. Houve oohs e aahs, alguns dos Massimos, tenho que admitir, e então o jovem que correu para a casa voltou com outra caixa.
Acabou que estava cheia de fogos parecidos com nossas peônias chinesas, mas maiores. Tinham até uma plataforma de lançamento de papelão. Nós conseguíamos ver porque havia iluminação acesa na beirada do píer dos Massimos, sabe aquelas tochas elétricas? Paul acendeu os foguetes, e eles voaram, fazendo explosões douradas no céu duas vezes maiores e mais brilhantes que as nossas. Eles brilharam e fizeram barulho de metralhadora quando caíram. Todo mundo aplaudiu ainda mais, e claro que eu e mamãe tivemos que aplaudir também, senão achariam que éramos maus perdedores. E o trompete tocou: waaaaaaah-waaaaaaah-waaaaaaah.
Mais tarde, depois de acendermos todas as nossas coisas, mamãe foi batendo pé para a cozinha de camisola e chinelos de pano, com fumaça saindo pelas orelhas.
— Onde eles conseguiram armamento daquele? — perguntou ela, mas era o que se chama de pergunta retórica, e ela não me deu tempo de responder. — Com os amigos bandidos de Rhode Island, só pode ser. Porque ele tem CONTATOS. E é uma daquelas pessoas que têm que vencer em tudo! Dá para saber só de olhar!
Igual a você, mãe, pensei, mas não falei em voz alta. Às vezes, o silêncio é precioso, principalmente quando sua mãe encheu a cara de conhaque de café Allen e está com mais raiva do que uma galinha molhada.
— E odeio aquela porcaria de trompete. Odeio de verdade.
Eu concordava com ela nisso.
Ela me segurou pelo braço, entornando sem querer a última bebida da noite na parte da frente da minha camisa.
— Ano que vem! — disse ela. — Nós vamos mostrar para eles quem manda ano que vem. Prometa pra mim que vamos calar aquele trompete em 2014, Alden.
Eu prometi tentar, era o melhor que podia fazer. Paul Massimo tinha todos os seus recursos em Rhode Island, e o que eu tinha? Pop Anderson, dono de um mercadinho de beira de estrada ao lado de uma loja de tênis com desconto.
Mesmo assim, fui até ele no dia seguinte e expliquei o que aconteceu. Ele ouviu e teve a cortesia de não rir, embora a boca tenha tremido algumas vezes. Estou disposto a aceitar que tenha um lado engraçado, pelo menos até ontem à noite, mas não tanto quando se tinha Hallie McCausland bufando no seu cangote.
— É, consigo ver que isso deixaria sua mãe louca — disse Pop. — Ela sempre ficava furiosa quando alguém tentava superá-la. Mas, pelo amor de Deus, Alden, são só fogos de artifício. Quando ela ficar sóbria, vai perceber isso.
— Acho que não, Pop — respondi, sem querer acrescentar que mamãe nunca ficava sóbria agora, só ia de alta a bêbada, a apagada, a de ressaca e começava tudo de novo. Não que eu fosse muito melhor. — Não é tanto pelos fogos, mas pelo trompete, sabe? Se ela conseguisse calar aquela porra de trompete no Quatro de Julho, já ficaria satisfeita.
— Bom, eu não posso ajudar — disse Pop. — Tem muitos outros fogos maiores à venda por aí, mas eu não os compro. Primeiro, porque não quero perder minha licença. E também não quero ver ninguém se machucar. Bêbados acendendo explosivos sempre é receita para desastre. Mas, se você estiver mesmo determinado, devia ir até Indian Island falar com um cara lá. É um penobscot enorme chamado Howard Gamache. É o maior índio do Maine, talvez do mundo todo. Anda de Harley-Davidson e tem penas tatuadas nas bochechas. Ele é o que você pode chamar de pessoa com contatos.
Uma pessoa com contatos! Era exatamente do que precisávamos! Eu agradeci a Pop e escrevi o nome Howard Gamache no meu caderninho, e, em abril do ano seguinte, fiz uma viagem até o Condado de Penobscot com quinhentos dólares em espécie no porta-luvas da picape.
Encontrei o sr. Gamache sentado no bar do Harvest Hotel em Oldtown, e ele era tão grande quanto anunciado: uns dois metros, calculei, e devia pesar uns cento e sessenta quilos. Ouviu minha história sofrida, e depois que paguei uma jarra de Bud, que bebeu em menos de dez minutos, ele disse:
— Bem, sr. McCausland, vamos até minha oca discutir isso com mais detalhes.
Ele estava com uma Harley Softail, que é uma moto bem grande, mas, quando subia nela, aquela coisa parecia uma daquelas bicicletinhas que os palhaços usam no circo. As bandas da bunda iam até os alforjes. A oca dele era um rancho de dois andares com piscina nos fundos para as crianças, que ele tinha aos montes.
Não, Ardelle, a moto e a piscina não são importantes para a história, mas se você quiser que eu conte, vai ter que ser do meu jeito. E eu acho interessante. Tinha até um home theather no porão. Caramba, fiquei com vontade de me mudar pra lá.
Os fogos estavam na garagem debaixo de uma lona, empilhados em caixas de madeira, e havia umas coisas bem incríveis.
— Se você for pego com isso — disse ele —, nunca ouviu falar de Howard Gamache. Entendeu?
Eu falei que sim, e como ele parecia um sujeito honesto o bastante que não me ferraria, ao menos não muito, perguntei o que poderia comprar com quinhentos dólares. Acabei ficando mais com bolos, que são blocos de foguetes com um único pavio. Você acende e eles explodem às dezenas. Havia três bolos chamados Piro Macaco, mais dois chamados Declaração de Independência e um chamado Psico-Delicko, que dispara jatos enormes de luz que parecem flores, e um que era ainda mais especial. Já chego nele.
— Você acha que isso vai calar a boca daqueles carcamanos? — perguntei.
— Pode apostar — disse Howard. — Só que, como alguém que prefere ser chamado de nativo americano a pele-vermelha ou Touro Sentado, não gosto muito de termos pejorativos como carcamano, polaco, salim ou chicano. Eles são americanos, como você e eu, e não há necessidade de denegri-los.
— Saquei, e vou incorporar, mas aqueles Massimos continuam me irritando, e se isso ofende você, azar o seu.
— Tudo bem, consigo entender seu estado emocional. Mas vou oferecer um conselho, cara-pálida: obedeça ao limite de velocidade quando estiver indo para casa. Você não vai querer ser pego com essa merda na caçamba.
Quando mamãe viu o que eu comprei, balançou os punhos acima da cabeça e serviu Dirty Hubcaps para comemorar.
— Quando eles virem isso, vão cagar níqueis! — disse ela. — Talvez até dólares de prata! Vamos ver se não!
Só que não foi assim. Acho que vocês já sabem disso, né?
Chegou o Quatro de Julho do ano passado, e o lago Abenaki estava com gente saindo pelo ladrão. Um boato tinha se espalhado, sabe, que os ianques McCausland estavam competindo contra os carcamanos Massimo pelo prêmio de melhores fogos. Devia haver seiscentas pessoas no nosso lado do lago. Não tantas no outro, mas tinha bastante mesmo assim, mais do que em qualquer outro ano. Todos os Massimos a leste do Mississipi deviam ter ido ao show de 2014. Não nos demos ao trabalho de brincar com coisas como fogos de artifício menores e bombinhas, só esperamos o fim do crepúsculo para podermos acender os grandes. Mamãe e eu estávamos com as caixas com caracteres chineses empilhadas no píer, e eles também. A margem leste estava ocupada de pequenos Massimos balançando estrelinhas; pareciam estrelas que caíram na terra, pareciam mesmo. Às vezes acho que estrelinhas bastam, e hoje de manhã desejei termos ficado só nisso.
Paul Massimo acenou para nós, e nós acenamos para ele. O idiota com o trompete deu um sopro longo: Waaaaaah! Paul apontou para mim como quem diz “Você primeiro, monsinhor”, então eu disparei um Piro Macaco. Acendeu o céu, e todo mundo fez aahhhh. Um dos filhos de Massimo acendeu uma coisa parecida, só que mais intensa e de maior duração. A multidão fez ooooh, e a porra do trompete tocou.
— Deixa os Macacos Fedidos pra lá, sei lá qual é o nome — disse mamãe. — Acenda o Declaração de Independência. Vai dar uma lição neles.
Eu acendi, e foi lindo, mas aquelas porras de Massimos superaram isso também. Eles superaram tudo que disparamos, e cada vez que o deles era mais forte e mais alto, aquele babaca tocava o trompete. Deixou mamãe e a mim putos da vida; porra, até o Papa ficaria puto. As pessoas tiveram um show de fogos e tanto naquela noite, provavelmente tão bom quanto o que fazem em Portland, e tenho certeza de que foram para casa felizes, mas não havia alegria no píer do Buraco de Mosquito, posso afirmar isso. Mamãe costuma ficar feliz quando enche a cara, mas não naquela noite. Estava escuro àquela altura, todas as estrelas no céu, e uma névoa de pólvora pairava sobre o lago. Só tinha sobrado nosso último e maior item.
— Acenda — disse mamãe —, e vamos ver se eles conseguem superar. Pode até ser que superem. Mas, se ele tocar aquele trompete mais uma vez, minha cabeça vai explodir.
O último e mais especial fogo de artifício se chamava Fantasma da Fúria, e Howard Gamache fez muita propaganda dele.
— Uma coisa linda — disse ele — e muito ilegal. Recue depois que acender, sr. McCausland, porque jorra pra todo lado.
A porra do pavio era da grossura do meu pulso. Eu acendi e recuei. Por alguns segundos depois que queimou, não aconteceu nada, e achei que tivesse falhado.
— Agora é que a cobra vai fumar — disse mamãe. — Agora ele vai tocar aquele trompete maldito.
Mas, antes que ele pudesse, o Fantasma da Fúria explodiu. Primeiro, foi só uma fonte com fagulhas brancas, mas depois disparou alto e ficou rosado. Começou a disparar foguetes que explodiram em uma chuva de prata. Àquela altura, a fonte de fagulhas na beirada do nosso píer estava com pelo menos três metros e meio e bem vermelha. Disparou ainda mais foguetes, direto para o céu, e explodiram alto como um esquadrão de jatos rompendo a barreira do som. Mamãe cobriu os ouvidos, mas estava morrendo de rir. A fonte baixou, jorrou uma última vez, como um velho em um prostíbulo, mamãe falou, e disparou uma linda flor vermelha e amarela no céu.
Houve um momento de silêncio, de admiração, sabe, e todo mundo no lago começou a aplaudir com vontade. Algumas pessoas que estavam em trailers tocaram a buzina, que pareceram muito baixas depois daqueles estrondos. Os Massimos também estavam aplaudindo, o que mostrou que eles levavam as coisas na esportiva e me impressionou, porque normalmente quem quer sempre vencer não é assim. O cara do trompete não tirou aquela porcaria do cinto.
— Nós conseguimos! — gritou mamãe. — Alden, dê um beijo na sua mãe!
Eu dei, e quando olhei para o outro lado do lago, vi Paul Massimo na beirada do píer, sob a luz daquelas tais tochas elétricas. Ele levantou um dedo, como quem diz “Espere um segundo”. Provocou uma sensação ruim na boca do meu estômago.
O filho sem trompete, o que eu achava que podia ter um pouco de bom senso, preparou uma base de lançamento, de forma lenta e reverente, como um coroinha carregando a hóstia sagrada. Nela havia o maior foguete que já vi sem ser na TV, em Cabo Canaveral. Paul se apoiou em um joelho e levou o isqueiro ao pavio. Assim que começou a brilhar, ele e os dois filhos saíram correndo para longe do píer.
Não houve pausa, como com nosso Fantasma da Fúria. A porra decolou como o Apollo 19, deixando um rastro de fogo azul que ficou roxo e depois vermelho. Um segundo depois, as estrelas foram obliteradas por um pássaro chamejante gigante que cobria o lago quase de um lado a outro. Ardeu lá e explodiu. E não é que saíram pássaros menores da explosão, disparando em todas as direções?
A multidão foi à loucura. Os garotos mais velhos abraçaram o pai e bateram nas costas uns dos outros e riram.
— Vamos entrar, Alden — disse mamãe, e ela nunca falou com tanta tristeza desde que papai morrera. — Fomos derrotados.
— Vamos vencê-los ano que vem — afirmei, dando tapinhas no ombro dela.
— Não. Os Massimos sempre vão estar um passo à frente. Eles são esse tipo de gente, gente com CONTATOS. Nós somos só dois pobres coitados vivendo de uma fortuna que veio por sorte, e acho que isso vai ter que bastar.
Quando subimos os degraus do nosso chalezinho de merda, houve um último sopro do trompete da bela casa do outro lado do lago: Waaaaaaaaaah! Fez minha cabeça latejar, fez mesmo.
Howard Gamache me disse que aquele último foguete se chamava Galo do Destino. Ele disse que tinha visto vídeos no YouTube, mas sempre com pessoas falando chinês ao fundo.
— Como esse Massimo trouxe isso para os Estados Unidos é um mistério para mim — explicou Howard.
Tivemos essa conversa um mês depois, mais ou menos, perto do final do verão passado, quando eu finalmente reuni ambição suficiente para fazer o trajeto até a oca de dois andares dele em Indian Island para contar o que aconteceu, como lutamos com louvor, mas perdemos no fim da história.
— Não é mistério para mim — eu disse. — Os amigos dele na China devem ter acrescentado como brinde com o último carregamento de ópio. Você sabe, um presentinho para agradecer por fazer negócio com eles. Você tem alguma coisa maior do que isso? Mamãe está deprimida, sr. Gamache. Ela não quer competir ano que vem, mas eu estava pensando, se houver alguma coisa… você sabe, o máximo dos máximos… eu pagaria até mil dólares. Valeria só para ver minha mãe sorrindo na noite do Quatro de Julho.
Howard se sentou nos degraus de trás com os joelhos na altura das orelhas como se fossem rochas… Deus, que homem grande… e pensou no assunto. Cogitou. Avaliou. Por fim, ele disse:
— Eu ouvi boatos…
— Boatos sobre o quê?
— Sobre uma coisa especial chamada Contatos Imediatos do Quarto Grau — disse ele. — De um sujeito com quem me correspondo sobre o assunto de diversão com pólvora. O nome nativo dele é Caminho Cintilante, mas ele usa o nome de Johnny Parker. Ele é cayuga e mora perto de Albany, em Nova York. Eu posso dar o endereço de e-mail dele pra você, mas ele não vai responder se eu não escrever para ele dizendo que você é de confiança.
— Você faria isso? — perguntei.
— Claro — disse ele —, mas primeiro você precisa pagar uma graninha boa, cara-pálida. Cinquenta dólares devem bastar.
O dinheiro passou da minha mão pequena para a grande dele, ele mandou um e-mail para Johnny Caminho Cintilante Parker, e quando voltei para o lago e mandei um e-mail meu, ele respondeu imediatamente. Mas não queria falar do que chamou de CE4 se não fosse em pessoa, alegou que o governo lia todos os e-mails dos nativos americanos como rotina. Eu não tinha como argumentar com isso; aposto que aqueles babacas leem os e-mails de todo mundo. Então, combinamos um encontro, e no primeiro dia de outubro do ano passado, eu fui até lá.
Claro que mamãe quis saber que tipo de compromisso me faria ir até o norte de Nova York, e não me dei ao trabalho de inventar nada, porque ela sempre percebe as mentiras desde que eu era da altura de um cachorrinho. Ela só assentiu.
— Vá se for te deixar feliz — disse ela. — Mas você sabe que eles vão aparecer com alguma coisa maior, e nós vamos ter que ficar ouvindo aquele carcamano veadinho tocando o trompete.
— Bom, até pode ser — respondi —, mas o sr. Caminho Cintilante diz que tem fogos de artifício melhor que qualquer outro.
Como vocês podem ver, isso acabou sendo a pura verdade.
Fiz um passeio bonito, e Johnny Caminho Cintilante Parker era um sujeito bem legal. A oca dele era em Green Island, onde as casas são quase tão grandes quanto a Doze Pinheiros dos Massimos, e a esposa dele fazia uma enchilada deliciosa. Comi três com aquele molho verde picante e tive caganeira no caminho para casa, mas como isso não faz parte da história e estou vendo que Ardelle está ficando impaciente de novo, vou deixar de fora. Só posso dizer que agradeço a Deus por lenços umedecidos.
— O CE4 seria encomenda especial — disse Johnny. — Os chineses só fazem três ou quatro por ano, na Mongólia Exterior ou alguma lugar parecido, onde tem neve nove meses por ano e os bebês são supostamente criados com filhotes de lobo. Esses explosivos costumam ser enviados para Toronto. Acho que posso encomendar um e trazer do Canadá eu mesmo, se bem que você teria que pagar minha gasolina e meu tempo, e, se eu for preso, posso acabar em Leavenworth como terrorista.
— Jesus, eu não quero encrencar você.
— Bem, talvez esteja exagerando um pouco — disse ele —, mas o CE4 é um explosivo incrível. Nunca houve outro igual. Eu não posso devolver seu dinheiro se seu amigo do outro lado do lago tiver uma coisa melhor, mas posso devolver meu lucro na venda. Esse é o tamanho da minha certeza.
— Além do mais — disse Cindy Caminho Cintilante Parker —, Johnny adora uma aventura. Quer outra enchilada, sr. McCausland?
Eu recusei, o que deve ter impedido que eu explodisse em Vermont, e por um tempo eu quase esqueci essa história. Mas, logo depois do Ano-Novo… estamos chegando perto agora, Ardelle, você não está feliz?… eu recebi uma ligação do Johnny.
— Se você quiser aquele item que discutimos no outono — disse ele —, eu tenho, mas vai custar dois mil dólares.
Eu inspirei fundo.
— Isso é bem caro.
— Não tenho como argumentar com isso, mas veja desta forma: vocês, brancos, ficaram com Manhattan por vinte e quatro dólares, e estamos esperando uma compensação desde então. — Ele riu e disse: — Mas, falando sério, se você não quiser, tudo bem. Talvez seu amigo do outro lado do lago se interesse.
— Não ouse fazer isso.
Ele riu ainda mais.
— Eu tenho que dizer, esse troço é bem incrível. Vendo muitos fogos de artifício ao longo dos anos e nunca vi nada parecido com isso.
— Como? — eu perguntei. — O que é?
— Você vai ter que ver — disse ele. — Não tenho intenção de mandar foto pela internet. Além do mais, não parece grande coisa até… hã… estar em uso. Se você quiser vir até aqui, posso mostrar um vídeo.
— Eu vou — respondi, e dois ou três dias depois, fui até lá, sóbrio e barbeado e com o cabelo penteado.
Agora escutem, vocês dois. Não vou inventar desculpas para o que eu fiz, e vocês podem deixar minha mãe fora disso, pois fui eu que comprei o negócio e fui eu que acendi, mas vou dizer que o CE4 que Johnny me mostrou e o que eu acendi ontem à noite não são a mesma coisa. O do vídeo era bem menor. Eu até comentei sobre o tamanho da caixa em que o meu veio quando Johnny e eu colocamos na caçamba da picape.
— Devem ter colocado muito enchimento na embalagem — eu disse.
— Acho que queriam ter certeza de que nada aconteceria no transporte — sugeriu Johnny.
Ele também não sabia, entendem? Cindy Caminho Cintilante perguntou se eu não queria ao menos abrir a caixa e dar uma olhada para ter certeza de que era a coisa certa, mas estava toda presa com pregos, e eu queria voltar antes de escurecer porque meus olhos não estão mais tão bons quanto eram. Mas, como eu vim aqui hoje determinado a botar tudo às limpas, eu tenho que dizer que não é verdade. A noite é minha hora de beber, e eu não queria perder nem um minuto. É a verdade. Sei que é um jeito meio triste de ser e sei que tenho que fazer alguma coisa sobre isso. Acho que, se me botarem na cadeia, vou ter a oportunidade, não é?
Mamãe e eu abrimos a caixa no dia seguinte e demos uma olhada no que compramos. Estávamos na casa da cidade, sabe, porque era janeiro, e estava mais frio do que uma teta de bruxa. Tinha um pouco de material de proteção dentro, sim, jornais chineses, mas não tanto quanto eu esperava. O CE4 devia ter 0,65 metros quadrados e parecia um pacote embrulhado com papel pardo, só que o papel estava meio oleoso e era tão pesado que parecia lona. O pavio estava saindo por baixo.
— Você acha que vai mesmo acender? — perguntou mamãe.
— Bem — respondi —, se não acender, qual é o pior que pode acontecer?
— Vamos perder dois mil dólares — retrucou mamãe —, mas isso não é o pior. O pior seria se o troço subisse menos de um metro e caísse no lago, se apagando. Seguido daquele italiano jovem que parece o Ben Afflict soprando o trompete.
Colocamos a caixa na garagem, e ficou lá até o Memorial Day, quando levamos para o lago. Não comprei mais nenhum outro fogo de artifício este ano, nem de Pop Anderson, nem de Howard Gamache. A gente só queria uma coisa. Era o CE4 ou nada.
Tudo bem, aí chegou a noite de ontem, o Quatro de Julho de 2015. Nunca houve nada parecido no lago Abenaki e espero que nunca mais haja. Nós sabíamos que tinha sido um verão bem seco, claro que sabíamos, mas isso nunca passou pela nossa cabeça. Por que passaria? Íamos disparar acima da água, não íamos? O que podia dar errado?
Todos os Massimos estavam se divertindo, tocando música e brincando de jogos e fazendo salsichas em umas cinco grelhas diferentes e mergulhando no lago. Todas as outras pessoas também estavam lá, nos dois lados do lago. Tinha até gente nas pontas norte e sul, onde é tudo pantanoso. Elas estavam lá para ver o capítulo deste ano da Grande Corrida Armamentista do Quatro de Julho, carcamanos contra ianques.
O crepúsculo foi chegando ao fim, e a estrela dos desejos apareceu, como sempre, e as tochas elétricas no píer de Massimo se acenderam como holofotes. Paul Massimo vai até ela, ladeado pelos dois filhos mais velhos, e, inacreditavelmente, eles estavam vestidos como se fossem para um baile chique do country clube! O pai de smoking, os filhos de paletó branco com flores vermelhas nas lapelas, o parecido com Ben Afflict com o trompete caído contra o quadril, como um atirador.
Eu olhei ao redor e vi que o lago estava cercado com mais gente do que nunca. Devia ter pelo menos mil pessoas ali. Elas foram esperando um show, e aqueles Massimos estavam vestidos para dar um, enquanto mamãe estava com o vestido de sempre, e eu, de calça jeans e uma camiseta que dizia ME BEIJE ONDE FEDE, ME ENCONTRE EM MILLINOCKET.
— Ele não tem caixa nenhuma, Alden — disse mamãe. — Por quê?
Eu só balancei a cabeça, porque não sabia. Nosso único explosivo já estava na beirada do píer, coberto com uma colcha velha. Ficou lá o dia todo.
Massimo esticou a mão para nós, educado como sempre, nos dizendo para começarmos. Eu balancei a cabeça e estiquei a minha, como quem diz “Não, depois de você desta vez, monsinhor”. Ele deu de ombros e fez um gesto de giro no ar, meio como quando o juiz diz que é home run. Quatro segundos depois, a noite foi tomada de trilhas ascendentes de fagulhas, e os fogos começaram a explodir sobre o lago em brilhos e jorros e estrondos múltiplos que dispararam flores e chafarizes e não sei mais o quê.
Mamãe ofegou.
— Aquele cachorro imundo! Ele contratou uma equipe inteira! Profissionais!
E, sim, foi isso o que ele fez. Ele deve ter gastado dez ou quinze mil dólares naquele show de vinte minutos, com a Excalibur Dupla e a Matilha de Lobos que tem no final. A multidão no lago estava gritando e berrando, apertando as buzinas dos carros e aplaudindo e assobiando. O parecido com Ben Afflict estava soprando o trompete com tanta força que ia acabar tendo um AVC, mas não dava nem para ouvir com o barulho de tiroteio no céu, que estava iluminado como se fosse dia, e de todas as cores. Colunas de fumaça subiam de onde a equipe de fogos disparava os explosivos na praia, mas ela não seguia na direção do lago. A fumaça soprava na direção da casa. Na direção de Doze Pinheiros. Vocês podem dizer que eu devia ter reparado nisso, mas não reparei. Mamãe também não. Ninguém percebeu. Estávamos perplexos demais. Massimo estava nos mandando um recado, sabe: acabou. Nem pensem em fazer nada ano que vem, seus pobres ianques.
Houve uma pausa, e eu estava decidindo se ele tinha acabado quando uma fileira dupla de fagulhas subiu, e o céu se encheu de um barco enorme em chamas, com velas e tudo! Eu sabia o que aquilo era por causa de Howard Gamache: um Junco Excelente. É uma embarcação chinesa. Quando finalmente se apagou e a multidão ao redor do lago parou de surtar, Massimo sinalizou para os caras dos fogos uma última vez, e eles acenderam uma bandeira americana na praia. Queimou em vermelho e branco e azul e disparou bolas de fogo enquanto alguém tocava “America the Beautiful” pelo sistema de som.
Finalmente, a bandeira se apagou até não restar nada além de brasas laranja. Massimo ainda estava na ponta do píer, e esticou a mão para nós de novo, sorrindo. Como quem diz “Pode ir, dispare a merda que têm aí, McCausland, e vamos acabar logo com isso”. Não só este ano, mas para sempre.
Eu olhei para mamãe. Ela olhou para mim. Ela virou na água o que restava da bebida dela, e estávamos bebendo Moonquake naquela noite, e disse:
— Vá logo. Provavelmente vai ser o mesmo que um buraco de mijo na neve, mas nós compramos essa porcaria, então é melhor acendermos.
Eu me lembro de como estava silencioso. Os sapos ainda não tinham recomeçado, e as pobres mobelhas já tinham se recolhido naquela noite, talvez até pelo resto do verão. Ainda havia um monte de gente na beira da água para ver o que a gente tinha, mas muitas delas já estavam voltando para a cidade, como os torcedores fazem quando seu time está perdendo e não tem chance de virada. Eu conseguia ver uma série de faróis por toda a Lake Road, que vai até a estrada 119 e para Pretty Bitch, a que leva até a TR-90 e Chester’s Mill.
Eu decidi que, se ia fazer aquilo, era melhor dar um show; se o foguete não subisse, quem ficara para trás podia rir quanto quisesse. Eu até conseguiria aguentar a porcaria do trompete por saber que não teria que ouvi-lo no ano seguinte, porque para mim tinha acabado, e consegui ver no rosto de mamãe que ela sentia o mesmo. Até os seios dela pareciam meio pra baixo, mas talvez fosse só porque ela esqueceu o sutiã naquela noite. Ela diz que aperta muito.
Eu puxei a colcha velha como se fosse um mágico fazendo um truque, e ali estava a coisa quadrada que comprei por dois mil dólares — provavelmente metade do que Massimo pagou só pelo Junco Excelente —, toda enrolada no papel pesado, com o pavio curto e grosso saindo da ponta.
Eu apontei para a caixa e apontei para o céu. Os três Massimos bem vestidos na ponta do píer riram, e o trompete tocou: Waaaa-aaaaah!
Eu acendi o pavio, que começou a soltar fagulhas. Puxei mamãe para trás, para o caso de a porcaria explodir na base. O pavio queimou até a caixa e desapareceu. A porra da caixa só ficou ali parada. O Massimo com o trompete o levou até os lábios, mas, antes que pudesse tocar, fogo saiu de debaixo da caixa, e ela subiu, devagar primeiro, depois mais rápido quando mais jatos, eu acho que eram jatos, pegaram fogo.
Ela foi subindo e subindo. Três metros, seis, doze. Eu só conseguia identificar a forma quadrada contra as estrelas. Chegou a quinze, todo mundo inclinando o pescoço para olhar, e explodiu, como o do vídeo do YouTube que Johnny Caminho Cintilante Parker me mostrou. Mamãe e eu gritamos. Todo mundo gritou. Os Massimos só pareciam perplexos, e talvez, era difícil saber do nosso lado do lago, com um pouco de desdém. Parecia que estavam dizendo: caixa explosiva, que porra é essa?
Só que o CE4 não tinha acabado. Quando os olhos das pessoas estavam ajustados, elas ofegaram de surpresa, pois a parte de papel estava se desdobrando e se abrindo enquanto queimava em todas as cores que vocês já viram e em algumas que nunca viram. Estava virando um maldito disco voador. Se abriu e se abriu, como se Deus estivesse abrindo seu guarda-chuva sagrado, e enquanto se abria começou a disparar bolas de fogo para todos os lados. Cada uma explodiu e disparou mais, formando uma espécie de arco-íris em cima do disco. Sei que vocês viram um vídeo de celular, provavelmente todo mundo que tinha celular estava filmando, não duvido que vá servir de prova no julgamento, mas estou dizendo que vocês tinham que estar lá para entenderem a maravilha que era.
Mamãe estava segurando meu braço.
— É lindo — disse ela —, mas eu achei que só tinha dois metros e meio de largura. Não foi isso que seu amigo índio falou?
Foi, mas a coisa que soltei tinha seis metros de largura e ainda estava crescendo quando soltou uns doze ou mais paraquedas para continuar no ar enquanto disparava mais cores e faíscas e chafarizes e bombinhas cintilantes. Podia não ser tão grandioso quanto o show de fogos de Massimo, mas era mais grandioso que o Junco Excelente. E, claro, foi por último. É disso que as pessoas sempre lembram, vocês não acham? Do que viram por último?
Mamãe viu os Massimos olhando para o céu com o queixo caído como portas com dobradiças quebradas, parecendo os mais puros idiotas que já andaram na terra, e começou a dançar. O trompete estava pendurado na mão de Ben Afflict, como se ele o tivesse esquecido.
— Nós vencemos! — gritou mamãe, balançando os punhos. — Nós finalmente conseguimos, Alden! Olhe para eles! Foram derrotados, e valeu cada porra de centavo!
Ela queria que eu dançasse com ela, mas eu tinha visto uma coisa da qual não gostei muito. O vento estava empurrando o disco voador para o leste por cima do lago, na direção de Doze Pinheiros.
Paul Massimo viu a mesma coisa e apontou para mim, como quem diz, você colocou aí, você tira enquanto ainda está acima da água.
Só que eu não podia, claro, e enquanto isso a coisa ainda estava soltando seus fogos, disparando foguetes e canhões e chafarizes giratórios como se não fosse parar nunca. Em seguida, e eu não tinha ideia de que isso ia acontecer, porque o vídeo que Johnny Caminho Cintilante me mostrou era mudo, uma música começou a tocar. Só cinco notas repetidamente: doo-dee-doo-dum-dee. Era a música que as espaçonaves fazem em Contatos imediatos do terceiro grau. A coisa estava tocando e tocando, e foi nessa hora que a porcaria do disco voador pegou fogo. Não sei se foi acidente ou se era para ser o efeito final. Os paraquedas que o seguravam também pegaram fogo, e a porra toda começou a cair. Primeiro, achei que ia cair antes de o lago acabar, talvez até na plataforma de mergulho dos Massimos, o que teria sido ruim, mas não a pior coisa. Só que, nessa hora, um sopro mais forte de vento surgiu, como se a própria Mãe Natureza estivesse cansada dos Massimos. Ou talvez fosse daquela porra de trompete que a velha estava cansada.
Bom, vocês sabem como a casa deles ganhou aquele nome, e os doze pinheiros estavam bem secos. Havia dois ladeando a varanda comprida da frente, e foi neles que nosso CE4 caiu. As árvores pegaram fogo na mesma hora, parecendo um pouco as tochas elétricas no píer de Massimo, só que maiores. Primeiro, as agulhas, depois os galhos, depois os troncos. Os Massimos começaram a correr para todo lado, como formigas quando alguém chuta um formigueiro. Um galho em chamas caiu no telhado da varanda, e em pouco tempo também estava pegando fogo. O tempo todo, aquela musiquinha continuou tocando, doo-dee-doo-dum-dee.
A espaçonave se partiu em duas. Metade caiu no gramado, o que não foi tão ruim, mas a outra metade caiu no telhado principal ainda disparando alguns foguetes, sendo que um deles entrou por uma janela do andar de cima, botando fogo na cortina pelo caminho.
Mamãe se virou para mim e disse:
— Olha, isso não foi bom.
— Não mesmo. Parece bem ruim, né?
Ela disse:
— Acho melhor você chamar o corpo de bombeiros, Alden. Na verdade, acho melhor chamar dois ou três quartéis, senão o bosque todo vai pegar fogo, do lago até o limite do Condado de Castle.
Eu me virei para correr para o chalé e pegar o celular, mas ela segurou meu braço. Tinha um sorrisinho no rosto dela.
— Antes de você ir — disse ela —, dê só uma olhada naquilo.
Ela apontou para o outro lado do lago. Àquela altura, a casa toda estava em chamas, então não houve dificuldade de ver para onde ela estava apontando. Não tinha mais ninguém no píer, mas uma coisa tinha ficado para trás: o trompete.
— Diga que foi ideia minha — pediu mamãe. — Eu vou para a cadeia por isso, mas estou cagando. Pelo menos a gente calou aquela porcaria.
Ardelle, posso tomar um copo d’água? Estou seco como madeira velha.
A policial Benoit levou um copo d’água para Alden. Ela e Andy Clutterbuck o viram beber tudo; um homem magro de calça cáqui e camiseta regata, o cabelo fino e grisalho, o rosto esgotado pela falta de sono e pela ingestão de Moonquakes com dosagens de trinta por cento de álcool.
— Pelo menos, ninguém se machucou — disse Alden. — Fico feliz com isso. E não incendiamos o bosque. Também fico feliz.
— Você tem sorte de o vento ter parado — afirmou Andy.
— Você também tem sorte de os carros de bombeiros de três cidades estarem em alerta — acrescentou Ardelle. — Claro que têm que ficar na noite do Quatro de Julho, porque sempre tem uns idiotas bêbados acendendo fogos de artifício.
— A culpa é toda minha — disse Alden. — Só quero que vocês entendam isso. Eu comprei a porcaria do foguete e fui eu que o acendi. Mamãe não teve nada a ver com isso. — Ele fez uma pausa. — Eu só espero que Massimo entenda isso e deixe minha mãe em paz. Ele tem CONTATOS, sabe?
Andy disse:
— Aquela família passa o verão no lago Abenaki há vinte anos ou mais, e de acordo com tudo que eu sei, Paul Massimo é um homem de negócios legítimo.
— Aham — disse Alden. — Que nem o Al Capone.
O policial Ellis bateu no vidro da sala de entrevistas, apontou para Andy e fez um gesto para telefone com o polegar e o indicador. Andy suspirou e saiu da sala.
Ardelle Benoit olhou para Alden.
— Já vi umas merdas colossais na vida — comentou ela —, e mais ainda desde que entrei para a polícia, mas essa leva o prêmio.
— Eu sei — disse Alden, deixando a cabeça pender. — Não estou justificando nada. — Ele se animou. — Mas foi um show e tanto enquanto durou. As pessoas nunca vão esquecer.
Ardelle fez um ruído grosseiro. Em algum lugar ao longe, uma sirene tocou.
Andy voltou depois de um tempo e se sentou. Não disse nada no começo, só ficou olhando para o nada.
— Era sobre minha mãe? — perguntou Alden.
— Era sua mãe — respondeu Andy. — Ela queria falar com você, e quando falei que estava ocupado, ela me pediu para dar um recado. Ela estava ligando do Lucky’s Diner, onde acabou de ter um belo café da manhã com seu vizinho do outro lado do lago. Ela falou para te dizer que ele ainda estava de smoking e que ele pagou a conta.
— Ele a ameaçou? — gritou Alden. — Aquele filho da puta…
— Sente-se, Alden. Relaxe.
Alden voltou a se sentar devagar, mas os punhos estavam bem apertados. Eram mãos grandes, e pareciam capazes de fazer mal, isso se o dono delas se sentisse provocado.
— Hallie também pediu para te dizer que o sr. Massimo não vai registrar queixa. Ele disse que duas famílias entraram em uma competição idiota e que as duas famílias tinham culpa. Sua mãe diz que o sr. Massimo quer deixar tudo para lá.
O pomo de adão de Alden subiu e desceu, lembrando a Ardelle um brinquedo de macaco no galho que ela tinha quando criança.
Andy se inclinou para a frente. Ainda estava sorrindo da forma dolorosa como se faz quando não se quer sorrir, mas não se consegue evitar.
— Ela disse que Massimo também quer que você saiba que ele lamenta o que aconteceu com o resto dos seus fogos de artifício.
— Resto? Eu falei que não tínhamos mais nada este ano, exceto…
— Silêncio. Não quero esquecer nenhuma parte do recado.
Alden parou de falar. Do lado de fora, eles ouviram uma segunda sirene e uma terceira.
— Os da cozinha. Aqueles fogos. Sua mãe disse que você deve ter deixado as caixas perto demais do fogão. Você se lembra de ter feito isso?
— Hã…
— Eu insisto para que lembre, Alden, porque tenho um desejo profundo de encerrar esse show de horrores.
— Eu acho que… talvez lembre — disse Alden.
— Não vou nem perguntar por que você acendeu o fogão em uma noite quente de julho, porque, depois de trinta anos na polícia, sei que bêbados podem incorporar qualquer ideia maluca que surja em mente. Você concorda?
— Bem… sim — admitiu Alden — Os bêbados são imprevisíveis. E aqueles Moonquakes são mortais.
— E é por isso que seu chalé no lago Abenaki está pegando fogo agora.
— Jesus Cristo de muletas!
— Acho que não podemos botar culpa desse incêndio no Filho de Deus, Alden, com ou sem muletas. Vocês tinham seguro?
— Caramba, sim — disse Alden. — Seguro é uma boa ideia. Aprendi isso quando papai faleceu.
— Massimo também tinha seguro. Sua mãe me pediu para te dizer isso também. Ela disse que os dois concordaram enquanto comiam um prato de ovos e bacon que isso deixa as coisas entre vocês quites. Você concorda?
— Bem… a casa dele era bem maior do que o nosso chalé.
— Presumivelmente, a apólice dele vai refletir essa diferença. — Andy se levantou. — Acho que vai haver algum tipo de audiência em algum momento, mas agora você está livre e pode ir.
Alden agradeceu. E saiu antes que eles pudessem mudar de ideia.
Andy e Ardelle ficaram na sala de entrevistas, olhando um para o outro. Ardelle acabou dizendo:
— Onde a sra. McCausland estava quando o fogo começou?
— Até Massimo ir pagar pela lagosta com ovos Benedict e batatas no Lucky’s, ela estava aqui na delegacia — disse Andy. — Esperando para ver se o filho ia para o tribunal ou para a cadeia. Torcendo pelo tribunal para poder pagar a fiança. Ellis disse que, quando ela e Massimo saíram, ele estava com o braço na cintura dela. Ele deve ter um braço comprido, considerando o diâmetro atual dela.
— E quem você acha que botou fogo no chalé dos McCausland?
— Nunca vamos ter certeza, mas, se eu fosse obrigado a dar um palpite, diria que foram os filhos de Massimo, antes do amanhecer. Colocaram alguns fogos não usados deles ao lado do fogão, ou talvez bem em cima, e encheram aquele lugar de gravetos, para que queimasse e ficasse bem quente. Não muito diferente de botar uma bomba com timer, se você pensar bem.
— Caramba — disse Ardelle.
— Tudo se resume a bêbados com fogos de artifício, o que é ruim, e uma mão lavando a outra, o que é bom.
Ardelle pensou no assunto, fez biquinho e assobiou a melodia de cinco notas de Contatos imediatos do terceiro grau. Ela tentou fazer de novo, mas começou a rir e desistiu.
— Não foi ruim — disse Andy. — Mas você consegue tocar isso no trompete?
Pensando em Marshall Dodge
O que poderia ser melhor para acabar este livro do que uma história sobre o fim do mundo? Escrevi pelo menos um livro sobre o assunto, A dança da morte, mas aqui o foco é diminuído para apenas um detalhe. Não tenho muito a dizer sobre a história em si além de que eu estava pensando na minha amada Harley Softail 1986, que agora tirei de circulação, o que deve ter sido melhor mesmo; meus reflexos ficaram lentos a ponto de me tornar um perigo para mim mesmo e para os outros quando estou na estrada a cem quilômetros por hora. Como eu amava aquela moto. Depois que escrevi Insônia, fui nela do Maine até a Califórnia, e me lembro de um final de dia em algum lugar do Kansas, vendo o sol se pôr no oeste enquanto a lua subia pelo céu, enorme e laranja, no leste. Eu parei no acostamento e fiquei olhando, pensando que era o melhor pôr do sol da minha vida. E talvez tenha sido.
Ah, e “Trovão de verão” foi escrito em um lugar bem parecido com o lugar onde encontramos Robinson, o vizinho dele e certo cachorro perdido chamado Gandalf.