O Bazar dos Sonhos Ruins
Herman Wouk ainda está vivo
Do Press-Herald de Portland (Maine), 19 de setembro de 2010:
9 MORREM EM ACIDENTE TERRÍVEL NA I-95
LUTO ESPONTÂNEO NO LOCAL
Por Ray Dugan
Menos de seis horas após um acidente de trânsito na cidade de Fairfield tirar a vida de dois adultos e sete crianças, todas com menos de dez anos, o luto já começou. Buquês de flores do campo em latinhas e em canecas de café cercam a terra queimada; uma fila de nove cruzes foi colocada no espaço para piquenique da área de descanso adjacente, no quilômetro 109. No local onde os corpos das duas crianças menores foram encontrados, uma placa anônima, com as palavras pintadas com tinta spray em um lençol, foi pendurada. Diz ANJOS SE REÚNEM AQUI.
I. BRENDA GANHA U$ 2700 NO JOGO DE LOTERIA PICK-3
E RESISTE AO SEU PRIMEIRO IMPULSO
Em vez de sair para buscar uma garrafa de Orange Driver para comemorar, Brenda paga a fatura do MasterCard, que está atrasada uma eternidade. Em seguida, liga para a Hertz e faz uma pergunta. Depois, liga para a amiga Jasmine, que mora em North Berwick, e conta para ela sobre o prêmio do Pick-3. Jasmine grita e diz:
— Garota, você está rica!
Só em sonho. Brenda explica que pagou a dívida do cartão de crédito para poder alugar um Chevy Express. É uma van com nove lugares, foi o que a garota da Hertz disse para ela.
— Podemos botar todas as crianças dentro e ir para Mars Hill. Visitar nossos pais. Exibir os netos. Espremer os coroas para ver se a gente descola uma grana. O que acha?
Jasmine fica em dúvida. O casebre glorificado em Mars Hill que os pais chamam de lar não tem espaço, e ela não ia querer ficar com eles mesmo que tivesse. Ela odeia os pais. Com bons motivos, Brenda sabe; o pai de Jaz abusou dela uma semana depois de seu décimo quinto aniversário. A mãe sabia o que estava acontecendo e não fez nada. Quando a filha a procurou em prantos, a mãe disse:
— Você não tem com que se preocupar, ele cortou as bolas.
Jaz se casou com Mitch Robicheau para fugir deles, e agora, três maridos, quatro filhos e oito anos depois, está sozinha. E contando com o auxílio do serviço social, apesar de trabalhar dezesseis horas por semana no Roll Around, distribuindo patins e vendendo fichas para o fliperama, onde as máquinas só aceitam um tipo específico de ficha. Seu chefe deixa que ela leve os dois filhos mais novos. Delight dorme no escritório, e Truth, de três anos, anda de um lado para outro do fliperama puxando a fralda. Não se mete em muita confusão, mas, no ano anterior, teve piolho, e as duas precisaram raspar a cabeça dele toda. Ele chorou à beça.
— Sobraram seiscentos dólares depois que paguei a dívida do cartão de crédito — diz Brenda. — Bem, quatrocentos se você contar o aluguel do carro, mas não estou contando porque posso botar no MasterCard. Nós poderíamos ficar no Red Roof, ver Home Box. É de graça. Podemos comprar comida na rua mesmo, e as crianças podem nadar na piscina. O que você diz?
De trás dela vêm gritos. Brenda berra:
— Freddy, pare de provocar sua irmã e coloque isso onde encontrou!
Ah, caramba, aquela gritaria toda acordou o bebê. Ou foi isso, ou Freedom fez sujeira na fralda e acordou sozinha. Freedom sempre faz sujeira na fralda. Para Brenda, parece que fabricar cocô é o trabalho de sua vida. Ela puxou ao pai nisso.
— Talvez… — diz Jasmine, esticando a palavra até parecer ter quatro sílabas. Talvez cinco.
— Vamos lá, garota! Uma viagem de carro! Vamos seguir a vida! Pegamos o ônibus até o aeroporto e alugamos a van. São quatrocentos e oitenta quilômetros, e nós podemos chegar lá em quatro horas. A garota do telefone disse que os pestinhas podem ver DVDs. A pequena sereia e todas as outras coisas boas.
— Talvez eu consiga arrancar da minha mãe um pouco daquele dinheiro do governo antes que acabe — diz Jasmine, pensativa.
O irmão dela, Tommy, morreu no ano anterior no Afeganistão. Uma bomba de fabricação caseira o levou. A mãe e o pai de Jasmine receberam oitenta mil dólares. A mãe prometeu um pouco para ela, mas só quando o coroa não estava perto do telefone. Claro que já podiam ter gastado tudo. Provavelmente já acabou. Ela sabe que o sr. Comedor de Garotinhas comprou uma moto Yamaha com parte do dinheiro, apesar de Jasmine não fazer ideia de o que ele quer com uma coisa daquelas na idade que tem. E ela sabe que dinheiro do governo é como uma miragem. Isso é algo que as duas sabem. Sempre que você vê coisas brilhantes, a nuvenzinha preta aparece. As coisas brilhantes nunca continuam brilhantes por muito tempo.
— Vamos, Jaz — diz Brenda.
Ela se apaixonou pela ideia de encher a van com as crianças e sua melhor (e única) amiga do ensino médio, que acabou indo morar na cidade vizinha. As duas estavam sozinhas, somando sete filhos, com homens ruins demais na bagagem, mas às vezes ainda se divertiam.
Ela ouve um baque. Freddy começa a gritar. Glory bateu no olho dele com um boneco.
— Glory, pare com isso ou eu vou até aí! — grita Brenda.
— Ele não quer devolver minha Menina Superpoderosa! — grita Glory, e aí ela começa a chorar. Agora, estão os três chorando, Freddy, Glory e Freedom, e por um momento a visão de Brenda fica escura. Isso está acontecendo com certa frequência ultimamente. Ali estão eles, em um apartamento de três quartos no terceiro andar, sem nenhum homem na jogada (Tim, o namorado mais recente, pulou fora seis meses atrás), vivendo de miojo e Pepsi e daquele sorvete barato que vende no Walmart, sem ar-condicionado, sem TV a cabo. Ela tinha um emprego na loja Quik-Flash, mas a empresa faliu e agora a loja é uma On the Run e o gerente contratou um chicano qualquer para fazer o trabalho dela porque o chicano pode trabalhar de doze a catorze horas por dia. O chicano usa um lenço na cabeça e tem um bigodinho nojento e nunca ficou grávido. O trabalho do chicano é engravidar garotas. Elas ficam doidas por aquele bigodinho e, pronto, duas linhas azuis aparecem no teste de farmácia e lá vem mais um.
Brenda tem experiência pessoal com “lá vem mais um”. Ela diz para as pessoas que sabe quem é o pai de Freddy, mas na verdade não sabe, porque teve algumas noites de bebedeira em que todos os caras pareciam bonitos. Além do mais, caramba, como ela ia arrumar um emprego? Ela tem filhos. O que vai fazer, deixar Freddy cuidando de Glory e levar Freedom para as malditas entrevistas? Claro, isso vai dar certo. E o que existe para fazer além de ser atendente de drive-thru no McDonald’s ou no Burger King? Portland tem umas duas boates de strip-tease, mas mulheres gordas como ela não conseguem esse tipo de trabalho.
Ela lembra a si mesma que ganhou na loteria. Lembra a si mesma que eles podem estar em dois quartos com ar-condicionado no Red Roof naquela noite… três, até! Por que não? As coisas estão mudando!
— Brennie? — Jaz parece mais em dúvida do que nunca. — Você está mesmo falando sério?
— Estou — afirma Brenda. — Vamos, garota, estou aprovada. A garota da Hertz diz que a van é vermelha. — Ela baixa a voz e acrescenta: — Sua cor da sorte.
— Você pagou o cartão de crédito na internet? Como conseguiu isso?
Freddy e Glory brigaram no mês anterior e derrubaram o laptop de Brenda da cama. Caiu no chão e quebrou.
— Eu usei o computador da biblioteca. — Ela fala da forma como fazia quando era criança em Mars Hill: blioteca. — Eu tive que esperar um tempo para usar, mas vale a pena. É de graça. O que você diz?
— Talvez a gente possa comprar uma garrafa de Allen — diz Jaz. Ela adora aquele conhaque de café Allen, quando consegue pagar. Na verdade, Jasmine adora qualquer coisa quando consegue pagar.
— Sem dúvida — diz Brenda. — E uma garrafa de Orange Driver para mim. Mas não vou beber quando estiver atrás do volante. Não posso perder minha habilitação, Jaz. É tudo que me sobrou.
— Você acha que vai conseguir arrancar dinheiro dos seus pais?
Brenda diz para si mesma que, quando eles virem as crianças, supondo que as crianças possam ser subornadas (ou intimidadas) a se comportarem bem, vai conseguir.
— Mas nem uma palavra sobre a loteria.
— De jeito nenhum — diz Jasmine. — Eu sou jovem, mas não nasci ontem.
Elas riem. É uma piada velha, mas boa.
— E aí, o que você acha?
— Eddie e Rose Ellen vão ter que faltar à escola…
— E daí? — diz Brenda. — O que você acha, garota?
Depois de uma longa pausa na outra linha, Jasmine diz:
— Viagem de carro!
— Viagem de carro! — responde Brenda.
Elas ficam cantarolando isso enquanto as três crianças choram no apartamento de Brenda em Sanford e pelo menos uma (ou duas) choram no de Jasmine em North Berwick. Essas são as mulheres gordas que ninguém quer ver quando estão na rua, as que nenhum homem quer pegar nos bares a não ser que esteja tarde e eles estejam bêbados e não haja ninguém melhor por perto. O que os homens pensam quando estão bêbados, e Brenda e Jasmine sabem disso, é que coxas gordas são melhores do que ficar sem coxas. Principalmente na hora do bar fechar. Elas estudaram juntas no ensino médio em Mars Hill e agora moram mais ao sul do estado e se ajudam quando podem. São as mulheres gordas que ninguém quer ver, têm um monte de criancinhas e estão cantarolando viagem de carro, como duas líderes de torcida bobas.
Em uma manhã de setembro, já quente às oito e meia da manhã, é assim que as coisas acontecem. Nunca foi diferente.
II. DOIS VELHOS POETAS QUE JÁ FORAM AMANTES EM PARIS
FAZEM UM PIQUENIQUE PERTO DOS BANHEIROS
Phil Henreid tem setenta e oito anos agora, e Pauline Enslin tem setenta e cinco. Os dois são magrelos. Os dois usam óculos. O cabelo dos dois, branco e fino, voa na brisa. Eles pararam na área de descanso na I-95 perto de Fairfield, que fica uns trinta quilômetros ao norte de Augusta. O prédio da área de descanso é de madeira, mas os banheiros adjacentes são de tijolo. São banheiros bonitos. Banheiros de ponta, podem até dizer. Não fedem. Phil, que mora no Maine e conhece bem aquela área de descanso, jamais teria proposto um piquenique ali dois meses antes. No verão, o trânsito na interestadual aumenta com visitantes de outros estados, e as autoridades da rodovia instalam uma fila de banheiros químicos de plástico. Eles deixam a bela área gramada fedendo como o inferno na véspera de Ano-Novo. Mas agora os banheiros químicos estão guardados em algum lugar, e a área de descanso está agradável.
Pauline abre uma toalha quadriculada na mesa de piquenique toda marcada, à sombra de um carvalho antigo, e a prende com uma cesta de piquenique de vime por causa da brisa quente. Da cesta, ela tira sanduíches, salada de batata, fatias de melão e dois pedaços de torta de coco. Também levou uma garrafa de vidro grande de chá vermelho. Cubos de gelo estalam alegremente lá dentro.
— Se estivéssemos em Paris, nós tomaríamos vinho — diz Phil.
— Em Paris, não tínhamos mais cento e trinta quilômetros de estrada para percorrer — responde ela. — O chá está gelado e fresco. Você vai ter que se contentar.
— Eu não estava reclamando — diz ele, e coloca a mão inchada pela artrite sobre a dela (que também está inchada, mas bem menos). — Isto é um banquete, minha querida.
Eles sorriem para o rosto gasto um do outro. Apesar de Phil ter se casado três vezes (e de ter tido cinco filhos nesse meio-tempo) e de Pauline ter se casado duas (sem filhos, mas com dezenas de amantes dos dois sexos), eles ainda sentem muito amor um pelo outro. Bem mais do que uma fagulha. Phil está surpreso e não está. Nessa idade — tarde, mas ainda não nas últimas —, se aceita o que puder e se fica feliz com isso. Eles estão a caminho de um festival de poesia no campus da Universidade do Maine que fica em Orono, e embora a compensação pela aparição dos dois juntos não seja enorme, é adequada. Phil esbanjou e alugou um Cadillac na Hertz do aeroporto de Portland, onde o avião dela chegou. Pauline debochou do Cadillac, disse que sempre soube que ele era um hippie de mentira, mas fez isso com gentileza. Ele não era hippie, mas era um iconoclasta genuíno, um ser único, e ela sabe disso. Assim como ele sabe que os ossos com osteoporose dela adoraram o passeio.
Agora, um piquenique. À noite, eles vão comer a comida do refeitório da faculdade: provavelmente uma gororoba morna coberta de molho. Talvez frango, ou quem sabe peixe, é difícil prever com certeza. Comida bege, é assim que Pauline chama. Comida de poeta visitante é sempre bege e, de qualquer modo, só vai ser servida às oito da noite. Com um vinho branco amarelado e barato aparentemente criado para dar um nó nas entranhas de apreciadores de álcool semiaposentados como eles. Essa refeição é melhor, e o chá gelado está ótimo. Phil até se entrega à fantasia de levá-la pela mão até a grama alta atrás dos banheiros quando tiverem terminado de comer, como naquela música antiga de Van Morrison, e…
Ah, mas não. Poetas idosos cujo apetite sexual está agora permanentemente entalado na primeira marcha não devem se arriscar em um local tão potencialmente ridículo. Principalmente poetas com experiência longa, rica e variada, que agora sabem que cada vez pode ser amplamente insatisfatória e que cada vez pode muito bem ser a última. Além do mais, pensa Phil, eu já tive dois ataques cardíacos. Quem sabe o que anda acontecendo com ela?
Pauline pensa: Não depois dos sanduíches e da salada de batata, sem mencionar a torta. Mas talvez à noite. Não está fora de questão. Ela sorri para ele e pega o último item na cesta. É um New York Times comprado na mesma loja de conveniência de Augusta onde ela comprou as coisas de piquenique, a toalha quadriculada e a garrafa de chá gelado. Como antigamente, eles abrem na seção de Artes & Lazer. No passado, Phil, que ganhou o National Book Award por Burning Elephants em 1970, sempre pedia coroa e ganhava mais vezes do que a sorte dizia que ele deveria. Hoje, ele pede cara… e ganha de novo.
— Ah, seu metido! — grita ela, entregando o jornal.
Eles comem. Dividem a leitura do jornal. Em determinado ponto, ela olha para ele por cima de uma garfada de salada de batata e diz:
— Eu ainda amo você, seu velho charlatão.
Phil sorri. O vento sopra o dente-de-leão que é o cabelo dele. O couro cabeludo brilha. Ele não é mais o jovem metido do Brooklyn, com os ombros largos como os de um estivador (e a boca tão suja quanto), mas Pauline ainda consegue ver a sombra desse homem, que era tão cheio de raiva, desespero e hilaridade.
— Eu também amo você, Paulie.
— Nós somos dois velhos — diz ela, e cai na gargalhada. Uma vez, ela transou com um rei e com um astro do cinema praticamente ao mesmo tempo numa varanda enquanto “Maggie May” tocava no gramofone, com Rod Stewart cantando em francês. Agora, a mulher que o New York Times já chamou de a maior poeta viva dos Estados Unidos mora em um prédio sem elevador no Queens. — Fazendo leitura de poesia em cidadezinhas por honorários desonrosos e comendo ao ar livre em áreas de descanso.
— Nós não estamos velhos — diz ele — Somos jovens, bébé.
— De que você está falando?
— Olhe isto — diz ele, e estica a primeira página da seção de artes.
Ela pega o jornal e vê uma foto. É a imagem sorridente de um homem magro com chapéu de palha.
NONAGENÁRIO WOUK VAI PUBLICAR LIVRO NOVO
Por Motoko Rich Quando chegam à idade de noventa e cinco, se chegam, a maioria dos escritores já se aposentou há tempos. Não Herman Wouk, autor de romances famosos como O motim (1951) e Marjorie Morningstar (1955). Muitos dos que se lembram das adaptações para minissérie de TV dos extensos romances da Segunda Guerra Mundial, Ventos de guerra (1971) e Lembranças de guerra (1978), estão agora recebendo aposentadoria. É um direito ao qual Wouk se tornou elegível em 1980.
Wouk, entretanto, ainda não terminou. Ele surpreendeu a todos ao publicar um novo romance, A Hole in Texas, que recebeu boas críticas, um ano antes do nonagésimo aniversário, e espera publicar um ensaio do tamanho de um livro chamado The Language God Talks no final deste ano. É sua palavra final?
“Não estou preparado para falar sobre esse assunto, de um modo ou de outro”, disse Wouk com um sorriso. “As ideias não somem só porque você está velho. O corpo enfraquece, mas as palavras, nunca.” Quando perguntaram sobre sua
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Quando ela olha para o rosto velho e marcado sob o chapéu de palha torto, Pauline sente a ardência repentina de lágrimas.
— O corpo enfraquece, mas as palavras, nunca — repete ela. — Isso é lindo.
— Você já leu algo dele? — pergunta Phil.
— Li Marjorie Morningstar quando era jovem. É uma ode irritante à virgindade, mas fui arrebatada apesar de tudo. Você leu?
— Eu tentei ler Youngblood Hawke, mas não consegui terminar. Mesmo assim… ele ainda está escrevendo. E, por mais inacreditável que possa parecer, ele tem idade suficiente para ser nosso pai. — Phil dobra o jornal e coloca dentro da cesta de piquenique. Próximo a eles, o trânsito leve da rodovia segue abaixo de um céu de outono cheio de nuvens brancas. — Antes de voltarmos para a estrada, quer fazer uma leitura invertida, como a gente fazia antigamente?
Ela pensa e assente. Muitos anos se passaram desde que escutou outra pessoa ler um de seus poemas, e a situação sempre é um pouco consternadora, como ter uma experiência extracorpórea, mas por que não? Têm a área de descanso só para eles.
— Em homenagem a Herman Wouk, que ainda está escrevendo. Minha pasta de trabalho está no bolso da frente da minha mala de mão.
— Você confia em mim para mexer nas suas coisas?
Ela dá aquele velho sorriso torto e se deita ao sol de olhos fechados. Aproveitando o calor. Em pouco tempo, os dias vão ficar frios, mas agora está calor.
— Você pode mexer nas minhas coisas quanto quiser, Philip. — Ela abre um olho em uma piscadela invertida que é divertidamente sedutora. — Me explore até seu coração dizer chega.
— Vou me lembrar disso — diz ele, e volta para o Cadillac que alugou para os dois.
Poetas em um Cadillac, pensa ela. A própria definição de absurdo. Por um momento, ela vê os carros passarem. Em seguida, pega o jornal e olha novamente para o rosto estreito e sorridente do velho escritor. Ainda vivo. Talvez nesse exato momento olhando para o céu azul de outono, com o caderno aberto em uma mesa no jardim e um copo de Perrier (ou vinho, se o estômago dele ainda aguentar) perto da mão.
Se existir uma Deusa, pensa Pauline Enslin, às vezes ela sabe ser muito generosa.
Ela espera Phil voltar com sua pasta de trabalho e um dos blocos que ele gosta de usar para escrever. Eles vão trocar poemas. À noite, talvez façam outras brincadeiras. Mais uma vez, ela diz para si mesma que isso não está fora de questão.
III. SENTADA AO VOLANTE DA VAN CHEVY EXPRESS,
BRENDA SENTE COMO SE ESTIVESSE NO COCKPIT DE UM CAÇA
Tudo é digital. Tem um rádio via satélite e um GPS. Quando ela dá marcha a ré, a tela do GPS vira um monitor de TV, para que você possa ver o que tem atrás do carro. Tudo no painel brilha, aquele cheiro de carro novo se espalha pelo interior — e por que não, com apenas mil e duzentos quilômetros rodados? Ela nunca se sentou ao volante de um veículo com a quilometragem tão baixa na vida. Dá para apertar botões no volante que mostram a velocidade média, quantos quilômetros por litro você está fazendo e quantos litros ainda tem no tanque. O motor quase não faz barulho. Os assentos da frente são idênticos, forrados com material branco-acinzentado que imita couro. Os sacolejos são suaves como manteiga.
Atrás tem uma tela de TV retrátil com aparelho de DVD. A pequena sereia não funciona porque Truth, o filho de três anos de Jasmine, passou creme de amendoim no CD, mas as crianças estão satisfeitas com Shrek, apesar de todas já terem visto um bilhão de vezes. A novidade é assistir enquanto elas estão na estrada! De carro! Freedom está dormindo na cadeirinha entre Freddy e Glory; Delight, a bebê de seis meses de Jasmine, está dormindo no colo de Jaz, mas os outros cinco estão espremidos nos dois bancos de trás, assistindo, hipnotizados. Estão com a boca aberta. Eddie, filho de Jasmine, está tirando meleca do nariz, e sua irmã mais velha, Rose Ellen, está com baba no queixinho pontudo, mas pelo menos estão todos quietos e não brigando, para variar. Estão hipnotizados.
Brenda devia estar feliz. As crianças estão em silêncio, a estrada segue lisa como uma pista de aeroporto, ela está ao volante de uma van novinha e o trânsito fica leve depois que saem de Portland. O velocímetro digital marca 110, e a belezinha nem está reclamando. Mesmo assim, aquela sensação de visão escura está voltando.
A van não é dela, afinal. Vai ter que devolver. É um gasto idiota, na verdade, porque o que as espera do outro lado dessa viagem? Mars Hill. A porra… de Mars… Hill. Comida comprada no Round-Up, onde ela já foi garçonete quando estava no ensino médio e ainda tinha um corpo decente. Hambúrgueres e fritas cobertos de filme plástico. As crianças brincando na piscina antes e talvez depois. Pelo menos uma vai se machucar e chorar. Talvez mais de uma. Glory vai reclamar que a água está fria demais, mesmo se não estiver. Glory sempre reclama. Vai reclamar a vida toda. Brenda odeia os choramingos e gosta de dizer para Glory que ela puxou ao pai… mas a verdade é que a criança puxou isso dos dois lados. Pobre menina. Todos eles, na verdade. E o futuro os aguarda, uma marcha debaixo de um sol que não se põe nunca.
Ela olha para a direita, torcendo para Jasmine falar alguma coisa engraçada e a animar, e fica consternada ao ver que Jaz está chorando. Lágrimas silenciosas se acumulam nos olhos dela e brilham nas bochechas. No colo, a bebê Delight segue dormindo, chupando o dedo. É o dedo calmante, todo cheio de bolhas por dentro. Uma vez, Jaz bateu nela com força quando viu Dee enfiando o dedo na boca, mas de que adianta bater em um bebê de seis meses? Daria no mesmo bater em uma porta. Mas, às vezes, bate mesmo assim. Às vezes, não dá para segurar. Às vezes, você não quer segurar. A própria Brenda já fez isso.
— O que foi, garota? — pergunta Brenda.
— Nada. Deixa pra lá, preste atenção na estrada.
Atrás delas, o Burro diz alguma coisa engraçada para Shrek, e algumas crianças riem. Mas não Glory; ela está pegando no sono.
— Pare com isso, Jaz. Conte pra mim. Sou sua amiga.
— Eu falei que não é nada.
Jasmine se inclina por cima do bebê adormecido. A cadeirinha de Delight está no chão. Nela, em cima de uma pilha de fraldas, está a garrafa de Allen’s que elas pararam para comprar em South Portland antes de entrar na estrada. Jaz só tomou dois golinhos, mas agora toma dois goles grandes antes de enroscar a tampa. As lágrimas ainda escorrem pelas bochechas.
— Nada. Tudo. Dá no mesmo, é o que eu penso.
— É Tommy? É seu irmão?
Jaz ri com irritação.
— Eles nunca vão me dar nem um centavo daquele dinheiro. Quem estou querendo enganar? Minha mãe vai botar a culpa no meu pai porque é mais fácil para ela, mas ela sente a mesma coisa. Já devem ter torrado tudo, de qualquer modo. E você? Seus pais vão mesmo dar alguma coisa?
— Claro, acho que vão.
Bem. É. Provavelmente. Tipo uns quarenta dólares. O valor para um saco e meio de compras. Dois, se ela usar os cupons de desconto do Uncle Henry’s Swap Guide. Só a ideia de folhear aquela revista gratuita vagabunda, a bíblia dos pobres, e ficar com tinta nos dedos faz a escuridão na visão dela se adensar. A tarde está linda, parece mais verão do que outono, mas um mundo em que você tem que depender do Uncle Henry’s é um mundo cinzento. Brenda pensa: Como acabamos com tantos filhos? Eu não estava deixando Mike Higgins me apalpar atrás da ferraria no outro dia?
— Bom pra você — diz Jasmine, e sufoca as lágrimas. — Meus pais vão ter três novos brinquedos movidos a gasolina na garagem, mas vão dizer que estão sem grana. E sabe o que meu pai vai dizer sobre as crianças? “Não deixe que toquem em nada”, é só isso que ele vai dizer.
— Talvez ele aja diferente — diz Brenda. — Melhor.
— Ele nunca fica diferente e nunca fica melhor — retruca Jasmine.
Rose Ellen está adormecendo. Ela tenta encostar a cabeça no ombro do irmão, Eddie, e ele dá um soco no braço dela. Ela massageia o braço e começa a choramingar, mas em pouco tempo está vendo Shrek de novo. A baba ainda está no queixo dela. Brenda acha que faz com que ela pareça idiota, o que está bem perto da verdade.
— Eu não sei o que dizer — comenta Brenda. — Vamos nos divertir mesmo assim. Red Roof, garota! Piscina!
— É, e alguém batendo na parede à uma da manhã, mandando eu calar a boca da minha filha. Como se eu quisesse Dee acordada no meio da noite porque todos os malditos dentes estão saindo ao mesmo tempo.
Ela toma outro gole da garrafa de café cheia de conhaque, depois a estica para Brenda. Ela sabe que não deve beber e botar a habilitação em risco, mas não tem policiais à vista, e se ela perdesse a habilitação, o quanto ficaria encrencada? O carro era de Tim, ele o levou quando foi embora, e estava quase morto mesmo, cheio de cola e arame. Não foi uma grande perda. Além do mais, havia a escuridão na visão dela. Brenda pega a garrafa e bebe. Só um golinho, mas o conhaque desce quente e gostoso, um raio de sol negro, então ela toma outro.
— Vão fechar o Roll Around no final do mês — diz Jasmine, pegando a garrafa de volta.
— Jaz, não!
— Ah, sim. — Ela olha para a frente, para a estrada. — Jack finalmente faliu. O desastre está anunciado desde o ano passado. Lá se vão os noventa dólares por semana.
Ela bebe. No colo, Delight se mexe, e volta a dormir com o dedo enfiado na boca. Onde, pensa Brenda, um cara como Mike Higgins vai querer colocar o pau daqui a poucos anos. E ela provavelmente vai deixar. Eu deixei. Jaz deixou. É assim que as coisas são.
Atrás delas, a princesa Fiona diz alguma coisa engraçada, mas nenhuma das crianças ri. Elas estão ficando sonolentas, até Eddie e Freddy, nomes saídos de um seriado de comédia.
— O mundo está cinza — diz Brenda.
Ela não sabia que ia dizer essas palavras até ouvi-las saindo da boca.
Jasmine olha para ela, surpresa.
— Claro — responde ela. — Agora você está entendendo.
Brenda diz:
— Me passe a garrafa.
Jasmine passa. Brenda bebe mais, depois devolve.
— Tudo bem, foi o último gole.
Jasmine dá seu velho sorriso torto, o que Brenda se lembra das tardes de sexta na época da escola. Fica estranho com as bochechas molhadas e os olhos vermelhos.
— Tem certeza?
Brenda não responde, mas afunda o pé no acelerador. Agora, o velocímetro digital marca 130.
IV. “VOCÊ PRIMEIRO”, DIZ PAULINE.
De repente ela fica tímida, temendo ouvir suas palavras saindo da boca de Phil, certa de que soarão retumbantes, mas falsas, como trovão seco. Mas esqueceu a diferença entre a voz pública dele, declamatória e um pouco metida, como a voz de um advogado de cinema dando o discurso de encerramento, e a voz que ele usa quando só tem um ou dois amigos presentes (e não bebeu nada). É uma voz mais suave e gentil, e ela fica satisfeita de ouvir o poema saindo na voz dele. Não, mais do que satisfeita. Ela fica agradecida. Ele faz o poema parecer melhor do que é.
“Sombras marcam a estrada
com beijos pretos de batom.
Neve derrete em campos de fazenda
como vestidos de noiva em abandono.
A névoa que sobe vira poeira dourada.
As nuvens se abrem em uníssono.
Explode entre elas!
Por cinco segundos, o verão foi sentido
e eu pareci ter dezessete anos, com flores
guardadas no avental do vestido.”
Ele abaixa a folha de papel. Ela o encara, sorrindo um pouco, mas ansiosa. Ele assente.
— É lindo, querida — diz ele. — Muito lindo. Agora, sua vez.
Ela abre o bloco dele, encontra o que parece ser o último poema e folheia por quatro ou cinco rascunhos. Ela sabe como Phil trabalha, por isso segue até encontrar uma versão não em letra cursiva ilegível, mas em letra de forma caprichada e pequena. Mostra para ele. Phil assente, depois se vira para olhar a rodovia. Tudo isso é gostoso, mas eles vão ter que ir embora daqui a pouco. Não querem se atrasar.
Ele vê uma van vermelha que vem vindo. Está indo rápido.
Ela começa.
V. BRENDA VÊ UMA CORNUCÓPIA CHEIA DE FRUTAS PODRES
Sim, pensa ela, é isso mesmo. Dia de Ação de Graças para idiotas.
Freddy vai virar soldado e lutar no exterior, como fez o irmão de Jasmine. Os meninos de Jaz, Eddie e Truth, vão fazer a mesma coisa. Vão ter carros grandes quando, e se, voltarem para casa, sempre supondo que ainda haja gasolina dali a vinte anos. E as garotas? Elas vão escolher garotos. Vão perder a virgindade enquanto um game show passa na televisão. Vão acreditar quando os garotos disserem que vão tirar antes de gozar. Vão ter bebês e fritar carne em chapas e ganhar peso, como aconteceu com ela e Jaz. Vão fumar um pouco de erva e comer muito sorvete, da marca barata do Walmart. Mas talvez não Rose Ellen. Tem alguma coisa errada com Rose. Ela ainda vai ter baba no queixinho pontudo quando estiver no oitavo ano, que nem agora. As sete crianças vão gerar dezessete, as dezessete vão gerar setenta, e as setenta vão gerar duzentas. Ela consegue ver um desfile de idiotas maltrapilhos marchando para o futuro, alguns usando calças jeans que mostram a roupa de baixo, alguns usando uniformes de garçonete manchados de molho, alguns usando calças com stretch do Kmart com etiquetas de FEITO NO PARAGUAI costuradas nos traseiros gordos. Ela consegue ver a montanha de brinquedos Fisher-Price que eles vão ter e que serão depois vendidos em bazares de garagem (que foi onde foram comprados). Vão comprar produtos que veem na TV e fazer dívidas com empresas de cartão de crédito, como ela fez… e vai fazer de novo, porque a loteria Pick-3 foi pura sorte, e ela sabe disso. Pior do que sorte, na verdade: uma provocação. A vida é uma calota enferrujada caída em uma vala na lateral da rua, e continua. Ela nunca mais vai sentir como se estivesse no cockpit de um caça. Não vai ficar melhor do que já está. Não tem barcos para ninguém, nenhuma câmera filmando a vida dela. Aquilo é a realidade, não um reality show.
Shrek acabou e todas as crianças estão dormindo, até Eddie. A cabeça de Rose Ellen está novamente no ombro dele. Ela está roncando como uma velha. Tem marcas vermelhas nos braços, porque às vezes não consegue parar de se coçar.
Jasmine fecha a garrafa de Allen e a coloca na cadeirinha no chão do carro. Em voz baixa, diz:
— Quando eu tinha cinco anos, acreditava em unicórnios.
— Eu também — diz Brenda. — Queria saber quão rápido esta porra vai.
Jasmine olha para a estrada à frente. Elas passam por uma placa azul que diz ÁREA DE DESCANSO 1 KM. Ela não vê trânsito para o norte; as duas pistas são todas delas.
— Vamos descobrir — diz Jaz.
Os números no velocímetro sobem de 130 para 135. Depois, para 140. Ainda há espaço entre o pedal do acelerador e o assoalho do carro. Todas as crianças estão dormindo.
A área de descanso se aproxima rápido. Brenda só vê um carro no estacionamento. Parece um carro chique, um Lincoln ou talvez um Cadillac. Eu poderia ter alugado um assim, pensa ela. Tinha dinheiro suficiente, mas crianças demais. Não caberiam todas ali dentro. Era a história da vida dela, no fim das contas.
Ela afasta o olhar da estrada. Olha para a velha amiga do ensino médio, que acabou indo morar na cidade vizinha. Jaz está olhando para ela. A van, que está agora a quase 160 quilômetros por hora, começa a derrapar.
Jasmine assente, pega Dee e a aconchega contra os seios fartos. O bebê ainda está com o dedo na boca.
Brenda assente de volta. E afunda mais o pé no acelerador, tentando encontrar o tapete da van. Está ali, e ela encosta delicadamente o pedal nele.
VI. “PARE, PAULIE, PARE.”
Phil estica o braço e segura o ombro dela com a mão ossuda, dando-lhe um susto. Ela tira os olhos do poema (é bem mais longo do que o dela, mas chegou às últimas dez linhas, mais ou menos) e o vê olhando para a estrada. Sua boca está aberta, e por trás dos óculos seus olhos parecem estar arregalados quase ao ponto de tocarem as lentes. Ela segue o olhar dele a tempo de ver uma van vermelha passar suavemente da pista veloz para o acostamento e do acostamento para a rampa de entrada da área de descanso. A van não vira. Está indo rápido demais para virar. Atravessa a rampa a pelo menos cento e quarenta quilômetros por hora e segue pelo declive logo abaixo deles, onde bate em uma árvore. Ele ouve um estrondo alto e seco e o som de vidro quebrando. O para-brisa se desintegra; pedacinhos de vidro brilham por um momento ao sol, e ela pensa, numa blasfêmia: lindo.
A árvore divide a van em dois pedaços irregulares. Alguma coisa (Phil Henreid não consegue suportar a ideia de que aquilo seja uma criança) é jogada pelo ar e cai na grama. Nessa hora, o tanque de gasolina começa a pegar fogo, e Pauline grita.
Ele se levanta e desce o declive correndo, pulando a cerquinha baixa como o jovem que já foi. Atualmente, está sempre consciente de seu coração fraco, mas, quando corre até os pedaços da van em chamas, ele nem pensa nisso.
Nuvens-sombra rolam pelo campo e dão beijos-sombra no feno e no capim. Flores do campo assentem.
Phil para a alguns metros da lataria incandescente, sentindo o calor queimar o rosto. Ele vê o que sabia que veria, nenhum sobrevivente, mas nunca imaginou tantos não sobreviventes. Vê sangue no capim e nos trevos. Vê um estilhaço de vidro de farol traseiro como se fosse uma plantação de morangos. Vê um braço decepado em um arbusto. Nas chamas, vê uma cadeirinha de bebê derretendo. Vê sapatos.
Pauline aparece ao seu lado. Está ofegante. A única coisa mais enlouquecida que o olhar dela é o cabelo.
— Não olhe — pede ele.
— Que cheiro é esse? Phil, que cheiro é esse?
— Gasolina e borracha queimada — diz ele, apesar de provavelmente não ser desse cheiro que ela está falando. — Não olhe. Volte para o carro e… você tem celular?
— Sim, claro que eu tenho…
— Volte e ligue para a emergência. Não olhe. Você não quer ver isso.
Ele também não quer ver, mas não consegue afastar o olhar. Quantos? Ele consegue ver os corpos de pelo menos três crianças e um adulto, provavelmente uma mulher, mas não pode ter certeza. Mas tantos sapatos… e ele enxerga uma caixa de DVD com personagens de desenho…
— E se eu não conseguir completar a ligação? — pergunta ela.
Ele aponta para a fumaça. Depois para os três ou quatro carros que já estão parando.
— Completar a ligação não vai fazer diferença — diz ele —, mas tente.
Ela começa a se afastar, mas se vira. Está chorando.
— Phil… são quantos?
— Não sei. Muitos. Talvez uns seis. Vá, Paulie. Alguns ainda podem estar vivos.
— Você sabe que não — diz ela em meio aos soluços. — A maldita van estava a toda a velocidade.
Ela começa a subir o aclive. No meio do estacionamento da área de descanso (tem mais carros parando agora), uma ideia terrível surge na mente dela, e Paulie olha para trás, certa de que vai ver o velho amigo e amante caído na grama. Talvez inconsciente, talvez morto de um ataque cardíaco fulminante e fatal. Mas ele está de pé, andando com cuidado ao redor do calor ardente da van. Enquanto observa, ele tira o paletó com remendos nos cotovelos. Ajoelha-se e cobre alguma coisa. Uma criança ou parte de um adulto. Em seguida, continua andando.
Depois de subir a colina, ela pensa que seus esforços de toda a vida para fazer beleza com palavras não passaram de uma ilusão. Ou isso, ou uma peça pregada em crianças que teimosamente se recusaram a crescer. Sim, provavelmente isso. Crianças idiotas e egoístas assim, pensa ela, merecem ser enganadas.
Quando chega ao estacionamento, agora sem fôlego, ela vê a seção de Artes & Lazer do Times rolando preguiçosamente pela grama com o sopro da brisa leve e pensa: Não importa. Herman Wouk ainda está vivo e escrevendo um livro sobre a linguagem de Deus. Herman Wouk acredita que o corpo enfraquece, mas as palavras, nunca. Então está tudo bem, não está?
Um homem e uma mulher se aproximam correndo do local do acidente. A mulher pega o celular e tira uma foto. Pauline Enslin observa sem se surpreender. Acha que a mulher vai mostrar para os amigos depois. Eles vão beber e comer e falar sobre a graça de Deus e que tudo acontece por um motivo. A graça de Deus é um conceito bem legal. Permanece intacto toda vez que a tragédia não envolve você.
— O que aconteceu? — grita o homem na cara dela. — Que porra aconteceu aqui?
Abaixo deles, um poeta velho e magrelo está agindo. Ele tirou a camisa para cobrir outro corpo. As costelas são uma pilha contornada na pele branca. Ele se ajoelha e abre a camisa. Levanta os braços ao céu, volta a baixá-los e envolve a cabeça com eles.
Pauline também é poeta e, como tal, se sente capaz de responder ao homem na linguagem de Deus:
— Que porra você acha que aconteceu?
Para Owen King e Herman Wouk
De onde você tira suas ideias e De onde essa ideia veio são perguntas diferentes. A primeira é impossível de responder, então eu brinco e digo que compro todas elas em uma lojinha de Ideias Usadas em Utica. A segunda às vezes pode ser respondida, mas em um número surpreendente de casos, não, porque histórias são como sonhos. Tudo fica deliciosamente claro quando o processo está acontecendo, mas só o que sobra quando a história é concluída são resquícios cada vez mais fracos. Às vezes, eu penso que um livro de contos é na verdade uma espécie de diário onírico, uma forma de captar imagens do subconsciente antes que desapareçam por completo. Este é um desses casos. Não lembro como tive a ideia de “Indisposta”, nem quanto tempo levou, nem onde o escrevi.
Só sei que este é um dos poucos contos que tinha um final claro desde o início do processo de escrita, o que queria dizer que o conto tinha que ser construído cuidadosamente para chegar até lá. Sei que alguns escritores preferem escrever com o final à vista (John Irving me disse certa vez que começa um livro pela última frase), mas eu não gosto disso. Como regra, gosto que o final se resolva sozinho, pois acho que, se eu não souber como tudo vai terminar, os leitores também não vão saber. Felizmente para mim, este é um dos contos em que não tem problema o leitor estar um passo à frente do narrador.